DE ESTILINGUE A FOGOS DE SÃO JOÃO
Eu e meus compadres João Catingueiro, de Guanambi, e Vate da Viola, mais os cabras Severino e Sirino já estamos de mochilas prontas para partir para o Vale dos Cocais de Goiás em busca do fugidor Lázaro Barbosa que há 15 dias está dando uma canseira danada no batalhão de quase 300 policiais, drones, helicópteros e viaturas armadas de metralhadoras, bombas e fuzis.
O homem virou bicho invisível com a rezas de São Supriano da Capa Preta, capaz de se transformar em touco, uma moita, animais e tantos outros seres, como num encantamento, como disse o professor Itamar Aguiar, para se despistar da tropa e dos aparelhos sofisticados de raios lasers da tecnologia que detectam até o calor do seu corpo.
Para desfazer essas mudanças feiticeiras do cara, vamos levando também um pajé Jarê da Chapada Diamantina, e ai ele vai ficar visível para levar umas estilingadas dos nossos potentes badogues que têm um alcance de até 500 metros, sem escapatória. Vai ser certeira na testa dele. Vai cair como um Golias. Vamos pegar o sujeito na unha!
Nas mochilas também vão umas rapaduras com carne seca, facões, peixeiras e cordas para laçar a fera, se for preciso. Ah, vamos levar ainda uns pacotes de cloroquina para caso de malária e como iscas, pois o danado gosta da bicha, e vem no faro. Se demorar mais, o Lázaro vai passar a ser chamado de Lampião e ter sua Maria Bonita. Ai, está montado o cangaço goiano, ou até pode ser um João Requisado, da Chapada, que botou tropas do governo para correr lá da serra.
Antes de partir para esta jornada heroica, de dormir dentro de matas, copas de árvores, grunas e cavernas, ouço daqui da minha casa o pipocar dos fogos juninos, que essa gente insiste em fazer festas, mesmo com o cancelamento oficial do Governo do Estado que pede para ninguém se aglomerar, porque a maldita Covid está solta no ar, e até adora fumaça de fogueiras.
Aqui mesmo em nossa rua, no Jardim Guanabara, na casa de eventos Paradise, o pau comeu até de madrugada, com muita cachaça, ajuntamento e som alto perturbador do silêncio. Seu dono é um transgressor da lei. Cadê a fiscalização do estado e da prefeitura? Depois ficam ai dizendo que o Papa Francisco está errado quando falou que não existe salvação para os brasileiros.
Como aconteceu no ano passado, é sempre aquela história de que “se Deus quiser vamos fazer a festança no próximo 2022”. Mesmo sem disciplina e conscientização, fazendo paredões, bailes, eventos clandestinos, bares cheios em finais de semana, muita cachaça e zoeira, sem máscaras e álcool-gel, o povo joga toda responsabilidade para Deus. Ele tem que se virar nos 30. Tudo é se Deus quiser.
Deus já está cheio de tanto pedir, sem você fazer sua parte. Seu recado é de que estamos colhendo o que plantamos lá atrás, inclusive elegendo um desequilibrado louco para a presidência da República, que já nos chamou de “maricas” e de outros nomes de baixo calão. Nessa terra do atraso, da falta de educação e cultura, do egoísmo, da indiferença e da negação da ciência, tudo é Deus pra lá, Deus pra cá, até em time de futebol e jogos de sinuca e baralho.
Dia desses indaguei a um camarada, meu amigo, se vamos ter São João no próximo ano de 2022, e ele respondeu na tampa: “Se Deus quiser”. Nem se deu ao trabalho de dar uma olhada na nossa ficha pregressa, um boletim de ocorrências maldosas que dá para atravessar todo Oceano Atlântico até a Europa.
Mesmo com fome e desempregado, brasileiro arranja um jeitinho de fazer festa. Enche a casa de filhos e fica dizendo que foi Deus que quis. Quando alguém morre de Covid, foi Deus que levou porque estava no seu designo. Não respeita os outros e abre a boca para afirmar que tem o direito de ir e vir, e que é livre para não usar máscara.
