“FLUXO E REFLUXO” XVIII
ACEITAÇÃO DAS CULTURAS BRASILEIRA E AFRICANA E O RETORNO DOS ESCRAVOS À SUA TERRA NATAL.
Em sua pesquisa que resultou no livro “Fluxo e Refluxo”, Pierre Verger mostra duas tendências dos escravos, alforriados, mulatos e crioulos, com foco especial na Bahia. Um grupo preferia manter suas origens, costumes e religião africana e outro procurava se adaptar à cultura brasileira.
Outra questão por ele abordada foi a do retorno dos africanos para sua terra natal, principalmente para o Golfo do Benin (jêje-mahi) e para a região de Lagos, no caso povos das nações nagôs-iorubás, tapas e haussás.
Esse refluxo começou a partir do meado do século XIX com as sublevações e a chegada de colonos brancos que passaram a ocupar o trabalho dos negros. Os senhores pagavam bem mais pelos serviços prestados pelos brancos. Muitos se resignavam com a situação, mas outros se rebelavam.
LEIS DE DEPORTAÇÃO
Existiram até leis brasileira e municipais no sentido de deportar os negros, obrigando a pagar suas despesas. Os patrões abusaram dos escravos e depois resolveram abandoná-los à própria sorte.
Quanto a religião católica que obrigava que os cativos professassem, muitos “trapaceavam” e fingiam seguir o catolicismo, mas misturavam as rezas e os santos com seus rituais de candomblé.
Com receio de levantes e como forma de apaziguar os africanos, o governo até encorajava eles a se encontrarem aos domingos nos batuques organizados por nação de origem, mas isso depois foi proibido.
Para evitar que um mal comum os aproximasse, o governo achou prudente autorizar as distrações aos domingos, que lembrassem suas identidades africanas. Existiam preconceitos e ódios entre etnias africanas advindos das antigas guerras tribais. O resultado das reuniões acabou sendo o de manter o culto aos seus deuses orixás e aos vuduns, divindades dos nagôs e dos fons do Daomé.
No entanto, não demorou muito e o governo começou a impedir suas batucadas. Na Bahia, entre os objetos encontrados pela polícia nas casas africanas, destacavam-se os instrumentos musicais e acessórios destinados às sessões de candomblé.
Roger Batisde assinala que em 1618, quando da visita da inquisição na Bahia, Sebastião Barreto denunciava o costume que tinham os negros de matar animais quando em luto para lavarem-se em seu sangue, dizendo que a alma deixava o corpo para subir ao céu.
Por volta de 1768 foi denunciada a existência de verdadeiras casas de culto africanas, e muitas foram objetos de perseguição judicial em Pernambuco. As danças eram feitas às escondidas pelos negros da Costa da Mina (Golfo do Benin). Em 1785, de acordo com Verger, os cativos angolanos da Bahia pediam permissão para celebrar a Gloriosa Senhora do Rosário, com máscaras, danças e cantos como antigamente.
Os estrangeiros descreviam esses rituais como animalidades e manifestações estúpidas. Na Lavagem do Bonfim, segundo eles, os atos eram de desrespeito e os jornais noticiavam como abusos e hábitos que a civilização condena. Para os periódicos, era uma orgia desordenada e um verdadeiro bacanal dos tempos pagãos. As canções eram consideradas de prostíbulos. Muitos eram presos em suas casas por terem instrumentos dos cultos.
Em 1857 o município baixou uma decisão proibindo os batuques, danças, reuniões de escravos em qualquer lugar, sob pena de oito dias de prisão para cada um dos contraventores. Em 1859, num lugar chamado de Quinta das Beatas, 42 indivíduos foram presos por terem se reunido em batuques, dentre eles um pai de terreiro de seu candomblé (pai de santo).
A DEPORTAÇÃO DOS AFRICANOS
Por volta de 1850, com o fim do tráfico negreiro e a chegada de colonos brancos, surgia uma discriminação entre os crioulos livres e os africanos emancipados. Os brancos eram trabalhadores braçais que não aceitavam trabalhar no meio de pessoas de cor e escravas, conforme relatava o cônsul britânico no Rio de Janeiro.
