:: dez/2020
“HISTÓRIA DO POVO CIGANO” (Parte V)
A HUMILHANTE E PENOSA ESCRAVIDÃO NA ROMÊNIA, AS MIGRAÇÕES, OS EMBARQUES PARA OS ESTADOS UNIDOS COMO IMIGRANTES, OS COSTUMES E HÁBITOS, CASAMENTOS ENTRE AS DIVERSAS TRIBOS E A IMPUREZA DAS MULHERES CIGANAS.
As leis que regiam os escravos ciganos na Valáquia e na Moldávia (Romênia) nas primeiras décadas do século XIX, segundo Angus Fraser, em seu livro “História do Povo Cigano”, pouco diferem das medidas aplicadas há quatro séculos antes. Como escravos, haviam os da Coroa (Tsigani domneshti) e os pertencentes aos mosteiros (Tsigani manastireshti) ou os boiardos.
Aqueles que pagavam tributos à Coroa dividiam-se em várias classes Lingurari (fazedores de colheres), Ursari (domadores de ursos, ferradores e latoeiros), os Rudari (mineiros) ou Aurari (ourives, garimpeiros) e os Laieshi (membros de uma horda), isto é, sem ocupação fixa. Estes últimos tinham uma boa mão para muitas coisas, especialmente para o trabalho com metais, e as mulheres se ocupavam de ler a sina e pedir esmolas.
FLAGELOS CRUÉIS E CASTIGOS
Os verdadeiros escravos, no sentido vulgar do termo, eram os Vatrasi (propriedade de um dono) que serviam de lacaios, cocheiros, cozinheiros e criados de seus donos. Alguns podiam viver nas aldeias como barbeiros, alfaiates, sapateiros ou ferradores. O interessante é que os melhores músicos eram os Vatrasi. Pelo trabalho que exerciam, pagavam impostos aos seus donos.
Como acontecia com a escravidão negra, os senhores podiam, impunemente, mandar matar os seus ciganos. As falhas eram punidas com castigos ferozes. Mihail Kogalniceanu, um romeno que lutou pela emancipação dos ciganos, descreve que viu na capital Moldávia seres humanos com correntes nos braços e nas pernas, outros com tenazes de ferro em volta da cabeça, bem como colares de metal no pescoço. Ele testemunhou flagelos cruéis e castigos, como fome, pendurados sobre fumeiros e encarceramento em solitárias. Muitos eram atirados nus na neve.
Kogalniceanu calcula que os ciganos eram cerca de 200 mil na Valáquia e Moldávia, sendo que a maioria pertencia a donos particulares. Os movimentos de emancipação começaram por volta de 1828/34, com a ocupação russa, mas foram logo abafados. Os senhores não aceitavam. O primeiro passo foi dado por Alexander Ghica, o vaivoda da Valáquia, em 1837, quando libertou quatro mil famílias de ciganos da Coroa, e os instalou em aldeias.
Logo depois, a Moldávia seguiu o exemplo com os ciganos da Coroa, em 1842, e os mosteiros, em 1844. Gheorghe Bibesca, educado em Paris, cuidou, em 1847, que os escravos da Igreja da Valáquia também fossem libertados, mas a transição não foi rápida. Na Transilvânia, a abolição da servidão só chegou em 1848. A nova geração de romenos procurou inspiração na França e completou a tarefa.
A prática estava tão enraizada na Moldávia que o falecido ministro das Finanças, Aleku Sturza, possuía, entre seus haveres, 349 ciganos escravos, quando parte de suas propriedades foi posta à venda, em 1851. Só em 1855 Grigore Ghica, príncipe da Moldávia, promoveu a revogação do que chamou de humilhante vestígio de uma sociedade bárbara, propondo que os proprietários fossem recompensados pela perda de seus investimentos.
