NO BANCO DA PRAÇA
Toda cidade, seja grande, média ou pequena tem sua praça ou praças, mas existe a principal onde está erguida uma Igreja Católica – catedral, matriz ou capela, neste último caso se for um distrito ou povoado – que nos faz lembrar os tempos antigos e coloniais onde o catolicismo era a religião oficial e representava o povo como autoridade. Às vezes, era o próprio Estado, mas esse é outro assunto.
Não existe praça sem banco ou bancos, seja de madeira, de gesso, cimento ou outro material qualquer, alguns com a propaganda do patrocinador ou benfeitor. Você já observou as pessoas sentadas no banco da praça. Tem o casal de namorados grudados se beijando no maior amor que nem está aí para quem passa. Nos velhos tempos, era um escândalo e uma imoralidade para as famílias mais tradicionais e conservadoras.
No banco da praça senta todo tipo de gente, cada um com seus problemas e dilemas, ou até mesmo para se divertir. Tem o idoso e a idosa, a mãe e a filha, pai e filho que ali ficam para matar o tempo, apreciar as árvores e os pássaros a cantarolar ou contar casos e causos.
Tem o desempregado que depois de um dia de tanto receber não em suas caminhadas com um currículo debaixo do braço dá uma parada para descansar e refletir. Pensa em chegar em casa e ver o mesmo quadro de penúria. Ele questiona a esperança, a fé e até a existência de Deus e do diabo.
No banco da praça tem o mochileiro andarilho que só está ali de passagem procurando um abrigo para passar uns dias e depois seguir seu caminho. Tem o moço ou a moça remoendo suas angústias e mágoas. Tem jovens alegres a prosear. Até estudantes matando aulas. Tem aqueles que até aproveitam para tirar um cochilo no banco da praça. O rapaz com seu traje de mendigo e candango que areia no banco seu corpo cansado, muitas vezes com fome, drogado ou cheio da cachaça.
Cada banco da praça guarda a história e os segredos de alguém, uns jogando conversa fora, outros contando suas aventuras para seus amigos, sempre levando vantagem em tudo. Tem as mentiras de pescador. O banco da praça é como o divã de um psicólogo. Ele ouve tudo e no final dá uma resposta. Até orienta como você deve conduzir sua jornada da vida. Muitas decisões são tomadas num banco da praça, política, social e econômica.
Ah sim, tem aquele espião de chapéu que simula ler um jornal e outro chega como não quer nada para passar as devidas informações de quem está sendo investigado. De soslaio, levanta e leva um pacote ou embrulho, de dinheiro ou documento. Também pode servir para planos de corrupção e subornos. Com a nova tecnologia do celular, tem o viciado que senta no banco da praça para aproveitar a linha da internet e navegar nas redes sociais, fazer suas fofocas e até passar fake-news.
O cronista ou poeta muitas vezes senta no banco da praça para rascunhar seus pensamentos e dali sai até uma obra prima, no formato de um poema, um livro ou um cordel. É um artista do comportamento humano que a tudo observa para traçar suas linhas, de acordo com sua linguagem artística.
No banco da praça de algumas cidades tem até aquela escultura de uma personalidade famosa das artes, da filosofia, da ciência e das invenções, que algum dia foi eternizada pelo seu trabalho. Alguém interessado no saber e no conhecimento senta ao seu lado para trocar umas ideias e pedir uns conselhos. O banco da praça é uma das peças mais importantes de uma cidade, mas poucos se dão conta disso. Não dá para construir uma praça sem banco.
A BURKA SUBSTITUIRÁ O BIQUINI
- Carlos González – jornalista
“Se os evangélicos entrarem na política, o Brasil irá para o fundo do poço. Haverá um enorme retrocesso neste país em todos os sentidos”. A profecia foi feita há 20 anos por Leonel Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. O líder trabalhista gaúcho condenou em várias ocasiões a intolerância religiosa, com perseguições aos cultos africanos, que ele atribuía aos neopentecostais: “A falta de cultura é uma coisa séria”.
Dez anos depois, o reverendo Carlos Eduardo Calvani, da Igreja Anglicana, num artigo publicado na imprensa, escreveu que o fundamentalismo evangélico ameaçava a democracia no Brasil.
Entre outras restrições, como o Carnaval, infligidas à população, limitava a liberdade das mulheres: o biquíni seria proibido e obrigatório o uso da burka (vestimenta que cobre todo o corpo, exceto os olhos).
