ESSA DIFÍCIL VIDA NOSSA DE CADA DIA!
De tanto ver tanta violência e crueldades, de tanto o homem destruir a natureza para mais consumir, de tanto ódio e intolerância, de tanta politicagem, de tantas catástrofes e tragédias pelo mundo num prenúncio do apocalipse, o ser humano vai perdendo a fé e a esperança de dias melhores, e a palavra otimismo vai ficando escassa em nosso dicionário.
O tempo parece passar cada vez mais rápido e temos que encarar essa difícil vida onde cada dia tem que se matar vários leões para sobreviver, principalmente os mais pobres, de menor poder aquisitivo, que têm que lidar com as contas a pagar e se virar para colocar o alimento na mesa. As desigualdades sociais são assombrosas e a concentração de renda só aumenta.
Apesar de todo esse quadro sombrio cheio de nuvens pesadas que nos rondam, a vida ainda vale a pena ser vida quando se busca a paz e o amor e se procura isolar a inveja, a maldade contra os outros e desejar bem ao mais próximo. Só assim podemos enfrentar essa vida difícil.
Quando olhamos ao nosso redor, não é nada fácil juntar forças para manter o ânimo e encarar as adversidades. As pessoas estão cada vez mais brutas e preferem usar seus instintos primitivos do que a razão. Não paramos para refletir que esse sistema que fica cada vez mais embrutecido fomos nós mesmos que o construímos com nosso individualismo, comodismo e falta de indignação contra as injustiças sociais.
Nos dias atuais, chegamos ao ponto onde só reagimos quando o mal nos atinge, quando alguém da nossa família é vítima de uma bala perdida ou quando nos é negado um atendimento médico e alguém do nosso convívio familiar vem a óbito.
Nos tornamos mais insensíveis diante de tantas notícias de extermínio, de atrocidades, massacres e gente que faz o errado e quase nada acontece por causa da impunidade. Vivemos numa sociedade dividida pelo racismo, pela xenofobia, pela homofobia e outras formas de separação, quando essas questões nem mais deveriam ser discutidas. Depois de tantos anos ainda estamos longe do sonho sonhado de Martin Lutter King. Os movimentos, ao invés de nos unir e nos aproximar, eles nos distanciam.
AS FEIRAS LITERÁRIAS PRECISAM TER UMA PARTICIPAÇÃO MAIS DEMOCRATIZADA
Quando se decide organizar uma feira literária logo se pensa no convite de um, dois ou três escritores famosos de fora e nos palestrantes mais conhecidos do público. Sempre se esquece da prata da casa por considerar que não é atrativo de público e o evento pode se tornar num fracasso.
Até certo ponto isso é lógico em se tratando de mercado, maior visibilidade na divulgação da mídia e até na atração de visitantes locais e de fora, mas é preciso colocar mais o foco na democratização dos autores onde a festa vai ser realizada para que as pessoas conheçam e interajam com os novos talentos da sua cidade e região.
No entanto, quando vemos vários municípios realizando feiras literárias como agora no interior baiano, inclusive por parte de pequenas cidades, isso nos enche de esperanças e expectativas porque servem de incentivos para disseminar a leitura, principalmente entre nossos jovens que perderam o hábito de pegar um livro para ler.
Só para citar algumas cidades, como Feira de Santana, Salvador (Flipelô), Cachoeira, Rio de Contas, Lençóis, Andaraí, Caculé, Barreiras, Itabuna, Ilhéus, Mucugê, Belo Campo aqui perto de nós e outras que estão se programando para também ter a sua, como escritores isso nos deixa animados e a sensação que, até enfim, a literatura, como a músicas e outras linguagens artísticas, está sendo prestigiada e valorizada pela sociedade e os poderes públicos.
Por que não formar um consórcio de feiras literárias regionais para fortalecer o setor? Seria uma maneira de reduzir os custos e também introduzir as empresas como patrocinadoras. Está na hora dos organizadores pensarem nisso e criarem uma rede de feiras entre os municípios. Com isso, os escritores poderiam ter uma ajuda de custos para participar da festa.