Pelo recenseamento de 1848 havia no Rio 8449 africanos livres e 5012 crioulos de cor livres contra 110.512 escravos. Eram 142.403 brancos, entre os quais, 37.924 estrangeiros, sendo a grande maioria de portugueses (oito mil colonos brancos).
Os negros começaram a perder seus serviços e os ganhos eram menores que os dos brancos. Foi aí que os africanos descontentes decidiram retornar aos seus locais de origem. Um africano pediu ao cônsul para achar um navio britânico para transportar 500 pessoas. Eles recusavam ir para outro lugar que não fosse a África.
Na Bahia, o governo, mediante um decreto, encorajava o trabalho de mão de obra nacional e proibia o uso de barqueiro africano fazer seu serviço no cais e nas entradas públicas da cidade. O trabalho era somente para brasileiros e crioulos livres. Por causa disso, 750 africanos emancipados foram expulsos de seu emprego.
O Jornal da Bahia noticiava em primeiro de novembro de 1861 que aquele dia era aniversário da admissão dos homens livres para os serviços desses barcos, excluídos os africanos e os escravos. Em maio de 1853 chegou a ocorrer na Bahia um alarme de insurreição por causa da exclusão dos africanos no mercado de trabalho.
Dizia o cônsul John Morgan que as autoridades tudo faziam para se desvencilharem dos negros livres com o argumento de que a permanência deles na província era um perigo. O cônsul citou que o chefe de polícia, com base na lei brasileira, ordenou uma escuna holandesa que ficasse pronta para partir para a colônia de Elmina, tentando forçar esse pavilhão a transportar negros que estavam presos no Aljube para a costa da África.
O chefe de polícia persistia em violar leis diferentes entre as nações. “Esses africanos são agora arrancados de suas mulheres e de seus filhos com a mesma barbárie que aquela dos infames ladrões de homens que os haviam arrancado, antigamente, de seu país natal” – escrevia o cônsul. Depois de muita conversação, a escuna holandesa foi liberada.
CASARÃO EM RUÍNAS
Bem na Praça Tancredo Neves (antiga Praça das Borboletas) onde já foi chamada de Rua Grande, mais um casarão se encontra em ruínas. Há meses a Prefeitura Municipal interditou com um tapume a passagem das pessoas pelo passeio. Fechou uma parte da rua e as vagas de veículos ao lado como forma de prevenção porque a casa pode desmoronar e causar um acidente grave. Nada foi feito até agora para restaurar ou recuperar o estabelecimento. Será que o poder público só está esperando que caia para retirar os entulhos e levantar mais um prédio no local pelo setor imobiliário especulador? Da Catedral até o final da Praça Barão Rio Branco poderia ser hoje o centro histórico de Vitória da Conquista, como existe em grandes cidades. Ao longo dos anos destruíram praticamente todo patrimônio arquitetônico da cidade e o pouco que ainda resta está caiando aos pedaços, como esta velha casa na Tancredo Neves. Para piorar a situação, os equipamentos culturais que deveriam estar abertos para as atividades artísticas, permanecem fechados, como o Teatro Carlos Jheová, o Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha na espera de uma reforma. Cometeram e ainda cometem um tremendo crime de irresponsabilidade contra o patrimônio material de Conquista. Está havendo um verdadeiro apagão da história antiga da cidade. Aqui nada se preserva, muito pelo contrário.
JOGA NO LIXO
Autoria de Jeremias Macário
Se seu vestido saiu de moda;
Seu relógio atrasou a hora
E lhe deixou de fora,
Joga no lixo.
Se seu celular saiu do ar,
Joga no lixo.
Se seu mau humor da vida,
Ficou sem saída,
Joga no lixo.
Se seu amor lhe abandonou,
Pro outro que se encantou,
Joga no lixo.
Se seu conceito
Não é mais aceito,
joga no lixo.
