“HISTÓRIA DO POVO CIGANO” (Parte IV)
UM POVO FORÇADO A SER SEDENTÁRIO, MAS QUE SEMPRE VIVIA EM CORRERIAS, FUGINDO DOS PRECONCEITOS E DAS LEIS RIGOROSAS PARA SALVAR SUAS IDENTIDADES CULTURAIS. A LIGAÇÃO ENTRE O ROMANI E O HINDI, A VISÃO DOS MOVIMENTOS ROMÂNTICOS (O FLAMENCO), OS PROTESTANTES E A QUEDA PELA MÚSICA E OS IMPACTOS DA INDUSTRIALIZAÇÃO EM SUA VIDAS.
Um acadêmico húngaro, de nome Samuel Augustini ah Hortis, fez uma série de 40 artigos num jornal de seu país, publicados entre 1775/6, falando sobre a vida cigana. Seu relato concentra-se na Hungria e a na Transilvânia, e concluiu que, embora os ciganos tenham muita coisa em comum, já não havia uma nação homogênea e nem uma cultura coletiva. Muitos receberam influência de países por onde passaram. Em sua região, eles viviam em tendas, mas passavam o inverno em cavernas. As cabanas eram mais equipadas.
De acordo com o acadêmico britânico, Angus Fraser, em seu livro “História do Povo Cigano”, essa etnia sem nação usava poucos utensílios de cozinha, como um pote de barro ou uma frigideira de ferro. Comia carne (até putrefata) ou farináceos simples. Mendigava pão e era entusiasta do álcool e do tabaco. Tinha apenas uma muda de roupa. Os negociantes de cavalos eram hábeis e sabiam muito bem impingir um rocim doente por saudável. Adotava a religião do sítio onde estivesse, mesmo sem tanta fé.
A LIGAÇÃO ENTRE O ROMANI E O HINDI DA ÍNDIA
Na verdade, o autor dos artigos, Augustini, como frisou Fraser, não levava muito em conta a moral e a cultura dos ciganos. Dizia que o mal deles estava na criação dos filhos. “Os pais os amavam, mas não os educava”. A série reconhecia a ligação entre o Romani e a Índia. Afirma o escritor do livro que, argumentos mais fortes sobre o Romani foram escritos pelo inglês Jacob Bryant, em 1785. Jacob chamou a atenção para analogias entre o Romani e as línguas indo-iranianas, com palavras importadas do grego e do eslavônico. O alemão Johann Rudiger também estabeleceu a ligação com a Índia, nomeadamente o Hindi.
No entanto, o escritor Angus Fraser dá maior credibilidade para um outro alemão, Henrich Grellmann, em seu livro “Die Zigeuner”, publicado em 1783, com uma análise mais coerente. Ele estimou a população cigana em cerca de 800 mil, e de ser profusa na Hungria, Transilvânia e por toda península Balcânica. No resto da Europa, eles eram numerosos na Espanha, na Itália e menos na França (Alsácia e Lorena). Eram escassos na Suíça, Países Baixos e na maior parte da Alemanha. Embora muitos tenham se se sedentarizados, e se tornaram escravos na Moldávia e Valáquia, a maior parte continuava a vaguear. Existiam divisões internas.
Grellmann não poupou os escândalos em sua publicação, ao citar a depravação das mulheres ciganas, e até acusações de canibalismo. Porém, se baseou mais em jornais húngaros e alemães contra 150 ciganos, 41 dos quais após confissão sob tortura. Estes foram executados por decapitação, enforcamento, roda e esquartejamento. Fraser destaca que o alemão tinha uma crença errada de que o êxodo dos ciganos da Índia tinha sido uma reação à invasão por Tamerlão, no final do século XIV. No plano social, Grellmann manifestou-se contra o banimento, como maneira de lidar com os ciganos.
A VISÃO DOS MOVIMENTOS ROMÂNTICOS
No campo literário, os ciganos atraíram os movimentos românticos e o estilo melodramático. Em 1773, a tragédia de Goethe Gotz von Berlichingen, colocava um chefe cigano no papel de um nobre selvagem. Os autores começaram a colocar os ciganos em contraste com a hipocrisia da vida comum. No século XIX se propagou que eles eram réprobos selvagens, com laivos de sobrenatural, de mistério e de crime.
