:: 5/dez/2020 . 0:38
“HISTÓRIA DO POVO CIGANO” (Parte IV)
UM POVO FORÇADO A SER SEDENTÁRIO, MAS QUE SEMPRE VIVIA EM CORRERIAS, FUGINDO DOS PRECONCEITOS E DAS LEIS RIGOROSAS PARA SALVAR SUAS IDENTIDADES CULTURAIS. A LIGAÇÃO ENTRE O ROMANI E O HINDI, A VISÃO DOS MOVIMENTOS ROMÂNTICOS (O FLAMENCO), OS PROTESTANTES E A QUEDA PELA MÚSICA E OS IMPACTOS DA INDUSTRIALIZAÇÃO EM SUA VIDAS.
Um acadêmico húngaro, de nome Samuel Augustini ah Hortis, fez uma série de 40 artigos num jornal de seu país, publicados entre 1775/6, falando sobre a vida cigana. Seu relato concentra-se na Hungria e a na Transilvânia, e concluiu que, embora os ciganos tenham muita coisa em comum, já não havia uma nação homogênea e nem uma cultura coletiva. Muitos receberam influência de países por onde passaram. Em sua região, eles viviam em tendas, mas passavam o inverno em cavernas. As cabanas eram mais equipadas.
De acordo com o acadêmico britânico, Angus Fraser, em seu livro “História do Povo Cigano”, essa etnia sem nação usava poucos utensílios de cozinha, como um pote de barro ou uma frigideira de ferro. Comia carne (até putrefata) ou farináceos simples. Mendigava pão e era entusiasta do álcool e do tabaco. Tinha apenas uma muda de roupa. Os negociantes de cavalos eram hábeis e sabiam muito bem impingir um rocim doente por saudável. Adotava a religião do sítio onde estivesse, mesmo sem tanta fé.
A LIGAÇÃO ENTRE O ROMANI E O HINDI DA ÍNDIA
Na verdade, o autor dos artigos, Augustini, como frisou Fraser, não levava muito em conta a moral e a cultura dos ciganos. Dizia que o mal deles estava na criação dos filhos. “Os pais os amavam, mas não os educava”. A série reconhecia a ligação entre o Romani e a Índia. Afirma o escritor do livro que, argumentos mais fortes sobre o Romani foram escritos pelo inglês Jacob Bryant, em 1785. Jacob chamou a atenção para analogias entre o Romani e as línguas indo-iranianas, com palavras importadas do grego e do eslavônico. O alemão Johann Rudiger também estabeleceu a ligação com a Índia, nomeadamente o Hindi.
No entanto, o escritor Angus Fraser dá maior credibilidade para um outro alemão, Henrich Grellmann, em seu livro “Die Zigeuner”, publicado em 1783, com uma análise mais coerente. Ele estimou a população cigana em cerca de 800 mil, e de ser profusa na Hungria, Transilvânia e por toda península Balcânica. No resto da Europa, eles eram numerosos na Espanha, na Itália e menos na França (Alsácia e Lorena). Eram escassos na Suíça, Países Baixos e na maior parte da Alemanha. Embora muitos tenham se se sedentarizados, e se tornaram escravos na Moldávia e Valáquia, a maior parte continuava a vaguear. Existiam divisões internas.
Grellmann não poupou os escândalos em sua publicação, ao citar a depravação das mulheres ciganas, e até acusações de canibalismo. Porém, se baseou mais em jornais húngaros e alemães contra 150 ciganos, 41 dos quais após confissão sob tortura. Estes foram executados por decapitação, enforcamento, roda e esquartejamento. Fraser destaca que o alemão tinha uma crença errada de que o êxodo dos ciganos da Índia tinha sido uma reação à invasão por Tamerlão, no final do século XIV. No plano social, Grellmann manifestou-se contra o banimento, como maneira de lidar com os ciganos.
A VISÃO DOS MOVIMENTOS ROMÂNTICOS
No campo literário, os ciganos atraíram os movimentos românticos e o estilo melodramático. Em 1773, a tragédia de Goethe Gotz von Berlichingen, colocava um chefe cigano no papel de um nobre selvagem. Os autores começaram a colocar os ciganos em contraste com a hipocrisia da vida comum. No século XIX se propagou que eles eram réprobos selvagens, com laivos de sobrenatural, de mistério e de crime.
Nessa linha, Cervantes, em La Gitanilla, criou personagens imaginários onde os ciganos eram responsáveis por crianças perdidas. O estereotipo estava em evidência, mas o autor Geoge Borrow procurou transmitir, em sua escrita, algo de verdadeiro. De acordo com Fraser, o Movimento Romântico se interessou pela cultura popular primitiva, com predileção pelo exótico, pelo folclore (1846), pelas danças e pelas as músicas.
Os ciganos foram arrastados por essa corrente da curiosidade humana. Descobriu-se, como assinala Fraser, que eles eram uma mina de contos, canções, costumes e superstições. No campo da historiografia, o francês Paul Bataillard, abriu uma era da história antiga dos ciganos na Europa, com uma série de artigos publicados a partir de 1843.
Na filologia, a língua Romani era vista como uma beleza antiga em decadência, sucumbindo a diferentes forças. O alemão August Friedrich Pott foi o primeiro a criar um trabalho científico sobre o Romani, intitulado “Die Zigeuner in Europa und Asien” (Os Ciganos na Europa e na Ásia), em 1844/5. Como resultado, os anos de 1860 e 1870 foram os mais dedicados aos estudos do Romani na Alemanha.
OS PROTESTANTES E A QUEDA PELA MÚSICA
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