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:: 14/mar/2024 . 22:56

DIA MUNICIPAL DA CULTURA

NOSSA CULTURA ANDA TÃO ABANDONADA (DIZEM QUE FOI SEPULTADA EM CONQUISTA) QUE NEM O PODER PÚBLICO E A NOSSA MÍDIA LOCAL (ESQUECEU DA SUA ALDEIA) AO MENOS CITARAM O SEU DIA. TRISTEZA! PASSOU E NINGUÉM VIU. A NOSSA CULTURA ESTÁ NUA!

Infelizmente, poucos têm conhecimento porque também não é lembrado pelas instituições e a mídia em geral, mas todo 14 de março do ano é o Dia Municipal da Cultura de Vitoria da Conquista, instituído pela lei número 1.367/2006, e assinada pelo então prefeito José Raimundo Fontes. Como está a nossa cultura, nada a comemorar.

A Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, com base na lei, concede medalha de Mérito Glauber Rocha a homenageados indicados pelo Conselho Municipal de Cultura, em sessão solene marcada pela Mesa Diretora. Na ocasião, a data é comemorada pelos parlamentares, artistas e pela plenária. Pelo menos deveria.

Nas homenagens ao Dia Municipal da Cultura, é bom que se faça uma reflexão sobre o que é cultura, principalmente nesses tempos tão difíceis no âmbito municipal onde a nossa cultura não tem o lugar de destaque que merece pelo poder executivo. Estamos destruindo o que ainda resta. Outra indagação a ser feita é sobre como vai nossa cultura em Vitória da Conquista e o que se pode fazer para melhorar.

O que se tem feito ainda deixa muito a desejar, especialmente em relação a Vitória da Conquista, a terceira maior cidade da Bahia com quase 400 mil habitantes, que já foi celeiro de grandes artistas e pensadores. Não é que atualmente não existam grandes talentos, mas as nossas expressões artísticas não têm recebido o apoio merecido dos poderes públicos.

Os recursos têm sido escassos, e os governantes, infelizmente, têm colocado a cultura apenas como um jarro de decoração em suas mesas. Talvez entendam que não rende voto e alocam poucas verbas para o setor. Os artistas em geral vivem a mendigar para realizar seus projetos.

Temos muita luta pela frente para que Conquista volte à sua efervescência cultural dos anos 50, 60 e 70. Gostaria de lembra aqui que o Conselho Municipal de Cultura anterior (2021/23) empreendeu uma grande luta no sentido de criar o Plano Municipal de Cultura e instituir a Fundação Cultural. Esse Plano iria ditar as diretrizes políticas para resgatar a nossa cultura. Mais uma vez, o projeto foi emperrado pelo poder executivo que não deu o suporte necessário para sua concretização.

Neste dia não temos muito a comemorar quando há anos três equipamentos culturais – o Teatro Carlos Jheovah, o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha – continuam fechados e sem data para serem reabertos.  Com isso, os artistas conquistenses, abrangendo todas as linguagens, estão sem espaço para realizar seus ensaios e apresentações de seus trabalhos, prejudicando, principalmente, o teatro, a literatura, a dança e a música.

DIA DA POESIA

O dia 14 de março é comemorativo ao nascimento do cineasta Glauber Rocha e lembra também o nascimento de poeta Castro Alves, há 176 anos. Por isso também, o 14 de março é o Dia da Poesia, uma linguagem que é fonte de vida, mas desprezada, especialmente pelos nossos jovens em geral.

Como todos sabem, Castro Alves dedicou suas poesias às questões sociais e foi um grande defensor da libertação dos escravos. Um abolicionista que abriu portas para outros intelectuais lutarem pelo fim da escravidão no Brasil.

 

“A ÁGUA LAVA TUDO”

(Chico Ribeiro Neto)

– Você quer saber de uma coisa? Vá tomar banho!

Não sei porque algumas pessoas lhe xingam com essa frase. Eu, por exemplo, adoro tomar banho. Um banho frio de manhã, lavando a cabeça, revigora a gente, a alma e a mente. Quantas decisões a gente só toma depois de um bom banho? “Banho é um remédio”, sempre disse Dona Geralda, de Caculé, Bahia.

Quem não gosta de tomar banho, em geral, são as crianças. O menino está com o “colar” de sujeira no pescoço e tenta enganar a mãe dizendo que já tomou banho.

Konstantin Stanislavski, famoso ator e diretor russo (viveu em Moscou entre 1863 e 1938), foi criador de um famoso método de interpretação para os atores cujo maior fundamento era este: “A partir da experiência física é gerado um sentimento, e não o oposto”. Ele conta a história de um ator que fazia o papel de um suicida indeciso na janela do décimo andar de um prédio. O ator caminhava até o proscênio (o setor do palco mais perto do espectador) e mostrava aquela cara misto de pavor e indecisão. A interpretação era magistral e o diretor perguntou em que ele pensava naquele momento para fazer tanta cara de medo. “Em banho frio”, respondeu o ator. Ele tinha pavor a banho frio.