Ameaçado de morte, Calvani abrandou suas declarações. Afirmou que estava se referindo a algumas lideranças evangélicas – citou o bispo Silas Malafaia, – que alimentavam um projeto de tomar o poder no país. Esse desejo de conquista continua mais vivo nos dias de hoje, haja vista a participação de pastores no governo Bolsonaro (2018-2022) e as estratégias que vêm sendo postas em prática através de uma junção perigosa entre fundamentalistas religiosos e políticos ultraconservadores.
Com sua popularidade em baixa, a idade avançada, e emitindo declarações polêmicas, feitas de improviso, quando se acha longe de casa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não se apercebe – sua confiança, em termos de segurança, está unicamente depositada na Polícia Federal (PF) – que o inimigo está avançando em todas as frentes em direção ao Palácio do Planalto.
O Superior Tribunal Federal (STF) tem sido o guardião da democracia. No outro lado da Praça dos Três Poderes, deputados da base governista, exceção ao PT, PSOL, PCdoB e PV, “navegam” de acordo com o vento. Recentemente, alguns deles assinaram o pedido de impeachment de Lula.
Na semana passada, lulistas fecharam os olhos para a eleição da deputada Carol de Toni (PL-SC), bolsonarista de raiz, sem um voto contra, para presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a mais importante da Câmara. Ex-aluna de Olavo de Carvalho, o guru do bolsonarismo, Carol tem votado contra projetos que trariam benefícios às mulheres, inclusive a equiparação salarial com os homens. Sua prioridade, como declarou, é anistiar os golpistas do 8 de janeiro, certamente o ex-presidente.
Em outra importante Comissão, a de Educação, o PL (o maior partido no Congresso) colocou o mineiro Nikolas Ferreira, desafeto de Lula, a quem chama de ladrão, mesmo quando ocupa a tribuna. Enquanto o deputado Tiririca (PL-SP) atravessou três mandatos sem abrir a boca, Nikolas não tem certeza se a Terra é redonda, plana ou oval.
Enquanto o governo dorme e Lula viaja, nuvens cinzentas estão se formando sobre Brasília. O alerta partiu do Tribunal de Contas da União (TCU): mais de 5 mil criminosos (homicidas, traficantes, assaltantes, etc), fugitivos da Justiça, adquiriram e registraram armas (o pedido de registro teria que ser acompanhado por atestados de bons antecedentes fornecidos pelos órgãos competentes) durante o governo de Jair Bolsonaro. Há poucos dias, a polícia descobriu num apartamento em Campinas 110 armas, granadas de mão e munição; no porto de Santos, a Aduana apreendeu armamento contrabandeado procedente dos Estados Unidos.
Sem explicação
“Não precisa explicar. Eu só queria entender”. O bordão utilizado pelo macaco Sócrates, um dos mais de 300 personagens criados pelo incomparável Jô Soares, colocaria hoje em dúvida a dificuldade da comunidade evangélica no Brasil de justificar o apoio ao Estado de Israel nas ações genocidas contra os palestinos. O judaísmo não reconhece Jesus Cristo como filho de Deus.
Presidente por mais de 40 anos do Rabinato em Congregação Israelita Paulista, Henry Sobel foi um defensor dos direitos humanos no Brasil durante a ditadura militar (1964-1985). Perguntado sobre a importância de Cristo para sua religião, respondeu: “Acreditamos que Jesus foi um grande homem, um grande mestre. Porém não o aceitamos como Messias ou Salvador, pois o judaísmo não reconhece um filho de Deus que se destaca e se eleva acima dos outros seres humanos. A convicção judaica é a de que todos os homens são iguais”.
Evangélico por segundos interesses, Bolsonaro vai pedir permissão ao STF – seu passaporte foi apreendido – para visitar Israel, a convite do primeiro-ministro Benjamin (Bi-Bi) Netanyahu. O motivo não foi explicado. Por trás desse inesperado encontro pode haver um plano para derrubar Lula. Contrariando o capitão expulso do exército, a opinião pública mundial, a qual se juntou o presidente Joe Biden, dos EUA, pede um imediato cessar-fogo. No entanto, existe o receio de que o exército israelense bombardeie a cidade de Rafah, onde há mais de um milhão de refugiados palestinos.