As feiras literárias são por demais saudáveis para a nossa cultura, para todos aqueles que com muita luta e garra produzem suas obras, a maioria sem apoio do poder público e privado. Por outro lado, fica a frustração porque somente poucos têm condições financeiras próprias de se deslocar de suas cidades para participar dessas festas literárias.
Por isso é que falo da democratização e ajuda aos escritores locais desde seu processo de produção, divulgação e distribuição até o apoio financeiro para se fazer presentes nas feiras. Para ser mais claro, como um escritor ou poeta independente, sem recursos, pode sair de Vitória da Conquista para ir divulgar suas obras em Salvador, Feira de Santana, Barreiras, Ilhéus ou Itabuna?
Bem que todos gostariam de mostrar seu trabalho e, ao mesmo tempo, adquirir mais conhecimento e aprendizagem de como os outros estão lidando com suas dificuldades inerentes ao fazer literatura. É, sem dúvida, uma troca de informações. Está faltando esse intercâmbio entre as organizações das cidades para que haja um engajamento de autores, de forma a enriquecer e democratizar mais a arte literária.
Se está ocorrendo uma onda de feiras é porque delas estão saindo bons resultados socioeconômicos, como nos festivais de músicas, bem como na divulgação das cidades, especialmente se ela tem vocação turística. Porém, é necessário que essas feiras sejam mais democratizadas e socializadas porque no fim todos ganham.
Gasta-se muito com a contratação de escritores já consagrados, com estruturas até sofisticadas, com embalagens exageradas e não se tem dado o devido espaço para os autores regionais. Por que o poder público não oferece uma ajuda de custo aos seus escritores locais (nem todos) para que estes representem a cultura de sua cidade em outro município, ou que se faça um intercâmbio entre as diversas feiras? Garanto que todos saem ganhando, inclusive as populações em geral.
As feiras têm que ser menos fechadas, mais abertas e democráticas e não somente premiar os “grandes” já conhecidos. Existem muitos talentos escondidos por falta de oportunidades, como aqui mesmo em Vitória da Conquista que deve seguir o exemplo dos outros municípios e realizar sua feira literária, não aquela com viés totalmente político e eleitoreiro onde somente poucos têm acesso.
Como modesto jornalista, escritor e agora tateando na poesia, como minhas obras de contos, poemas, causos, prosa, inclusive no gênero de ensaios históricos, me sinto mais otimista com essa onda de feiras literárias, se bem que, infelizmente, não posso ir em todas como desejaria. É por isso que defendo a união ou uma associação de escritores conquistenses para possibilitar a participação de nossos companheiros nessas feiras.
O mais importante nisso tudo é que a nossa mãe literatura, alicerce para todas as outras linguagens, está sendo lembrada e valorizada, sem contar o estímulo que esses eventos proporcionam para que as pessoas, jovens e idosos retornem ao antigo hábito da leitura. Essas feiras devem ser compartilhadas entre as secretarias de Cultura e Educação.
GALERIA VAZIA
Existem certos locais onde os negócios não conseguem funcionar por muito tempo. Um desses espaços em Vitória da Conquista é a Galeria Dom Climério onde, às vezes no ano, os boxes estão ocupados e logo voltam a ficar vazios. Atualmente só está funcionando uma loja da própria Arquidiocese e outra de informática, xerox e encadernações de apostilhas. Qual explicação para as empresas que ali se instalam demorarem pouco tempo de vida empresarial? Falta uma boa administração do prédio? E olha que a galeria por ser bem central tem uma boa movimentação de gente entre as ruas Zeferino Correia (próximo da Praça Tancredo Neves) e a rua coronel Gugé, na Câmara de Vereadores. Existe alguma coisa de errado. Nossas lentes flagraram muitas placas de “Aluga-se” e o corredor vazio.
COISA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
“Uma coisa é uma coisa,
Outra coisa é outra coisa”.
Tudo que se faz,
É inspirado numa coisa,
Como esta coisa.
Coisa pode ser
Masculino ou feminino,
Substantivo, adjetivo e advérbio,
Até verbo.
Tem o coisa ruim,
Que é o capeta belzebu;
Tem a coisa boa,
Que pode ser tanta coisa.
