A PRESERVAÇÃO DA NOSSA HISTÓRIA AINDA RESISTE A DURAS AMEAÇAS
Quem não conhece o seu passado não pode vislumbrar o seu futuro. É uma pena lamentável que a cultura em nosso país esteja sendo destruída por falta de um maior apoio dos governantes. As instituições vivem sempre em crise, com a cuia na mão, sob ameaça de perder seus valiosos e inestimáveis acervos, como é o caso do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, guardiã da Independência da Bahia (2 de julho de 1823).
Em minha recente viagem a Salvador fui visitar o meu amigo diretor do Instituto, Fernando Souza, quando, na oportunidade, fiz a doação dos meus livros “Uma Conquista Cassada – cerco e fuzil na cidade do frio” e “Andanças” – causos, versos e prosas. Ouvi relatos das dificuldades para manutenção do Instituto Histórico que guarda nossa preciosa história em livros, jornais e revistas inéditos, muitos dos quais originais não mais encontrados em outros lugares.
Encravado na Avenida 7 de Setembro, em frente da Praça da Piedade, palco da condenação dos líderes da Revolução dos Alfaiates (Conjuração Bahiana), e ao lado do Gabinete Português, outra casa de grande valor cultural, o Instituto por si só é a própria história da Bahia que deveria estar em boas condições financeiras para preservar seu acervo, mas não é isso que ocorre.
Em conversas sobre essa questão do desprezo e até odiosa posição política contra nossa cultura, ouvi de Fernando que o Teatro da Gamboa (não desmerecendo suas atividades em prol da cultura) recebe do Governo do Estado uma maior subvenção financeira que o Instituto Histórico. Não dá para entender esse tipo de tratamento desproporcional.
Além do aporte de livros (mais de 50 mil), o Instituto possui várias relíquias do nosso poeta maior Castro Alves, como uma mexa do seu cabelo e suas obras mais importantes, intituladas “Espumas Flutuantes” e “Navio Negreiro”, grande parte escrito durante sua última viagem de navio do Rio de Janeiro para a Bahia quando já se encontrava doente.
Mesmo com parcos recursos, a direção da Casa conseguiu digitalizar grande parte dos principais jornais baianos e espera começar esse mesmo processo a partir de todo seu acervo, de modo a disponibilizar conhecimento e saber aos interessados pesquisadores pela internet. Pelo Instituto já passaram grandes nomes como de Pedro e Jorge Calmon (meu chefe de Redação do jornal A Tarde), Consuelo Pondé (tive o privilégio de ser seu aluno), Theodoro Sampaio e tantos outros que lutaram para manter a instituição em funcionamento.
Quero agradecer a boa receptividade e acolhida do meu amigo Fernando e sua equipe de trabalho, bem como agradecer pelos livros recebidos sobre “Manuel Querino”, de autoria dos colegas Carlos Alberto Dória e Jeferson Bacelar, “Mestre Josaphat – um militante da democracia”, de Luiz Almeida e a “Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia”, editada em 2020, que traz um estudo sobre “Luiz Gama – o advogado dos escravos”, de autoria de Nelson Câmara.
MUSEU CONSAGRA SALVADOR DOS GRANDES ARTISTAS DA NOSSA MÚSICA
Há muito tempo que Salvador precisava ter um museu que resgatasse a riqueza musical de seus grandes artistas que ganharam fama nacional e internacional, como João Gilberto, Gilberto Gil, Raul Seixas, Caetano Veloso, Dodô e Osmar, Luis Caldas, Tom Zé, Capinam, Assis Valente, Morais Moreira e tantos outros nomes que nos orgulham.
Com um projeto iniciado lá no governo de ACM Neto, finalmente “A Cidade da Musica da Bahia” foi inaugurada na semana passada no antigo casarão de azulejos da Cidade Baixa, na Praça Cairú, em frente do Mercado Modelo e do Elevador Lacerda, numa boa localização que revive a nossa história.
Em viagem à capital por motivo familiar, tive o privilégio de ser um dos primeiros a visitar e conhecer seu grandioso acervo musical, com um estilo que não deixa nada a dever a outras casas dessa natureza em outros países avançados. Foi como entrar no túnel do tempo! Foi um planejamento de anos que valeu a pena, com um pessoal bem treinado no quesito atendimento ao turista.