“A MÁSCARA DA ÁFRICA” III
A obra do escritor V. S. Naipaul, nascido na ilha de Trinidad, é um relato de suas viagens por vários países da África, como Uganda, Nigéria, Gana, Costa do Marfim e África do Sul, num estilo de reportagem jornalística onde ele vai narrando detalhes geográficos e históricos pelos lugares visitados (santuários, palácios e cidades) através de diálogos com seus guias e pessoas comuns, chefes de aldeias, babalaôs, sacerdotes, adivinhos e outras personagens.
Ele ouve relatos desses povos que perderam parte de suas culturas tradicionais, seus ritos e ancestralidades com a colonização e a chegada de religiões estrangeiras, principalmente do cristianismo (evangélicos, anglicanos, presbiterianos e católicos) e o islamismo introduzido pelos árabes. Suas viagens ocorreram entre os anos 2008 e 2009 numa África já “moderna”, contaminada pelo progresso.
Vamos prosseguir com a conversa de Naipaul com Adesina, um executivo financeiro, na Nigéria. Sobre um babalaô, Adesina conta que era um homem educado que conheceu a Bíblia e o Corão. “Esse homem me disse que existiam três línguas astrais superiores, o hebraico, o árabe e o iorubá. Se você se aprofundar no Corão vai ver que o Ifá se originou em Meca. Os iorubás são árabes da tribo Yahula”.
Adesina era muito entendido em cálculos, logística e estratégia. Segundo Naipaul, ele era pessimista em todos os aspectos acerca da Nigéria. Falava dos pobres que em alguns distritos bebiam “água de erosão” e de quartos onde dormiam nove pessoas.
De acordo com o escritor, Adesina sentia que agora a Nigéria estava pagando o preço por sua história colonial. “Os franceses quiseram fragmentar a região em setores menores. Os britânicos lidaram conosco de um modo regional. Não existiam nigerianos no centro. Quando vieram não tinham ideia como governar”.
Conta que os missionários nunca tiveram permissão para irem para o norte porque lá era dominado pelos muçulmanos e “todos éramos governados pelo tribalismo”. Cada partido político era regional. Uma forma de democracia parlamentarista britânico aumentou a confusão depois da independência. “Tivemos então a guerra da Biafra e os golpes de Estado. Os presidentes surgiram por acidentes e não estavam preparados”.
Em sua opinião, não existe boom nigeriano, julgado pelo PIB e pela renda do trabalhador subalterno. A maioria gosta de ter seu próprio negócio, mas nas fazendas o que há é agricultura de subsistência. Oitenta por cento da terra não é cultivada. Não é agricultura mecanizada e não têm carne alguma, a não ser coelhos capturados.
Quanto aos políticos, disse que estavam por dinheiro, como em nosso Brasil. Até mesmo a velha religião era arrastada para dentro e esculhambada pelos políticos. Naipaul descreve sobre as favelas de Lagos em sua visita, especialmente num dia de chuva. Os bueiros transbordavam. A enchente tinha limpado as sarjetas, formando uma confusão escura indescritível, acrescentando garrafas de plásticos e outros dejetos. Até parece que ele estava escrevendo sobre as periferias brasileiras.
Naipaul continua descrevendo um cenário degradante de vendedores de comida em meio a enxurradas, prédios encharcados e apodrecendo, esfumaçados como se tivessem fogo lá dentro. “Os vereadores eram acostumados a andar entre os pobres de Lagos, mas julgavam que nada podiam fazer em torno do córrego. As pessoas não gostavam de mandar os filhos para a escola. Preferiam mandá-los para as ruas a fim de vender coisas para aumentar a renda das famílias”.
Segundo um vereador, o islã permite quatro esposas e os católicos não praticam o controle da natalidade, “e o senhor sabe que os nigerianos são um povo muito religioso. Com a explosão populacional vem a apatia”. Pelas estradas várias igrejas de nomes pomposos, como Montanha de Fogo, Igreja Redimida de Deus, Igreja Apostólica de Cristo e tantas outras.
SEM TRIC-TRIC
(Chico Ribeiro Neto)
– Zorra, esse cara é cheio de nove hora pra contar uma história.
– Desembucha de uma vez, meu irmão.
– Porra, esse cara é cheio de trique-trique pra contar um caso.
– Vai contando logo sem porém nem senão, sem tirar nem por.