A compra e a venda de seres humanos foram banidas de vez, mas a Valáquia só veio a fazer o mesmo, em 1856. No entanto, a liberdade jurídica completa só ocorreu mesmo em 1864, quando foi elaborada uma nova Constituição para os principados que tinham sido transformados na Romênia.
A LÍNGUA ROMANI DOS ROM E SEUS DIALETOS
Na segunda metade do século XIX, muitas tribos ciganas se afastaram dos Balcãs e da Hungria, tornando-se mais conhecidos. Sua língua Romani estava impregnada de dialetos romenos, apelidados de Valacos. Diziam-se Rom.
Entre estes, muitos grupos Rom se destacavam os Kalderasha (caldeireiros), Lovara (negociantes de cavalos) e os Tchurara (artesãos de gamelas). Outros que vieram dos Balcãs se denominavam de Boyash (garimpeiros), Rudari (mineiros) e Ursari (amestradores de ursos). Os Kalderasha começaram a se deslocar para a Rússia, Sérvia, Bulgária e Grécia, e Escandinava, originando subdivisões, de acordo com a ocupação geográfica de cada um.
Na Polônia, os Kalderasha e Tchurara foram para a Rússia. Alguns Rom, com passaportes austríacos, fizeram caminho, em 1870, para Berlim, Bélgica e França, mas logo foram empurrados para a fronteira franco-belga. Nos Países Baixos, na Holanda, o governo achou um fenômeno novo, e a população encarrou como gente tão exótica que pagava para entrar em seus acampamentos. No princípio da década de 1870, novos bandos de Rom chegaram a França, vindos da Alemanha e atraindo multidões de visitantes curiosos.
Em 1886, um grupo de cerca de 100 gregos, vindos da Grécia, Turquia, Sérvia, Bulgária e Romênia chegaram de comboio a Liverpool. Entre os anos de 1895 e 1907 existem relatos de Ursari no sul da Escócia e norte da Inglaterra falando uma mistura de língua, mas foi no início do século XX que os Lovara, da Alemanha, que viraram atrações na Grã-Bretanha.
QUEM ARCA COM AS DÍVIDAS DOS INADIMPLENTES SÃO OS BONS PAGADORES
Todo final de ano a Serasa e as entidades representativas dos lojistas em geral limpam as dívidas dos consumidores compulsivos inadimplentes para que eles voltem a comprar mais, e no próximo ano, tudo começa novamente. Para a conta fechar e o capital não ter prejuízos, são os bons pagadores que, com as altas taxas de juros, cobrem as diferenças.
A mídia oferece total cobertura ao chamamento das instituições financeiras para que seus “clientes” compareçam aos estabelecimentos para negociar os abatimentos fabulosos. No entanto, nunca questiona quem paga. Tem devedores de 10 mil reais, oito mil, cinco mil e outros valores até maiores que saem dos acordos satisfeitos e contentes com os descontos e as facilidades obtidas. “Coisa de pai para filho”.
Ora, não estou aqui condenando essas facilidades que ocorrem todos os anos para os inadimplentes, mas não é justo que isso seja feito às custas do bom pagador que controla seu consumo e suas contas. Alguém aí acha que os lojistas, as financeiras e outras empresas perdem com esses perdões de dívidas, muitas das quais chegam a baixar até 80% ou mais do valor?
A matemática só fecha porque os preços e os juros cobrados são escorchantes, e o que os vendedores recebem dos bons pagadores compensa o perdão concedido aos inadimplentes. Como no Brasil está arraigada a cultura da malandragem e da trapaçaria, muitos se excedem nas compras de final de ano sabendo que lá na frente vão ter a negociação “benevolente”
Como bem diz o ditado, não existe almoço de graça. No preço e nos juros das mercadorias já está embutida a margem de risco, e isso é pago pelo adimplente que honra seus compromissos. Essa prática vicia o sujeito que já está acostumado a não pagar suas dívidas. No fim, “o justo paga pelos pecadores”
Nesse Brasil, tem muita gente que deixa de pagar a mensalidade da escola de seus filhos para viajar e curtir nos feriadões, e vai cada vez mais se endividando. Muitos deixam de pagar prestações da geladeira, da TV, do som ou do celular de última geração para comemorar o aniversário com os amigos, ou farrear num bar, comendo e bebendo do melhor.
