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UM DIA ADVERSO

Pense num dia em que você sai de casa com tudo planejado na cabeça para resolver os pepinos e as coisas terminam saindo do seu comando! É o chamado dia adverso onde só dá o avesso. No sábado passado aconteceu isso comigo, e aí lembrei daquele filme norte-americano “Um Dia de Cão” quando o cara se desespera no trânsito engarrafado e destila toda sua raiva nos outros, como se fosse um louco psicopata.

Não cheguei a este ponto, mas fui obrigado a fazer outras coisas que não estavam em meus planos. Primeiro, marquei uma reunião na casa de um amigo e quando lá cheguei no horário ele havia saído parta socorrer um colega de trabalho, coisa de carro. Entrei em contato e ele me pediu desculpas. Antes passei no banco e minha conta estava negativa. Comecei com o pé esquerdo, ou direito, sei lá!

Quando estava para visitar um companheiro jornalista e tomar umas geladas, conforme o combinado, recebo um áudio de uma amiga me solicitando socorro para pegá-la num hotel lá na Avenida Integração. A pessoa estava muita avexada e não parava de passar mensagens porque ela teria que deixar o hotel meio-dia para não ter que pagar outra diária.

Tomei dois goles da cerveja agoniado e lá foi eu. Pequei um engarrafamento na Avenida Spínola e o horário estava se esgotando. Da Avenida Integração tocamos para uma pousada na Avenida Juracy Magalhães para pegar uma mala pesada que deu a maior trabalheira para descer as escadas.

De lá, retornarmos para a Integração (antiga Rio-Bahia) e tornei a subir mais escadas arrastando essa mala enorme. Os antigos hotéis não têm nenhuma acessibilidade e nem elevadores. Era pouco mais de meio dia e a fome bateu com a fraqueza.

Nessa ida e volta ela foi me contando que foi desempregada e ainda havia sido vítima de assédio sexual. Esse é um assunto delicado que prefiro não entrar em detalhes, mas fiquei chocado com sua situação e o aperto em que estava passado. Muitas vezes pensamos que nosso sofrimento é maior que dos outros.

Para não me alongar muito na história (ocorreram outros percalços) terminei indo para a Feirinha do Bairro Brasil, coisa que não estava em meu roteiro do dia. Comprei um tilápia fresca em um daqueles galpões de carnes e fui tomar uma gelada e um caldo de buchada para aliviar a tensão e a fome. Àquela altura, o relógio marcava pra lá das 14 horas.

Antes de fazer o pedido, perguntei à moça da barraca (estava com pouco dinheiro) quanto era o caldo. Respondeu que era sete reais. Pedi uma cerveja “periquete” de quatro reais, segundo a mesma mulher que me atendeu.

Quando fui pagar a conta, veio a dona do estabelecimento, uma senhora já meio idosa, e me cobrou quinze reais quando deveria ser onze. Entrei em discussão e chamei a menina, supostamente sua filha, que ficou atarantada porque havia me passado os preços errados. “É, subiu tudo”. Imaginei: em questão de minutos! Que inflação varada!

Outra vez passou pela minha cabeça o filme “Um Dia de Cão” e tive que me controlar para evitar um quebra-quebra e ir parra na delegacia. Acontecem coisas em nossas vidas que não sabemos explicar. Uns dizem que são coisas do destino. Moral da história é que nem tudo que você planeja dá certo quando o dia é adverso.

DIA DO NORDESTINO

Não poderia deixar aqui batido o “Dia do Nordestino”, comemorado em 8 de outubro, do nosso sertão profundo, de gente simples sofredora, não o do cerrado cheio de águas e cachoeiras do famoso escritor Guimarães Rosa (com todo respeito), mas lhe parodiando, o da Caatinga Veredas, que nos leva às histórias de lutas, do cangaço, de Lampião, da Coluna Prestes, dos milagres, do Conselheiro, do “Padim Ciço” e demais personagens que fazem parte da nossa cultura.

Foi aqui em nosso Nordeste, que possui o único bioma do mundo, que proliferou a poesia do cordel e gerou grandes escritores, como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Câmara Cascudo, José de Alencar, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna, dentre tantos outros, sem falar no Águia de Haia, Ruy Barbosa, e no poeta dos poetas condoreiro Castro Alves em Espumas Flutuantes.