Posso dizer que fiquei encantado com o que vi lá dentro sobre a Bahia Musical, se bem que faço minhas restrições a muitos personagens de “compositores” sem conteúdos em suas letras, com músicas que deixam muito a desejar, como é o caso do axé dos tempos mais atuais. Muita coisa é lixo, na minha concepção.
No computo geral, é, sem dúvida, um apanhado histórico que fica registrado para a posteridade. Lá dentro existe uma interação muito grande entre os atores dessa linguagem artística com o público. Existem estilos para todos os gostos, como do karaokê, o funk, o sertanejo, o arrocha até o pop, a bossa nova, o samba, o reague e outras misturadas características da Bahia.
Ao entrar, me senti dentro da cultura baiana em se tratando da sua expressiva musicalidade que irradia o mundo. Lá dentro você recebe uma gama de conhecimento sobre os variados tipos de samba, a capoeira, sobre o conjunto das batidas percussionistas em harmonia com o candomblé, o rock de Raul Seixas e as festas de carnaval, Santa Bárbara, de Largo e tantas outras que atraem milhões de turistas brasileiros e do exterior.
O museu, que só enriquece mais Salvador, está em três andares do prédio todo forrado de azulejos, com cabines que apresentam ao visitante um leque variado de artistas e gente que contam as histórias dessa capital da música. O local ainda possui um estúdio de gravação para quem estiver interessado em musicar seu trabalho, uma biblioteca com obras valiosas, não apenas sobre o tema do museu, uma loja de objetos de lembrança da terra e uma lanchonete.
Lá dentro existem várias salas de exibições dos carnavais e das principais festas, com belas performances dos cantores e compositores. É claro que não podiam ficar de fora os trios elétricos criados por Dodô e Osmar, sem deixar de citar o Tapajós. Diante do poder aquisitivo do soteropolitano, considero alto o ingresso de 20 reais inteira e 10 meia.

FEIRA DE AMBULANTES NO CENTRO DEIXA A CAPITAL COM PÉSSIMA IMAGEM
Fotos do jornalista Jeremias Macário
Quando morei em Salvador durante 23 anos até início dos anos 90 andava livre pelas calçadas das avenidas 7 de Setembro (imediações da Piedade e Relógio de São Pedro com a Ladeira de São Bento) e Joana Angélica, sem a preocupação de me bater numa barraca ou banca de feira livre. Saudades daquelas noites de boemia descendo até a Barroquinha ou a Ladeira da Montanha com o Gravatá!
Nos últimos anos isso ficou impossível porque aquela área mais parece um mercado indiano ou turco ao ar livre. Estive lá na semana passada para conversar com um amigo diretor do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e fiquei, sinceramente, horrorizado com um quadro que envergonha Salvador pelo seu aspecto de feiura.
Não recomendo a visita de nenhum turista porque ele vai levar para sua terra uma péssima impressão da capital e de seus governantes que deixaram aquelas avenidas serem invadidas, mais por questões eleitoreiras que sociais. Será que não existiria outra alternativa para resolver o problema de desemprego, com a consequente informalidade?
A travessa entre o Relógio de São Pedro com a Avenida Joana Angélica até o Colégio Central se transformou numa verdadeira feira de livre de verduras, frutas e outros produtos expostos a céu aberto, sem o mínimo cuidado de higienização. Aquilo ali é um atentado à saúde pública! Até a entrada da Estação da Lapa está tomada de ambulantes.
Nos locais você se depara com barracas, tendas e bancas de camelôs onde se encontra de tudo, de verduras, hortaliças, tecidos, roupas, aparelhos de som, celulares, cintos, sapatos e uma grande variedade de objetos domésticos. Muitos produtos são vendidos no chão mesmo.
As feiras livres das cidades do interior são bem mais organizadas do que aquele amontoado de vendedores que ocuparam aquelas avenidas que fazem parte do Centro Histórico. Aquilo ali é a cara de um Brasil pobre de milhões de desempregados e muita gente vinda de fora atrás de um trabalho fixo, que passaram a viver de bicos nas ruas, comercializando bugigangas.
Não dá para transitar naquelas artérias da capital, só mesmo para quem tem um negócio para resolver ou tem um emprego fixo. Não tem como uma pessoa com problema de deficiência física andar naquelas avenidas. As calçadas estão arrebentadas e a sujeira está por todo lugar.