É só dar uma checada para concluir que os inadimplentes das negociações sempre são quase os mesmos de todos os anos. Esse negócio que falaram de beneficiar quem tem ficha positiva como bom pagador é só teoria, conversa fiada do sistema empresarial. Tudo não passa de um esquema planejado do comércio para aumentar o consumismo ao custo daqueles que controlam suas prioridades e pagam suas contas.
“HISTÓRIA DO POVO CIGANO” (Parte IV)
UM POVO FORÇADO A SER SEDENTÁRIO, MAS QUE SEMPRE VIVIA EM CORRERIAS, FUGINDO DOS PRECONCEITOS E DAS LEIS RIGOROSAS PARA SALVAR SUAS IDENTIDADES CULTURAIS. A LIGAÇÃO ENTRE O ROMANI E O HINDI, A VISÃO DOS MOVIMENTOS ROMÂNTICOS (O FLAMENCO), OS PROTESTANTES E A QUEDA PELA MÚSICA E OS IMPACTOS DA INDUSTRIALIZAÇÃO EM SUA VIDAS.
Um acadêmico húngaro, de nome Samuel Augustini ah Hortis, fez uma série de 40 artigos num jornal de seu país, publicados entre 1775/6, falando sobre a vida cigana. Seu relato concentra-se na Hungria e a na Transilvânia, e concluiu que, embora os ciganos tenham muita coisa em comum, já não havia uma nação homogênea e nem uma cultura coletiva. Muitos receberam influência de países por onde passaram. Em sua região, eles viviam em tendas, mas passavam o inverno em cavernas. As cabanas eram mais equipadas.
De acordo com o acadêmico britânico, Angus Fraser, em seu livro “História do Povo Cigano”, essa etnia sem nação usava poucos utensílios de cozinha, como um pote de barro ou uma frigideira de ferro. Comia carne (até putrefata) ou farináceos simples. Mendigava pão e era entusiasta do álcool e do tabaco. Tinha apenas uma muda de roupa. Os negociantes de cavalos eram hábeis e sabiam muito bem impingir um rocim doente por saudável. Adotava a religião do sítio onde estivesse, mesmo sem tanta fé.
A LIGAÇÃO ENTRE O ROMANI E O HINDI DA ÍNDIA
Na verdade, o autor dos artigos, Augustini, como frisou Fraser, não levava muito em conta a moral e a cultura dos ciganos. Dizia que o mal deles estava na criação dos filhos. “Os pais os amavam, mas não os educava”. A série reconhecia a ligação entre o Romani e a Índia. Afirma o escritor do livro que, argumentos mais fortes sobre o Romani foram escritos pelo inglês Jacob Bryant, em 1785. Jacob chamou a atenção para analogias entre o Romani e as línguas indo-iranianas, com palavras importadas do grego e do eslavônico. O alemão Johann Rudiger também estabeleceu a ligação com a Índia, nomeadamente o Hindi.
No entanto, o escritor Angus Fraser dá maior credibilidade para um outro alemão, Henrich Grellmann, em seu livro “Die Zigeuner”, publicado em 1783, com uma análise mais coerente. Ele estimou a população cigana em cerca de 800 mil, e de ser profusa na Hungria, Transilvânia e por toda península Balcânica. No resto da Europa, eles eram numerosos na Espanha, na Itália e menos na França (Alsácia e Lorena). Eram escassos na Suíça, Países Baixos e na maior parte da Alemanha. Embora muitos tenham se se sedentarizados, e se tornaram escravos na Moldávia e Valáquia, a maior parte continuava a vaguear. Existiam divisões internas.