Se seu amigo não é certo,
Na hora incerta,
Joga no lixo.
Se a notícia é falsa,
Sua companhia,
uma mala sem alça,
Joga no lixo.
Se sua amizade não é sincera,
Se alguém não lhe considera,
Joga no lixo.
Se você mistura
Alhos com bugalhos,
Joga no lixo.
Se sua vida virou um bagaço,
Entre engaço,
Joga no lixo.
Se você é um animal bicho,
Joga no lixo.
Se seus sonhos são pesadelos,
Como monstros em novelos,
Joga no lixo
OS AGENTES DE SAÚDE REIVINDICAM REAJUSTE SALARIAL E PLANO DE CARGOS
Diferente das outras sessões ordinárias da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista onde a plenária sempre está vazia, a de ontem de quarta-feira (dia 09/05) foi lotada pelos agentes comunitários de saúde que foram reivindicar maior atenção do poder público quanto ao reajuste salarial e a implantação do plano de cargos para a categoria.
Da tribuna Livre, a presidente do Sindicato de Agentes Comunitários de Saúde e Agentes de Combate às Endemias do Estado da Bahia – Sindacs, Rita Suzana França Silva ressaltou que a lei do piso salarial da classe foi aprovada há cinco anos, pago a partir de verba federal, mas com contrapartida da Prefeitura Municipal de Conquista.
Acontece que, segundo ela, a administração municipal entendeu que o sindicato não vai receber o reajuste inflacionário e estaria prestes a tramitar um projeto que exclui agentes que recebem o piso da negociação salarial anual.
De acordo com ela, esse projeto fere o princípio da isonomia porque exclui alguns servidores. Os agentes lotaram a Câmara para solicitar da casa que não vote está matéria. O plano de cargos e carreira não existe mais? – indagou a sindicalista.
Rita informou que esteve com a administração municipal, fazendo ver que o poder público precisa valer o princípio da isonomia. O vereador Luis Carlos Dudé destacou que sempre estará ao lado do servidor porque já foi funcionário da prefeitura e sabe das necessidades. Ele acredita que a prefeita Sheila Lemos vai apontar uma solução por ser uma pessoa aberta ao diálogo.
O parlamentar Valdemir Dias parabenizou a categoria pela mobilização e declarou que a Câmara não deve permitir que essa situação aconteça, ressaltando que a administração pública não pode excluir os trabalhadores de uma negociação salarial.
A maioria dos vereadores demonstrou apoio à luta dos agentes comunitários de saúde de Vitória da Conquista, como Augusto Cândido, bem como Ricardo Babão que declarou estar ao lado da classe, achando justas suas reivindicações no sentido da inserção dos servidores no debate com relação ao reajuste salarial.
CONQUISTA NAS LENTES DA FOTOGRAFIA
Nesta semana surgiu uma polêmica num grupo do Zap sobre quem foi o melhor fotógrafo de Vitória da Conquista. Ao invés de se ficar nessa discussão dos achismos, o assunto merece uma pesquisa mais aprofundada. Por que não um livro sobre a história da fotografia em Vitória da Conquista?
Essa memória precisa ser levantada para que o debate tenha mais base teórica e científica. Conquista tem instituições de ensino (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia com seu curso de Jornalismo e Cinema, por exemplo) habilitadas e capacitadas para promover, em conjunto até com o poder público e privado, um trabalho que retrate as lentes da fotografia da cidade.
De antemão, entendo que cada fotógrafo teve o seu tempo, mas, com certeza, temos os maiores destaques na arte de ter registrado a nossa história atrás das lentes, com beleza, poesia e, acima de tudo, sensibilidade de ter captado as melhores imagens com o domínio da luz.
Fotografia não se resume num simples clique na máquina, como aqueles conhecidos retratistas de aniversários, casamentos, três por quatro ou batizados. É muito mais que isso. Quando falo de fotografia, me refiro, especialmente, ao fotojornalismo, ao repórter fotográfico, que está muito além da chapa de pose.