– Deixa de arrodeio, meu irmão.
– O cara vai contar um caso que aconteceu lá na Ribeira, mas ele começa de Itapuã.
– Ele demora tanto pra contar um caso que seu apelido é Novo Testamento.
– Deixa de “e aí você não sabe o que aconteceu?”
– Deixe as preliminares e vamos logo aos finalmente.
– Nada de quiproquó e lero-lero.
– Esse cara é cheio de teteretê pra contar uma história.
(Quando era repórter e recebia um discurso impresso – sempre cheio de lenga-lenga – ia logo nas últimas 10 ou 20 linhas. Ali estava o que ele queria dizer de importante.)
– Rumbora, meu irmão, conta logo esse caso, avia.
– Deixe o resto pra contar amanhã.
– Zorra, esse cara tem umas piadas compridas da zorra.
– Esse aí fala mais do que a nêga do leite.
– Eu não sou prolixo, é que eu gosto dos detalhes.
– Até no brega ele demora. “Minha senhora, eu preciso romancear primeiro”.
– Quando ele morrer, a lápide vai ter vários anexos.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
A DENGUE E O PODER PÚBLICO
Dizem (a mídia está sempre anunciando) que 70% ou 80% dos casos registrados de dengue estão dentro das casas e prédios residenciais, só que não se fala de como esses dados foram apurados. Houve uma pesquisa para constatar esse alarmante índice? O esquema é culpar os moradores como vilões e não se mostra o lado negligente do poder público que deixa ruas sem serviços de drenagem, esgotamento e calçamento (empoçamento das águas das chuvas), sem fiscalizar e punir, conforme determina a lei, os terrenos particulares abandonados cobertos de matos e lixo de todo tipo, oficinas que viraram sucatas de carros (o Disep de Conquista é um exemplo) e até os próprios imóveis da Prefeitura Municipal no mesmo estado. Estive tirando umas fotos da Praça Tancredo Neves e visitei o monumento em homenagem aos presos políticos que tombaram durante a ditadura civil-militar de 1964. Os vidros ou os materias plásticos que protegem as luminárias em torno da escultura, de autoria do grande artista plástico Romeu Ferreira, foram quebrados por vândalos. As partes abertas servem para empoçar água e têm muito lixo em seu interior. Ainda sobre a proliferação da dengue (já comentei essa questão aqui) acho um deboche quando um especialista recomenda ao cidadão procurar o médico logo nos primeiros sintomas. Fico a imaginar que sua linguagem está sendo direcionada aos ricos. Os pobres (grande maioria) são dependentes do SUS, cujos postos da família, hospitais e as UPAS estão superlotados. O paciente passa um dia para ser atendido sofrendo de dores em pé e nos bancos desconfortáveis, sendo que muitos retornam para suas casas sem o atendimento. Existem postos que nem têm médicos na cidade. Até parece que cada brasileiro tem um médico à sua disposição. Isso é um acinte, uma vergonha, falta de respeito e revoltante. É muita cara de pau. Quando o indivíduo consegue um pedido de exame, o resultado do teste num laboratório público só sai depois de 10 a 15 dias. Sem mais comentários.
CAMINHANDO SÓ…
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Oh,Oh! Assim eu vou só…
Com os olhos cheios d´água,
Pela estrada da vida,
Fugindo da cidade tóxica,
Na loucura de uma saída,
Tocando em minha flauta,
Uma canção de amor e dor,
Como no espaço, astronauta,
Ou o Pequeno Príncipe e sua flor,
Caminhando só, eu vou, eu vou.
Eu vou só…
Caminhando por aí,
Com saudades da minha amada,
Sem o prazer de sorrir,
Seguindo meu destino,
Cósmico divino,
Entre carros apressados
A cruzar por mim,
Nessa correria sem fim.
Caminhando só, eu vou…
Com minha mochila,
Por entre povoado e vila,
Cheia do passado e presente,
No tempo escuro
Dessa nossa gente,
Ainda à procura de um futuro,
E eu vou caminhando só
Pelo fluxo da noite e do sol.
ATÉ QUANDO OS JUDEUS VÃO CONTINUAR SEU GENOCÍDIO CONTRA OS PALESTINOS?
