“HISTÓRIA DO POVO CIGANO” (Parte V)
A HUMILHANTE E PENOSA ESCRAVIDÃO NA ROMÊNIA, AS MIGRAÇÕES, OS EMBARQUES PARA OS ESTADOS UNIDOS COMO IMIGRANTES, OS COSTUMES E HÁBITOS, CASAMENTOS ENTRE AS DIVERSAS TRIBOS E A IMPUREZA DAS MULHERES CIGANAS.
As leis que regiam os escravos ciganos na Valáquia e na Moldávia (Romênia) nas primeiras décadas do século XIX, segundo Angus Fraser, em seu livro “História do Povo Cigano”, pouco diferem das medidas aplicadas há quatro séculos antes. Como escravos, haviam os da Coroa (Tsigani domneshti) e os pertencentes aos mosteiros (Tsigani manastireshti) ou os boiardos.
Aqueles que pagavam tributos à Coroa dividiam-se em várias classes Lingurari (fazedores de colheres), Ursari (domadores de ursos, ferradores e latoeiros), os Rudari (mineiros) ou Aurari (ourives, garimpeiros) e os Laieshi (membros de uma horda), isto é, sem ocupação fixa. Estes últimos tinham uma boa mão para muitas coisas, especialmente para o trabalho com metais, e as mulheres se ocupavam de ler a sina e pedir esmolas.
FLAGELOS CRUÉIS E CASTIGOS
Os verdadeiros escravos, no sentido vulgar do termo, eram os Vatrasi (propriedade de um dono) que serviam de lacaios, cocheiros, cozinheiros e criados de seus donos. Alguns podiam viver nas aldeias como barbeiros, alfaiates, sapateiros ou ferradores. O interessante é que os melhores músicos eram os Vatrasi. Pelo trabalho que exerciam, pagavam impostos aos seus donos.
Como acontecia com a escravidão negra, os senhores podiam, impunemente, mandar matar os seus ciganos. As falhas eram punidas com castigos ferozes. Mihail Kogalniceanu, um romeno que lutou pela emancipação dos ciganos, descreve que viu na capital Moldávia seres humanos com correntes nos braços e nas pernas, outros com tenazes de ferro em volta da cabeça, bem como colares de metal no pescoço. Ele testemunhou flagelos cruéis e castigos, como fome, pendurados sobre fumeiros e encarceramento em solitárias. Muitos eram atirados nus na neve.
Kogalniceanu calcula que os ciganos eram cerca de 200 mil na Valáquia e Moldávia, sendo que a maioria pertencia a donos particulares. Os movimentos de emancipação começaram por volta de 1828/34, com a ocupação russa, mas foram logo abafados. Os senhores não aceitavam. O primeiro passo foi dado por Alexander Ghica, o vaivoda da Valáquia, em 1837, quando libertou quatro mil famílias de ciganos da Coroa, e os instalou em aldeias.
Logo depois, a Moldávia seguiu o exemplo com os ciganos da Coroa, em 1842, e os mosteiros, em 1844. Gheorghe Bibesca, educado em Paris, cuidou, em 1847, que os escravos da Igreja da Valáquia também fossem libertados, mas a transição não foi rápida. Na Transilvânia, a abolição da servidão só chegou em 1848. A nova geração de romenos procurou inspiração na França e completou a tarefa.
A prática estava tão enraizada na Moldávia que o falecido ministro das Finanças, Aleku Sturza, possuía, entre seus haveres, 349 ciganos escravos, quando parte de suas propriedades foi posta à venda, em 1851. Só em 1855 Grigore Ghica, príncipe da Moldávia, promoveu a revogação do que chamou de humilhante vestígio de uma sociedade bárbara, propondo que os proprietários fossem recompensados pela perda de seus investimentos.
A compra e a venda de seres humanos foram banidas de vez, mas a Valáquia só veio a fazer o mesmo, em 1856. No entanto, a liberdade jurídica completa só ocorreu mesmo em 1864, quando foi elaborada uma nova Constituição para os principados que tinham sido transformados na Romênia.