Na Taberna da História, Luis Carlos Fernandes aponta que Manoel Euphrásio Correia de Mello (Neca Correia), filho do primeiro intendente de Conquista, coronel Joaquim Correia de Mello, lá no início do século passado, entre 1900 a 1909, foi o precursor da fotografia da cidade. Suas fotos foram registradas em clichês de vidros, em grandes formatos.
No entanto, sabemos que outros vieram ao longo desses mais de 100 anos, principalmente a partir do surgimento dos primeiros jornais impressos por volta de 1910/12, como o Conquista, o Conquistense, o Avante, o Fifó, Tribuna do Café, O Combate, O Sertanejo, O Hoje, dentre muitos outros.
Confesso ser um tema no qual preciso dominar melhor, mas vou aqui arriscar alguns nomes como Mariano Sobrinho, Chagas, Evandro Gomes, Souza, Manoelito Melo, Cadete, Joãozinho, Edna Nolasco e seu pai, José Silva, Sabiá, José Carlos D´Almeida e tantos outros.
Peço licença aqui para falar do meu amigo e companheiro de longas jornadas de mais de 15 anos no Jornal A Tarde, José Silva, um grande conhecedor da fotografia jornalística e também da técnica de fotografar, que registrou Conquista e toda região sudoeste de ponta a ponta.
Sei que depois que deixou a Sucursal do A Tarde, Zé Silva ficou desmotivado para continuar em sua profissão que ama, mas possui um acervo valioso que já poderia ter sido homenageado com uma grande exposição ou com um livro sobre sua trajetória a partir dos anos 80.
Zé Silva em sua arte de fotografar durante mais de 30 anos já fez coberturas fotográficas de batizados de bonecas a queda de avião, secas, enchentes, catástrofes, acidentes trágicos, grilagens de terras, carvoarias clandestinas, prefeitos corruptos, bandidos perigosos, retirantes, incêndios, jogos de futebol, outras modalidades esportivas e já foi ameaçado de morte como eu.
Suas fotos são tão impactantes como poéticas, técnicas e artísticas, sem contar que possui um acervo precioso sobre a Conquista antiga. Posso dizer que ele é uma das referências da fotografia, sem desprestigiar outros profissionais aqui citados, e tem um tesouro guardado consigo que precisaria ser exposto.
MANIFESTO EM DEFESA DO CINE MADRIGAL
O coletivo SASB – Setor Audiovisual do Sudoeste da Bahia e representantes do cinema e audiovisual de Vitória da Conquista acabam de lançar um manifesto em defesa do Cine Madrigal, do seu uso pela população como sala de cinema (finalidade para o qual foi criado o espaço em 22 de maio de 1968), da sua estrutura adequada à utilização das diversas manifestações artísticas, se identificando como um lugar para exibir filmes, local de espetáculos e espaço multicultural.
O manifesto foi apresentado na reunião do Conselho Municipal de Cultura, realizada na noite de ontem (dia 08/05), na Casa Regis Pacheco, e teve aprovação unânime por parte dos membros deste colegiado. O coletivo aponta sua posição também em defesa de uma gestão compartilhada para este equipamento, exercida pelos membros das instituições públicas e da sociedade civil, para que possamos ter uma administração favorável ao seu funcionamento e manutenção, garantindo a sua sustentabilidade, promovendo uma programação contínua, diversificada e atrativa.
O antigo prédio do Cine Madrigal foi adquirido por volta de 2013 pela Prefeitura Municipal de Cultura e entregue à gestão da Secretaria de Educação, mas durante todo esse período continua fechado. Na reunião do Conselho foi feita uma sugestão de que o equipamento tenha uma administração compartilhada entre a Secretaria de Educação e a Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel.
O manifesto lembra que o Madrigal foi palco de inúmeras realizações de eventos como lançamentos de filmes, mostras de cinema, shows musicais, espetáculos artísticos, entre outros, neste local de visibilidade e dinamização do centro da cidade. Diz ainda que, atualmente a região sudoeste composta de 52 municípios e uma população em torno de dois milhões de habitantes, tendo Conquista como polo de referência, não dispõe de nenhuma sala de cinema no centro da cidade (cinema de rua).