“O QUE MAIS PREOCUPA NÃO É O GRITO DOS VIOLENTOS, NEM DOS CORRUPTOS, NEM DOS DESONESTOS, NEM DOS SEM ÉTICAS. O QUE MAIS PREOCUPA É O SILÊNCIO DOS BONS” – MARTIM LUTHER KING.
Por várias vezes já coloquei este assunto da carnificina na Palestina (Alô meu companheiro Carlos Gonzalez) em pauta em nosso blog e acho que o tema tem que ser debatido diariamente, como forma de repúdio e revolta pelo que vem acontecendo na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. São cenas de horror que vão ficar marcadas pelo resto da história.
Aquilo é um holocausto mesmo, como bem expressou o antropólogo e estudioso da história da humanidade Ordep Serpa. Segundo ele, holocausto é uma metáfora para o genocídio. É um tipo de sacrifício tendo como vítima um animal.
Na Uganda antiga de 1840 os reis kabakas Sunna e Mutesa praticavam sacríficos humanos, inclusive em suas coroações. O Mutesa deu um surto, entrou em seu harém e matou mais de 20 mulheres e, para cumprir os rituais ancestrais, todas foram queimadas. É só um exemplo para caracterizar um holocausto. Hitler, na Segunda Guerra Mundial, usou outros métodos contra os judeus que agora estão realizando um holocausto contra os palestinos.
A maioria dos gregos e judeus faziam essas oferendas aos deuses ou a um deus e depois o animal era consumido – destaca o antropólogo. No holocausto, como explicou, a vítima é queimada e se torna cinzas. Holo no grego é todo, inteiro, Kaustos queimado, o que equivale consumar o ato de exterminar a vítima.
Não concordo com determinadas opiniões quando afirmam que não existe nenhuma outra correlação do holocausto judeu com genocídios de guerras, como da Bósnia contra os muçulmanos, no início da década de 90, e o que a Turquia fez contra os armênios, sem falar no holocausto contra os índios na América do Sul pelos espanhóis no final do século XV e início do XVI.
Dentro de toda esta carnificina estarrecedora, que os chefes de Estado (Estados Unidos e Europa) preferem se omitir, é bom que se registre a resistência das mulheres palestinas que se recusaram a permanecer caladas enquanto seu território era colonizado.
São lutadoras e heroínas que devem ser lembradas neste 8 de março dedicado às mulheres. É uma luta por solidariedade contra o extermínio cruel desse povo, onde mais de 70% dos assassinatos são de mulheres e crianças.
A pretexto do que fez o Hamas, em outubro, os judeus também podem ser considerados como bárbaros, termo empregado na história antiga greco-romana, que agora leva a nomenclatura de terroristas. Só mudam os nomes, como holocausto e genocídio.
“A VIDA COMO ELA É”
Hoje (ontem – dia 05/03/24) tive um dia corrido e agitado. Até a tecnologia resolveu me sacanear, invalidando uma senha do meu cartão que, na verdade, não estava incorreta. Alguém diria que é coisa da idade e lhe trata como velho. Quando se é jovem não se tem esse preconceito e essa discriminação.
Lembrei do filme “Um Dia de Cão” quando o cara fica engarrafado no trânsito e abandona seu carro na pista. Ele resolve sair agredindo as pessoas que encontra pela frente, num estilo psicopata. Por ser um tanto violento, o sujeito era separado da mulher e só queria chegar na hora do aniversário da sua filha para lhe dar um urso de pelúcia.
Passou também pela minha cabeça “A Vida Como Ela É”, do nosso grande cronista Nelson Rodrigues, tão criticado e até execrado pelos moralistas de plantão. O escritor abre as cortinas das vidas em famílias, muitas aparentemente decentes, unidas e cordiais, mas com pesadas cargas de hipocrisias e sodomias por parte de alguns membros. Ele cita até casos de incestos. Agora está passando uma novela cujo título é “A Família é Tudo”, termo muito usado no dia a dia pelos brasileiros. Nem sempre é assim.
Uma coisa talvez não tenha nada a ver com a outra. Só quis pegar esse “gancho” para confirmar o que retrata Nelson Rodrigues na “Vida como Ela É” onde cada um tem o seu próprio roteiro diário para, como se diz no popular, “matar um leão todo dia, ou de cada vez”. Outro aspecto a refletir é que sobre a vida, cada ser humano tem a sua própria definição sobre ela, seja psicológica, social, filosófica ou política.
