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PENSAMENTOS MIÚDOS (OU VAIKAIS)

(Chico Ribeiro Neto)

Como você anda?

Mastigando de lado

E andando de banda

XXX

Na escada rolante

Caiu uma lágrima

Por um instante

XXX

Notícia tem Sim e Não

Só depende do patrão

XXX

Besouro da alma

Quando pousa

Acalma

XXX

Viver é diário?

Sei não

Pergunte ao vigário

XXX

Bota a casa bonita

Pois amanhã

Chega visita

XXX

Comer ligeiro

Farinha pouca

Meu pirão primeiro

XXX

Notícia dura

Ela é bonita

Mas usa dentadura

XXX

O que é esperança?

Não é difícil

São olhos de criança

XXX

Cadê os sonhos?

O vento levou

Só um ficou

XXX

Vendedor de um pacote de saudades:

– É pra embrulhar ou o senhor vai levar assim mesmo?

XXX

“…Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro…”

(Trecho do poema “O Guardador de Rebanhos”, de Fernando Pessoa, em Ficções do Interlúdio, Poemas Completos de A. Caeiro).

Feliz Natal a todos.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

SÓ DE LUZES

Como nos anos passados, com shows e apresentações de artistas, ternos de reis, quadrilhas e shows musicais no Espaço Glauber Rocha, no Bairro Brasil, inclusive de renome nacional, neste ano, praticamente só tivemos um Natal de Luzes em Vitória da Conquista, na tradicional Praça Tancredo Neves, antiga Praça das Borboletas. No mais foram propagandas do poder executivo nos telões e apresentações desorganizadas de artistas locais no pequeno palco da Praça da Bandeira, no centro comercial. No ano passado ainda ocorreram alguns eventos artísticos no Memorial Casa Régis Pacheco porque o Conselho Municipal de Cultura liberou do seu Fundo 160 mil reais para realização de editais contemplando diversas linguagens. Neste ano de 2023 foi um total fracasso em termos de atividades culturais para o povo, conforme ressaltaram diversos artistas conquistenses. Houve até uma reclamação dos moradores em relação ao “apagão” das luzes na Tancredo Neves, por volta das 23 horas, quando as pessoas estavam se divertindo no local com suas famílias e crianças. De acordo com artistas, o Natal deste ano foi um dos piores de todos os tempos. Tudo isso é um sinal de que a nossa cultura foi abandonada em Conquista, o que é uma vergonha para uma cidade de quase 400 mil habitantes e a terceira maior da Bahia. Cadê a reforma dos equipamentos culturais? Foi só um Natal de luzes e uns pingadinhos de pisca-piscas em alguns bairros, como na Lagoa das Bateias.

CARTA DE UM NORDESTINO

Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Não existe mais carta,

Escrita à mão,

Pra falar de amor e solidão,

Só mensagens no celular,

Algumas tiras,

Curtas e apressadas,

Depois apagadas,

Palavras corretas,

Muitas erradas,

Quase sem saudades no ar,

Amenidades, mentiras

E falsidades.

 

Nos alfarrábios do meu baú

Na minha lida carpina,

Coisa da sina,

Encontrei amarelada,

Toda abarrotada,

Uma carta de um nordestino,

Contando notícias de cá e de lá,

De terras distantes sobre o lar,

De quem ficou e partiu,

Coisa de lavrador cansado,

Que bateu em retirada,

Numa longa estrada,

Na poeira do pau-de-arara,

Deixando o canto da juriti,

Do nambu, do sofrer e da arara.

 

A carta do nordestino,

Como no choro de um menino:

Falava dos gaviões e urubus,

No canto a foice e a enxada,

De mantimentos quase nada,

Mulher e filhos quase nus,

Da dor da fome danada,

Das lágrimas, soluço entalados,

Do gadinho e das plantações,

Do governo que faz de conta,

Que dá carro-pipa e acode,

E mal socorre o bode.

 

O cachorro sempre deitado,

Dizia a carta:

Nem mais late e morde,

O jeito é apelar pra fé,

Pra esperança e a sorte,

E acreditar na safra farta,

Que o sertanejo é um forte.

 

A carta ainda narrava:

Aqui estou,

Do alto de uma construção,

Sendo escravo de patrão,

Mas um dia eu volto,

Quando o aguaceiro cair,

A terra molhar, o verde sair,

Ver a flor brotar seu botão,

Pra cuidar da minha terrinha,

E até promessa e penitência,

Fez pra sua santinha,

Para subir de joelhos,

O morro da Paciência.