Vou lhe contar uma coisa,
Que você não pode revelar,
Então não me conte sua coisa.
Cante aí nessa viola,
Uma canção MPB, samba ou forró,
E não me deixe aqui,
Com essa coisa só.
Rapaz, me deu aqui
Uma coisa na espinhela,
Não seria na costela?
Estou com uma virose,
Pode ser qualquer coisa.
Tenho uma coisa por ela,
Que não sei explicar essa coisa.
Não me venha com essa coisa,
Que já estou cheio de tanta coisa,
E não vou mais falar dessa coisa,
Porque você está sendo chato
Com tanta coisa.
Mostre sua coisa,
Que eu mostro minha coisa.
Me dê sua coisa,
Pra eu dar uma tragada,
Quero ficar doidão com essa coisa.
Sua coisa é de primeira
Não é da misturada.
Vá pra lá com sua coisa,
Que fico com minha coisa,
E quem quiser,
Que acrescente outra coisa.
SESSÃO DA CÂMARA CONDENA A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES
Costumam dizer que o Brasil tem uma grande dívida social para com os negros que durante 350 anos foram escravizados e para com os povos indígenas que foram explorados e massacrados desde a chegada dos portugueses há 523 anos. Por que não também com relação às mulheres que durante anos foram subjugadas pelo patriarcalismo e consideradas como inferiores?
No entanto, os tempos estão mudando e algumas políticas públicas estão fazendo pontuais reparações. No dia de ontem (09/08), a Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista realizou uma sessão mista para lembrar os 17 anos da Lei Maria da Penha e condenar a violência contra as mulheres.
Durante o evento, a vereadora Viviane Sampaio, do PT, fez um pronunciamento da tribuna onde condenou os atos de violência contra as mulheres e cobrou do poder executivo a implantação de políticas, não somente de proteção física, como no âmbito econômico e social.
Na ocasião, os vereadores aprovaram uma proposição no sentido de que a prefeita Sheila Lemos crie a Secretaria das Mulheres com uma dotação orçamentária em torno de 10 milhões de reais. Outra indicação foi de que a Prefeitura Municipal construa a sede dessa Secretaria na área onde foi derrubado o Clube Social.
Pela sua dimensão e localização estratégica na cidade, entendo que aquele espaço não deve somente ser aproveitado para uma Secretaria. Ali deveria abrigar diversos equipamentos multiuso, inclusive a Biblioteca Municipal que fica escondida lá no Conquistinha, dificultando o acesso de estudantes, professores, intelectuais e interessados pela leitura e pela pesquisa.
Quando as mulheres, que sempre foram oprimidas e somente tiveram direito a votar em 1932, sem contar a exclusão do mercado de trabalho por serem consideradas de segunda classe, não restam dúvidas que a dívida é alta, como dos negros e indígenas. A sessão mista, presidida pelo parlamentar Hermínio Oliveira, também aprovou outros projetos (títulos de cidadãos conquistenses) e moções de aplausos.
No tocante aos negros, o último censo do IBGE traz dados importantes sobre o número de quilombolas no Brasil, estimados em 1,3 milhão de brasileiros, tendo a Bahia como primeiro estado que abriga 397 mil pessoas, vindo em seguida o Maranhão. Dos 1,3 milhão, 70% estão no Nordeste. Na Bahia chamou a atenção o município de Bonito, na Chapada Diamantina, com mais de 50% da população se identificando como quilombola.
Sobre os indígenas, as estatísticas do IBGE apontaram cerca de 1,7 milhão. Na Bahia, o segundo estado com mais povos originários, a população quase quadruplicou, com um total de 229.103. A maioria habita a região sul do estado, onde se encontram aldeias das comunidades Pataxó e Truká, em Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Ilhéus, Pau Brasil e Prado. Pela pesquisa, 14 grupos indígenas residem no estado.
MAIS DECEPÇÕES QUE TERMINAM NOS EMPURRANDO PARA O DESCRÉDITO
Nesse país, os séculos de história e os anos de vida sempre nos levaram a mais decepções, especialmente na política, que terminam nos levando ao descrédito para aquela velha frase comum de que “o Brasil não tem jeito”, embora os mais otimistas ainda acreditem o contrário.