A grande maioria, como no filme de Scorsese, se não me engano, afirma que “A Vida é Bela”, mas existe quem discorde disso, e devemos respeitar porque uns vivem a padecer, a sofrer com suas graves doenças, dores, pobrezas e outras mazelas, enquanto outros curtem bonanças, riquezas e prazeres. Tem os que mesmo no sofrimento conseguem ver a vida sobre o ângulo bom e não andam se lamuriando pelos cantos. Tem aqueles que questionam a existência de Deus por existir esses dois lados, o do bem e do mal.
Dizem que a vida é passageira, e por ser curta, deve ser bem aproveitada em todos os seus momentos. Há quem defina as etapas da vida como as diversas paradas de um trem nas estações até chegar ao seu final. Uns descem e outros entram para continuar a jornada.
Cada um segue caminhos diferentes para se encontrar no mesmo lugar, na margem do rio, onde o barqueiro lhe transporta para o outro lado, isto se você estiver com a moeda da passagem. Sobre “A Vida Como Ela É”, meu amigo, você vai encontrar milhares e milhões de interpretações nas linguagens de filósofos, psicólogos, escritores, poetas e artistas os mais diversos, mas você tem a sua.
Por que uns vivem rindo e distribuindo o bem, mesmo nos momentos mais difíceis e cruéis, enquanto outros são carrancudos, amargurados, do tipo coração de pedra. Existem os extremos, o bom, o mau e o feio, como no filme de faroeste de Sérgio Leone.
Parodiando Nelson Rodrigues, eu diria que a vida é como ela é e não adianta querer decifrar o seu mistério. Uns acreditam no destino e que nada acontece por acaso. Tem a sorte e o azar, e a que os astros, os búzios regem a vida.
O cristianismo ensina que a vida não se acaba na morte e que ela pode ir para o inferno, o purgatório ou o céu. Algumas culturas africanas veneram seus ancestrais, cujos espíritos vivem nas florestas e nas montanhas mais altas.
O espírita crer na reencarnação da alma e não na morte. Até no plano sobrenatural e teológico, a vida é como ela é. No mundo perverso de hoje, você sai e não sabe se volta. Não adianta mais falar dos bons tempos de paz, harmonia e solidariedade humana.
UMA EPIDEMIA ANUNCIADA
O povo sempre é o maior culpado e termina levando a pior em tudo. Os governantes, sempre negligentes, sem planos, na base do improviso, são os maiores responsáveis e ainda vão para a mídia com suas medidas demagógicas de que estão empenhados em resolver o problem. Sempre saem de boa, com aparência de preocupados; enganam o povo direitinho. A imprensa não questiona e só noticia os fatos, por linhas tortas.
Estou falando da dengue (mais de um milhão de casos neste ano) que já matou muita gente neste país doente, que agora se vangloria de ser a décima economia do mundo onde a concentração de renda das elites aprofunda ainda mais as desigualdades sociais que fazem aumentar a fome da extrema pobreza. Discutir essas questões degradantes é ser chamado de esquerdista comunista. Ainda estamos nesse nível de mentalidade brucutu.
Quase metade do Brasil não tem saneamento básico e milhões vivem em barracos cheios de vielas de esgotos correndo a céu aberto. Era a Covid-19 que matou mais de 700 mil criaturas e agora é a dengue. Somos um país doente de sarampo, catapora e outras pestes, vírus e bactérias. O sistema de saúde é precário.
Fala-se tanto em prevenção da saúde, mas o governo é o primeiro a não fazer sua parte. No ano passado tivemos altas temperaturas e dizem que foi o El Nino o vilão das mudanças climáticas (o homem sim, é que foi o carrasco da natureza), desmatamentos das florestas, enchentes, catástrofes e tragédias.
Sem obras de drenagens adequadas, nas médias e grandes cidades, principalmente nas periferias, as águas ficaram empoçadas por muito tempo em locais abertos. Os terrenos vazios de propriedades de particulares e até públicas servem de criadouros do mosquito da dengue. Ficam abandonados e não se cumpre a lei de limpá-los e cercá-los sob pena de multas. Vitória da Conquista é um clássico exemplo desse descumprimento.
Tudo isso anunciado e os governos municipal, estadual e federal não tomaram nenhuma providência antecipada para evitar a proliferação desse inseto mortífero. Só agora, com seus longos blablabás, aparecem na televisão, nas rádios e nos jornais com campanhas de combate, vacinas atrasadas e ainda colocando o povo como os maiores propagadores da doença.