É também o nosso Nordeste dos repentistas, dos trovadores, contadores de causos e chulas, dos grandes compositores músicos como Zé Ramalho, Geraldo Vandré, Elba Ramalho, Luiz Gonzaga com sua sanfona ao som de Assa Branca, Humberto Teixeira, Zé Dantas, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Capinam, Tom Zé, Novos Baianos e toda uma geração conhecida mundialmente.

Neste “Dia do Nordestino”, quero também falar da nossa terra de bravos, mulheres e homens anônimos que fizeram e fazem parte da nossa história e da nossa rica cultura, cheia de mistérios, fé e religião. Nosso sertão é único, cinzento nos engaços e bagaços misturados com o mandacaru quando bate a seca, e verde e colorido quando chegam as trovoadas de final de ano.

Essa paisagem do seu solo e da sua gente queimada e mestiça do sol já é pura poesia e matéria-prima para as artes em suas diversas linguagens. É também o Nordeste dos retirantes, dos casos de pau-de-arara que daqui saíram na “Triste Partida”, de Patativa do Assaré, para construir São Paulo em terras estranhas e depois retornam com saudades do seu chão querido.

É o Nordeste da Bahia, dos heróis que consolidaram a independência do Brasil, do Maranhão, do Ceará, do Piauí, do Rio Grande do Norte, da Paraíba, de Pernambuco, de Alagoas e Sergipe. Por aqui atravessa o São Francisco, o “Velho Chico”, com suas águas dando vida aos ribeirinhos, banhando nossas margens e abrindo canais de irrigação para nossa agricultura.

É esse Nordeste que reverencio, do qual tenho orgulho de dizer que dele sou filho e repudio os preconceituosos e racistas que em muito contribuíram para que houvesse essa desigualdade regional, desde os tempos coloniais, passando pelo Império e pela República. Daqui exploraram nosso suor e ainda nos chamam de atrasados, mas, como diz a Bíblia, perdoai Senhor, porque eles não sabem o que dizem.

“DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS”

De George Orwell

EM SEU LIVRO DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS, O AUTOR FAZ UMA EMERSÃO SOBRE AS OBRAS DE HENRY MILLER E OUTROS, UMA DESCRIÇÃO SOBRE A DURA VIDA SUFOCANTE DOS MINEIROS NO CAPÍTULO “MINA ABAIXO”, UMA DESCRIÇÃO DOS INGLESES EM “INGLATERRA, SUA INGLATERRA”, “O ABATE DE UM ELEFANTE”, “LEAR, TOLSTÓI E O BOBO”, “POLÍTICA VERSUS LITERATURA”, “A POLÍTICA E A LINGUA INGLESA”, “A PREVENÇÃO CONTRA A LITERATURA” E, FINALMENTE, “SUMÁRIO DE MENINOS”.

Vamos aqui focar sobre o que o indiano Orwell fala sobre o escritor norte-americano Henry Miller, de “Trópico de Câncer” e “Primavera Vermelha”, em sua passagem pela Paris decadente dos anos 30, dos bares entupidos de bêbados, das pensões de percevejos, dos arruaceiros, dos artistas pintores, muitos dos quais “impostores”, das obscenidades e do antifascismo versus comunismo.

No capítulo “Dentro da Baleia”, ele afirma que conheceu Miller no fim de 1936, quando estava passando por Paris a caminho da Espanha. “O que mais me intriga nele foi descobrir que não tinha o menor interesse pela guerra na Espanha. Ele meramente me disse, em termos bastante enfáticos, que ir para Espanha naquela altura era a atitude de um idiota”.

Opinou ainda que se envolver naquelas questões da guerra, por um sentido de dever, era franca estupidez. Para Miller, combater o fascismo e defender a democracia eram conversa fiada. Uma perspectiva que não lhe incomodava era a civilização ser varrida e substituída por uma coisa diferente da humana.