No dia a dia a gente sente uma certa sensação de frustração e aquela vontade de se recolher em seu canto e desistir até de lutar quando se vê esses montes de leis não serem cumpridas; imperar a impunidade e as mentiras; os governos de esquerda se juntando a gente oportunista e corrupta, tudo pela tal governabilidade; a violência que só faz aumentar; o ódio e a intolerância sempre no pódio; e o luto virando o jogo contra a luta.
Não estou aqui para alimentar a depressão, mas, infelizmente, é essa a realidade quando se procura ser sério e brigar pelos direitos humanos e pela redução das desigualdades sociais. Até no convívio pessoal entre os ditos “amigos” sofremos as decepções por causa das falsidades, do doentio individualismo e daquela letargia de apenas cada um cuidar de si.
Tudo isso é um reflexo dos nossos políticos e governantes que não dão o devido exemplo. A grande maioria faz as promessas e, de tanto nos enganar, a população não mais acredita neles e dizem não querer saber de política. Vamos passando o tempo na base da enrolação e no faz de conta de que as coisas estão funcionando. A alienação política (muitos têm raiva quando se fala nessa palavra) vai levando essa gente para o consumismo, como se isso fosse o ponto de partida para a felicidade.
Nos endividamos sabendo que lá na frente tem o desenrola e assim esse ciclo vicioso vai se repetindo todos os anos. Defendemos o meio ambiente, mas jogamos lixo no mar, nas ruas e até admitimos o desmatamento para plantar soja e criar boi para exportar os produtos para o mercado externo. Participamos de campanhas solidárias com certa contribuição financeira, mas quando vemos um ser humano caído na rua passamos indiferentes. Cortamos o outro lado para não vermos a miséria estampada nas calçadas e marquises.
Agora mesmo estava acabando de ler num jornal que por ano o mundo produz 480 milhões de toneladas de plásticos e que 8,3 bilhões somente em 2022. A previsão é chegarmos a 13 bilhões até 2050. O Brasil está entre os cinco maiores produtores mundiais de lixo plástico e recicla apenas 1%. Grande parte é jogada no mar. Petrolíferas estão querendo explorar mais petróleo na Amazônia.
Não acreditamos nos governos, não importa a tendência ideológica. Não queremos saber da nossa história passada. Por isso estamos sempre repetindo os erros, como loucos. Estamos perdendo nossa memória para a inteligência artificial, para tornarmos robôs. Imitamos as culturas alheias superficiais dos super-heróis. Damos mais valor ao que vem de fora do que ao nosso nacional. Assim fica difícil construir uma verdadeira nação se não temos uma soberania própria.
Que me perdoem, mas minha fala é um desabafo e uma provocação. Posso até incomodar muita gente que não quer parar para pensar e refletir nessas questões. O negócio é seguir em frente e não olhar para trás. Ah, nem quero saber dessas coisas! Vou me aporrinhar com isso, se tenho outros problemas pessoais! Até parece que não vivemos em sociedade. Só gritamos e choramos quando somos atingidos pelas injustiças sociais.
BONS VENTOS PARA A CULTURA
Com a Lei Paulo Gustavo e outros editais saindo por aí, bons ventos estão soprando a favor da nossa cultura que ficou adormecida nos últimos quatro anos. Em Salvador, por exemplo, a classe artística está animada.
De acordo com informações publicadas por um jornal da capital, estão chegando sete editais de fomento das diversas linguagens para a cultura. Esses editais estão contidos no pacote de ações que fazem parte do investimento da Prefeitura Municipal de Salvador, com parceria entre a Secretaria Municipal de Cultura e a Fundação Gregório de Mattos (Conquista já deveria ter a sua).
As inscrições estão previstas para serem abertas neste mês de agosto com término em setembro. Os recursos são oriundos do Governo Federal e do próprio município no total de 50 milhões de reais. O presidente da Fundação, Fernando Guerreiro, disse que vai reunir um conjunto de mapeamento, informações e estatísticas da realidade cultural de Salvador.