Para completar o enredo macabro da história, tem a cara de pau de falar de prevenção, e que a população procure de imediato os médicos nos órgãos de saúde. Quando o doente chega lá, os corredores dos hospitais, das UPAS, dos postos da família dos bairros estão simplesmente superlotados e a pessoa fica horas para ser atendida. Muitas vezes nem é examinada e volta para casa gemendo de dores, febre e outros sintomas agudos no corpo.
Em muitas cidades brasileiras, como aqui em Vitória da Conquista, existem postos sem médicos. Então o pobre desgraçado, que só serve para dar o voto, é largado à própria sorte. Muitas vezes nem consegue o pedido para fazer o teste num laboratório público, que leva 10 e até 15 dias para sair o resultado. Durante este período, ou o paciente fica bom, ou morre.
Não aguento mais esse papo furado de que nos primeiros sintomas, procure o médico, como se cada um neste Brasil sem planejamentos e feio na fita da educação e da saúde, tivesse seu próprio médico. Outra coisa é “não tome medicação sem a recomendação médica”, como se todos tivessem essa assistência na hora. Isso é uma tremenda hipocrisia e estelionato dos governos.
Infelizmente, a nossa mídia não questiona essa situação e não cobra mais ação dos responsáveis que nunca são responsabilizados e punidos. Não se sabe se por preguiça ou incompetência, as grandes empresas de comunicação, principalmente, rezam na mesma cartilha; fazem só o factual; e não mostram o outro lado. Passam o tempo todo condenando o povo, a maioria sem educação, pobres moribundos morando em favelas ao lado dos focos do mosquito.
Vivemos numa pátria que não cuida de seus filhos. Muitos até argumentam que é um exagero e que tem uns, como eu, que são pessimistas e que deturpam e rebaixam a imagem do Brasil. Repudiam a verdade e preferem ficar no limbo da mentira, da enganação e do faz de conta que tudo é uma maravilha.
Que adianta sermos os maiores exportadores de grãos com a fama de depredadores do meio ambiente e de sermos ainda uma nação atrasada? Não temos parques avançados da indústria de química fina e a ampola de um remédio para uma doença grave chega a custar 10 e até mais de 100 mil reais. Pena, mas o nosso nível ainda é de uma colônia provinciana produtora de matérias-primas que imita os países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos.
“A MÁSCARA DA ÁFRICA” II
No capítulo de “Lugares Sagrados”, do livro “A Máscara da África”, o escritor V. S. Naipaul viaja até Lagos, na Nigéria, entre 2008/09, onde narra as tradições do sagrado africano num diálogo com seus guias turísticos e o executivo Adesina, diretor de uma multinacional. Visita babalaôs, fala das religiões estrangeiras do cristianismo e do islamismo. Ouve pessoas sobre as tradições culturais e mitos dos antepassados. As igrejas cristãs não conseguiram se fixar no norte da Nigéria onde predomina o muçulmano.
Naipaul afirma que os nigerianos têm sua própria noção de status. Eles se divertem com coisas que outras pessoas levariam a sério. Um passaporte diplomático, com suas várias imunidades, era um dos brinquedos que tinham chegado com a independência e a criação do Estado. Em sua visita, em Lagos e outras cidades, ele observa de perto a miséria de um povo nos bairros mais pobres, mesmo com a chegada do petróleo.
Destaca que o edifício do aeroporto, conforme observou em sua chegada, era caótico por dentro. Nas ruas, mendigos saiam da escuridão. No hotel havia um aviso de que todo cuidado era pouco antes de entrar num taxi. No saguão do hotel ele se fixou numa escultura atraente e misteriosa africana. Me disseram que era uma figura de baile de máscaras.
O escritor cita passagens do viajante e pesquisador Mungo Park (1771-1806). Na época das guerras napoleônicas, por volta de 1790, Park descreve as crueldades e privações, na maior parte provocadas por mercadores de escravos que conduziam seus cativos acorrentados desde o interior, levando-os semidoentes e mal alimentados ao longo de 800 quilômetros até a costa, para serem vendidos e guardados nos porões dos navios atlânticos.