O setor de audiovisual faz uma descrição histórica sobre o Cine Madrigal, se reportando sobre as sucessivas crises das salas de cinemas, identificadas como de rua, nas décadas de 70/80 e 90. O Madrigal, segundo o manifesto, passou a estar em constante debate e sob o risco de fechamento a partir dos anos 2000. Lembra das diversas mobilizações em busca de soluções que assegurassem a permanência deste equipamento. No entanto, o prédio continua fechado há nove anos “sem nenhuma resposta da destinação e projeto apresentado para a apreciação da comunidade”.
O manifesto cita ainda que em maio de 2015 profissionais da área audiovisual fizeram uma proposta à prefeitura de manutenção e funcionamento do Madrigal, adequados às novas tecnologias de projeção, sonorização, iluminação, segurança e acessibilidade. Nesse sentido, o manifesto propõe busca de recursos em diversas linhas de apoio e incentivo, como a recente Lei Paulo Gustavo que possibilita verbas para salas de cinemas.
O setor audiovisual destaca também que este equipamento cultural consta do Sistema Municipal de Cultura, sob a responsabilidade da Secretaria de Cultura, Turismo Esportes e Lazer, atribuindo a esta, os seus encargos pertinentes e relativos ao patrimônio arquitetônico, cultural e histórico desta cidade.
Precisamos tornar possível o restabelecimento do antigo Cine Madrigal no centro da cidade para que volte a fazer parte de uma programação e de uma agenda cultural desta comunidade, devendo ser visto como um lugar de cinemas, de culturas e de memórias – assinala o manifesto, que já recebeu a assinatura de 79 pessoas físicas e oito jurídicas.
QUADRAS. E VAMOS DE POESIA
Num estilo moderno e simples, linguagem por assim dizer adaptada ao mundo tecnológico virtual da internet, a jovem conquistense poetisa Ana Luz, nascida em 1989, acaba de lançar seu terceiro livro de poesia Quadras. Ela é também autora de “Poeta em Pânico” (2020) e “Fragmentos”, em 2021, em pleno período da pandemia.
Seus poemas são introspectivos com muita leveza, arrancados do interior da sua alma. Sua sensibilidade em Quadras é profunda e leva o leitor ao seu ponto de reflexão consigo mesmo. É como dar um mergulho em si, como traduz a própria capa da sua obra. Ela fala muito bem dos mistérios da vida, do amor, da saudade, do eterno e consegue ver o profundo no simples, coisa que somente o poeta tem o dom de enxergar.
Seu lançamento foi realizado na noite desta quinta-feira, dia 04/08, na Livraria Nobel, com a participação de escritores, poetas, artistas, amigos, parentes e intelectuais. Foi uma noite poética e de encontros literários, numa demonstração de que Vitória da Conquista possui grandes talentos, embora a nossa cultura ainda padeça num leito de hospital. Foi mais uma prova de que Conquista precisa instituir em seu calendário cultural uma Feira Literária.
Da sua autoria em Quadras temos Lampejo: No enorme riacho/ da criatividade,/ às vezes pesco/uma parruda fagulha; Eterno: o instante não existe,/por definição./O agora é crisálida,/lavra infinita; Sesta: Não há maior axioma/ do que a madorna pós almoço./ Sem nenhum alvoroço/(e com muita sonolência) afirmo; No Cartão: Parcelei meus anseios/ em doze vezes sem juros./ O importante/ é postergar tudo; Com Minhas Escusas: abdico do estilo/em favor da liberdade./ Melhor do que estribilho/é andar à vontade; Afagos: Prepare uma beberagem,/deixe a roupa sem passar./Enquanto lê esse poema,/ sinta-se abraçado pelo ar.
