:: 9/dez/2020 . 21:06
“HISTÓRIA DO POVO CIGANO” (Parte V)
A HUMILHANTE E PENOSA ESCRAVIDÃO NA ROMÊNIA, AS MIGRAÇÕES, OS EMBARQUES PARA OS ESTADOS UNIDOS COMO IMIGRANTES, OS COSTUMES E HÁBITOS, CASAMENTOS ENTRE AS DIVERSAS TRIBOS E A IMPUREZA DAS MULHERES CIGANAS.
As leis que regiam os escravos ciganos na Valáquia e na Moldávia (Romênia) nas primeiras décadas do século XIX, segundo Angus Fraser, em seu livro “História do Povo Cigano”, pouco diferem das medidas aplicadas há quatro séculos antes. Como escravos, haviam os da Coroa (Tsigani domneshti) e os pertencentes aos mosteiros (Tsigani manastireshti) ou os boiardos.
Aqueles que pagavam tributos à Coroa dividiam-se em várias classes Lingurari (fazedores de colheres), Ursari (domadores de ursos, ferradores e latoeiros), os Rudari (mineiros) ou Aurari (ourives, garimpeiros) e os Laieshi (membros de uma horda), isto é, sem ocupação fixa. Estes últimos tinham uma boa mão para muitas coisas, especialmente para o trabalho com metais, e as mulheres se ocupavam de ler a sina e pedir esmolas.
FLAGELOS CRUÉIS E CASTIGOS
Os verdadeiros escravos, no sentido vulgar do termo, eram os Vatrasi (propriedade de um dono) que serviam de lacaios, cocheiros, cozinheiros e criados de seus donos. Alguns podiam viver nas aldeias como barbeiros, alfaiates, sapateiros ou ferradores. O interessante é que os melhores músicos eram os Vatrasi. Pelo trabalho que exerciam, pagavam impostos aos seus donos.
Como acontecia com a escravidão negra, os senhores podiam, impunemente, mandar matar os seus ciganos. As falhas eram punidas com castigos ferozes. Mihail Kogalniceanu, um romeno que lutou pela emancipação dos ciganos, descreve que viu na capital Moldávia seres humanos com correntes nos braços e nas pernas, outros com tenazes de ferro em volta da cabeça, bem como colares de metal no pescoço. Ele testemunhou flagelos cruéis e castigos, como fome, pendurados sobre fumeiros e encarceramento em solitárias. Muitos eram atirados nus na neve.
Kogalniceanu calcula que os ciganos eram cerca de 200 mil na Valáquia e Moldávia, sendo que a maioria pertencia a donos particulares. Os movimentos de emancipação começaram por volta de 1828/34, com a ocupação russa, mas foram logo abafados. Os senhores não aceitavam. O primeiro passo foi dado por Alexander Ghica, o vaivoda da Valáquia, em 1837, quando libertou quatro mil famílias de ciganos da Coroa, e os instalou em aldeias.
Logo depois, a Moldávia seguiu o exemplo com os ciganos da Coroa, em 1842, e os mosteiros, em 1844. Gheorghe Bibesca, educado em Paris, cuidou, em 1847, que os escravos da Igreja da Valáquia também fossem libertados, mas a transição não foi rápida. Na Transilvânia, a abolição da servidão só chegou em 1848. A nova geração de romenos procurou inspiração na França e completou a tarefa.
A prática estava tão enraizada na Moldávia que o falecido ministro das Finanças, Aleku Sturza, possuía, entre seus haveres, 349 ciganos escravos, quando parte de suas propriedades foi posta à venda, em 1851. Só em 1855 Grigore Ghica, príncipe da Moldávia, promoveu a revogação do que chamou de humilhante vestígio de uma sociedade bárbara, propondo que os proprietários fossem recompensados pela perda de seus investimentos.
A compra e a venda de seres humanos foram banidas de vez, mas a Valáquia só veio a fazer o mesmo, em 1856. No entanto, a liberdade jurídica completa só ocorreu mesmo em 1864, quando foi elaborada uma nova Constituição para os principados que tinham sido transformados na Romênia.
A LÍNGUA ROMANI DOS ROM E SEUS DIALETOS
Na segunda metade do século XIX, muitas tribos ciganas se afastaram dos Balcãs e da Hungria, tornando-se mais conhecidos. Sua língua Romani estava impregnada de dialetos romenos, apelidados de Valacos. Diziam-se Rom.
Entre estes, muitos grupos Rom se destacavam os Kalderasha (caldeireiros), Lovara (negociantes de cavalos) e os Tchurara (artesãos de gamelas). Outros que vieram dos Balcãs se denominavam de Boyash (garimpeiros), Rudari (mineiros) e Ursari (amestradores de ursos). Os Kalderasha começaram a se deslocar para a Rússia, Sérvia, Bulgária e Grécia, e Escandinava, originando subdivisões, de acordo com a ocupação geográfica de cada um.
Na Polônia, os Kalderasha e Tchurara foram para a Rússia. Alguns Rom, com passaportes austríacos, fizeram caminho, em 1870, para Berlim, Bélgica e França, mas logo foram empurrados para a fronteira franco-belga. Nos Países Baixos, na Holanda, o governo achou um fenômeno novo, e a população encarrou como gente tão exótica que pagava para entrar em seus acampamentos. No princípio da década de 1870, novos bandos de Rom chegaram a França, vindos da Alemanha e atraindo multidões de visitantes curiosos.
Em 1886, um grupo de cerca de 100 gregos, vindos da Grécia, Turquia, Sérvia, Bulgária e Romênia chegaram de comboio a Liverpool. Entre os anos de 1895 e 1907 existem relatos de Ursari no sul da Escócia e norte da Inglaterra falando uma mistura de língua, mas foi no início do século XX que os Lovara, da Alemanha, que viraram atrações na Grã-Bretanha.
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