No livro de Park, aparece a figura do Munbo Jumbo. Na cidade de Kolor, Naipaul viu uma roupa mascarada, pendendo do alto de uma árvore. Disseram pertencer a Mumbo Jumbo, um tipo de bicho-papão, comum a todas aldeias dingas, muito empregado pelos nativos para manter suas mulheres submissas. A África era polígama nessa época.
Diz a tradição que, quando a mulher não obedecia ao marido ou fazia coisas erradas, ele chamava o Mumbo Jumbo que saia da floresta com todo seu disfarce até um ponto da aldeia onde os moradores se reuniam. Muitas vezes era o próprio marido. Canta-se e dança-se até à meia noite. Mumbo declara que a mulher é culpada. Ela é agarrada, suas roupas são arrancadas e, nua, é amarrada a um poste e espancada até o amanhecer por Mumbo e seu cajado. Os aldeões gritam de prazer e não demonstram misericórdia.
A África hoje não é mais polígama, só os muçulmanos. A Nigéria agora é rica por causa do petróleo. Essa Nigéria moderna tem a idade de oito ou dez gerações. Alguns maias dotados carregam esse fardo da juventude do país. O escritor conhece um tal de Edun que nascera em Manchester, na Inglaterra. Era um imigrante que não conhecera a tradição de cem anos atrás. Edun foi poupado do outro lado da mentalidade nigeriana que mergulha bem fundo em antigas crenças e magias, que resiste à racionalidade.
O autor também conversa com um empreiteiro que diz ser cristão iorubá. Ele veio de uma família católica e disse ter visto uma menina possuída pelo Espírito Santo, sendo purificada. Aquilo lhe deixou mais espiritual ao ponto de acreditar que existe um alfa e um ômega que nos vigia. Em sua visão, quando o homem tem educação, ele pode racionalizar melhor.
Sobre as divindades tradicionais, afirmou serem bem conhecidas internacionalmente. Existem sítios sagrados ou santuários e festivais. Edun citou um bosque onde se realiza o festival de Oxum, em Osogbo. Seguidores do orixá se reúnem ali em hordas e rezam pelo que querem com os pais e as mães de santo. Para o festival vem gente do Brasil, de Cuba, dos Estados Unidos e do Haiti e dura uma semana. No último dia, uma virgem com uma grande cabaça sobre a cabeça caminha até o rio (Oxum que também é o nome de um estado da Nigéria, cuja capital é Osogbo).
Naipaul ressalta que são muitos os orixás (deuses e deusas iorubanos) e suas histórias se entrelaçam. O empreiteiro narra muitas histórias da Nigéria, como a de pastores das igrejas que vão discretamente a um pai de santo tradicional num santuário. Havia um rei de Lagos que era chamado de obá. Existem obás (chefes) por toda Nigéria, uns hereditários e outros pagos pelo governo.
A Nigéria, antes de ser britânica, foi portuguesa. Os seus guias de viagem contam que nos velhos tempos, o obá e os chefes sentavam em esteiras e falavam uns com os outros no pátio aberto. Um amigo do norte, de Kano, lhe confidenciou que o nigeriano pode ter uma cultura equina, mas não tem amor pelos animais. Naipaul observou que não haviam cães e gatos comuns perambulando nas ruas.
Em sua viagem, o escritor também conheceu Adesina, um executivo financeiro, com qual trocou experiências e ideias sobre a Nigéria. Com ele conheceu vários santuários. O pai de Adesina, que era católico, se converteu ao islamismo por causa dos árabes comerciantes do norte. Eles traduziram o Corão para o iorubá e pregavam na mesma língua.
Quando Adesina ainda era menino, seus pais perderam todos os bens. A tribo da família foi acusada de usar amuletos para matar um homem poderoso de outra tribo. Pela tradição, ele teve que trabalhar e tomar conta da família. Ele se especializou em cálculos.
Em conversa com o escritor, Adesina revelou que todas as pessoas ricas e os guerreiros da sua tribo consultam seu adivinho ou babalaô antes de irem a qualquer lugar ou fazer qualquer transação. Até mesmo os obás têm seus babalaôs, que ocupam o nível mais alto entre os adivinhos e são chamados de arabas na terra iorubana. Se houver algum problema, o babalaô vai dizer que é preciso consultar o ifá (o rosário-de-ifá e as dezesseis sementes de dendê). No ritual, o babalaô jogo um ou o outro e lê a mensagem do oráculo.