A Praça Castro Alves e a Avenida Chile perderam totalmente seu glamour dos tempos antigos, mesmo com os hotéis Fasano (antigo prédio do jornal A Tarde) e o Palace. É um centro vazio que perdeu seu colorido e suas atrações de antigamente onde por ali passeavam todos os dias a Mulher de Roxo e outras personagens importantes, como artistas, intelectuais, políticos, governadores e prefeitos. Até o Cine Glauber Rocha (reativado) está ameaçado de ser fechado por falta de patrocinadores, depois da saída do Itaú-Unibanco do circuito.
Não temos mais o Teatro São João, as escadarias das Lojas Americanas, o Adamastor do pai de Glauber Rocha, os bares e as cafeterias que sempre estavam cheios. O quadro é de total abandono, não mais frequentado por turistas e apreciadores daqueles pontos em frente à Baia de Todos os Santos, uma paisagem deslumbrante e bucólica de encher os olhos.
“MUITO ALÉM DO VÉU”
Ainda sobre a socióloga marroquina Fatema Mernissi, a principal temática de suas obras foi sobre a desigualdade feminina no mundo árabe-islâmico. De acordo com a historiadora Isabelle de Castro, ela questiona como reverter a submissão das mulheres, considerando que a legislação de família ainda é dominada pelos ditames e tradições da jurisprudência religiosa, mesmo no Marrocos, os julgamentos ocorrem em tribunais do Estado e não por um corpo de juristas religiosos como acontece em outros países mulçumanos, como a Arábia Saudita.
Sua obra “Além do Véu: dinâmicas masculino-femininas em uma sociedade mulçumana” é fruto de um período em que a sociedade local enfrentava novos desafios, ainda presentes, como a maior inserção das mulheres no sistema educacional e o consequente crescimento da participação da mulher no mercado de trabalho.
Ela realizou trabalho de campo em seu país visando esclarecer a natureza das relações entre ambos os sexos. “Essa questão básica nos preocupa a todos e é particularmente vital para mim, uma mulher vivendo em uma sociedade mulçumana” – afirmou.
Em seus estudos e escritos, destacou que no islã as mulheres são vistas como seres poderosos e perigosos. Diante disso, segundo ele, as instituições criadas pela religião como o véu, a poligamia, o repúdio, a segregação sexual, podem ser vistas como estratégias criadas pelos homens para controla-las. Em outras palavras: “A ordem social, então, serve como uma tentativa de subjugar seu poder e neutralizar seus efeitos desordenados”.
No entender de Fatema, as mulçumanas estão em um diálogo silencioso, mas explosivo em uma frágil classe dominante, que não tem como barrar esse processo de transformação da sociedade. A legislação marroquina define que é papel do homem ser o único provedor da família. No entanto, a manutenção da exclusão feminina no processo impede o avanço econômico.
Quanto a esse aspecto, ela cita que durante o conflito Irã-Iraque, a entrada de muitas mulheres no mercado de trabalho foi vital para a manutenção da economia e do esforço de guerra em ambos os países. A elite dominante não quer ver isso e desconsidera o papel da mulher. Isso dificulta o desenvolvimento nos países islâmicos.
Em Além do Véu, Fatema indaga o porquê de os direitos femininos serem tão escassos em países de maioria mulçumana? A religião é contrária aos direitos da mulher. A lei islâmica tem como base, além do Alcorão, os hadiths, relatos chancelados por especialistas como verdadeiros de ações e dizeres do profeta Muhammad. Argumenta que a consolidação da religião revolucionou o tratamento dado às mulheres com novas leis. Sabe-se que a prática do infanticídio feminino foi abolida com a ascensão do islã.
Em seus argumentos, assinala que duas esposas do profeta foram atuantes, inteligentes e independentes. Aisha, por exemplo, foi a primeira mulher a se lançar e assumir uma carreira política. Foi ela quem liderou a primeira resistência armada contra um califa.
Destaca que, o ataque à posição das mulheres teria se solidificado sobre o quinto califa que implantou um poder absolutista, quando houve o estabelecimento da sucessão do califado por via dinástica.
A experiência de igualdade buscada entre os primeiros mulçumanos e estabelecida pelo profeta esvaiu-se. As mulheres seriam condenadas a viver com o hijab, o lenço que cobre os cabelos femininos, um resquício da guerra civil travada entre Medina e Meca, e por pressão dos próprios companheiros do profeta.
Os especialistas (uma elite masculina) promoveram uma interpretação predominantemente patriarcal e misógina. “Você encontra no Alcorão centenas de versos que apoiam os direitos das mulheres de uma forma ou de outra, e somente alguns poucos que não fazem. Eles capturaram esses poucos e ignoraram os outros”.
