Para quem tem medo de avião e quem também não tem, como lembra o cantor, compositor e poeta cearense Belchior em sua bela canção, é no mínimo assustador e até cheira a contradição.

No sábado passado fui à “Cidade Maravilhosa”, que já não tem muita coisa disso diante de tanta violência e, na preparação para a decolagem, fiquei a matutar com as instruções de segurança dada pela tripulação antes do “pássaro” voar aos céus rumo ao nosso destino.

Primeiro entra um membro da tripulação com a cara feia e bem séria e vai transmitindo as instruções gravadas, mil vezes repetidas em cada viagem. Se não me engano, começa pelas máscaras de oxigênio que caem no caso de haver despressurização. “Antes de ajudar alguém, ajuste a sua”.

A coisa vai ficando sombria com o andar do “papo” esquisito. Logo bate a danada da morte na cabeça. Essa aeronave tem duas saídas de emergência na parte traseira de cada lado, duas no meio e mais duas na frente.

O mais arrepiante que dá vontade de você pedir para abrir a porta e sair, vem no final. Em caso de um pouso na água (coisa mais rara de ocorrer), pegue seu colete salva-vidas que está embaixo da poltrona e sopre no canudo para encher de ar.

A esta altura, o viajante que estiver atento, porque quase ninguém presta mais atenção, já está nervoso e pensando como vai ter uma conversa com São Pedro lá na porta do céu. Pede perdão de seus pecados e até confessa para a mulher ao lado, caso ela esteja, que já deu uma pulada de cerca ou de muro.

É nessa hora que dá vontade de dizer para o instrutor ou instrutora: Vá para a puta que te pariu com suas informações de terror! Se esse gigante voador cortante do vento e do ar der um treco em algum motor ou equipamento e começar a cair, meu amigo, não sobra uma viva alma.

Vamos no popular e deixar desse lero-lero porque todo mundo vai morrer mesmo. Olha, se essa máquina embicar em direção a terra, já era, não sobra ninguém para contar a história. Esqueçam as instruções. Na agonia, muitos corações param de bater lá em cima mesmo.

Tudo bem! Temos um alento que é a afirmação dos estudiosos e técnicos da aviação de que “esse bicho” aí é um dos meios de transportes mais seguros do mundo. Portanto, relaxa, meu camarada, porque lá embaixo pode ser bem pior!

Na Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro aterrissei no “Elefante Branco” chamado de Galeão e depois percorri uma trilha de túneis e avenidas de violência, exposto a um tiroteio no meio do caminho.

Ainda bem que cheguei ileso em meu destino, no meu caso no Bairro das Laranjeiras e, como sou tricolor até que me senti envaidecido, mas o trânsito e o formigar de gente em correrias me deixou atordoado, como se fosse um matuto nordestino da Bahia em terras estranhas.

As pessoas cruzam meu caminho com caras fechadas. Ninguém liga para ninguém. Fiquei no apartamento do meu filho onde a janela do quarto bate bem de frente com o vaivém louco de veículos que soltam gases tóxicos no ar durante 24 horas. Não dá muito para levantar bem-humorado, mas procuro disfarçar o incômodo.

Não conheço bem a cidade, mas resolvo ir sozinho ao Bairro do Flamengo, meu adversário nas “batalhas” futebolísticas. Com duas máquinas fotográficas, resolvi, por segurança, colocá-las na mochila.

Meu primeiro contato foi com o porteiro com um bom dia e fui logo indagando se dava para ir andando até o meu ponto na rua Ferreira Viana, no hotel Windsor Flórida. Disse que era um pouco longe e me recomendou pegar um taxi ou um Uber. Não sou simpático a essa empresa capitalista norte-americana que invade países e tira o pão da boca dos nossos taxistas.

Como tenho formação jornalística e aprendi a ter outras informações, atravessei a rua e logo vejo um gari em seu trabalho diário de limpeza. Prestativo e atencioso, me ensinou e chegar até lá e garantiu que dava para ir na paleta. “Segue direto o tempo todo até o Largo do Machado. Chegando lá é só perguntar que qualquer um vai lhe indicar a posição certa do hotel”.

São dois pontos de vistas diferentes. Um que fica todo dia sentado vigiando quem entra e sai no prédio. O outro roda o dia todo e tem uma noção do longe e do mais perto que pode ser alcançada sem a necessidade de um carro. Decidi seguir o gari e fiz meu exercício num percurso em torno de um quilômetro e meio ou dois.

Fui perguntado aqui e acolá sempre para alguém sentado num banco de jardim ou um motoqueiro parado numa esquina. Visei gente mais humilde e nunca àquelas pessoas carrancudas no corre-corre do dia a dia, mas cair na besteira de abordar um moço no celular. Mudo e surdo nem respondeu ao meu bom dia.