CONQUISTA PRECISA RESPEITAR A ARTE E NÃO RETIRAR OBRAS DE ESPAÇO PÚBLICO
A arte sempre agrada a uns e a outros não, e isso faz parte do seu sentido de ser, do existir da polêmica e do contraditório. No entanto, o maior pecado é o poder executivo, seja municipal, estadual ou federal retirar obras de um artista de um espaço público, como fez o de Vitória da Conquista, através do seu Conselho de Cultura. No mínimo é uma grande falta de respeito, mas nos tempos atuais virou coisa comum pisotear a cultura e jogá-la no cesto do lixo.
Como exemplo, vou citar aqui dois estilos de obras em Salvador em locais públicos que se transformaram em chacotas e até piadas, mas nem por isso foram expulsas a ponta pe. Uma é do genial Mário Cravo que fica na Cidade Baixa, próximo ao Mercado Modelo. Deram o nome de os “Culhões” de Mário Cravo. A outra são as Gordinhas de Ondina, da mulher do ex-prefeito Mário Kertz. Elas até hoje permanecem em seus lugares há mais de 40 anos.
POR CAPRICHO
Toda essa introdução foi feita para comentar sobre a lamentável retirada das obras do artista Alan Kardec (ou Kard – Museu Kard) do espaço da Avenida Olívia Flores, as quais lá estavam há seis anos, tudo por capricho de um Conselho de Cultura, cuja uma parte de seus membros faz oposição acirrada às peças do escultor e expositor, sem ônus para a Prefeitura Municipal.
Quando uma arte se estabelece num espaço público, ela não pertence mais ao artista, e foi assim que aconteceu com Alan que, através do ex-prefeito Guilherme Menezes, expôs suas obras na Avenida, em 2015, conforme relata. O combinado, segundo Alan, era ficar ali no circuito das pessoas por um ano.
Mesmo assim, de acordo com o escultor, muita gente implicava com as peças, mas Guilherme manteve a mostra porque não havia nada para colocar no local. O assédio contrário continuou. Quando Hérzem Gusmão assumiu a prefeitura, decidiu retirar as obras, mas o professor Ubirajara Brito o convenceu do contrário, argumentando que as obras eram importantes e fundamentais para a cultura de Conquista.
No entanto, o Conselho de Cultura tripartite, composto por representantes do governo e a outra parte da sociedade (professores e profissionais liberais) fez moção em favor da retirada, em 2019. Uma grande parte é de opositores ao trabalho do artista e justificou sua posição de que Alan estava ocupando um espaço em detrimento de outros artistas. “Minhas peças estavam ali sem nenhum custo para o erário”.
O Conselho, então, elaborou um documento onde ressalta a abertura de editais para outros artistas disputarem o espaço ocupado pelas obras de Alan. Para ele, foi uma argumentação tosca. “A prefeita Sheila poderia decidir em manter as peças, mas, para evitar constrangimentos para ela, resolvi antecipar e levar as peças para o Museu Kard onde as pessoas em geral têm ficado encantadas com o projeto”.
Alan considera tudo isso como uma birra do Conselho, “que não me representa. Quem representa a cultura na cidade não está representando o Conselho”. Ele conta que esteve conversando com os prepostos da Cultura e foi recebido com polidez, “mas, se trata de uma polidez diferente. É uma polidez educada, com verniz social falso que por detrás está a hipocrisia. Inclusive um membro fez chacotas e deboches das obras, algo sem respeito”
O escultor prossegue afirmando que o Conselho sempre tem feito uma campanha depreciativa, minando sua participação no espaço público, dando a entender que resolveu retirar as obras por pressão. Ele ainda critica dois sites da cidade (Avoador e Gambiarra) que têm feito matérias tendenciosas contra ele.
“São pseudos jornalistas manipuladores que mutilaram grosseiramente uma entrevista minha. Publicaram uma matéria confusa. Teve um blogueiro que reuniu tudo que era negativo, como se fosse verdade. O lógico seria colocar posições negativas e positivas, e não ser totalmente tendencioso” – desabafou.
CHAMA UNS CATINGUEIROS NORDESTINOS PARA PEGAR ESSE CABRA NA UNHA!