Grellmann não poupou os escândalos em sua publicação, ao citar a depravação das mulheres ciganas, e até acusações de canibalismo. Porém, se baseou mais em jornais húngaros e alemães contra 150 ciganos, 41 dos quais após confissão sob tortura. Estes foram executados por decapitação, enforcamento, roda e esquartejamento. Fraser destaca que o alemão tinha uma crença errada de que o êxodo dos ciganos da Índia tinha sido uma reação à invasão por Tamerlão, no final do século XIV. No plano social, Grellmann manifestou-se contra o banimento, como maneira de lidar com os ciganos.
A VISÃO DOS MOVIMENTOS ROMÂNTICOS
No campo literário, os ciganos atraíram os movimentos românticos e o estilo melodramático. Em 1773, a tragédia de Goethe Gotz von Berlichingen, colocava um chefe cigano no papel de um nobre selvagem. Os autores começaram a colocar os ciganos em contraste com a hipocrisia da vida comum. No século XIX se propagou que eles eram réprobos selvagens, com laivos de sobrenatural, de mistério e de crime.
Nessa linha, Cervantes, em La Gitanilla, criou personagens imaginários onde os ciganos eram responsáveis por crianças perdidas. O estereotipo estava em evidência, mas o autor Geoge Borrow procurou transmitir, em sua escrita, algo de verdadeiro. De acordo com Fraser, o Movimento Romântico se interessou pela cultura popular primitiva, com predileção pelo exótico, pelo folclore (1846), pelas danças e pelas as músicas.
Os ciganos foram arrastados por essa corrente da curiosidade humana. Descobriu-se, como assinala Fraser, que eles eram uma mina de contos, canções, costumes e superstições. No campo da historiografia, o francês Paul Bataillard, abriu uma era da história antiga dos ciganos na Europa, com uma série de artigos publicados a partir de 1843.
Na filologia, a língua Romani era vista como uma beleza antiga em decadência, sucumbindo a diferentes forças. O alemão August Friedrich Pott foi o primeiro a criar um trabalho científico sobre o Romani, intitulado “Die Zigeuner in Europa und Asien” (Os Ciganos na Europa e na Ásia), em 1844/5. Como resultado, os anos de 1860 e 1870 foram os mais dedicados aos estudos do Romani na Alemanha.
OS PROTESTANTES E A QUEDA PELA MÚSICA
UM POVO EM CORRERIAS
Venho aqui em nosso espaço fazendo uma série de comentários sobre a “História do Povo Cigano”, do grande estudioso no assunto, o acadêmico britânico, Angus Fraser. É um povo alegre, mas sua história é muito triste porque sempre viveu em correrias desde os primeiros séculos da cristandade. Alguns pesquisadores concluíram que os ciganos vieram da Índia, do Hindu (Hindi), tomando como base sua língua Romani e seus costumes das tribos daquele país. Em suas andanças pelos Balcãs, pela Grécia e por toda Europa Ocidental e Oriental eram chamados de os “Egípcios” e até sarracenos. Acolhidos no início como peregrinos, logo depois, entre os séculos XV ao XIX foram tremendamente discriminados como inúteis, preguiçosos, trapaceiros e vagabundos, como uma praga que tinha que ser exterminada. Em vários países e impérios foram torturados, esquartejados, presos, degolados, marcados em ferro e acometidos de outras atrocidades, simplesmente por serem ciganos. Foram escravos por mais de trezentos anos na Romênia, como os negros africanos, e jogados nas galés. No período nazista, mais de meio milhão foram sacrificados e exterminados como os judeus. Sempre quiseram impor o sedentarismo num povo de estilo nômade. Os preconceitos e as rejeições continuaram no pós-guerra (Segunda Guerra Mundial) e ainda persistem até hoje. Os ciganos, com seus espíritos festivos, estão associados à música e aos cavalos (fotos), seus companheiros nos negócios e no transporte de um lugar para o outro, mas também lidam com a metalurgia, o artesanato e com a leitura da mão, ou da sina, no caso das mulheres.
