“A ÁGUA LAVA TUDO”
(Chico Ribeiro Neto)
– Você quer saber de uma coisa? Vá tomar banho!
Não sei porque algumas pessoas lhe xingam com essa frase. Eu, por exemplo, adoro tomar banho. Um banho frio de manhã, lavando a cabeça, revigora a gente, a alma e a mente. Quantas decisões a gente só toma depois de um bom banho? “Banho é um remédio”, sempre disse Dona Geralda, de Caculé, Bahia.
Quem não gosta de tomar banho, em geral, são as crianças. O menino está com o “colar” de sujeira no pescoço e tenta enganar a mãe dizendo que já tomou banho.
Konstantin Stanislavski, famoso ator e diretor russo (viveu em Moscou entre 1863 e 1938), foi criador de um famoso método de interpretação para os atores cujo maior fundamento era este: “A partir da experiência física é gerado um sentimento, e não o oposto”. Ele conta a história de um ator que fazia o papel de um suicida indeciso na janela do décimo andar de um prédio. O ator caminhava até o proscênio (o setor do palco mais perto do espectador) e mostrava aquela cara misto de pavor e indecisão. A interpretação era magistral e o diretor perguntou em que ele pensava naquele momento para fazer tanta cara de medo. “Em banho frio”, respondeu o ator. Ele tinha pavor a banho frio.
Um amigo que foi seminarista me contou que até o banho era fiscalizado. Um fiscal marcava o tempo do lado de fora. Se passasse daqueles minutos ele batia na porta: “Rumbora, anda logo”. O tempo era contado para que o seminarista não cometesse pecado com as próprias mãos.
Lá em casa, quando eu era pequeno e a grana tava curta, minha mãe Cleonice providenciava umas toalhas de saco de aniagem. Comprava os sacos e desmanchava pra fazer uma toalha que não enxugava nada, a gente passava e a água ficava.
Na década de 60 havia no interior um chuveiro de balde, que chegava a pegar 12 litros de água, com uma torneirinha em baixo. Se quisesse banho quente, tinha uma cordinha que fazia descer o chuveiro para você colocar a água morna.
Quando estudante morei numa pensão em que de manhã cedo, no banheiro, tinha um cagando, um escovando o dente e o outro tomando banho, todos na pressa para não perder a primeira aula. Quem quisesse exclusividade no banheiro tinha que acordar às 5 da manhã porque depois das 6 era o corre-corre para chegar a tempo no colégio ou faculdade, e não adiantava fechar a porta que a galera arrombava.
Meu irmão Luiz morou numa pensão no interior em que no banheiro ficava a pedra do sapo. Você tinha que tapar o buraco por onde saía a água e também entrava o sapo. Após o banho, a pedra era retirada para a água escoar.
“Você notou que eu estou tão diferente
Você notou que eu estou tão diferente
A água lava, lava, lava tudo
A água só não lava a língua dessa gente.
Já vieram me contar
Que lhe viram por aí
Em lugar tão diferente
A água lava, lava, lava tudo
A água só não lava a língua dessa gente”. (“A Água Lava Tudo”, marcha de carnaval de Jorge Gonçalves, Paquito e Romeu Gentil, grande sucesso na voz de Emilinha Borba em 1955).
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