Há quase 15 dias cerca de 300 homens das polícias militar e civil, sem falar dos federais, helicópteros, drones, cachorros farejadores, viaturas e armamentos pesados estão mobilizados numa operação de guerrilha para pegar um foragido criminoso de nome Lázaro, que já é sucesso nacional e pode até pedir indenização por direitos de imagem.
Bastava chamar uns quatro ou cinco catingueiros nordestinos brabos que dormissem dia e noite nas matas, brejos e capoeiras que já teriam trazido esse homem na unha. Até eu mesmo com essa idade e uns compadres que conheço (olá compadre João, compadre Vater, compadre Dirson) dariam conta do recado, e o “bicho” já teria sido resgatado dessas brenhas. Só precisaríamos de um cachorro vira-lata caçador, algumas espingardas, umas mochilas com mantimentos, facões e umas peixeiras para dormir nas matas.
Esses fardados da polícia não sabem pisar na terra, escalar trilhas de pedras, subir em morros e serras e se livrar de espinhos e mosquitos. Nunca dormiram dentro do mato, no escuro, sem ver a luz do dia. Não aprenderam a sobreviver na selva. Foram treinados para entrar em esquinas e becos das favelas, e ainda atirar em cidadãos de bem. Chama uns catingueiros que conhecem o terreno, o rastro e o cheiro de um humano nas folhagens.
A caçada a Lázaro está servindo de divertimento nas redes sociais, com memes, piadas e galhofadas de ridicularização, com tanta gente e tremendo aparato, para prender um homem. A esta altura ele já provocou uma guerrilha e se tornou uma “celebridade” nacional. Só gostaria de saber quanto já custou essa operação para os cofres públicos dos contribuintes?
São bons para emparedar o civil negro e pobre numa esquina, dar chutes nos estômagos e até praticar execução sumária. Para pegar a “fera” é só acoitar no mato, e só voltar quando deter o danado, que deve dormir até em copas de árvores, cavernas, buracos e grotas.
Conheço um cara de nome Severino que até já se ofereceu para buscar o fugidor, mas, com orgulho ferido, a polícia recusou sua empreitada valente. Disse que é uma questão de honra, e cada um quer ser o herói nacional. Também, com tantas quentinhas caseiras dos doadores, e mulheres voluntárias! Tudo agora vira doação, e todo mundo quer aparecer nas imagens ao lado de Lázaro.
A esta altura, a turma do governo já está pensando em mobilizar o exército, a aeronáutica e a marinha. Até o capitão-presidente Cloroquina já decidiu que vai na frente da tropa, como o mito. “Deixa comigo, este cabra é meu, como são meus o exército, a democracia, os ministros, os generais e coronéis”! Tudo não é dele, até o Brasil! Manda o capitão “salvador da pátria”. Ele não se considera um mateiro, arrancador de árvores e destruidor do futuro!
“DESUMANIZADOS”
Um romance com um misto de crônica da vida cotidiana de Nelson Rodrigues, que descreve personagens com seus variados dilemas filosóficos e existenciais. Essas pessoas se encontravam num ônibus, cujo motorista (um dos personagens) perdeu o controle do veículo e bateu num muro de concreto, provocando sete mortes e outros feridos.
O livro “Desumanizados”, do conquistense Gledinélio Silva Santos – Nélio Silzantov – licenciado em Filosofia pela UESB – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e mestre em Estudos de Literatura pela Universidade Federal de São Carlos, é um rasgo de puro realismo sobre as mazelas do ser humano e da nossa sociedade com seus baús fedorentos de hipocrisia e moralismos.
Nélio não poupa os nossos políticos com suas ambições fraudulentas de enganar os outros, e vai até as entranhas de seus personagens, deixando expostos seus problemas, manias e angústias. Em suas 186 páginas, o autor desbrava correntes de pensamentos de muitos filósofos, como Sartre, Heidegger e Schopenhauer.
A obra romanesca e cronística faz uma reflexão sobre o homem e o sentido da vida, num alinhamento com Clarice Lispector e José Saramago. O escritor usa termos fortes e até em tom de desabafo para descrever o papel da Igreja, ou da religião, e o que as pessoas pensam de Deus. Em seus textos usa muitas imagens poéticas, impressionistas, surrealistas e abstratas.