Um amigo que foi seminarista me contou que até o banho era fiscalizado. Um fiscal marcava o tempo do lado de fora. Se passasse daqueles minutos ele batia na porta: “Rumbora, anda logo”. O tempo era contado para que o seminarista não cometesse pecado com as próprias mãos.

Lá em casa, quando eu era pequeno e a grana tava curta, minha mãe Cleonice providenciava umas toalhas de saco de aniagem. Comprava os sacos e desmanchava pra fazer uma toalha que não enxugava nada, a gente passava e a água ficava.

Na década de 60 havia no interior um chuveiro de balde, que chegava a pegar 12 litros de água, com uma torneirinha em baixo. Se quisesse banho quente, tinha uma cordinha que fazia descer o chuveiro para você colocar a água morna.

Quando estudante morei numa pensão em que de manhã cedo, no banheiro, tinha um cagando, um escovando o dente e o outro tomando banho, todos na pressa para não perder a primeira aula. Quem quisesse exclusividade no banheiro tinha que acordar às 5 da manhã porque depois das 6 era o corre-corre para chegar a tempo no colégio ou faculdade, e não adiantava fechar a porta que a galera arrombava.

Meu irmão Luiz morou numa pensão no interior em que no banheiro ficava a pedra do sapo. Você tinha que tapar o buraco por onde saía a água e também entrava o sapo. Após o banho, a pedra era retirada para a água escoar.

“Você notou que eu estou tão diferente

Você notou que eu estou tão diferente

A água lava, lava, lava tudo

A água só não lava a língua dessa gente.

Já vieram me contar

Que lhe viram por aí

Em lugar tão diferente

A água lava, lava, lava tudo

A água só não lava a língua dessa gente”. (“A Água Lava Tudo”, marcha de carnaval de Jorge Gonçalves, Paquito e Romeu Gentil, grande sucesso na voz de Emilinha Borba em 1955).

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

O BEIJA-FLOR

Ele (deve ser) não canta, mas encanta com seu estalo para se acasalar. Está sempre na minha árvore florida do meu quintal (minha esposa a chama de trovão porque nunca para de crescer, mesmo sendo podada) com outros pássaros desde o amanhecer ao anoitecer, se alimentando do néctar da flor. Tem vezes até que tira a concentração das minhas leituras e dos pensamentos no alpendre, do meu rancho. Me faz esquecer até do tempo que nos devora aos poucos, lento para uns e rápido para outros. Dessa vez o beija-flor achou de pousar na palha do coqueiro. Com seu jeito de ave arisca (nem tanto assim) aquietou-se com suas assas como se pedisse para ser retratado pelas lentes da minha máquina. Tanto ele tinha certeza que esperou que eu fosse ao meu escritório e ligasse a máquina fotográfica no ponto de foco e da luz para criar a sua imagem. Me aproximei o bastante e ele posou poeticamente com seu longo bico e até olhou de soslaio. Depois deu um pequeno voo entre as folhas, continuou a estalar e a bicar as flores. Era quase final da tarde. Fui fazer meus exercícios costumeiros. O sol começou a se pôr no horizonte infinito fazendo chegar a sombra da noite. Nos despedimos do dia. O beija-flor deve ter ido para seu ninho ou para sua morada do sono, para retornar no outro alvorecer.

NO BANCO DA PRAÇA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Ninguém sabe

Qual sua graça

Do moço descalço,

De jeito candango,

Com barriga de rango,

No concreto de aço,

Que arriou e dormiu,

No banco da praça.

 

Seu nome pode ser fome,

Esguio e longo,

Drogado ou embriagado,

Faroeste Django

Do nosso Nordeste.

 

No banco da praça,

Tem o casal de namorados,

Com beijos de juras de amor,

Como num buquê de flor;

Tem o velho ancião,

Com seu tempo calendário,

Corroendo seu salário,

O desempregado,

José, Maria e João,

Que bateu de porta em porta,

Cortou avenida e praça,

E só recebeu não;

Tem o morador de rua,

A verdade nua e crua,

O bandido mafioso,

O ocioso,

E o sujeito espião.

 

No banco da praça,

Tem cronista e poeta,

Matutando enredos,

Desvendando segredos,

O intelectual,

Lendo um livro ou jornal,

O negro, branco e o pardo,

Cada um com seu fardo;

Tem o vazio,

Na madrugada de frio,

A tristeza e a alegria,

A poesia,

O fantasma que passa,

O vírus e a traça,

No banco da praça.





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