Sobre um inquérito a respeito da guerra, feito pela revista Marxist Quarterly, Miller respondeu que não tinha nenhum desejo de converter alguém a lutar. Segundo Orwell, uma declaração de irresponsabilidade. Em sua opinião, os escritores dos anos 20 assumiram a postura mais progressista e os de 30 a do dizer amém.

Nesse aspecto, o Miller não assume nenhuma atitude, mas não ignora a situação. “Ele acredita na ruína iminente da civilização ocidental com muito mais firmeza do que os escritores “revolucionários”. Apenas não se sente convocado a fazer coisa nenhuma a respeito. Ele toca violino enquanto Roma queima e, ao contrário da imensa maioria das pessoas que fazem isso, toca de frente para as chamas”.

Na verdade, isso está ocorrendo nos tempos atuais quando nos incomoda o silêncio dos bons. Muitos contam um bocado de coisa sobre si mesmo, enquanto fala de outra pessoa, como em Max and the white phagocytes.

Orwell conta a história bíblica da baleia que engole Jonas, considerando um fragmento de fala infantil, e ressalta que estar dentro desse enorme peixe é uma ideia muito confortável, aconchegante e caseira. O Jonas histórico ficou bastante aliviado por escapar, “mas, na imaginação, no devaneio, inúmeras pessoas o invejaram”.

De acordo com ele, o próprio Miller está dentro da baleia. Apenas ele não sente nenhum impulso de alterar ou controlar o processo pelo qual está passando. Ele executou o ato essencial de Jonas ao permitir-se ser engolido, permanecendo passivo, aceitando

MEMORIAL CÂMARA

O Estado ainda continua ligado à religião e dizem que é laico

Os poucos pontos culturais existentes em Vitória da Conquista (museus, bibliotecas, arquivos), infelizmente, são raramente visitados. Falta de tempo, desinteresse total pela cultura, pelas nossas origens e as redes sociais da internet formam um conjunto de fatores para esta negativa explicação. Os jovens e estudantes de hoje não fazem mais pesquisas como antigamente. Do alto do comodismo e da preguiça, as pessoas preferem ficar sentadas nos sofás perguntando ao Google e recebem respostas limitadas, evasivas e, muitas vezes, truncadas e duvidosas. Um ponto desses a que me refiro que quase ninguém vai lá é o Memorial da Câmara Municipal de Vereadores de Vitória da Conquista, segundo informou a própria atendente. O local fica aberto todas semanas, de segunda a sexta-feira, mas dificilmente aparece um conquistense, ou grupo escolar, para conhecer o acervo e realizar uma pesquisa. Um povo sem história é um povo sem memória e, consequentemente, nem está aí para seus direitos e deveres. É um povo ignorante e submisso aos poderes. É o declínio da nossa civilização em geral, e isso ocorre não somente em Conquista. É uma pena porque esse triste retrato representa uma decadência do interesse pelo conhecimento e pelo saber. O Memorial da Câmara tem um conjunto de material, inclusive digitalizado e visual sobre a história do Arraial da Conquista, sua formação, jornais que circularam na cidade em épocas passadas, os principais fatos que marcaram a vida do município, os intendentes, vereadores e outros valiosos itens com conteúdos preciosos, não somente para estudantes, mas também para professores, intelectuais e pesquisadores.

  

POETAS E EXCLUSÃO

Poeminha de autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário

Quando do sono despertam os poetas,

Os pássaros no raiar fazem suas sonoras,

E as visões misteriosas abrem suas frestas.

 

Dos barracos morros na porta bate a fome,

Na virada da noite dos tiroteios de balas,

Onde prospera a exclusão do Estado que some.

 

Nos mocambos a educação sem redes e sinais.

Corta a navalha a alma dos despossuídos,

E adormecem os poetas na língua dos intelectuais.

 

 

3 X 4 PEDACINHO DE NOSSA HISTÓRIA

(Chico Ribeiro Neto)

A gente só tirava fotos 3 x 4 em momentos importantes da vida: entrar no ginásio, matricular-se no colégio, na faculdade, carteira de identidade, certificado de reservista, primeiro crachá de emprego, e por aí vaí.