RASGA NO PEITO A DOR
Uma nova roupagem de RASGA NO PEITO A DOR, de autoria do jornalista e escritor jeremias Macário
Por que tenho que pagar por essa triste sina?
Oh Senhor Deus do poeta da dor esgarçada,
Olhai para esse povo no arrasto da enxada,
Na espera que dos céus desça a graça divina!
Do sol inclemente racha a terra em sal,
Num calor avernal de arder a mente,
Entre veredas secas de tantos espinhos,
Onde nem as aves fazem seus ninhos,
E rasga no peito a dor do nordestino,
Que vê esvair de fome o seu menino.
Rasga no peito essa forte dor vaga latina,
Em ver a sua mulher a chorar no fogão,
Numa escura cozinha de panelas vazias,
De olhar fundo, rosto riscado do sofrer,
Com saudades eternas da nossa menina,
Que sem o pão, caiu na esquina da morte.
Rasga no peito essa dura dor de tortura,
Pior que a dor canina de dente,
Do que enxaqueca de cabeça quente,
É essa dor que vara a alma partida,
De um povo marcado em curral de boi,
Que procura por uma justiça que se foi.
O POVO E UM GOVERNO GENOCIDA
Vão para as baladas, para as festas funks, bares e restaurantes cheios, com muita curtição, praias lotadas; participam de campanhas e vitórias nas eleições; não usam máscaras; não seguem protocolos de higienização; e depois aparecem chorando com seus parentes contaminados nas portas dos hospitais quando não encontram uma vaga nos leitos. Como ter compaixão com essas pessoas que confundem liberdade com desrespeito ao seu próximo?
Infelizmente, temos um país, único no mundo, onde o povo segue um governo genocida que não acredita na ciência e trata a Covid-19, que já matou 175 mil brasileiros, como uma “gripezinha”. Temos um general ministro da Saúde (não é médico e nada entende do assunto) que diz que as aglomerações não impactam no número de infectados, quando cita como exemplo, as eleições municipais.
Mesmo com todas as evidencias dos números de casos que só aumentam nos hospitais, o general declara em público que os ajuntamentos durante as eleições não influenciaram no quadro de contaminação no país. Os índices demonstram o contrário. Do outro lado, somos obrigados a conviver com um monte de imbecis ignorantes que nunca vão entender o que é mesmo liberdade, porque seus neurônios são como “titicas de galinha”.
Por insanidade mental, e por causar dor e sofrimento a milhões de brasileiros, desde o início da pandemia em março, esse capitão-presidente já deveria ter sido afastado do governo e julgado por um tribunal internacional por crimes de lesa-humanidade. O mais triste e angustiante é que ele tem milhares de seguidores da morte, com os símbolos das caveiras do nazifascismo exibidos no peito.
Na próxima semana, a Inglaterra já começa a vacinar sua gente, enquanto aqui só Deus saberá, porque vivemos num país sem estrutura, sem planejamento e com um governo genocida que insiste que a vacinação não seja obrigatória, dando a entender, ou incentivando a população para que não vacine. Numa situação de pandemia em que estamos, mais uma vez seremos vítimas de uma insensata liberdade.
É senhores brasileiros, não sabemos qual será nossos destinos nesse cenário de mortes e derramamento de lágrimas! Nem sabemos quando, e se seremos mesmo vacinados! Fala-se em março, mas não existe certeza diante de um governo que faz pouco do vírus, e sempre se posicionou contrário ao isolamento, e até ao uso da máscara. Como se diz no popular, estamos mesmo ferrados, num barco à deriva em alto mar!