A LÍNGUA ROMANI DOS ROM E SEUS DIALETOS
Na segunda metade do século XIX, muitas tribos ciganas se afastaram dos Balcãs e da Hungria, tornando-se mais conhecidos. Sua língua Romani estava impregnada de dialetos romenos, apelidados de Valacos. Diziam-se Rom.
Entre estes, muitos grupos Rom se destacavam os Kalderasha (caldeireiros), Lovara (negociantes de cavalos) e os Tchurara (artesãos de gamelas). Outros que vieram dos Balcãs se denominavam de Boyash (garimpeiros), Rudari (mineiros) e Ursari (amestradores de ursos). Os Kalderasha começaram a se deslocar para a Rússia, Sérvia, Bulgária e Grécia, e Escandinava, originando subdivisões, de acordo com a ocupação geográfica de cada um.
Na Polônia, os Kalderasha e Tchurara foram para a Rússia. Alguns Rom, com passaportes austríacos, fizeram caminho, em 1870, para Berlim, Bélgica e França, mas logo foram empurrados para a fronteira franco-belga. Nos Países Baixos, na Holanda, o governo achou um fenômeno novo, e a população encarrou como gente tão exótica que pagava para entrar em seus acampamentos. No princípio da década de 1870, novos bandos de Rom chegaram a França, vindos da Alemanha e atraindo multidões de visitantes curiosos.
Em 1886, um grupo de cerca de 100 gregos, vindos da Grécia, Turquia, Sérvia, Bulgária e Romênia chegaram de comboio a Liverpool. Entre os anos de 1895 e 1907 existem relatos de Ursari no sul da Escócia e norte da Inglaterra falando uma mistura de língua, mas foi no início do século XX que os Lovara, da Alemanha, que viraram atrações na Grã-Bretanha.
Em 1906, a polícia e a imprensa fizeram uma campanha acirrada contra eles. Por onde andavam, as mulheres com moedas de ouro nos lenços de cabelo e penduradas no pescoço e no peito, ofereciam um espetáculo diferente das inglesas. Os homens se vestiam com calças largas metidas nas botas e camisas coloridas berrantes.
O MOVIMENTOS PARA OS ESTADOS UNIDOS COMO IMIGRANTES
Alguns que chegaram a Inglaterra tinham destino para as Américas, formando um elemento ainda mais importante. O ritmo do movimento cigano nos Estados Unidos seguiu o mesmo dos imigrantes, isso com mais intensidade a partir de 1815. Eles preferiram os estados de Ohio, Pennsylvânia e Virgínia, e lá empreenderam uma série de negócios peripatéticos, como venda de cavalos, latoeiros e cesteiros. As mulheres cuidavam de ler a sina.
Até 1914 chegou gente da Itália, Grécia, Rússia, Romênia e Turquia, mas, tudo indica que os primeiros a desembarcarem em Nova Iorque, em 1881, foram os Rom da Áustria-Hungria, ou turcos, seguidos de Ludar (Rudari) – artistas de espetáculo malabaristas e amestradores de animais – que declararam nacionalidade búlgara e espanhola. Alguns ciganos foram via Cuba, Canadá, México ou América do Sul, onde os regulamentos de entrada eram mais brandos. Eles embarcavam em portos do Mar do Norte.
O movimento dos imigrantes coincide com o fim da escravatura, tanto que os dialetos tinham influência romena, cuja língua era também falada fora da fronteira da Valáquia e Moldávia. Com a passagem por outros países, muitos perderam o Romani. Assinala o autor do livro, que dentro do Romani é possível identificar palavras importadas do persa, do armênio e do grego.
COSTUMES E DIFERENÇAS ENTRE OS CIGANOS
A primeira divisão do povo Rom é a que o categoriza como Kalderasha, Matachvaya, Lovara e Tchurara. Estas tribos têm diferenças de dialeto e aparência, mas se reconhecem no direito de serem chamados de Rom, e podem casar entre si. A grande subdivisão funcional é a família, que inclui os filhos casados e suas mulheres, filhos e netos. Cada lar dentro da família é chamada de tséra.