Eu ia tirar meia dúzia de 3 x 4 nos Lambe-Lambe do Relógio de São Pedro ou no Terreiro de Jesus, em Salvador. Quando acabava, o fotógrafo perguntava se você não queria levar 8 fotos pagando um pouco mais. A gente só precisava de 4 fotos, mas acabava levando as 8 e dava as restantes a parentes e à namorada, mas a dedicatória tinha que ser bem curta. Um “Te amo” resolvia tudo. De tão pequeno, o 3 x 4 era difícil de rasgar na hora de acabar o namoro.

Tinha 3 x 4 que desbotava com o tempo, uns ficavam amarelados. Quem tinha mais dinheiro tirava os 3 x 4 num Foto, uma loja num shopping onde a coisa era mais arrumada, tinha uma sala acarpetada cheia de luzes, ar condicionado e um banquinho vermelho acolchoado. O espelho era fundamental. Tirava de manhã pra ir pegar as fotos de tarde. Vinham numa cartela de plástico com o nome do Foto. Havia uma loja que colocava seu comercial na cartela onde vinham as fotos: “Nossa dúzia tem 14 fotos”.

O site da Câmara Municipal de Conselheiro Lafaiete (MG) tem um texto cujo título é “Saiba como ser tirada a foto para a Carteira de Identidade”, a seguir: “O fotografado deve apresentar fisionomia neutra ou um sorriso discreto, desde que em ambos os casos mantenha os lábios fechados, sem franzir o rosto” (conselheirolafaiete.mg.leg.br).

Fui pesquisar a 3 x 4 na música. Tem a “Retrato 3×4”, da banda Agito Capilar, que diz num trecho:

“Me dá um retrato 3 x 4

Que é pra eu botar na minha carteira

Se a saudade apertar

O retrato eu vou olhar

Durante a semana inteira”.

Belchior gravou “Fotografia 3 x 4”, em 1976, em plena ditadura, mostrando a saga dos jovens que saíam do interior do interior do Ceará para o Sul. Segue um trecho:

“Em cada esquina que eu passava um guarda me parava

Pedia os meus documentos e depois sorria

Examinando o três-por-quatro da fotografia

E estranhando o nome do lugar de onde eu vinha”.

E tem a brilhante “Devolva-me”, de Renato Barros e Lilian Knapp, gravada em 1966 pela dupla Leno & Lilian e brilhantemente regravada anos depois por Adriana Calcanhotto, cujo trecho segue:

“O retrato que eu te dei

Se ainda tens, não sei

Mas se tiver, devolva-me!”

Não sei se a foto era 3 x 4, mas que a música é linda, isso é. Segue uma lembrança.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

EU ACEITO E NÃO ACUSO

Eu aceito sua mão em casamento. Juro amor eterno, ser fiel no respeito, na alegria e na tristeza, nos momentos mais difíceis, na pobreza e na riqueza. São palavras do altar que também faço na vida real, na minha aldeia e na tribo em que vivo. São compromissos não cumpridos.

O tempo vai se arrastando até a monotonia, e esse elo um dia se quebra quando batem as adversidades. Priorizei os direitos em detrimento dos deveres. Não acuso a mim mesmo como sou e nem reviso o passado como aprendizagem. Eu aceito porque acho que deve ser assim o viver sem acusar, aqui no sentido de contestar. Nem pedi para vir ao mundo.  Não passo de um sopro.

O enlace matrimonial é apenas um contrato social como qualquer outro nesse sistema capitalista de aparências e vaidades onde sou levado a seguir normas como manda o figurino da ordem das coisas. A tudo eu aceito, mas não acuso nem os meus próprios atos.

Eu aceito fazer parte dessa engrenagem, ver o progresso destruir o ser humano e a própria máquina me triturar. A própria evolução da inteligência acaba de engolir ela mesma, porque é cativa e escrava do mercado e não está a serviço do humanizar. Aceito tudo que diz essa mídia vazia, sem conteúdo.

Não passo apenas de uma matéria-prima do poder selecionador das raças que cuida em eliminar, lentamente, de morte os mais fracos, e eu aceito e não acuso esse processo perverso do massacre. Eu aceito a violência e as matanças, as corrupções, os conluios e as injustiças sociais como se fizessem parte de uma lei natural, sem reversão. Aceito que as coisas são assim e não há como mudar.