Seus personagens são uma explosão de erotismo, ternura em algumas passagens, maldades e violência como fruto de um sistema perverso e cruel em que vivemos. É um retrato da luta pela vida, o estrange for live, onde só os mais fortes sobrevivem.
Digo que “Desumanizados” deve ser lido porque tem uma linguagem aberta e escancarada, sem subterfúgios, e lhe faz pensar sobre o seu eu e o das pessoas que lhe cercam, como elas agem, muitas vezes lobos em peles de cordeiros. A obra tem como cenário Vitória da Conquista, e é todo focado no ônibus coletivo da linha R19A.
Nélio não tem rodeios e emprega termos fortes, mas realistas sobre cada um de seus personagens vilões e vítimas dessa sociedade. Por isso, é também um livro sociológico que mexe com o eu psicológico da cada um. É, antes de tudo, um trabalho de reflexão, sem medo de vomitar as nossas sujeiras e até de bons atos.
Me atrevo a citar aqui poucos nomes fictícios de seus personagens e trechos que impactam o leitor, que pode fazer seu julgamento pessimista do autor sobre a vida, ou encará-lo como realista. Na abertura, por exemplo, Nélio assinala que “temos tanto a aprender sobre os grandes mistérios, e a sede é tamanha para aliviarmos a angústia, que atropelamos as pequenas coisas sem nenhuma atenção”.
As frases de impacto do narrador Sebastião, na terceira pessoa, são fortes sobre seus personagens, como “… o coração e a mente são insondáveis, feito a imensidão do universo… E quando tudo nos escapa ao toque, lamentamos não termos uma segunda chance”.
O narrador sempre está dialogando com seu amigo fiel Van Gogh. “Voltei a ser a sujeira varrida pra debaixo do tapete. A escória do mundo que envergonha a todos. Ceifadores da escória humana, é isso o que eles são. …pois matei toda aquela gente a sangue frio…”
Sobre o trágico acidente do coletivo R19A, ele começa descrevendo que onze pessoas foram retiradas do ônibus. Quatro morreram no local, e as demais foram levadas para o HGVC, mas houve sete perdas no total.
“A ligação entre duas pessoas segue a mesma lógica. Amores, amizade, desafetos, relações de todo tipo constituem-se cada um à sua maneira, e a mensura da intensidade e duração delas independem do tempo… Ao fim de tudo, o que importa é aquilo que fica, o que atingiu a plenitude da sua existência e fixou-se na eternidade”. Ele fala de duas almas, Dolores e Elizabete, no Orfanato Lar Santa Catarina de Sena que se unem e se separam e, depois de muitos anos, se reencontram.
O escritor não segue a linha do corretamente político em termos de palavras, como foder, filho da puta e outras do tipo que ainda até hoje são vistas como palavrões e recolhidas lá num canto do seu íntimo. “Dolores retraia-se o quanto podia, ocultando seu corpo dentro do uniforme… Em resumo, estava apaixonada”. Descreve Dolores hipnotizada pelo movimento dos lábios de Elizabete.
Nélio trata das opções sexuais de cada um de seus personagens, sem nenhum pudor, e critica os preconceitos homofóbicos e racistas. São temas atuais que sempre estamos nos debatendo no dia a dia. …”lábios macios e úmidos de quem amava tanto… Luxúria e fornicação são pecados abomináveis para o Senhor, diziam as freiras, alertando as garotas do Orfanato para não caírem em tentação, permitindo que o mal se apossasse de suas almas por meio delas. … o corpo inteiro inundado de pecado. Estava suja! Uma pecadora imunda, digna dos castigos mais severos”. Das lamentações bíblicas: “Vê Senhor, e considera a escória em que me tornei! Os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho. Dolores queria mesmo era se perder na Memória de Minhas Putas Tristes do Gabriel Garcia Marquez”.
“Os coroinhas são servos de Deus que adoram imitar o capeta”. Essa frase me lembra muito quando eu era sacristão e depois seminarista na década de 60. “O mundo é um purgatório carente de almas, e os corpos que transitam a esmo pertencem aos desalmados desse mundo. Eles vagueiam dia e noite, na certeza de que estão vivos”… “Nenhuma conquista é obtida sem a perda de algo. … A vida é um jogo de concessões…”
No final do livro, o narrador-escritor dá voz a um dos principais personagens, o motorista do ônibus de nome Marco que diz: “Foda-se o patrão e o emprego. …Colidir contra uma parede de concreto, ou alguma carreta vinda na direção contrária seria um favor a mim mesmo e a esses miseráveis, era o pensamento que não sai da sua cabeça. Camille deixou o semblante expressar uma espécie de desejo mórbido que dominou a todos naquela manhã”.