Fatema tentou conciliar sua fé com seus ideais de igualdade. Demonstrou que isso seria possível com um outro olhar sobre os textos clássicos. Ela procurou não criticar os dogmas da religião, mas seus intérpretes.
O GAVIÃO E A SECA
Pelas lentes do fotógrafo José Silva, o gavião voa baixo no sol escaldante do agreste do sertão farejando uma presa para matar a fome, mas o chão está rachado pela seca que não deixou muita coisa para se alimentar. Sem flora e sem fauna, ele é um dos últimos solitários nessa paisagem cinzenta a esperar que uma graça desça dos céus, como também o catingueiro que perdeu suas lavouras e o gado. Ainda com um fio de fé e esperança, o roceiro mira todos os dias para o alto à procura de uma nuvem e um vento mais forte que deem sinais de chuva, mas nada de um cheiro dela no ar. Ele é resistente e forte como o gavião que continua a voar, e dificilmente bate em retirada. O carro-pipa corta a estrada de cascalho, cobrindo de poeira os engaços e bagaços, mas a água não chega para todos. Sempre dizem que o homem pode conviver com a seca, mas os projetos para que isso se torne realidade não saem do papel. Os programas se estacionam nas promessas vãs dos políticos. Na cultura religiosa foi Deus que assim quis, mas isso é só uma tentativa de acomodar o sertanejo para que ele continue submisso aos poderosos. Mesmo com a seca, o gavião não vai parar de fazer a sua caça e, se nada encontrar, ele bate asas para bandas mais distante, e retorna à sua terra natal nos bons tempos, como faz o sertanejo.
A DOR DO RETIRANTE
Nova versão de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Ah, Senhor Deus!
O açude secou,
Tudo ao sol se evaporou,
No lajedo o mandacaru,
Nessa imensidão do tempo,
Sem o sinal do vento,
Nem no agreste uma flor.
Ah, Senhor Deus!
Vou embora do Nordeste,
Deixar o meu sertão,
Com a benção da minha mãe,
Pra noutra terra ser peão,
Ser escravo dos capitais,
E vagar nas transversais.
Ah, Senhor Deus!
A dor doida corta o peito,
Como facada no lamento,
Ver esse feito da minha gente,
Partir como retirante,
De fome sem lavoura e alimento.
O rebanho e sem semente,
Sem nascer um rebento.
Ah, Senhor Deus!
Na grande cidade das esquinas,
Filhos soltos desgarrados,
Sinaleiras de meninos e meninas,
Vivendo de parcas esmolas,
Como alvo das chacinas,
Balas perdidas sem escolas,
Nas selvas de pedras infernais.
Ah, Senhor meu Deus!
Nos socorra se quiser,
Para um dia nós voltar,
Pra nossas roças plantar,
Fartura pra renovar a fé,
Sem nunca mais na vida,
Em terra de estranhos,
Viver a mendigar.
UMA INVASÃO DE BÁRBAROS EM NOVA YORQUE E NA ONU
Mais um tremendo estrago na imagem do nosso Brasil, com um monte de falácias, distorções nas informações, mentiras, negacionismo da ciência e contaminação da Covid-19, deixando o mundo estarrecido. Assim foi a segunda invasão de bárbaros em Nova Yorque e na ONU (a primeira foi em 2019).
Sinceramente, é um desgaste de tempo se for elencar as barbaridades, pois já foram estampadas por toda a nossa aldeia chamada terra que hoje está conectada entre todos os cantos através das redes sociais da internet. Entendo que a esta altura até os seguidores, os chamados fantasmas que saíram dos macabros armários, do capitão-presidente ficaram estarrecidos, mas nunca vão dar o braço a torcer.
Foi um torrencial de contradições que superaram as ideias e os pensamentos mais atrasados e retrógrados da Idade Média. Quem é este cara que fala de família e tem uma desajustada e corrupta, especializada em “rachadinhas”, sem contar o alinhamento com os milicianos matadores do Rio de Janeiro?
Que é este que fala em liberdade e democracia, e mobiliza seus apoiadores nas ruas para pregar a volta da ditadura, com o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal? Quem é este que desmoraliza nossa medicina dizendo que o Conselho Federal da categoria recomenda o tratamento preventivo do vírus com a adoção do medicamento cloroquina?