Eu não acuso o meu comodismo, individualismo, meu egoísmo e passividade diante dos horrores da vida daqueles que padecem na fome e na exclusão total, sem a usufruir da dignidade merecida. Às vezes entro com um auxílio de doações solidárias para enganar minha consciência de que ela está em paz comigo mesmo.

Eu aceito ser apenas uma peça ou parafuso para fazer a máquina girar e nem questiono e acuso se ela tirou milhares de empregos dos excluídos que não tiveram formação escolar e ensino para acompanhar sua engenharia. Eu estou sentado sobre um iceberg derretendo e nem percebo. Não passo de um burguês-puritano dentro da barriga de uma baleia, como o Jonas da Bíblia.

Se tenho uma casa para morar, um carrinho na garagem ou na porta para rodar, um bar para tomar umas geladas com os falsos amigos, eu aceito o meu mudinho mesquinho e não acuso a decadência e o declínio da humanidade que está auto se destruindo.

Nem acuso o aquecimento global, os desmatamentos, as queimadas, os tufões e os ciclones, o consumismo do lixo e vou seguindo minha vidinha monótona, sem graça e nem penso na morte que pode bater em minha porta a qualquer hora. Sou um idiota imbecil que acha que já cumpriu sua missão na terra.

Eu aceito o anormal como normal, o errado como o certo e o desonesto como um bom predicado do “vencedor” a qualquer preço. Aceito o levar vantagem em tudo, ser bicho toupeira ou a avestruz que mete a cabeça no chão. Aceito tudo aquilo que os outros aceitam.

Não acuso quem rouba e só quero mesmo é passar o dia no celular hipnotizado nas redes sociais, lendo besteiras e fake news, disseminando o ódio e a intolerância. Não acuso a ignorância e aceito ser patrulhado em minha liberdade de expressão. Tenho medo de externar livremente o que penso para não ser moralmente linchado. Aceito a censura voluntária.

Por tanto aceitar, eu termino entrando em isolamento e depressão, o mal do século que eu não acuso como consequência dessa sociedade construída com pilares de areia. Como nas juras de amor, não passo de um traidor de mim mesmo, um simples carvão.

Eu aceito e não acuso porque sempre ando a dizer que não tenho tempo para refletir, conversar com os outros, responder as mensagens e só faço me encantar e concordar com as inovações tecnológicas (inteligência artificial), sem fazer indagações. Se os outros aceitam e acham ser bom para a humanidade, eu também aceito. Não quero entrar nessa de filosofar porque isso é coisa de intelectual desocupado.

CENAS DE VELÓRIOS E ENTERROS

Cada povo ou tribo tem seus rituais característicos nos funerais, desde a etapa do velório até o enterro e esses costumes são ancestrais, com suas origens nas primeiras civilizações, mas os comportamentos das pessoas são estranhos, falsos, hilários e dão belas matérias-primas, com todo respeito, para contos literários, peças teatrais, causos, programas humorísticos e até poesias.

Mais uma vez aqui vou citar o meu pai, um homem rústico do campo que era um predestinado para acompanhar o doente terminal na cabeceira da cama com orações, seguir pelo velório, fazer o caixão do defunto (era lavrador, carpinteiro, marceneiro e até pedreiro) e só terminava no rito do enterro. Naquelas redondezas onde morava ele era a pessoa requisitada para esses serviços, sem nada ganhar. Perdia noites de sono depois de um cansativo dia de trabalho.

Só para começar, os hábitos das pessoas da zona rural (pelos menos naqueles velhos tempos) têm pequenas nuances em relação aos velórios e enterros das cidades. Tem ainda o cerimonial do pobre e o do rico. Lembro na zona rural, ainda menino, por exemplo, que meu pai fazia o caixão com suas tábuas e na hora de fechar batia os pregos com martelo na cara do defunto. Se a pessoa não tivesse morrido em definitivo, era capaz de levantar do caixão ao ponto de colocar todo mundo em disparada correria.