Nessa linha, Cervantes, em La Gitanilla, criou personagens imaginários onde os ciganos eram responsáveis por crianças perdidas. O estereotipo estava em evidência, mas o autor Geoge Borrow procurou transmitir, em sua escrita, algo de verdadeiro. De acordo com Fraser, o Movimento Romântico se interessou pela cultura popular primitiva, com predileção pelo exótico, pelo folclore (1846), pelas danças e pelas as músicas.
Os ciganos foram arrastados por essa corrente da curiosidade humana. Descobriu-se, como assinala Fraser, que eles eram uma mina de contos, canções, costumes e superstições. No campo da historiografia, o francês Paul Bataillard, abriu uma era da história antiga dos ciganos na Europa, com uma série de artigos publicados a partir de 1843.
Na filologia, a língua Romani era vista como uma beleza antiga em decadência, sucumbindo a diferentes forças. O alemão August Friedrich Pott foi o primeiro a criar um trabalho científico sobre o Romani, intitulado “Die Zigeuner in Europa und Asien” (Os Ciganos na Europa e na Ásia), em 1844/5. Como resultado, os anos de 1860 e 1870 foram os mais dedicados aos estudos do Romani na Alemanha.
OS PROTESTANTES E A QUEDA PELA MÚSICA
As igrejas protestantes se voltaram para o lado missionário, com afã de regenerar os ciganos. Fundaram colônias, escolas e oficinas para persuadir os ciganos de ficarem num só lugar. Na Escócia, criou-se até a “Sociedade para a Reforma dos Ciganos”, mas foi um fracasso. Os esforços na Prússia também falharam, mas dentro das fileiras das missões surgiram até alguns missionários ciganos, como Cornelius Smith, que nasceu numa tenda em 1831. Seu filho Gipsy Smith foi um enérgico cigano pregador capaz de reunir milhares de pessoas que, a partir de 1880, dirigiu eventos religiosos na Grã-Bretanha e no estrangeiro. A ideia era fazer com que os ciganos abandonassem suas características de vida.
Sempre os ciganos foram associados à música alegre e às danças, e a arte pesou na conquista de uma certa tolerância, como aconteceu com o patriarca Abram Wood, que entrou no País de Gales, no século XVIII, e levou consigo um violino. Seus filhos se dedicaram ao instrumento da harpa e foram bem recebidos por quase toda a parte. A queda pela música se evidenciou por toda Europa. Durante o século XIX, na Hungria, Rússia e Espanha, os ciganos se elevaram ao posto de eminências como músicos profissionais, ao ponto de quase terem passado a fazer parte da identidade nacional.
Na Hungria, muitos, conhecidos como “romungre”, Rom Húngaros, tornaram-se úteis como menestréis. Com a mistura, perderam o contato com sua música própria e faziam espetáculos nas aldeias (folclore) e para a nobreza. Em alguns lugares, a música substituiu a metalurgia. Fizeram sucessos em Viena com suas bandas, e suas músicas entraram na moda. O primeiro grande nome foi do violonista János Biharri (1764-1827). Sua orquestra era convidada para os melhores públicos, festas e banquetes. No Congresso de Viena, em 1814, tocou para os monarcas e estadistas.
Ele e seus sucessores criaram um idioma musical que passou a fazer parte da tradição popular húngara. Foram eles que melhor preservaram e representaram a música nacional “magiar”. Alguns grupos tomaram parte, com seus instrumentos, na revolução abortada de 1848/9, que deixou a Hungria submetida ao poder de Viena. Suas famas atravessaram fronteiras a partir da década de 1850 em boa parte da Europa. Ferene Bunko, maestro-chefe de todos os músicos, tocou várias vezes em Paris e em Berlim. Ficaram tão respeitados que membros da nobreza aprendiam a tocar com eles. Na Rússia, se apresentaram em saraus realizados pelos favoritos de Catarina, a Grande.
No coro de Orlov, as mulheres tinham o papel principal, e também dançavam. O instrumento, geralmente usado, era a guitarra russa de sete cordas. Além das canções camponesas de origem russa, ucraniana e polaca, as sentimentais de compositores russos forneciam o grosso do material. Na Espanha, algumas formas vocais foram mudando de tema. Com o aparecimento do flamenco, só reconhecido como tal no século XIX, a cultura andaluza sofreu impacto do estilo cigano. O flamenco teve uma longa gestação clandestina durante os tempos da repressão selvagem.
