Ele (deve ser) não canta, mas encanta com seu estalo para se acasalar. Está sempre na minha árvore florida do meu quintal (minha esposa a chama de trovão porque nunca para de crescer, mesmo sendo podada) com outros pássaros desde o amanhecer ao anoitecer, se alimentando do néctar da flor. Tem vezes até que tira a concentração das minhas leituras e dos pensamentos no alpendre, do meu rancho. Me faz esquecer até do tempo que nos devora aos poucos, lento para uns e rápido para outros. Dessa vez o beija-flor achou de pousar na palha do coqueiro. Com seu jeito de ave arisca (nem tanto assim) aquietou-se com suas assas como se pedisse para ser retratado pelas lentes da minha máquina. Tanto ele tinha certeza que esperou que eu fosse ao meu escritório e ligasse a máquina fotográfica no ponto de foco e da luz para criar a sua imagem. Me aproximei o bastante e ele posou poeticamente com seu longo bico e até olhou de soslaio. Depois deu um pequeno voo entre as folhas, continuou a estalar e a bicar as flores. Era quase final da tarde. Fui fazer meus exercícios costumeiros. O sol começou a se pôr no horizonte infinito fazendo chegar a sombra da noite. Nos despedimos do dia. O beija-flor deve ter ido para seu ninho ou para sua morada do sono, para retornar no outro alvorecer.