No campo, as pessoas são mais simples, honestas, sem maldades e fingimentos, mas não faltam as ladainhas das rezadeiras, os choros, alguns histéricos, um café com biscoitos, cuscuz, canjica, bolos e claro, uma cachaça para esquentar o papo dos compadres e comadres e ter a disposição para correr quilômetros com o caixão para o enterro no povoado mais perto. São os momentos de muitas fofocas e prosear nas salas e nos terreiros.

No entanto, o que quero mesmo falar aqui é sobre os cenários esquisitos que se vê nos velórios e enterros.  Ah, ia esquecendo, quando morria um rico ou um “coronel”, gente ruim, malvada, carrasco e malquista, a família contratava, em alguns lugares ainda se faz isso, as carpideiras, as mulheres que ganhavam para chorar pelo defunto, com direito a revezamentos. A mulher e os filhos nem se lamentavam com sua partida para o outro mundo.

Velório de pobre não tem gente de óculos escuros para fingir que derramou muitas lágrimas pelo falecido. No de rico, muitas pessoas chegam de óculos escuros falando baixo e dizendo para o outro: lá se foi uma grande figura, gente boa, generosa, honesta, de caráter, nem que não tenha essas qualidades. Para os parentes, minhas condolências, pêsames e sentimentos em voz bem emotiva.

Quando morre um idoso e a viúva é nova e bonitona, aparece um conquistador galã nos apertos acolchoados já de olho na dita cuja, mesmo garantindo que era muito amigo do defunto, que deixa de ter defeitos. Quando a família não é muito unida e existem brigas entre irmãos, um já olha para o outro como adversário na partilha dos bens e imaginando que não vai deixar ninguém passar a rasteira nele, mesmo que sejam poucos dotes. Em muitos casos acontecem até mortes. Os noticiários não negam.

O que mais aparece num velório e num enterro é a hipocrisia velada, aquela de doer na alma, cheia de elogios falsos e chama o falecido ou falecida de irmão e irmã queridos do coração. E quando o indivíduo tem amantes é um vexame só. A mulher abraça o ex no caixão copiosamente chorando. Às vezes, a viúva nem sabia do caso ou quando já tem conhecimento parte para os tapas, classificando a adversária de vagabunda, puta e vadia. É um escândalo só no meio do velório. Uns começam a discutir ali mesmo pela herança, sem nenhum escrúpulo.

É, meus amigos, cenas de velório e enterro merecem ser registradas na caneta, gravadas e filmadas no celular. Dão bons filmes e são pratos cheios para a literatura, até do cordel. E quando morre um famoso (a) ou uma celebridade? É onde tem mais gente de óculos escuros, com aquela empáfia. Coisa rara de se ouvir: já foi tarde, mas se escuta que os bons se vão logo e que os ruins são duros na queda.

As entrevistas são sempre as mesmas de que é uma grande perda, insubstituível na sua profissão, deixa um grande legado e nos ensinou muitas coisas como mestre das artes e da política. Só aparecem as qualidades, mesmo que seja um ou uma ranzinza, pedante ou metido (a) a besta, dono (a) da verdade. As palavras são quase as mesmas e as frases parecem ser decoradas, recheadas de bordões.

SENTIFICAR, LIVRO DE LINAURO NETO, DA EDITORA PENALUX

 

Lançamento do livro, na Livraria Nobel, em Vitória da Conquista – BA

Por Luis Altério

 

“aqui estamos

humildemente agradeço

a companhia”

Assim começa o livro. Como se, ele, o Poeta, na Livraria também agradecesse a nossa companhia… E a Livraria ficou quase cheia de leitores do nosso Linauro. Vi muitos exemplares a serem despachados com a sua dedicatória (embora, mais uma vez, e pela enésima vez, sentisse a falta de escritores cá da terra. Vieram, pela minha contabilidade uns…deixa cá ver…uns…uns, porra, só?!…. uns 5 escritores conhecidos (se vieram mais, que eu desconheça, desde já peço perdão!)). Enfim, é assim mesmo, e dificilmente mudará o panorama, embora não seja difícil de um dia – quem sabe! – as coisa mudem.