AS AÇÕES DE “CARIDADE” NÃO TRANSFORMAM O CIDADÃO E NEM MUDAM SEU NÍVEL SOCIAL

Longe de mim criticar aqui as ações de “caridade”, cidadania ou solidariedade, como queiram, em favor dos mais necessitados através de doações de alimentos, o chamado Sopão, brinquedos para as crianças e outros itens. Todos fazem questão de aparecer  e falar os clichês, bordões e as frases de sempre.

No entanto, na minha modesta visão, leitura e reflexão, não são essas iniciativas que vão transformar o cidadão com uma penca de filhos “barrigas d´água e nem mudar seu nível social, econômico e educacional. Não passam de paliativos e consolos, principalmente em final de ano do espírito natalino. Depois de tudo, todos continuam como dantes…

O quadro de pobreza e miséria continua o mesmo em moradias periféricas, insalubres, sem tratamento de esgotos e até água potável, além da ignorância, o analfabetismo e a casa cheia de crianças vivendo sem a mínima dignidade humana.

Todos os finais de ano são campanhas e mais campanhas de Natal sem Fome, Natal do Bem e outros slogans que inventam, promovidas por entidades, instituições filantrópicas e ongs. Todos que dão e recebem naquele momento ficam felizes da vida, com direito a beijos, abraços e choros.

Os olhos brilham, mas dias depois voltam a derramar lágrimas quando a fome bate nas portas e a realidade retoma o seu devido lugar. Há quantos anos fazem isso e a quantos mais teremos que ver essas imagens que enchem as televisões, enquanto o Brasil permanece ostentando um dos piores índices no ensino público e onde existem as maiores desigualdades sociais do mundo?

É Feliz Natal e Boas Festas! Depois todos vãos para suas casas confortáveis saborear e banquetear suas comidas caras. A mídia televisiva, especialmente, com sua linguagem burguesa, volta seu foco e suas lentes para as mesas recheadas de chesters, perus, bacalhaus, vinhos, doces, panetones e produtos importados de várias espécies e qualidades.

É tudo colorido, luzes, festas e confraternizações. O nosso jornalismo dificilmente mostra como é o Natal na casa de um favelado, desempregado ou quem ganha um salário mínimo. As reportagens glamorosas enlouquecem os consumidores com apelos de compras; enchem a pança dos lojistas; e aumentam suas audiências. As grandes empresas jornalísticas querem é poder, lucro e bajulação.

Tudo funciona como uma máquina ou um robô, comandada pelo ser humano, que também está banalizado. Onde ficam o comprometimento e a indignação dos brasileiros para cobrar e exigir dos governos que implementem mudanças sociais sérias através de um conjunto de políticas públicas, distribuição de renda (as elites não querem) e priorização da educação?

É mais fácil dar esmolas caridosas como pregava a Igreja Católica aos seus fiéis desde os tempos do seu nascimento, com a promessa de ganhar o reino dos céus. Dois mil anos depois e ainda estamos na cultura da caridade, com os nomes de solidariedade e “amor ao próximo”. Esses jovens e essa gente em geral sabem o que é revolução social, o que é socialismo humano?

Enquanto rolam pelo Brasil a fora as doações, as campanhas e as refeições natalinas aos miseráveis dos casebres e das ruas, que são alvos prediletos dos políticos nas eleições, o Congresso Nacional imoral (um dos mais caros do planeta) reajusta os benefícios de seus parlamentares, como das emendas, das quais dizem ter direito legal; o Fundo Eleitoral fica nos 5 bilhões de reais (ainda falam que é coisa pequena); e reduz o salário mínimo, projetado para 1.421 reais e aprovado para 1.412,00.

Como a grande maioria do nosso povo, infelizmente, é inculta, lá estão eles aplaudindo e comemorando o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) somente deles porque ficam com os bolsos recheados de dinheiro. Há mais de 40 anos, ainda repórter de economia, ouvia, em entrevistas do ministro Delfim Neto, da ditadura civil-militar, afirmar que era preciso crescer o bolo para depois dividir as fatias com os pobres. O tempo passou e eles hoje mal recebem os farelos que caem de suas mesas. E como será daqui a mais esse período?