Quem é este que com sua turma invade Nova Yorque e a ONU, sem máscaras, para contestar as recomendações científicas mundiais de combate à pandemia? Quem é este que comanda uma caravana de doidivanas onde um médico ministro da Saúde joga seu juramento no lixo e ainda faz gestos obscenos contra uma manifestação pacífica de oposição?
Ele, o ministro, deveria se envergonhar pela sua idade e pela sua posição, mais ainda por ter sido contaminado por mera negligência médica. Que ministro da Saúde nos temos! Que vergonha! Perdoai, Senhor, porque eles não sabem o que fazem e o que dizem! Quem é este que fala em nome de Deus e atenta contra a vida de milhões de brasileiros que choram as perdas de quase 600 mil almas porque as vacinas chegaram atrasadas?
Como defender o indefensável diante de tantos paradoxos e barbaridades, com dados falsos, truncados e deturpados, tentando enganar investidores, como se fossem totalmente desinformados da atual situação econômica e social do nosso país? Será que os grandes empresários de hoje ficaram loucos ao ponto de rasgar dinheiro? Quem é este que ultraja a nossa nação? Como reconstruir toda essa imagem enxovalhada no exterior? Como recuperar o nosso meio ambiente devastado pelos desmatamentos e queimadas?
Depois de todas essas cenas de comedores de pizzas e churrascos nas ruas, com máscaras nos pescoços, como me orgulhar do meu país? São esses os nossos diletos representantes, ou seres estranhos de outro planeta? Quem são esses bárbaros que tanto repetem as palavras pátria, família e tradição, e tanto fazem para nos negar o conhecimento e o saber?
O SERTANEJO AINDA NÃO CONSEGUIU CONVIVER COM OS EFEITOS DA SECA
Fotos do jornalista Jeremias Macário
No nosso roteiro para ver de perto os efeitos da seca sobre o sertanejo, os quais perduram há séculos no cenário brasileiro porque os políticos sempre se aproveitaram dela para se eleger, como “indústria do voto”, nos deparamos (eu e o fotógrafo Zè Silva) logo na entrada do distrito de José Gonçalves com seu Tranquilino Almeida Pereira, e a primeira coisa que ele reclamou foi da falta de água pela Embasa.
Os moradores ficam dias sem o precioso líquido para o consumo e utilização doméstica, enquanto logo cedo carros-pipas cortam o agreste para atender algumas casas e povoados. Seu Tranquilino estava realizando alguns serviços com diarista. Tocamos em direção a Caetanos, pegando a poeira da estrada de chão.
História de lutas
Não demorou muito e encontramos com seu Isaias Santos numa carroça que nos contou sua longa história de lutas contra as estiagens que nos últimos anos são mais constantes por causa do próprio aquecimento global. Quanto aos carros-primas, ele denunciou que alguns recebem e outros não, não sabendo explicar ao certo se essa prática tinha algum viés político eleitoreiro. No entanto, no meio da conversa ratificou que isso sempre existiu.
Em todos encontros que tivemos com o homem do campo, ficou evidente que as perdas das lavouras foram totais. O rebanho que ainda restou está sendo alimentado com um pouco de palma que ainda vigou e palhas da cana-de açúcar colhidas das margens da Lagoa do Batista, a única que ainda não secou totalmente. Acontece que nem todos dispõem mais desses recursos.
No povoado de Tanque Velho, Gilmar Barbosa Damaceno, de 38 anos, levantava a poeira com sua foice fazendo a limpeza da cerca. Por sorte arranjou um trabalho como diarista (não por muito tempo) para completar o auxílio de 600 reais que a mulher recebe do governo federal. Debaixo do sol escaldante, ele recebe apenas minguados 50 reais pelo árduo serviço.
Gilmar é uma espécie de caseiro que, com a mulher e o filho, mora na casa do sítio de um amigo de Vitória da Conquista. Em troca ele aluga o pasto para donos de gado, isto quando o verde se renova com as chuvas, mas há quase um ano que elas não caem do céu.
Na mesma situação, próximo da Lagoa do Batista, encontramos Wilson Alves Souza, de 32, que possui nove hectares de terra, seu pai de 75 anos, Dioclides e o primo Genivaldo Gonçalves Silva, de 51. Como não tinham nada a fazer durante a seca, estavam realizando um aceiro na cerca. Todos dependem de uma diária para sobreviver, isto quando acham. Seu Dioclides ainda se vira com a pequena aposentadoria que ganha.