No Posfácio, o escritor abre o texto afirmando que “um corpo, enquanto vivo, carrega em si as marcas do tempo, das horas transformadas em dias repletos de alegria e dor. Ele fala da finitude, “quando o espírito abandona o corpo, o semblante de quem morre se modifica…. A morte exerce sobre os homens toda a sua impetuosidade”. “Um bando de hipócritas é o que são todos eles”!
Em tom poético, destaca que “a brisa que agora percorre as ruas desertas, tocando levemente os ciprestes nos jardins, anuncia o inverno que vem chegando. Labaredas de fogo lambem a noite. Metamorfose de um tempo que conclui o seu ciclo de início, meio e fim”. … “Sempre soube o que você tentou me dizer, velho Van Gogh, com olhos de quem conhece a escuridão da minha alma”.
DUAS CRISES; DOIS PRESIDENTES
Carlos González – jornalista
Há exatamente 100 anos o Brasil perdeu cerca de 40 mil vidas (os números são imprecisos), numa população de 29 milhões de habitantes, para a maior pandemia do século XX, que ficou conhecida como gripe espanhola, matando 50 milhões no mundo; hoje, a Covid-19 já fez 500 mil vitimas num universo de 211 milhões de brasileiros. Apesar do longo período transcorrido, as particularidades das duas crises sanitárias são semelhantes, como a profilaxia, a terapia e a medicação popular. As diferenças mais significativas estão na instabilidade administrativa e emocional dos presidentes Delfim Moreira (1868-1920), que governou o país de 15 de novembro de 1918 a 28 de julho de 1919, e Jair Messias Bolsonaro, chamados, respectivamente, de louco e de psicótico genocida.
O mineiro Delfim Moreira continuou o trabalho de enfrentamento do vírus iniciado pelo seu antecessor Wenceslau Braz (1868-1966), e retomado pelo seu sucessor, o paraibano Epitácio Pessoa (1865-1942). Vale destacar que Delfim assumiu a Presidência da República devido à morte de Rodrigues Alves, contaminado pela gripe antes de tomar posse para um segundo mandato, de 1918 a 1922. Nos seus primeiros quatro anos no cargo (1902 a 1906), o paulista Rodrigues Alves, com o auxílio do sanitarista Oswaldo Cruz, eliminou um surto de varíola e venceu a “Revolta da Vacina”, promovida por centenas de irresponsáveis – como hoje -, contrários à campanha de imunização.
A exemplo de Oswaldo Cruz, um especialista em infectologia – não se pensou em nomear um intendente do Exército – foi indicado pelo governo para coordenar os trabalhos contra o H1N1. Alçado a herói nacional, o médico Carlos Chagas estabeleceu isolamento e quarentena para os navios que chegavam aos portos do Rio de Janeiro, Salvador e Recife, por onde desembarcavam os passageiros contaminados vindos da Europa; criou ambulatórios de campanha (não havia hospitais públicos no país); aconselhou repouso absoluto aos primeiros sintomas da doença, sem direito a visitas; cuidados higiênicos com o nariz e a garganta e uso de máscaras. Fechou escolas e repartições públicas, e proibiu as chamadas festas populares.
A cloroquina, “menina dos olhos” do capitão-presidente, rejeitada até pelas emas do Palácio do Planalto, mas aceita por neopentecostais e devotos fanáticos do bolsonarismo, teve similares na época, mas nenhum produzido pela indústria farmacêutica. O povo em pânico recorria a inalações de vaselina mentolada, chás e infusões à base de quinino, gargarejos com água e sal, água iodada, tanino e outros “remédios”. Um deles, ganhou o título de bebida nacional, a tradicional caipirinha, conhecida mundialmente.