Ninguém sabe, ninguém viu e todos nós fazemos de conta que é justo e que não adianta protestar e contestar. Onde ficam a consciência social e política? Ficam no lixo ou nas cestas básicas que alimentam mais ainda a pobreza a cada ano, com os milhões de famintos nas filas dos ossos e dependentes dos chamados caridosos, daquele filho de Deus que tem compaixão.

Será que foi tudo isso que o Cristo nos ensinou, ou foi a cultura religiosa comodista da caridade, para pagar seus pecados imorais cometidos durante o ano? Muitos acham que basta realizar uma ação coletiva uma vez ao ano para apagar seus pecados, suas atitudes individualistas, suas ambições a qualquer custo, suas indiferenças, seus métodos inescrupulosos de competição e, principalmente, seus modus operandi de se calar diante dessa política de castas capitalistas oligarcas selvagens e predadoras.

É ela mesma, essa burguesia egoísta e hipócrita, que fabrica a miséria, sabendo que será socorrida por essa sociedade alienada que compactua até com a violência militar e diz que bandido bom é bandido morto. Dentro de mais quarenta ou cinquenta anos (não estarei mais vivo) talvez estaremos realizando as mesmas práticas caridosas, no mesmo estágio de pobreza extrema ou pior em termos de desenvolvimento social. Até quando vamos repetir, ver e ouvir essas mesas cenas?

 

O CÉU FOI INFORMATIZADO E O INFERNO TAMBÉM RESOLVEU ENTRAR NA ONDA

O belzebu e sua tropa de malvados cramunhões não deixaram por menos e logo que o céu foi informatizado eles resolveram entrar no esquema e estão se dando bem nessa onda virtual. O diabo, ou satanás, saiu na frente e conectou sua rede de computadores com os aparelhos de celulares dos terráqueos, instigando ódio, intolerância, pânico e terror.

Aproveitou as redes sociais das operadoras para enviar fake news, cenas de pornografias, bacanais e mortes horripilantes. As crianças e os adolescentes estão sendo as maiores vítimas do vício doentio e matador. Tratou logo de tornar a humanidade mais imbecil e idiota.

De tão divertida que está a coisa, nem precisa mais ele sair por aí atentando as pessoas a praticarem o mal. Agora tem mais tempo para descansar e tirar sua soneca sossegado. Programou até férias. Ele está até usando o nome de Deus para fazer suas maldades de matanças, guerras, massacres e atrocidades.

Só que no inferno, a empresa que os diabos contrataram para fazer a informatização, superfaturou os serviços. É que lá dentro só tem malfeitores. Políticos, empresários e gananciosos em geral trataram logo de subornar dirigentes e pegar suas polpudas comissões.

O inferno ficou mais inferno e o satanás abriu uma CPI para apurar as corrupções. Os condenados foram para as camadas mais profundas onde só fica gente da pior espécie. O Brasil, por exemplo, tem um celeiro deles, todos das elites burguesas que fabricaram a miséria de milhões.

Com um painel gigante e câmaras em todos os cantos do inferno, sentados em seus tronos de fogo e labaredas com seus tridentes, numa boa, os comandantes da infernalha assistem de camarote os horrores. Ficaram surpresos porque não tinham tanta noção que a humanidade era tão perversa e ruim.

A informatização está até servindo para tornar as coisas ainda piores na terra com as estripulias dos diabos. Por conta própria, o sistema faz tudo para aumentar as desgraças. Uma ferramenta preciosa que até elevou o PIB do inferno para as alturas.

Um dia desses o diabo chefão enviou uma mensagem para Deus com as seguintes provocações: “Em teu nome teus humanos fazem guerras, massacram os mais fracos como agora pelos teus ditos eleitos contra os palestinos onde nasceu teu filho, praticam a escravidão, jogam pedras nos terreiros de candomblé e estão arrasando tua terra, deixando-a desértica. Nem estou precisando fazer muito esforço para eles cometerem as crueldades e atrocidades. Não vais interferir”? Deus nem respondeu porque o bicho dos infernos está ganhando de goleada.

Com a informatização dos infernos e mais ofertas de compensações para os poderosos, as coisas estão fervendo no planeta terra e a chapa cada vez esquenta, meu camarada! Aqui está virando um departamento do inferno e o satanás conseguiu bilhões de seguidores malucos e bestiais. O peste ruim só faz rir de tantos adeptos que vão se juntando a ele.