No seu cerne, estava o “cante jondo” (canto fundo), misturado com elementos bizantinos, árabe e cigano. Seus temas falavam de amor, lealdade, orgulho, ciúme, vingança, liberdade, perseguição, dor e morte, Garcia Lorca descreveu o flamenco como o “som do sangue a jorrar”. A propagação do flamenco chegou até a Índia, Pérsia, Turquia e no Balcãs. Grandes intérpretes do estilo, por volta do final do século XVIII, vinham todos de famílias ciganas sedentárias da região da Andaluzia, mas a música só adquiriu o rótulo mesmo de flamenco no século XIX. Era um nome que tinha sido dado aos próprios ciganos antes de ser aplicado à música que foi criação urbana de artistas profissionais nos cafés cantantes.
OS IMPACTOS DA INDUSTRIALIZAÇÃO
Entre os anos 1815 e 1914 aconteceram transformações intensas na industrialização e no campo social que varreram maior parte da Europa. A Inglaterra foi pioneira no deslocamento da vida rural para as cidades de operários e guarda-livros. O único lugar que não houve muitas mudanças foi na região dos Balçãs (três quartos das pessoas ainda eram camponesas). Mesmo com a industrialização e a urbanização, o impacto para os ciganos não foi tanto.
Na Espanha e na Hungria, pouco se tinha avançado em termos de mobilidade. Os ciganos formaram colônias em várias cidades espanholas. Muitos se juntaram em cavernas escavadas nas encostas do Sacro Monte, em Granada, que serviam até de atração turística. A despeito dos decretos de Filipe IV e Carlos II, o amor dos ciganos à sua própria sociedade assegurou a sobrevivência deles, e até contribuiu para a cultura da Andaluzia.
Na Hungria, a sedentarização e a concessão de terras ficaram muito a dever, mas o arquiduque Joseph Ludwig (1833-19050), estudioso da língua Romani e dos costumes dos ciganos, elaborou uma gramática e instalou uma grande colônia perto de Budapeste, e outras quatro em pequenos lugares, com trabalhos agrícolas, mas não durou muito tempo para se dispersarem.
No censo nacional de 1880, a Hungria, que tinha três vezes mais que o seu tamanho atual (Transilvânia, Eslováquia e outras regiões menores) verificou que dos 275 mil ciganos, 90% eram sedentários, sendo mais de 20 mil semi- sedentários e apenas nove mil nômades. Os padrões escolares implantados revelaram poucos sinais de integração (70% em idade escolar não frequentavam o ensino e 90% eram analfabetos).
Os ciganos sempre preferiram o trabalho autônomo, mesmo com os decretos dos governos de Maria Teresa e José II. Eles preferiam a independência e a metalurgia (ferreiros), a mais seguida, vindo depois a construção civil. O comércio estava representado nos negócios com cavalos para os homens, e a venda de ambulantes para as mulheres.
No inverno, os ciganos erguiam cabanas, mas as tendas eram as principais habitações, transportadas em carroças puxadas por cavalos. Também na Grã-Bretanha eles mostravam pouco interesse pelo trabalho assalariado, como em outros países. As leis da Polícia Distrital, de 1839 e 1856, deram origem a campanhas forçadas para expulsá-los de vários campos. Vadios e ciganos eram acusados de pequenos crimes rurais, embora os registros apontassem para os próprios residentes.
No século XIX havia outras comunidades que andavam pelas estradas à procura de emprego. Existia também uma corrente de imigrantes, inclusive irlandeses que viajavam comercializando vassouras, cestos, cavalos ou biscateiros, funileiros, oleiros e feirantes, bem como os próprios ciganos que ganhavam a vida como vendedores de porta em porta e fazendo consertos variados. Em muitas cidades criaram até comunidades com tendas permanentes, como em Liverpool. Participavam das feiras e das colheitas do lúpulo, e se embriagavam.
Mesmo diante da urbanização e da industrialização e outras pressões europeias, os ciganos foram capazes de manter suas autonomias, explorando as oportunidades criadas pelo próprio sistema dominante. Quando necessário, mudavam da aldeia para cidades, e abandonavam os velhos negócios a favor das novas atividades, sem perder a liberdades e sua identidade étnica.