Estamos vivendo uma onda positiva no setor cultural, afirmou Guerreiro. Na pandemia a prefeitura viabilizou benefícios às pessoas necessitadas, mas ninguém sabia que se encaixava nos determinados segmentos. “ O que pretendemos agora é ter um raio x do segmento cultural”.
Destacou que, pelo menos, 69 projetos divididos em três incisos vão ser contemplados. Nesse caso o investimento total é de pouco mais de 20 milhões, sendo 15 do Governo Federal via Lei Paulo Gustavo e mais cinco milhões de suplementação com recursos próprios do poder executivo.
A DITADURA, A GUERRILHA DO ARAGUAIA E OS MORTOS DESAPARECIDOS POLÍTICOS
As feridas continuam abertas porque a Anistia de 1979 não permitiu a punição dos torturadores da ditadura civil-militar de 1964, que, aliás, foi negada durante todo governo do capitão-presidente aloprado, isso sem contar as comemorações do primeiro de abril (dia da mentira) dos generais das forças armadas à “revolução”, assim considerada por eles.
Até o momento, por parte do governo esquerdista do PT, não vi nenhuma alusão a esta questão no sentido de desfazer essa negação de que não houve uma ditadura. O Ministério dos Direitos Humanos e outros correlatos precisam resgatar a nossa história, a nossa memória e fazer respeitar a luta pela liberdade de todos aqueles que tombaram durante a ditadura, de forma cruel e covarde.
A literatura está recheada de fatos documentados e testemunhados, como no livro “Uma Conquista Cassada”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, e não podemos deixar que tudo isso caia no esquecimento, inclusive entre nossos jovens que foram induzidos nestes últimos quatro anos de que esse regime opressivo de brutalidades não existiu. É necessário que o governo coloque esse item em pauta para discussão.
Dentro dessa ditadura, da qual milhares de brasileiros que se opuseram ao regime foram vítimas (só de desaparecidos tivemos 243), existiu a Guerrilha do Araguaia, no Bico do Papagaio (Amazonas, Pará e Goiás) que está completando 50 anos que 69 combatentes do PC do B e mais camponeses da região foram esquartejados, tiveram suas cabeças cortadas e seus corpos desaparecidos, jogados em rios, no mar e enterrados no meio da selva.
Entre os tantos desaparecidos insepultos, cujas famílias até hoje choram pelos seus filhos, filhas, sobrinhos e primos, temos aqui de Vitória da Conquista a guerrilheira Dinaelza Santana Coqueiros e seu marido Vandick. Seus irmãos, como Diva Santana, até hoje não tiveram o direito de realizar o ritual fúnebre da sua irmã, conforme mandam os costumes. Não tiveram o direito de fechar esse ciclo porque o Estado deixou de fazer a justiça e negou a verdade. Muitos arquivos daqueles anos tenebrosos ainda continuam fechados e secretos.
Sobre esse assunto, de forma didática, fundamentada e pesquisada em livros de autores, bem como em entrevista com seus familiares, a obra “Do Corpo Insepulto à Luta por Memória, Verdade e Justiça”, da professora Gilneide Padre, desseca a problemática dos desaparecidos políticos no Brasil, focando o caso de Dinaelza Coqueiro.
Gilneide também faz um mapeamento sobre a Guerrilha do Araguaia que começou entre o final dos anos 60 e início dos 70 por um grupo do PC do B que, sob orientação da linha maoísta chinesa, acreditou na luta armada contra a ditadura a partir do campo. As forças armadas chegaram no Araguaia em abril de 1972 e só saíram de lá no início de 1974 quando executaram e deram sumiço aos corpos de mais de 50 combatentes.
Devido a repressão e a censura na mídia que era fortemente vigiada naquela época na base da força bruta das prisões, das torturas e das mortes, a existência da Guerrilha do Araguaia só passou a ser conhecida lá pelo final dos anos 70.
A questão dos desaparecidos (estima-se mais de mil mortos e desaparecidos) só tomou força a partir dos movimentos dos familiares que antecederam a Anistia de 1979, a Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos, o Grupo Tortura Nuca Mais, culminando com a caravana dos familiares dos guerrilheiros que estiveram no Araguaia em outubro de 1980.