“FLUXO E REFLUXO” XVI
“CONDIÇÕES DE VIDA DOS ESCRAVOS NA BAHIA NO SÉCULO XIX”
O livro “Fluxo e Refluxo”, de Pierre Verger, traz uma série de anúncios classificados do Jornal da Bahia onde os proprietários de escravos notificavam as fugas de seus cativos, a maioria de negros nagôs, citando as características e traços físicos da pessoa, trajes, idades, cicatrizes no corpo (a maioria nos rostos, peitos, pés e braços como marcas das torturas), suas atividades laborais, nomes e a quantia da recompensa a ser dada a quem encontrasse o fugido da sua casa, comércio ou fazenda.
Foi a época maior dos caçadores de recompensa. No anúncio, o dono advertia processar quem do seu escravo se apropriasse ou dessa guarida. Um fato curioso chama a atenção: O surgimento de crianças e jovens pardos de pele branca como escravos. Numa atitude hipócrita religiosa, os chefes de polícia, traficantes e até o presidente da província faziam campanhas filantrópicas para arrecadar dinheiro para alforriar o cativo por causa da cor da sua pele ser bem mais clara.
Os cativos que viviam no campo tinham melhores condições de vida e alimentação do que aqueles que trabalhavam nas indústrias e no comércio nas cidades. Mesmo assim, na zona rural tinham os patrões de menor recurso e sovinas que regravam a comida e maltratavam mais ainda seus escravos que costumavam fugir para fazendas mais ricas.
A obra “Fluxo e Refluxo”, de Pierre Verger, etnólogo e fotógrafo, destaca as diversas áreas de trabalho dos escravos, tais como os domésticos de casa (eram mais acolhidos), os de aluguel, de ganho de rua (tabuleiros de frutas e quitutes), os carregadores (gozavam de certa liberdade), os vendedores ambulantes que comercializavam mercadorias para seus senhores, os carpinteiros, músicos, barbeiros, carpinas, ferreiros, entre outras atividades.
Em Salvador, como a cidade era alta e baixa, os escravos executavam a função de cavalos e transportavam de um lugar para o outro os mais pesados produtos, usando os palanquins (redes cobertas por intermédio de uma longa vara). Depois passaram a usar as cadeiras.
Verger cita Nina Rodrigues, Gilberto Freyre e observadores viajantes que narravam as condições dos escravos na Bahia durante o século XIX. Sobre Nina Rodrigues, comenta que tinha uma tendência a mostrar o espírito de segregação e de reserva manifestado pelos escravos e alforriados: eles “ficavam segregados da população geral, no seio da qual viviam e trabalhavam, para fechar e limitar seu círculo aos pequenos grupos particulares das diversas nações africanas”. Conservavam sua língua, suas tradições e crenças.
Para os trabalhadores dos campos e das minas, segundo Verger, comprar sua liberdade era praticamente impossível. Os domésticos podiam esperar sua carta de alforria por ocasião da morte de seu senhor, em recompensa aos bons e leais serviços prestados. Os negros de ganho e vendedores ambulantes, ativos e hábeis, que tinham o direito de guardar para si uma parte de suas receitas, compravam mais fácil a liberdade. Havia uma distinção entre africanos e crioulos, negros ou mulatos.
Para Nina Rodrigues, os crioulos livres ou escravos achavam que os africanos ficavam sempre marcados por suas origens pagãs, e estes preferem a convivência dos patrícios, pois sabem que, se os temem pela reputação de feiticeiros, não os estima a população crioula. Os africanos importados pelo tráfico contra sua vontade não se integravam na vida do país e não adotavam o Brasil como pátria. Eles ficavam segregados da população em geral e se juntavam aos seus grupos.
O governo brasileiro tinha se comprometido com os ingleses a repatriar os negros de contrabando encontrados nos navios negreiros apreendidos, mas o número era tão grande que as despesas eram superiores aos recursos do Tesouro Nacional.