De acordo com eles, com a situação cada vez mais piorando, e sem expectativas, os jovens caíram fora e tomaram a direção da cidade na tentativa de arranjar algum trabalho. Como o nível de estudo é baixo, a grande maioria vive mesmo da informalização e bicos que arrumam, de vez em quando.
Ainda em Lagoa do Batista conversamos com dona Lucinete Santos Silva, de 48 anos, e seu marido Gescino Oliveira Silva, de 64 anos. Eles têm três filhos, de 10, 22 e 25 (os dois últimos foram morar na cidade) porque a roça não proporciona alternativas de vida.
Seu Gescino estava numa moto transportando cana para dar ao gado que já passa fome por falta de pastagem. Dona Lucinete ainda se vale de uma cisterna no quintal com um pouco de água que ainda sobrou. Os animais têm que percorrer alguns quilômetros para beber na Lagoa.
Passamos pelo povoado da Roseira, e em todo o nosso percurso não encontramos ninguém montado em um jumento (coisa rara de se encontrar) para se loco0mover ou transportar os produtos. No lugar do jegue, quando ainda se via há alguns anos em nossas reportagens, agora quem manda no sertão é o “cavalo de aço”, ou a moto levantando poeira como os veículos de quatro rodas.
A seca é a mesma que castiga, implacavelmente, o sertanejo e faz dele um retirante quando não mais tem água para beber e o alimento para matar a fome. A novidade maior é a tecnologia que, através de um celular, aparece na mão de cada agricultor para se comunicar com os parentes e amigos, ou acompanhar as redes sociais, cheias de mentiras e fake news.
TANQUES E BARREIROS VAZIOS PELA SECA QUE CASTIGA VITÓRIA DA CONQUISTA
Fotos de José Silva
Eu com minha máquina e Zé Silva com suas potentes lentes de alcance ganhamos a estrada na semana passada rumo ao agreste conquistense para relembrar aqueles velhos tempos de repórter quando caímos no sertão para registrar a penúria do homem do campo diante das estiagens prolongadas que destruíam lavouras e traziam fome e morte.
Há cerca de oito meses que não chove em Vitória da Conquista e região, e as consequências disso são logo visíveis nos tanques e barreiros vazios de terras rachadas, marcas de mais uma seca que há séculos é fonte de notícias para a mídia impressa e eletrônica. É um tempo de sofrimento que ainda abre passagem para os carros-pipas que cortam as estradas de chão, deixando para trás nuvens de poeiras.
Ela sempre deixa um rastro de perdas, não somente de culturas de subsistência como a mandioca, o milho, o feijão, a abóbora e outros produtos, como mata de sede e fome os rebanhos dos sertanejos. Ela também escorraça o agricultor da sua terra que se retira para outras bandas pela sua própria sobrevivência. Os jovens fogem dela para as cidades e passam a viver de bicos nas periferias.
Foi esse triste quadro que eu, jornalista há 50 anos, e o meu parceiro de labuta nas reportagens, o fotógrafo Zé Silva, testemunhamos no distrito de José Gonçalves e povoados do município de Vitória da Conquista. Há muitos anos que não compartilhávamos dessa experiência de escutar o berro do boi descarregado na caatinga à procura de uma cacimba para beber água.
Sentir o sol escaldante e o pó da poeira dos pés à cabeça foi como reviver tudo aquilo novamente quando realizávamos coberturas jornalísticas para o jornal “A Tarde”. Trazíamos em nosso embornal, ou alforje, um monte de informações não muito boas, mas que vendiam jornais no outro dia.
Ouvir e conversar com os roceiros sobre as agruras da seca, dos plantios perdidos e a falta de apoio dos poderes públicos foram atos que nos deram a certeza de que quase nada mudou para melhor nesse país dos políticos que só aparecem de quatro em quatro anos.
Vamos mais adiante em nosso blog continuar esse relato entrando em mais detalhes através dos papos com nossos entrevistados e das próprias imagens do repórter fotográfico Zè Silva, que sempre foi bom nisso e sabe captar minúcias que outros não conseguem ver. Suas lentes se ajustam muito bem aos fatos, combinando imagem, luz e foco.
A CULTURA ÁRABE-ISLÂMICA E OS DIREITOS DA MULHER POR CHEBEL E FATEMA
No livro “Intelectuais das Áfricas”, o filósofo argelino Malek Chebel se debruçou nas questões da cultura árabe-islâmica, enquanto a socióloga ativista marroquina tratou dos problemas da submissão e dos direitos das mulheres mulçumanas, com base na legislação e na religião do islã.