 

 

O CÉU FOI INFORMATIZADO, E O INFERNO TAMBÉM

De tantas filas no portão de entrada, fichários tomando espaços, pedidos acumulados por todo canto e até documentos de registros perdidos, Deus resolveu informatizar o céu para também dar uma descansada. Antes fez uma reunião com seu filho e o Espírito Santo e ficou tudo acertado.

Chamou São Pedro e mandou contratar uma empresa especializada em programação, formar sua equipe de santos e anjos, recomendando contemplar as mulheres, negros e outras minorias para não ser processado pelas leis. Instituiu até o sistema de cotas. Maria ficou encarregada do gênero feminino. São Tomé não acreditou no que viu e Pedro ranzinza resmungou que aquilo não iria dar certo.

Tudo pronto e aquela parafernália de máquinas e computadores por todo lado ficou uma belezura. Implantou um sistema forte de segurança contra hackers e digitalizou tudo. Criou até sentenças por vídeo conferência e reuniões virtuais.  Instalou um painel da terra do tipo Big Brothers e agora é tudo no apertar do botão ou clicar nas telas.

As filas praticamente se acabaram e Deus até decidiu tirar suas sonecas mais longas e sossegado. As câmaras passaram a registrar tudo e tinha coisas de intrigas, fofocas e boatos que nem Ele sabia sobre as merdas e besteiras que faziam em seu nome. É Deus pra lá, Deus pra cá, tudo em vão.

Depois do céu informatizado, contam que Deus recebeu um recado de uma tal de “Suíça Baiana” que nem o próprio Supremo ouvia falar, pedindo chuvas e outros presentes, inclusive para o time de futebol da cidade ir para a 1ª Divisão do campeonato estadual.

São Pedro teve que explicar que se tratava de Vitória da Conquista, na Bahia/Brasil. “Ah sim, só podia ser coisa de brasileiro baiano. A cidade que espere por mais um tempo, pois está mais necessitando é de cultura. Quando a prefeita reformar os equipamentos culturais e aprovar um plano para o setor, aí eu atendo as solicitações. Gira aí a tela para outra imagem” – ordenou o Todo Poderoso.

Vez por outra a tecnologia dá um pau e sai do ar, sem falar nos intrusos e espertos que clonam cartões, trocam nomes e entram no céu como penetras. Foi então que São Pedro e outros de seus seguidores disseram: “Bem que avisamos que isso ia dar problema”.  Porém, o que importa é que Deus pode até lhe conceder umas merecidas folgas de férias.

Agora Ele está com a ideia de fazer uma conexão direta com os terráqueos que estão destruindo o planeta de cabo a rabo. A intenção é enviar mensagens escritas e áudios com advertências para os malfeitores, os corruptos, violentos, bandidos, avarentos, falsos, mentirosos e outras ruindades perversas, avisando que se continuarem assim não serão dignos do reino dos céus.

Cada comunicado negativo vai ter uma pontuação e aí o cara, ou a cara pode até ser eliminado da lista antes mesmo de morrer. Nem vão mais chegar perto do portal porque a pessoa do mal já foi condenada em vida. Seu nome vai ser simplesmente apagado.

Quem não está gostando muito disso são os políticos, trapaceiros, governantes que fazem da coisa público como se fosse sua e toda essa gente perniciosa. Não adianta deletar as mensagens. Diante de tantos erros e mazelas, inclusive contra a natureza, os celulares e notebooks aqui da terra vão ficar sobrecarregados.

É pessoal, fiquem atentos porque o céu foi informatizado e o diabo, satanás ou o belzebu também fez o mesmo para não ficar de fora e competir com Deus para ver quem leva mais almas para seu espaço. A concorrência ficou acirrada, mas sobre o inferno é outra história que conto depois.

AS CAPTURAS DE CRISTÃOS BRANCOS EM MAR RENDIAM MAIS QUE AS TERRESTRES

Os berberes muçulmanos de Túnis, Argel e Trípoli tiravam mais proveito em termos de espólios do que de escravos quando invadiam navios mercantes em alto mar na região do Mediterrâneo. De um modo geral eram nobres e bispos da Igreja Católica que transportavam bens de valor, principalmente joias preciosas. Em terra, os escravos eram em sua maior parte camponeses e pescadores, sem muito valor de resgates.