“HISTÓRIA DO POVO CIGANO” (Parte III)
A IGREJA CATÓLICA E O COMBATE À “PRAGA CIGANA” NA EUROPA, COM PENAS DE MORTE, ENVENENAMENTOS, SEPARAÇÕES E TODOS OS TIPOS DE ATROCIDADES. O CIGANO ERA ACUSADO ATÉ DE CANIBALISMO.
Dentro do nosso roteiro do livro “História do Povo Cigano”, do autor Angus Fraser, a Espanha também apertou o cerco desde 1550. A corte se referia aos ciganos como uma praga de vagabundos. Felipe II agudizou a situação. Em 1588 aplicou severas restrições aos direitos de os ciganos venderem suas mercadorias. Criou a proposta de separar os homens das mulheres para se casarem com camponeses e colocar os filhos em orfanatos. O projeto ficou na gaveta por um tempo, mas apareceu no século XVIII.
A Igreja Católica não ficou atrás com seus preconceitos odiosos, inclusive por parte de padres e teólogos, como o Sancho Moncado que afastou a possibilidade de ser mostrada a consideração pelas mulheres e crianças. Padres inventavam boatos de roubos, heresias e rapto de crianças contra os ciganos.
“QUEM ME ENCONTRAR, PODE ME MATAR”
Em defesa de Felipe III, Moncada preferia algo mais irreversível e cita as Escrituras, para justificar a condenação dos ciganos (Gitanos) à morte, usando a passagem em que Caim diz que “serei errante e vagabundo pela terra e quem me encontrar, pode matar-me”. Ele ainda dizia que “não há lei que nos obrigue a criar filhotes de lobos para garantido detrimento futuro do rebanho”. Em 1631, o juiz Juan de Quinones enforcou cinco ciganos. Para condená-los, baseou-se em histórias de imoralidades e canibalismo.
Os ciganos eram obrigados a viver “como bons cristãos”, e quem apanhasse um itinerante poderia fazer dele um escravo. O governo precisava manter tripulações para as galés, para fortalecer as esquadras do Mediterrâneo. Eles eram apanhados para os trabalhos forçados nos navios.
Em 1695, Carlos II, o último monarca da dinastia dos Habsburgos, apertou mais ainda o regime através de um decreto que estipulava uma lista completa de todos os ciganos e suas ocupações, armas e animais. Só podiam viver em lugares com mais de 200 habitantes, e eram proibidos de desempenhar qualquer ofício não ligado à lavoura. Não podiam usar cavalos, armas ou irem a feiras e mercados.
Com os Burbons, a política ficou mais dura, principalmente nos principados de Aragão, Catalunha e Valência. Com Felipe V, o fundador da dinastia, a sanção de 1717 restringiu ainda mais os locais para morada em 41 cidades, com penas que iam de seis a oito anos nos galés para os homens, mais banimento para as mulheres, para quem descumprisse as ordens.
Seu filho Fernando VI, em 1746, alargou o número de cidades para 34. Em seu reinado, o reverendo Gaspar Vázquez, bispo de Oviédo e governador do Conselho de Castela, decidiu que os ciganos deviam ser todos passeados pela Espanha durante uma jornada de uma noite, para serem postos em locais de trabalhos forçados, sendo seus bens vendidos.
Fernando VI aceitou o conselho do bispo, e cerca de 12 mil ciganos fizeram a maldita marcha para o inferno. As galés só foram abolidas em 1748, isto por causa do surgimento de novas tecnologias de navegação naval. No entanto, os ciganos foram levados para os estaleiros navais, arsenais e para as minas de mercúrio onde centenas e milhares foram mortos por envenenamento. Nos barracões, exércitos de homens dormiam sem cobertores em estrados de madeira, com os tornozelos acorrentados às paredes.
Diante de provas de boas condutas de ciganos casados, Fernando VI voltou atrás em suas ordens e autorizou que estes podiam regressar às suas casas. O seu meio-irmão e sucessor, Carlos III, decidiu, em 1763, que todos ciganos ainda mantidos na prisão por causa da jornada noturna deviam ser postos em liberdade. No entanto, os conselheiros do rei se opuseram e o decreto só entrou em vigor em 1765.