Por uma questão de justiça com a Espanha, país que me deu a segunda nacionalidade, o H1N1, segundo os pesquisadores, se originou no Fort Riley, nos Estados Unidos, transmitida para a Europa pelos soldados que foram combater na 1ª Guerra Mundial (1914-1918). As grandes potências estabeleceram um pacto de silêncio sobre a propagação do vírus para não criar pânico entre os soldados que lutavam nas insalubres trincheiras. Por não ter adotado a censura, a Espanha herdou uma imagem distorcida.
No Brasil, a gripe “desembarcou” do Demerara, em 9 de setembro de 1918, com 562 passageiros a bordo e 170 tripulantes, após uma viagem de 25 dias desde o porto de Liverpool, na Inglaterra, Após aportar no Recife, seguiu para Salvador. O jornal “A Tarde” noticiou na época que 15 dias depois da chegada do “Navio da Morte” centenas de infectados lotavam os quartéis, escolas, igrejas e hospitais particulares da capital baiana.
Copa América
Uma das “loucuras” praticadas pelo presidente Delfim Moreira foi a de suspender os campeonatos de futebol do Rio e São Paulo e adiar a Copa América, de novembro de 1918 para maio de 1919, disputada no estádio do Fluminense, nas Laranjeiras, construído para o torneio. Pesou na decisão das autoridades governamentais e esportivas a morte de jogadores, técnicos e dirigentes dos clubes cariocas e paulistas. O Rio, particularmente, chorou a perda, aos 22 anos de idade, do atacante French, do Fluminense.
Um século depois, um presidente irracional, num desrespeito aos familiares das 500 mil vítimas da covid-19, contraria a ciência e pirraça a Rede Globo, autorizando a realização da Copa América. Uma decisão tresloucada, que já colocou em quarentena, nos primeiros dias da competição, 52 membros das delegações, entre atletas, técnicos e cartolas.
PATRIMÔNIO ABANDONADO
Na Avenida Integração, esquina com a Regis Pacheco, um patrimônio público que já foi sede do DNER (extinto) e do Ibama, órgão que está sendo sucateado no atual governo do capitão-presidente, negacionista da ciência e destruidor do meio ambiente, está totalmente abandonado, com lixo por todos os lados e muito mato, conforme imagens fotográficas do escritor e jornalista Jeremias Macário.
Entre tantos outros no Brasil a fora, é mais um caso de dinheiro do povo jogado no lixo, sem a devida punição dos irresponsáveis governantes. Por ironia, o patrimônio abandonado, em Vitória da Conquista, já abrigou as dependências do Ibama, inauguradas no Governo Lula. O local me recorda quando atuava como jornalista da Sucursal do Jornal A Tarde, e na época entrevistei muitos técnicos sobre questões do meio ambiente, especialmente o transporte clandestino de carvão extraído de madeiras da caatinga no sertão do sudoeste.
Há anos que a casa se encontra em estado deplorável, caindo aos pedaços dentro de um matagal que mais serve para usuários de drogas e marginais à noite, sem falar da sujeira que atrai todo tipo de insetos, ratos e até mosquitos da dengue. Pelo que demonstra pela placa, trata-se de um patrimônio federal, mas não se sabe qual a ingerência do estado e do município. O local podia muito bem está sendo útil para ocupar uma repartição pública, uma escola, creche, uma entidade ou associação em benefício da população.
SOU MAIS AS CAPELAS
Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário
Bendito seja nosso oratório!
Sou mais as capelas,
Com suas rezas e velas,
Do que a ostentação das catedrais,
Com seus bispos, papas e cardeais.
Sou mais as capelas,
Sem estilos gótico, ou barroco,
Feitas pelos braços dos mutirões,
Na pisada do samba e do coco,
E nelas não se fez inquisições.
Sou mais as capelas,
Do sincero nordestino de fé,
Onde tem Maria, João e José,
O compadre, a comadre e você,
Sem o falso senhor do poder,
Que só quer pousar pros jornais,
Entre luminárias dos castiçais.
As catedrais dos imponentes sinos,
Das mitras, báculos e anéis,
Com seus seculares painéis,
E crucifixos banhados a ouro,
São da nobreza, reis e rainhas,
Coroados como deuses divinos,
Que saquearam o tesouro dos latinos.