Tiradas as fotos, as conversas entre conhecidos, ainda li vários poemas: Confesso, aqui! Temos POETA!

Irei ficar atento às obras de Linauro! É para ficarmos, TODOS, atentos e, claro, LER … Querem mais provas?… Eis que, na apresentação de seu livro, o Poeta lê os seus poemas: Aí, debruça-se num dos poemas fortes e de contestação, e se comove…. espera reagir aos nós de garganta que só poetas sensíveis sentem, de tão sentidos versos lidos….a dada altura, pede desculpa, para se restabelecer por breves segundos, e continua o poema…. Foi lindo ver como, de facto, há esperança nesse Brasil profundo!

E agradecendo eu, como consumidor e frequentador à Livraria Nobel, a disponibilidade do Belo Espaço… Fomos, como nos outros lançamentos, bem acolhidos!

Termino, então, saudando o nosso Poeta e, recolher-me ao meu Lar. E continuar a leitura… E antes de escreve esta resenha, ainda li este:

“sossega a alma

o silêncio é tão importante

quanto o verso”

– Certíssimo, Linauro! O silêncio como catarse da poesia de tudo o que sentimos!

Luís Altério

“DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS”

De George Orwell, de a “Revolução dos Bichos”

Para escritores e outros que ainda não leram, deve se debruçar sobre as críticas literárias de George Orwell aos livros “Trópico de Câncer” e “Primavera Negra”, de Henry Miller, bem como de outros autores, como Alfred Edward Housman, J. Joyce. T.S. Eliot, E. Poud. D. H. Lawrence,  Wyndham Lewis, Aldous Huxley e Lytton Strachey.

Sobre esse grupo, diz Orweel que eles não parecem um grupo. Lawrence  e Eliot não gostavam um do outro. Huxley adorava Lawrence, mas era repelido por Joyce. A maioria teria esnobado Huxley. Lewis atacava todos os outros.

“Se a ideia básica dos poetas georgianos era a “beleza da natureza”, a dos escritores do pós-guerra (I Guerra) seria o “sentido trágico da vida”. Todos eles têm um temperamento hostil à noção de “progresso”. O sentimento é que nem deveria acontecer.

O pessimismo de Eliot em parte é um lamento sobre a decadência da civilização ocidental. Em sua análise, a inclinação de todos os escritores desse grupo é conservadora. Muitos tinham queda pelo fascismo, outros eram indiferentes. Huxley, desespero com a vida.

Por que os principais escritores dos anos 20 são pessimistas? Por que há sempre uma sensação de decadência. Não seria, quem sabe porque essas pessoas escreveram em uma época de conforto excepcional? “É só em períodos assim que o “desespero cósmico” pode florescer. Pessoas de barriga vazia nunca se desesperam pelo universo, nem aliás, pensam sobre o universo”.

Em suas abordagens, no primeiro capítulo, Orwell fala do cenário literário dos anos 20, para ele a época de ouro, e solta reflexões sobre a arte do escrever onde o leitor é alçado a entrar nessa baleia. Ele começa pelo romance de Miller, “Trópico de Câncer” que apareceu em 1935. O próprio insiste ser pura autobiografia.

O ensaísta do cenário da época na França, narra que em alguns bairros da cidade, a quantidade dos assim chamados artistas deve ter superado a dos trabalhadores. Calculou-se que no final dos anos 20 havia trinta mil pintores em Paris, a maior parte “impostores”. “Foi a era dos azarões e dos gênios”…

Pelas suas obscenidades nauseantes, a obra de Miller tornou-se impublicável. No mundo dos túmulos sombrios, descrito entre outros por Lewis, sobre o qual Miller escreve, abordando apenas o lado de baixo: as formas do lupemproletariado.

É uma história, como descreve Orwell, de quartos infestados de percevejos em hotéis para operários, de brigas, de surtos de bebedeiras, bordeis baratos, refugiados russos (Revolução Russa), mendicância, trapaça e empregos temporários. Todo esse cheiro de azedo foi matéria-prima para o romance de Miller que se alimentou desse lixo.