Mesmo assim, algumas de suas propostas, como na área da educação, tiveram teor autoritários. Comparadas com três séculos de regulamentos sanguinários de José II relativos à Hungria e à Transilvânia, suas medidas representaram certo progresso. Uma das normas era eliminar o nome de ciganos para castelhanos novos. Aqueles que estivessem dispostos a obedecer aos atos, seriam autorizados a trabalhar em qualquer ofício.
A SEDENTARIZAÇÃO FORÇADA E AS DEPORTAÇÕES PARA O BRASIL.
Os restantes dos países situados fora do Império Otomano, como Portugal, Itália, Suíça, sul da Flandres, Dinamarca, Suécia e a Rússia seguiram caminhos semelhantes de banimento e sedentarização forçada em diversos graus. Portugal foi o primeiro país a recorrer à deportação para as colônias ultramarinas (Brasil) como novo método de expulsão. As colônias precisavam de gente, e os colonos necessitavam de mulheres.
As primeiras deportações para as colônias da África ocorreram no tempo de D. João III, através do decreto de 1538. Em 1574 tivemos o primeiro registro de um cigano português (Johão Torres) mandado, com sua mulher e filhos, para a o Brasil, como comutação de uma sentença às galés, pois não tinha obedecido a ordem geral de expulsão. D. João V se destacou como um dos mais carrascos e perseguidores da nação cigana, lá pelos meados do século XVIII.
As deportações para o Brasil começaram a ser organizadas em 1686, numa altura em que se dizia que as expulsões da Espanha estavam a provocar um enorme afluxo de ciganos para Portugal. Na realidade, em 1570, Felipe II proibiu os “Gitanos” de entrarem nas colônias da América, devido a informações de que eles estavam indo secretamente, e andavam a vigarizar os índios. A ordem era de que regressassem à Espanha.
AS ESQUERDAS PRECISAM MUDAR SEU DISCURSO
SE O POVO QUER IR NUMA DIREÇÃO. NÃO ADIANTA TENTAR LEVAR PARA OUTRA
Comentei aqui ao final do primeiro turno que pelos meus cálculos e em decorrência à rejeição do PT, que pouco mudou o seu discurso e não aceitou, humildemente, reconhecer seus erros do passado, iria perder as eleições em Vitória da Conquista. Aliás, isso aconteceu em Feira de Santana e em todo país. Falei com algumas pessoas da esquerda, mas não concordaram com minha leitura.
O povo deu um não aos extremismos do capitão-presidente da República, vilão do meio ambiente, com seus rompantes ofensivos ultraconservadores, e também às esquerdas, principalmente o PT, que não quis fazer uma revisão dentro do seu próprio partido. O discurso de combate ao coronavírus, com flexibilizações em tempo certo, também foi importante na votação.
DEU O DISCURSO DO CENTRO
O eleitor optou por ficar no centro. Disse que quem colasse no PT, como aconteceu com o PSB, em Conquista, não iria se dar bem. Alguns se salvaram, talvez por motivos de representação pessoal e porque já tinham suas bases construídas, mas foram poucos e esses devem adotar o diálogo.
Se o PT quer renascer seu partido das cinzas, tem que fazer um trabalho de renovação em sua linguagem, abrir um canal de diálogo com outros partidos, não mais como grande e arrogante, e voltar às suas origens de ligação com as periferias, com o campo, com as bases e com os trabalhadores, em portas de fábricas. O DEM foi rejeitado e depois renasceu porque mudou.
Não importa se Lula é inocente ou não de suas acusações, ele foi fulminado pelas próprias direitas sujas da elite burguesa que ele mesmo se aliou, para se manter no poder. Na história do Brasil, a esquerda que se coligou à burguesia, se deu mal.