O pensamento de Chebel (1953-2016) é interpretado pelo historiador Murilo Sebe Bom Meihy quando escreve que o trabalho do filósofo merece destaque por retirar o monopólio do conhecimento científico das mãos dos analistas europeus, e por romper a dura supremacia dos teólogos e pensadores do Oriente Médio clássico em relação aos temas e debates sobre o islã.
Murilo destaca ainda que, “no contexto de reconstrução nacional após a independência, uma geração de jovens, incluindo Chebel, tentava sobreviver no interior de uma conjuntura política centralizadora dominada pelos líderes da emancipação, e marcada pelo flerte com o pan-arabismo, o socialismo terceiro mundista da Guerra Fria, e a crença em uma revolução social, política e cultural que não se limitasse às fronteiras da Argélia recém-criada.
De acordo com o historiador, autor de dezenas de livros, a obra de Chebel pode ser dividida em três áreas, tais como, os estudos mediterrâneos, a quebra da imagem do islã como uma ameaça para o Ocidente e a relação entre cultura e sexualidade no islã. Entre suas obras primas, Murilo cita L´esclavage em Terre d´Islam, de 2007.
Na questão sobre as formas de servidão, Murilo diz que o filósofo redireciona a bússola cultural africana para o Oriente, conectando o espaço mediterrâneo do islã ao infame caminho da escravidão que parte do Magrebe (Líbia, Tunísia, Argélia, Marrocos e Mauritânia) para o Golfo Pérsico, não antes de deixar um rastro de sofrimento envolvendo negros, brancos, europeus, africanos, crentes e infiéis.
Nesse sentido, Chebel constrói uma geografia da escravidão quando se relaciona ao território da África. Afirma em sua obra que partes específicas da rota comercial dos escravos tinham uma função bem determinada no interior da cultura escravista desenvolvida nas terras do islã. Assinala que o Egito era o cérebro do tráfico de escravos.
A QUESTÃO DO FEMINISMO
Sobre Fatema Mernissi, a abordagem coube a Isabelle Christine de Castro, doutora em História Social. Ela afirma que Fatema desenvolveu em suas obras a questão do feminismo. “Dedicou-se em sua vida (faleceu em 2015) a demonstrar a necessidade de combater o discurso de uma elite sobre uma propalada inferioridade feminina que, ao contrário do que é disseminado, não teria apoio nas escrituras religiosas”.
Assinalou que Fatema deixou bem claro em seus livros a força da mulher magrebina, mulçumana e africana com seu próprio exemplo ao desafiar o patriarcalismo global. A socióloga argumentava que, mesmo que a religião conceda privilégios aos homens, não há indicações inquestionáveis nos textos religiosos que justifiquem uma posição de subordinação às mulheres.
Isabelle enfatiza que a marroquina sempre questionou premissas tradicionais em busca de demonstrar que a igualdade de gênero não é apenas uma necessidade social, mas uma demanda da religião que se instalou na região há cerca de 14 séculos.
“Mernissi (nasceu na cidade de Fez no ano de 1940) fez parte de uma geração de marroquinas que se beneficiou da abertura promovida para a educação feminina, pouco antes da independência do Marrocos, em 1956. Ela fez doutorado em sociologia, em 1973. Ao contrário de outras mulheres ativistas, como a médica egípcia Nawal el Saadawi, a marroquina não se afastou da religião para combater a privação de direitos que muitas sociedades mulçumanas impõem à metade de seus cidadãos. Ela sempre tentou combater a subordinação feminina usando como arma os ensinamentos ligados ao islã”.
Igual a ela, muitas ousaram desafiar o mundo patriarcal, especialmente no campo da política. “Fatema optou por desafiar o establishment religioso em seus próprios termos, ao acusá-lo de promover uma interpretação equivocada dos fundamentos do islã relativos aos direitos da família. Criticou a falta de políticas estatais para atacar as desigualdades e denunciou o impacto delas sobre as mulheres. Preferiu criticar as bases do discurso religioso”.
Nesse capítulo dedicado à socióloga pela historiadora Isabelle, vamos ainda falar sobre o véu, o harém e as fronteiras e a revolução da informação.














