O Governo do PT, através do seu Ministério dos Direitos Humanos, além de outras demandas em pauta, como das desigualdades sociais, da defesa das mulheres, do combate ao racismo e a homofobia, precisa também voltar seu olhar para reafirmar que a ditadura existiu sim e evitar que essa memória caia no esquecimento. Muita coisa tem ainda que ser feita para que essas feridas não continuem abertas e esse episódio tão triste e vergonhoso da nossa história nunca mais se repita.
CULTURA PRECISA DE ESPAÇO
Carlos González – jornalista
Quatro das mais importantes atividades na vida de uma comunidade com quase 400 mil habitantes não podem ser atribuídas a um único órgão público, porque todas elas vão funcionar precariamente, principalmente quando há falta de interesse do gestor municipal. Isso é o que vem acontecendo há muitos anos em Vitória da Conquista com a cultura, o lazer, o turismo e o esporte. A Cultura não pode dividir seu espaço.
Consta na página que a Prefeitura mantém na internet que “a Sectel tem por finalidade desempenhar as funções do Município em relação à cultura, ao esporte, ao lazer e ao turismo, sendo responsável por planejar, coordenar, controlar e executar programas relevantes a essas áreas”.
Vamos analisar cada elemento desse “quarteto”. Como a nossa finalidade é mostrar o estado de abandono da cultura conquistense, faremos um breve comentário sobre o entretenimento, o turismo e o esporte, mesmo porque o titular da Sectel, o cantor, compositor e violeiro Eugênio Avelino, conhecido nacionalmente como Xangai, dedicou sua vida a escrever e musicar suas composições de raízes sertanejas.
Na estrutura administrativa da Sectel constam coordenadorias e gerências encarregadas de fomentar o turismo e de promover o esporte e o lazer, mas no dia a dia a população observa que nada é realizado por esses órgãos.
O turismo em Vitória da Conquista é uma falácia. O quê a cidade tem para mostrar ao visitante? O projeto de urbanizar a Serra do Piripiri e o entorno do Monumento ao Cristo Crucificado anda de forma lento. O lazer dos finais de semana do conquistense se limita aos barzinhos e ao passeio nos shoppings.
A prática do esporte se resume às “peladas” de futebol e futsal nos campos da periferia, e nos três meses de atividade do time profissional, ocupando divisão inferior do futebol baiano, impedindo o torcedor local de assistir jogos de clubes de expressão no cenário nacional.
Acessando a página oficial da Prefeitura, o leitor toma conhecimento de que, entre os eventos do calendário anual promovidos pela Sectel, constam uma mostra de cinema e o Festival Suíça Baiana. A administração municipal precisa explicar quando e onde serão realizados esses dois encontros culturais.
A 7ª Arte – não nos referimos aos filmes de aventuras de monstros e super-heróis exibidos nos Multiplexes – entrou num processo de involução desde que o poder público permitiu o fechamento da Casa de Glauber Rocha e o Cine Madrigal.
Esse mesmo processo de abandono se aplica ao Teatro Carlos Jheovah e a outros equipamentos que abrigam as diferentes expressões artísticas, como o Conservatório de Música, a Biblioteca José Sá Nunes, o Centro de Artes e Esportes Unificados José Murilo, que funcionam precariamente e precisam de reformas e mais atrativos e divulgação.
A Secretaria Municipal de Cultura, Turismo, Lazer e Esporte (Sectel) vem recebendo o apoio altruístico de um grupo de pessoas com décadas de dedicação à arte. Eleito para um mandato de dois anos, o Conselho Municipal de Cultura, chefiado pelo jornalista e escritor Jeremias Macário, vem fazendo um relevante trabalho voluntário.
Os membros do Conselho constataram desde os primeiros dias de atividade que suas proposições esbarravam num vírus que contamina todo o serviço público no país. A burocracia, aliada ao desprezo pela finalidade de sua função, onde o poder executivo empurra as pautas elaboradas pelos conselheiros para debaixo do tapete ou para o fundo das gavetas alegando falta de recursos, como se a cultura fosse coisa secundária.