Quando uma embarcação estava prestes a ser atacada geralmente os passageiros mais notáveis procuravam se disfarçar com roupas mais simples e até com aventais de marujos, mas muitos terminavam confessando suas identidades por intermédio de espancamentos e torturas. Outros jogavam seus pertences no mar e fugiam em barcos. Porém, muitos eram pegos de surpresa e apanhados como escravos.

Carpinteiros, oficiais da marinha e armadores eram valiosos no mercado de escravos para os serviços dos reis corsários e sultões, tanto que nem eram vendidos pelo que valorizavam. Outros eram levados para o mercado denominado de “badistão” para serem comercializados ou resgatados pelos seus reis. Cada traficante tinha direito a uma cota das apreensões de acordo com a função e o financiamento investido na incursão.

Havia algumas semelhanças nos métodos adotados entre a escravidão africana no Atlântico e a muçulmana contra os cristãos, mas nada que se iguale em dimensão dos empreendimentos e aos sofrimentos impostos aos africanos. Haviam correntes, trancas e até chibatadas, mas muitos brancos eram até bem tratados e melhor alimentados quando tinham boa serventia no mercado.

Essas descrições da escravidão branca entre os séculos XVI até final do século XVIII estão no livro “Escravos Cristão, Senhores Muçulmanos”, do historiador Robert C. Davis, quando ele deixa claro que a escravidão branca ou de cristãos se tratava mais de uma represália religiosa sofrida pelos mouros quando foram perseguidos pelas Cruzadas e expulsos da Península Ibérica. Os países mais atingidos foram a Espanha, França Itália e Portugal.

Na Itália, por exemplo, por volta de 1566, os corsários acabaram se apossando de uma imensa faixa litorânea que eles conquistaram sem a menor resistência. Naquela época, as autoridades recomendavam a evacuação da população. Muitas cidades e vilarejos eram abandonados.

Mais tarde, quando os corsários piratas voltavam para novos saques encontravam largos territórios litorâneos desabitados. De acordo com testemunhas, foi assim que eles assolaram e deixaram em ruínas a Sardenha, a Córsega, Sicília, a Calábria, as costas de Nápoles, Roma, Gênova e litorais da Espanha.

A estudiosa Mirella Mafrici, por exemplo, forneceu vasto material para fundamentar as alegações feitas por observadores sobre o despovoamento levado a cabo por essas incursões escravistas por terra. Diz o autor ser mais provável que as mulheres de haréns e casas de famílias na Berbéria tenham vindo de vilarejos costeiros do que de navios capturados.

Quando os invasores levavam um grande grupo de mulheres reprodutivas, isso se tornava um duro golpe para as comunidades que já estavam em crise demográfica, dificultando sua recuperação populacional. Diversas cidades de médio porte ficavam abarrotadas de refugiados. Isso ainda era melhor para os corsários e reis atacarem porque levavam uma maior quantidade de escravos.

No entanto, pelos meados do século XVII, esses locais foram mais reforçados e as investidas dos muçulmanos se tornaram mais raras. As incursões ficaram mais arriscadas. Quando as cidades de médio porte passaram a construir muralhas e torres de proteção, os corsários passaram a focar em presas mais frágeis, como habitações isoladas, monastérios e até indivíduos sozinhos. Eles procuravam disfarçar suas embarcações como se fossem de cristãos. Os remadores eram amordaçados para não entregar o jogo.

CINDELERO NO NATAL

Chico Ribeiro Neto)

Seu Antenor achou interessante a brincadeira. Depois de tomar um vinho, começou a pensar no Natal, longe de todos os filhos e netos, e decidiu repetir um velho gesto de infância: resolveu botar na janela o seu sapato Vulcabrás número 44.

Lembrou da alegria de ganhar o primeiro velocípede e do trator que soltava fagulhas. Esperou dar perto da meia-noite, apagou todas as luzes e foi, pé ante pé, até a janela do quarto, no oitavo andar, depositar o seu sapatão. Esboçou um leve sorriso de criança e dormiu pleno.

Seu Antenor acordou às 7 da manhã com os gritos de uma vizinha lá embaixo: “Quem foi o filho da puta que fez isso?” O Vulcabrás 44 estava em cima do capô do carro zero que ela acabou de receber essa semana.