De natureza diferente é a kumpánia que pode ser constituída por pessoas de mais de uma tribo e de vários clãs. Ela é composta por várias famílias e muitas vezes é chefiada por um Rom Boró (grande homem), que atua como elo de ligação com os gadjés. Caso haja um problema a resolver, é chamado um Kris Romani (Tribunal Romani), formado por diferentes votsi, e é monopólio masculino de um conselho de anciãos. Os Lovara e os Kalderash têm fama de fazer do Kris um grande jantar. O vitsa tem importantes veículos rituais, como o dever de comparecer ao funeral e pomána (festa por morte).
Quanto aos casamentos, na teoria, o casal não participa das negociações dos esponsais, mas na prática é capaz de influenciar a escolha e tem o direito de recusar o seu consentimento para a união. O pai tem a obrigação de cuidar do casamento do filho. Após o casamento, é costume o casal ir viver com os pais do homem. A recém-casada tem o dever de cuidar dos sogros, fazer para eles o trabalho de casa e dar-lhes netos.
Um ponto interessante é o preço que o pai da noiva pede, que pode ser acima do que o Rom pode pagar. No entanto, este hábito desapareceu entre os Karderassh e os Lovara da Polônia nos anos 50. Com relação ao divórcio e o adultério, a questão pode exigir um Kris. Nessa situação fica decidido o preço da noiva a devolver.
Com o tempo, muitos hábitos foram se evoluindo. Entre os caldeireiros que chegaram a Liverpool, em 1911, tanto o homem se juntava à família extensa da sua noiva pelo casamento, como o contrário. Do mesmo modo, a instituição do Kris, embora existisse entre os Sinti da Alemanha e da Áustria, é desconhecida de muitos ciganos. A prática do preço da noiva tem paralelo entre os povos tribais da Índia.
Na cerimônia dos mortos (mulo) estão embutidas até costumes e crenças populares com o vampirismo em muitas zonas. Uma prática observada por grupos de ciganos em diferentes países tem sido a destruição da propriedade do falecido. Na Inglaterra, nos tempos das carroças-habitações estas eram queimadas depois do enterro, juntamente com seus objetos. Atualmente, com os automóveis e caminhões, é o reboque que tem que ser destruído, ou vendido para um gadjó, isto de maneira sorrateira.
No Romani, o conceito de corrupção tem diversos nomes, de acordo com o dialeto. O Rom do sueste europeu usa a palavra marimé (impuro) tirada do grego. Moxado é a forma Romani, na Inglaterra, e morgedó, na Polônia (manchado). Sânscrito – mraks (porcaria). Para um cigano ser declarado impuro é a maior vergonha que um homem pode sofrer. É a morte social, pois a marca passa-se. Tudo que ele usar e tocar fica poluído para os outros.
AS IMPUREZAS DA MULHER
Os ciganos têm dificuldade de discutir a questão da educação sexual escolar. Para eles, a grande preocupação se refere à impureza da mulher. A parte inferior do corpo da mulher é considerada marimé, e tudo o que lhe estiver associado é potencialmente sujo (órgãos genitais, roupa e alusões a sexo e gravidez).
São impostas normas rigorosas de higiene, como bacias, toalhas e sabões diferentes para as duas partes do corpo. Uma pia de cozinha, mesmo limpa, pode ser declarada marimé. Uma vasilha onde foi lavada a roupa não deve ser usada para lavar a toalha da cara, da mesa ou utensílios da cozinha. As roupas das mulheres têm que ser lavadas em separado das dos outros.
A mulher é mais impura, portanto sujeita a mais restrições e isolamento durante a maior parte de seus períodos sexuais (puberdade, menstruação, gravidez e depois do parto). Ela tem que ter cuidado com tudo que toca. Numa casa rigorosa, pode nem cozinhar ou servir comida aos homens.
Antes da puberdade e depois da menopausa são poucas as proibições. Uma rapariga, por exemplo, pode usar saias curtas e mostrar as pernas. As mais velhas podem conviver mais livremente com os homens. Os sexos são segregados em todos os acontecimentos públicos, sendo que a mulher fica em segundo lugar. Para os Rom, os gadjés são por definição impuros, pois ignoram as regras do sistema e não têm um adequado sentido da vergonha. Seus sítios e sua comida apresentam constante risco de conspurcação
.