O grande erro começou na eleição a presidente de 2018 quando o partido não aceitou Ciro Gomes na cabeça de chapa, e insistiu em Haddad para disputar com a extrema-direita homofóbica e racista de Bolsonaro. Aí entraram em cena o ódio e a intolerância, mas estes males vão desaparecer.
Em 2018 era o momento do PT sair de seu pedestal de arrogância e prepotência, e fazer uma aliança mais palatável, com a linguagem do povo. A extrema brotou de suas trevas e passou a propagar o PT como o satanás,
O diabo, que passou a mão nos cofres da Petrobrás e de outras estatais. Empregou o termo de comunistas a todos aqueles que estivessem ao seu lado.
Interessante que os partidos que estavam conluiados com o PT na roubalheira, como o PP e o MDB, principalmente, se deram bem nessas eleições porque pularam fora do barco e não foram alvos da extrema conservadora. O PT ficou como alvo no tiroteio cruzado, e o povo, de pouca memória, esqueceu que os outros também foram corruptos, tanto quanto.
Como não poderia deixar de ser, aqui em Conquista essa linha prevaleceu, ainda mais com o reforço dos evangélicos conservadores, dos comerciantes lojistas, empresários em geral e dos antipetistas raivosos que votaram no MDB, de Hérzem Gusmão, só para eliminar de vez o PT do cenário político da cidade.
Fosse puramente pela pessoa do professor José Raimundo, sem a colagem do PT, o resultado talvez tivesse sido diferente. Quem mais perdeu nesse pleito foi o governador Ruy Costa que “levou pau” em Salvador, Vitória da Conquista, Juazeiro (lá foi o PC do B seu coligado), Feira de Santana, Itabuna e Ilhéus, os maiores colégios eleitorais.
Aqui em Vitória da Conquista é chegada a hora do PSB, ou outro partido de esquerda moderada, fazer uma revisão de seus erros e começar a trabalhar firme com o povo para ganhar a prefeitura, em 2024, com candidatura própria, sem coligação. É hora de “arregaçar as mangas” e já trabalhar com um possível nome que tenha a aceitação popular, sem essa linguagem de bordões ultrapassados e carrancudos.
COLABORAÇÃO DO JORNALISTA CARLOS GONZALEZ
Por curiosidade fiz algumas projeções sobre as eleições em Conquista.
1º turno
Zé – 81.721 votos – 47,63%
Herzem – 78.732 votos – 45,89%
Demais candidatos – 11.132 votos – 6,49%
Votos válidos – 171.575 – 91,48%
Brancos – 4.095 – 2,18%
Nulos – 11.880 – 6,33%
Abstenções – 43.626 – 18,82%
2º turno
Herzem – 97.364 – 54%
Zé – 82.942 – 46%
Votos válidos – 180.306 – 95,31%
Brancos – 2.367 – 1,25%
Nulos – 6.509 – 3,44%
Abstenções – 41.994 – 18,17%
Como explicar que a diferença de 1,74% (cerca de 3 mil votos) em favor de Zé se transformou em 15 dias em 8% (quase 15 mil votos) em favor de Herzem?
Por que 8.371 eleitores que votaram em branco, anularam o voto e se abstiveram no 1º turno, compareceram maciçamente às urnas no domingo, com uma expressiva maioria contribuindo para a reeleição de Herzem.
Temos que admitir que a campanha de Zé na TV foi pífia. Já seu adversário foi mais incisivo, utilizando-se de fake news (associou o petista aos rituais do candomblé, provocando a repulsa dos evangélicos, bastante numerosos em Conquista). Como em todo o Brasil, o PT, vinculado pelos inimigos à corrupção, continua despertando um sentimento de ódio.
Os cientistas políticos não teriam uma resposta. É uma equação que poderia ser colocada diante de Einstein.






