Final da história: o síndico teve que ir, de porta em porta, com o pé do Vulcabrás na mão, para tentar identificar entre os moradores o dono do sapato. Mandava um por um experimentar o sapato no pé esquerdo.

Não era o sapatinho de cristal deixado no baile pela Cinderela, mas um Vulcabrás, e quem o calçasse com perfeição não iria casar com a princesa, mas pagar os danos causados ao carro novo da irada vizinha. O Cinderelo se deu mal.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

O LIXO E O LUXO DO NATAL

Muitos devem perguntar o que tem a ver o lixo com o Natal, sem falar das festas de final de ano. Ah, tem muita coisa! Primeiro, como resultado do consumismo extravagante, acontece o aumento elevado do lixo que é jogado no planeta, principalmente de forma desordenada que entope rios e esgotos, causando enchentes que invadem as casas dos mais pobres que recebem todos entulhos. Segundo, de positivo só para o catador que ganha mais uns trocados para comprar algum alimento e dar um drible na fome. Terceiro são as discrepâncias das cenas entre o lixo e o luxo, especialmente entre os mais abastados, os mais inconsequentes que nem estão aí para o meio ambiente. São tão insensatos e irracionais que nem percebem que estão contribuindo para a autodestruição da humanidade. São os maiores hipócritas que pregam preservação, respeito à natureza para o bem das novas gerações e fazem tudo diferente. Desse tema do lixo e o luxo do Natal pode brotar uma poesia, uma crônica ou um conto malditos, mas ninguém importa para isso. Mesmo sem boas condições financeiras e induzido pela mídia burguesa, nosso povo enlouquece nessa época e só quer saber de comprar e compra sapatos, roupas, bens móveis, brinquedos, celulares, fantasias (sem necessidades) e se empanturrar nas comidas e bebidas. Depois é só curtir as ressacas do outro dia. Para tirar o peso da consciência das mazelas praticadas durante o ano, na véspera muitos costumam fazer algumas doações ou dar uns quilos de mantimentos. Essa gente idolatra mesmo é o Papai Noel e não o Cristo como abre a boca e fala.

AINDA TEM, E NÃO TEM MAIS…

Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Da colônia ao reino imperial,

Do navio no lugar da nau,

Ainda tem o banho de cuia,

O homem violento,

Que chama mulher de intuia.

 

Não tem mais

Serenata para amada

Em lua enluarada.

 

Ainda tem

A casa sem energia elétrica,

O candeeiro e o fifó,

E o alfaiate com sua fita métrica.

 

Não tem mais

Boiada e boiadeiro na estrada,

Comitiva e jornada,

Tropeiros das mercadorias,

Para abrir trilhas e vias.

 

Ainda tem

Lata d´agua na cabeça,

O ditado “cresça e apareça,

O jangadeiro e o saveiro.

 

Não tem mais

Pena melada no tinteiro,

A palavra no fio do bigode,

Nem carta de mensageiro.

 

Ainda tem

O boi que na seca berra,

O soluço do ronco da fome,

E a vilã corrupção em nossa terra.

 

Não tem mais

Criança que respeita professor,

O idoso e o senhor,

E pede benção ao pai e à mãe

Ao deitar e ao acordar.

 

Ainda tem

O ferreiro e o sapateiro,

A rezadeira e a parteira,

O retirante do Nordeste,

E o chão árido do agreste.

 

Não tem mais

O amor para sempre:

Agora é troca-troca,

Um chega e outro vai embora,

Pelo virtual se dá o fora.

 

Ainda tem

O Zé ninguém,

O patrão ganancioso,

Que faz do empregado escravo,

O pobre que ainda rói o osso,

Na lapela do noivo, o cravo.

 

Não tem mais

O consumo consciente,

Nem amigo como antigamente.

 

Ainda tem

O cigano perseguido em correria,

A cigana que lê sua mão,

No traçado da linha,

Que quase tudo advinha;

O roceiro com sua enxada,

Preconceitos e racismos,

Intolerância dos ismos,

O Severino nordestino,

Enterrado em cova rasa,

E político safado,

De fala mansa cretino,

Que promete e vasa.

 

Não tem mais

O coronel de patente,

O ensino do latim,

E a confiança em toda gente.

 

Ainda tem

Vida e morte,

Prostituta e cabaré,

Esperança e fé,

O azar e a sorte,

O coveiro pra nos embarcar

No último trem,

Até a estação do além.

 

 

 

 

 

 





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