Reza o manual da Secretaria de Cultura que cabe ao município apoiar manifestações culturais independentes. Nos últimos dez anos um grupo de amigos e admiradores das artes vem preenchendo o desapreço do poder público pela cultura em Conquista. Refiro-me ao Espaço Cultural “A Estrada”, localizado no bairro Guanabara, ao lado de dezenas de espécies vegetais.
De dois em dois meses, sempre num sábado, o Espaço reúne novos amigos, artistas e pessoas do universo cultural conquistense, para ouvir cantorias, poesias, e participar de debates sobre os mais variados assuntos, priorizando as coisas da região, no caso, a música, a literatura, o folclore e as histórias.
Sem nunca ter recebido ajuda oficial, nem mesmo uma menção de aplauso do Legislativo Conquistense, o Espaço “A Estrada” edita um blog com o mesmo nome e coloca à disposição dos interessados um acervo de mais de cinco mil itens, entre livros, vinis, revistas, CDs e DVDs, peças artesanais e quadros fotográficos. Essa valiosa coleção tem como curador vitalício o combatente Jeremias Macário, sertanejo de Piritiba, com 32 anos residindo em Conquista, onde exerceu a chefia da Sucursal do jornal “A Tarde”.
Graças a uma iniciativa do Governo do Estado, através da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Social pela Música, 2.324 crianças, adolescentes e jovens integram os 13 núcleos do programa Neojiba, “para que possam desenvolver competências e aptidões múltiplas e assumir diferentes papéis em resposta aos desafios de nosso tempo”. Criado em 2016, o núcleo de Vitória da Conquista tem levado às plateias lotadas o pouco que resta da cultura do Sudoeste baiano.
Festivais literários
Os escritores e interessados em obras literárias – Conquista tem três livrarias e umas quatro ou cinco bancas de jornais e revistas – estão constantemente a perguntar: “Por que a Prefeitura não promove anualmente um festival literário?”. Cidades baianas com menor potencial econômico e cultural têm contado com apoio dos gestores municipais. As feiras, algumas delas com perfil internacional, atraem personalidades literárias e “devoradores” de livros de todo o país, aquecendo a economia da região e dinamizando o turismo, com a oferta de restaurantes e hotéis.
Segundo a Fundação Pedro Calmon, 30 eventos desse tipo foram realizados no ano passado no interior e um em Cajazeiras, periferia de Salvador. “As festas literárias estão chegando para fortalecer o pensamento cultural de cada localidade”, comemora o cordelista Maviavel Melo, curador da Fliu, em Uauá.
Um aviso aos escritores conquistenses, que “comem” a poeira das estradas como mascates para vender sua produção literária: a cidade de Mucugê, na Chapada Diamantina, promove a 6ª edição da Fligê entre os dias 16 e 20 deste mês.
O JARDIM JAPONÊS
Ainda no Jardim Botânico, o portal da paz de espírito que separa a selva de pedras e a violência da Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, conforme nos mostra a foto que brotou das minhas lentes. No final do passeio, tragado pela natureza, me deparei com o Jardim Japonês e duas crianças que pegavam a água com as mãos para encher as copas de uma planta, tendo ao lado uma verdadeira tenda daquele país de cultura oriental lá nos confins da Ásia. A cena dos meninos me fez lembrar a fábula do beija-flor que pegava água do mar com o bico para apagar um incêndio. Um animal ficou espantado com aquela atitude e disse que o pássaro jamais iria apagar o fogo com aquelas gotículas de água, se nem os bombeiros dariam conta do tamanho das labaredas que avançavam. Simplesmente o beija-flor respondeu que estava fazendo a sua parte. Bem, a moral da história todos sabem e pode ser aplicada em qualquer circunstância da vida, como na paz, na solidariedade para com o outro, no espírito da coletividade deixando de ser individualista e tantas outras formas de ajuda. Se cada um fizer a sua parte no bem, o planeta será outro bem melhor do que este em que vivemos, cheio de mentiras, calúnias, atrocidades, ódio, intolerância e egoísmo.






















