Fotos do jornalista Jeremias Macário

No nosso roteiro para ver de perto os efeitos da seca sobre o sertanejo, os quais perduram há séculos no cenário brasileiro porque os políticos sempre se aproveitaram dela para se eleger, como “indústria do voto”, nos deparamos (eu e o fotógrafo Zè Silva) logo na entrada do distrito de José Gonçalves com seu Tranquilino Almeida Pereira, e a primeira coisa que ele reclamou foi da falta de água pela Embasa.

Os moradores ficam dias sem o precioso líquido para o consumo e utilização doméstica, enquanto logo cedo carros-pipas cortam o agreste para atender algumas casas e povoados. Seu Tranquilino estava realizando alguns serviços com diarista. Tocamos em direção a Caetanos, pegando a poeira da estrada de chão.

História de lutas

Não demorou muito e encontramos com seu Isaias Santos numa carroça que nos contou sua longa história de lutas contra as estiagens que nos últimos anos são mais constantes por causa do próprio aquecimento global. Quanto aos carros-primas, ele denunciou que alguns recebem e outros não, não sabendo explicar ao certo se essa prática tinha algum viés político eleitoreiro. No entanto, no meio da conversa ratificou que isso sempre existiu.

Em todos encontros que tivemos com o homem do campo, ficou evidente que as perdas das lavouras foram totais. O rebanho que ainda restou está sendo alimentado com um pouco de palma que ainda vigou e palhas da cana-de açúcar colhidas das margens da Lagoa do Batista, a única que ainda não secou totalmente. Acontece que nem todos dispõem mais desses recursos.

No povoado de Tanque Velho, Gilmar Barbosa Damaceno, de 38 anos, levantava a poeira com sua foice fazendo a limpeza da cerca. Por sorte arranjou um trabalho como diarista (não por muito tempo) para completar o auxílio de 600 reais que a mulher recebe do governo federal.  Debaixo do sol escaldante, ele recebe apenas minguados 50 reais pelo árduo serviço.

Gilmar é uma espécie de caseiro que, com a mulher e o filho, mora na casa do sítio de um amigo de Vitória da Conquista. Em troca ele aluga o pasto para donos de gado, isto quando o verde se renova com as chuvas, mas há quase um ano que elas não caem do céu.

Na mesma situação, próximo da Lagoa do Batista, encontramos Wilson Alves Souza, de 32, que possui nove hectares de terra, seu pai de 75 anos, Dioclides e o primo Genivaldo Gonçalves Silva, de 51. Como não tinham nada a fazer durante a seca, estavam realizando um aceiro na cerca. Todos dependem de uma diária para sobreviver, isto quando acham. Seu Dioclides ainda se vira com a pequena aposentadoria que ganha.

De acordo com eles, com a situação cada vez mais piorando, e sem expectativas, os jovens caíram fora e tomaram a direção da cidade na tentativa de arranjar algum trabalho. Como o nível de estudo é baixo, a grande maioria vive mesmo da informalização e bicos que arrumam, de vez em quando.

Ainda em Lagoa do Batista conversamos com dona Lucinete Santos Silva, de 48 anos, e seu marido Gescino Oliveira Silva, de 64 anos. Eles têm três filhos, de 10, 22 e 25 (os dois últimos foram morar na cidade) porque a roça não proporciona alternativas de vida.

Seu Gescino estava numa moto transportando cana para dar ao gado que já passa fome por falta de pastagem. Dona Lucinete ainda se vale de uma cisterna no quintal com um pouco de água que ainda sobrou.  Os animais têm que percorrer alguns quilômetros para beber na Lagoa.

Passamos pelo povoado da Roseira, e em todo o nosso percurso não encontramos ninguém montado em um jumento (coisa rara de se encontrar) para se loco0mover ou transportar os produtos. No lugar do jegue, quando ainda se via há alguns anos em nossas reportagens, agora quem manda no sertão é o “cavalo de aço”, ou a moto levantando poeira como os veículos de quatro rodas.

A seca é a mesma que castiga, implacavelmente, o sertanejo e faz dele um retirante quando não mais tem água para beber e o alimento para matar a fome. A novidade maior é a tecnologia que, através de um celular, aparece na mão de cada agricultor para se comunicar com os parentes e amigos, ou acompanhar as redes sociais, cheias de mentiras e fake news.