:: 22/dez/2020 . 23:58
O QUE É MESMO A LIBERDADE?
A vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2015, a escritora russa Svetlana Aleksiévitch, em seu livro “O Fim do Homem Soviético”, ao lembrar dos duros tempos de mais de 70 anos do regime comunista, questiona o entendimento que se fazia sobre liberdade após a Perestroika (abertura política), instituída por Mikhail Gorbatchóv, entre 1985 a 1991.
Para emitir sua opinião sobre o assunto, ela antes cita a abertura dos arquivos desde os tempos de Stalin a partir da década de 20. “Devemos arrastar conosco 90 milhões dos cem que povoam a Rússia Soviética. Com os demais é impossível falar: É preciso destruí-los. (Zinóviev, 1918).
“Moscou está literalmente morrendo de fome” – professor Kuznetsov a Tróstski. “Isso não é fome. Quando Tito tomou Jerusalém, as mães judias comeram seus próprios filhos. Quando eu fizer suas mães comerem os próprios filhos, aí você pode vir e dizer: Estamos morrendo de fome” (Tróstski, 1919).
FICAVAM CALADAS
Bem, quanto a Perestroika, a escritora diz que as pessoas liam os jornais e as revistas e ficavam caladas. “Muitos encararam a verdade e a liberdade como inimigas. Não conhecemos nosso país…” isso foi em 1991. “Fui um participante da grande batalha perdida pela renovação real da vida”. Isso foi escrito por um homem que passou dezessete anos nos campos stalinistas.
Quando veio a liberdade, Svetlana assinala que havia mais pessoas que se irritavam com a liberdade. “Cada uma se sentia vítima, mas não cúmplice”. “Onde é que estava a liberdade? Só na cozinha onde continuavam xingando o governo, como de costume”.
“A Rússia mudou, e odiou a si mesmo por ter mudado”. O mongol imóvel, como assim escreveu Marx sobre a Rússia. “Pouco tempo se passou, e nós mesmos nos curvamos sob o seu fardo, porque ninguém nos ensinou o que era a liberdade. Só nos ensinou a morrer pela liberdade”.
Quando chegou o capitalismo, ela destaca que a liberdade acabou sendo a reabilitação da pequena burguesia. “A liberdade de Sua Majestade, o Consumo”. “Ninguém fala mais de ideal; falam de crédito, de porcentagem, de câmbio; não ganham mais dinheiro, agora “faziam”, lucravam”.
“Eu perguntava para todos com quem me encontrava: O que é a liberdade? Para os pais, a liberdade é a ausência do medo. Para os filhos, “é o amor; a liberdade interna é o valor absoluto; quando você não tem medo de seus desejos: é ter muito dinheiro, porque, então, você terá tudo; quando você consegue viver de maneira a não pensar na liberdade. Liberdade é o normal”.
“Você está perguntando de liberdade? ” É só passar no nosso mercado; tem a vodca que você quiser aos montes, queijo e peixe. Tem banana. Quem precisa de mais liberdade? Isso aqui é o bastante”. Na “A Lenda do Grande Inquisidor”, de Dostoiévski, há um debate sobre liberdade. Sobre o fato de que o caminho da liberdade é difícil, penoso e trágico.
O tempo todo o ser humano deve escolher: “a liberdade ou o bem-estar e a ordem na vida: a liberdade com sofrimento ou a felicidade sem liberdade. A maioria das pessoas escolhe o segundo caminho”, responde a escritora. “Os alunos de hoje já descobriram, já sentiram na pele o que é o capitalismo: Desigualdade, pobreza e riqueza descarada”…
Eles sonham com sua própria revolução. Usam camisetas vermelhas com retratos de Lênin e Che Guevara. Há um novo culto a Stalin que aniquilou mais pessoas que Hitler. Por que um novo culto a Stalin? – Indaga a escritora. Ideais antiquadas estão de volta: do Grande Império da mão de ferro, do caminho peculiar da Rússia. O presidente tem o mesmo poder do secretário-geral. Absoluto. Em vez do marxismo-leninismo, a Igreja Ortodoxa. Existe o partido do poder, que copia o partido comunista.
Sobre as barricadas e as manifestações nas ruas contra o poder constituído, ela finaliza a fala sobre liberdade, afirmando que encontrou na rua jovens usando camisetas com a foice e o martelo e o retrato de Lênin. Será que eles sabem o que comunismo”?
No Brasil de hoje encontramos imbecis com as camisetas pedindo “Intervenção Militar”, numa alusão à ditadura. Será que eles hoje sabem o que foi a ditadura, que prendeu, torturou, desapareceu e matou centenas de pessoas que lutaram pela liberdade? O que é mesmo a liberdade?
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