Muitos viajantes escreveram sobre a situação dos escravos no Brasil, como Henrry Koster, em 1809. Em sua visão, os escravos no Brasil gozavam de maiores vantagens que seus irmãos das colônias britânicas. Os muitos dias de santos da religião católica (35 dias e mais os domingos) davam aos escravos dias de repouso ou tempo para trabalharem para eles próprios.
Entre as fontes de informação figuravam os classificados e notícias dos jornais da época, nas quais Gilberto Freyre muito utilizou para elaborar suas pesquisas. Os inquéritos judiciais, como as revoltas e sublevações, continham boas informações para os pesquisadores e historiadores.
Quanto os bens móveis e gado, Verger ressalta que nos inventários das sucessões dos séculos XVII e XIX, os escravos eram uma parte prioritária do capital que figuravam nas listas antes mesmo do rebanho, dos instrumentos agrícolas e mobiliários da casa. Existiam casos de escravos que possuíam seus próprios escravos.
Os cativos das cidades (vendedores) eram obrigados a levar todos os dias uma certa quantia de seus ganhos para seus senhores. São considerados como um capital de ação que deve render lucros para seus patrões. Depois de velhos, geralmente eram abandonados.
Sobre as condições de vida entre os do campo e da cidade, Freyre descreve que os da casa grande eram mais nutridos com feijão e toucinhos, milho ou angu, pirão de mandioca, inhame e arroz. Eram alimentos fundamentais para os escravos. Usavam também o quiabo, a taioba e outras folhas de fácil e barato cultivo, desprezados pelos senhores.
De acordo com Gilberto Freyre, os escravos das áreas mais patriarcais tiveram um tratamento, um regime alimentar e um gênero de vida superiores aos dos escravos em áreas já industriais ou comerciais, embora ainda de escravidão, distantes da relação com seu senhor, reduzidos a máquina de fazer dinheiro, principalmente no ciclo do café no Brasil.
De um modo geral, muitos escravos fugiam das casas de seus senhores na cidade para voltar para seus antigos donos no campo, seja porque não se acostumavam com a vida urbana, ou por fidelidade ao ex-senhor, bem como pela lembrança da vida “folgada” na zona rural, onde podiam dispor de pequenos terrenos para cultivar suas hortas.
LEMBRANÇAS DO CAMPO
Já comentei aqui sobre meu simples quintal ou minha aldeia onde pela manhã abro as portas e as janelas e me deparo com minhas flores que levam para bem longe meus pensamentos e perfumam minha alma. Elas desabrocham minhas lembranças e me fazem voltar às minhas raízes de menino no campo onde nasci e convivi até os meus tempos de moleque. Hoje ainda estou na cidade grande por circunstâncias que não dependem de mim e, para fugir dos cotidianos problemas, fico a olhar para elas (flores) até o clímax de uma hipnose. Chegam os pássaros que entoam seus cantos como numa prece de saudação de que a vida, apesar de tudo, deve seguir o seu rito natural para fechar o seu ciclo lá na frente. O beija-flor, em sintonia com a natureza, faz seu balé dançante no bater de suas asas, enquanto alegremente se alimenta do néctar da flor e depois mergulha no ar com seu fino bico para depois repetir seu ritual poético.
LIXO ANIMAL
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Lá fora bate a garoa,
E aqui meu pensamento voa,
Nessa terra que virou lixeira,
Entulhos nos rios e no mar,
Gases tóxicos no ar,
Do lixo animal, bicho porqueira,
Que ainda não aprendeu a amar.
A natureza não perdoa,
Devolve tudo na cheia,
Do lixo animal,
Que se enrola em sua teia,
Nem respeita o sinal que soa,
Dos tempos do aquecimento global.
Vem a seca inclemente,
A fumaça da floresta a sufocar;
Derretem as calotas polares;
Sobem os níveis dos mares,
Tanto choro e ranger de dentes
Dessa estúpida gente,
A brincar de foguetes,
Pelo espaço sideral,
E o planeta a se acabar,
Com a sujeira debaixo dos tapetes,
Pelo lixo animal,
Onde o bem perde para o mal.





