Capelas não têm vitrais nas janelas,
Nem antigos imperiais azulejos,
Só seu vigário e seus fiéis sertanejos,
Que oram Pai Nosso, Santa Senhora,
Mandai chuva pra molhar esse solo,
Pra matar a fome da criança que chora.
BASTAM DE TANTAS PRIORIDADES!
Além da falta constante de vacinas, proveniente da incompetência e negação da ciência por parte do governo federal, há dias, ou há mais de um mês, que a vacinação em Vitória da Conquista não sai das prioridades de categorias profissionais e pessoas com comorbidades, grávidas e puérperas.
Há muito tempo que a imunização parou na faixa etária dos 60 anos, enquanto outros municípios já avançaram para os acima dos 40 anos. A população dos 50 anos está ansiosa para tomar a primeira dose, mas sempre aparece uma categoria que se acha no direito de prioridade, e aí cria aquela pressão para ser contemplada.
Tudo isso advém dos critérios que cada município cria por conta própria, virando uma verdadeira bagunça, o que tem prevalecido desde o início dessa maldita pandemia no Brasil. Como não existe uma coordenação nacional lá de cima, qualquer um faz o bem quer, inclusive quanto as medidas restritivas de distanciamento e isolamento social.
Sem liderança e planejamento nacional, os governadores baixam um decreto, e muitos prefeitos politizam o combate à Covid-19 através da desobediência civil com atos contrários, exemplo do poder público de Vitória da Conquista.
Dentro desse caldeirão de misturas indigestas, está também a questão da testagem das pessoas, que deveria ser geral, não importando se a pessoa tem ou não sintomas do vírus. A Secretaria Municipal de Saúde só realiza o teste quando alguém apresenta alguns sinais de febre, problemas na garganta, tosse, enjoos, cansaço ou outras anormalidades no organismo.
Se a pessoa chega no posto, ou numa unidade de saúde, reportando que manteve contato com alguém positivada, mas ainda não sentiu sintoma nenhum, os prepostos da prefeitura não fazem o teste.
A recomendação do centro de monitoramento é que o “paciente” aguarde alguma possível reação por cerca de 14 dias, pois nem o PCR tem 100% de acerto. Conversei com uma atendente que me passou esta orientação.
Não sou infectologista e nenhum especialista médico no assunto, mas entendo que essa pessoa que manteve contato com outra contaminada, deveria ser testada, mesmo sem os sintomas, independente do resultado, se negativo ou positivo. Entendo que seria mais uma forma de tranquilizar a pessoa, ou tomar as devidas precauções, caso detectado o vírus.
ESTÁ MAIS PARA UM COMITÊ GESTOR DA MORTE DO QUE DE UM CONTROLE
No foi por menos que, em tom de brincadeira, o Papa Francisco disse a um padre, ao se referir à pandemia no Brasil, que os brasileiros não têm salvação porque só querem saber de cachaça e festas. Vitória da Conquista, no lugar de ser exemplar, está confirmando essa versão do Papa, quando a Prefeitura Municipal anuncia mais flexibilização das medidas com a liberação de eventos festivos de até 50 pessoas.
Desculpem dizer isso, mas esse Comitê Gestor de Crise está mais para Comitê da Morte, quando se sabe que a ocupação de leitos de UTIs nos hospitais está na faixa dos 97%, que a média diária de mortes está em torno de três ou quatro (na segunda, se não me engano, o vírus abateu oito almas), com quase 100 casos, e já tivemos mais de 500 perdas.
Esses números não são altos? Está tudo sob controle, senhora prefeita? Conquista é uma “cidade exemplar no combate da pandemia”, como falou um lojista? Nenhuma pessoa de bom senso vai concordar com isso. Nova York, com mais de 10 milhões de habitantes, está registrando 12 mortes, e países da Europa, com 30 a 50 milhões de pessoas, computa oito, dez, para uma população de 230 mil em Conquista. Os índices são por demais desproporcionais.
Qual mesmo o objetivo do poder executivo local flexibilizar a realização de eventos com até 50 pessoas? São as chegadas das festas juninas para atender a demanda de bares e restaurantes? Oferecer aos músicos da cidade uma oportunidade de fazer seus shows ao vivo, no lugar de um edital que foi prometido e não mais se falou nesse projeto?