Quando “Trópico de Câncer” foi publicado, os italianos marchavam sobre a Abissínia e os campos de concentração de Hitler já estavam entupidos. Os centros intelectuais do mundo eram Roma, Moscou e Berlim. Foi um romance sobre norte-americanos combalidos mendigando bêbados no Quartier Latin. Um ano mais tarde foi publicado “Primavera Negra.

Na comparação com Joyce, de Ulisses, o crítico de “Dentro da Baleia”, diz que há um traço dele, não em todo lugar. Em “Primavera Negra”, mesmo com pontos surrealista, todos se sentem iguais. “Miller escreve sobre o ser humano na rua e, a propósito, é uma pena que seja uma rua cheia de bordeias.

“Em “Primavera” há um flashback maravilhoso de Nova Iorque fervilhante de irlandeses, mas as cenas de Paris são as melhores”. No romance de “Trópico”, os bêbados e vagabundos são tratados com maestria na técnica rigorosamente única – assinala, ao pontuar que as sensações são que todas as aventuras deles acontecem com você.

“A grosseria indiferente com que os personagens de “Trópico de Câncer” falam é muito rara na ficção, mas comum na vida real. George Orwwll esclarece que “Trópico” não é um livro de um jovem. Miller tinha mais de 40 anos quando foi publicado. É um livro maturado na pobreza e na obscuridade. A prosa é um espanto e, em partes de “Primavera”, ainda melhor”. Palavras impublicáveis estão em todas as partes.

“Miller é uma pessoa falando sobre a vida, um homem de negócios norte-americano comum, com coragem intelectual e um dom para as palavras”. …”Tendo atrás de si anos de lupemproletariado, fome, vagabundagem, sujeira, fracasso, noites ao relento, batalhas contra agentes de imigração, lutas infinitas por um pouco de dinheiro, Miller descobre que está se divertindo”.

Sobre Walt Whitman, em “Folhas de Relva”, o ensaísta afirma que ele escreveu num período de prosperidade nos anos 30 onde a liberdade valia mais que a palavra. Voltando a Miller, assinala que existe uma correlação Whitman. “Trópico” termina com uma passagem whitmanesca, na qual, depois das luxúrias, trapaças, brigas, bebedeiras e imbecilidades, ele simplesmente se senta e observa o Sena passar, em uma espécie de aceitação (eu aceito) mística das coisas como elas são”.

“Dizer “eu aceito” em uma época como a nossa, é dizer que você aceita campos de concentração, cassetetes de borracha, Hitler, Stalin, bombas, aviões, comidas enlatadas, metralhadoras, golpes, expurgos, lemas, esteiras de linhas de produção, máscaras contra gás, submarinos, espiões, arruaceiros, censura à imprensa, prisões clandestinas, aspirinas, filmes de Hollywood e assassinatos políticos”.

Para Orweel, a verdade é que a vida cotidiana comum consiste muito mais de horrores do que os autores de ficção se dão ao trabalho de admitir.  Ele faz reflexões com base em outros autores, que se encaixam no mundo atual quando fala que vivemos em um mundo que está se encolhendo. As “vistas democráticas” terminaram em arame farpado. “Aceitar a civilização como ela é, praticamente significa aceitar o declínio”.

Orweel ressalta que as pessoas em “Trópico de Câncer” chegam muito perto de serem comuns, na medida em que são preguiçosas, desonradas e mais ou menos “artísticas. Entre as décadas de 20 e 30, avaliar um livro por seu conteúdo era pecado imperdoável, e mesmo ter consciência do conteúdo era considerada falta de gosto – afirma o autor de “Dentro da Baleia”.

Nos anos 1930-1935 algo acontece e a atmosfera literária muda, na visão de Orwell, que cita Auden, Spender e outros como novo grupo de escritores que entram em cena, com “tendência diversa”. “Saímos do crepúsculo dos deuses e entramos em um tipo de clima escoteiro, com joelhos à mostra e cantorias em grupo”. O literato deixa de ser um expatriado cultural com inclinação para a Igreja, tornando-se voltado para o comunismo. Se a ideia básica dos escritores dos anos 20 é o “sentido trágico da vida”, para os novos é o “propósito sério”- observa o crítico literário.





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