Será mais uma vez a intenção de bater de frente com as medidas restritivas do Governo do Estado, que proibiu por decreto a circulação de ônibus intermunicipais durante o São João? O governador determinou também a proibição de bebidas alcoólicas neste próximo final de semana, para evitar mais aglomerações.
Esse pessoal da prefeitura e do tal Comitê Gestor acha que todo mundo é imbecil e burro, quando justifica o ato afirmando que essa flexibilização vai seguir todos protocolos de máscaras, álcool-gel e o distanciamento de um metro e meio entre os festeiros. Isso não passa de uma conversa para boi dormir, pois sabemos que isso não é possível de ser cumprido.
Todos finais de semana em Conquista acontecem aglomerações em bares, restaurantes e festas, e os poucos fiscais não conseguem impedir esses eventos. Se não controlam esses excessos, como vamos acreditar que essa nova medida de abertura vai ser dentro dos protocolos?
Parece a história estapafúrdia e mentirosa do prefeito de Várzea do Poço que promoveu uma corrida de cavalos e leilões com mais de mil frequentadores por dia, e depois alardeou que a festa foi só para convidados e que todos seguiram os devidos regramentos. Está enganando a quem?
Outra coisa absurda é o São João que, mais uma vez, oficialmente foi cancelado, mas as propagandas estão aí a todo vapor para incentivar os baianos e nordestinos a realizarem suas festas juninas com amigos e parentes, isto quando os infectologistas e médicos já estão prevendo uma nova onda da Covid-19, com novas cepas.
Comentei aqui e volto a repetir que a própria mídia tem sua parcela de culpa para que os apaixonados do São João se aglomerem em festas particulares. A imprensa que pede para que todos se cuidem, é a mesma que programa o evento em suas redes de televisão através de lives.
Existem até dicas para roupas, sapatos e quais as pinturas e trajes ideais. Será que essas pessoas vão se emperiquitar à moda da festa, para depois ficarem presas dentro de suas casas?
Até o Banco de Sangue do HGVC incentiva as pessoas a pegarem estrada quando coloca lá um cartaz chamativo, ressaltando que antes de você pegar o caminho da roça passe no Hemoba e doe sangue. Por essas e outras é que o Papa tem razão. Não adianta só ficar por aí pelos cantos rezando e pedindo a Deus para se salvar.
O NOSSO CONGRESSO É UMA VERGONHA
As nossas forças armadas, como aqui já comentei, estão pisando feio na bola quando por detrás, com seus generais e coronéis de pijama, dão cobertura a um governo que está destruindo por completo o nosso Brasil (veja o caso da não punição do general calça curta). Para completar, o nosso Congresso continua sendo uma vergonha nacional, com raras exceções de alguns de seus membros.
Com essas duas instituições, e mais seus seguidores da morte que vieram das cavernas, o capitão-presidente se sente blindado para fazer suas loucuras, debochar e afrontar nossos cidadãos de bem, sabendo que nada pode acontecer a ele. Mais de 100 pedidos de impeachment (afastamento) estão engavetados na Câmara dos Deputados, infestada de oportunistas que até já serviram aos governos de Lula e Dilma.
Nem todos, mas a grande maioria (está aí o Centrão) mente para si mesmo e para o povo. É tão vergonhoso que eles ficam com a cara de tacho quando tentam defender as maluquices de um presidente que nunca deveria ter posto os pés no Palácio do Planalto. Qualquer detector de mentiras iria disparar o alarme com tanta intensidade prestes a explodir.
Qualquer pessoa de nível mais elevado (nem precisa ser tão inteligente), sabe que por muito menos, Collor de Mello e Dilma sofreram impeachment, e o caso dela, das tais pedaladas, foi mais escandaloso. Não estou aqui, de forma nenhum, dando uma de advogado dos pecados do PT, mas agora compreendo que aquilo foi mesmo um golpe.
Esses deputados e senadores (nem todos) foram para lá vender descaradamente seus votos que na frente foram comprados dos eleitores. Entregam a alma ao Satanás, e o povo que se dane. Tem uns que dói de tão ridículos e escancarados que são com seus comportamentos oportunistas. Não têm a mínima vergonha na cara e eliminaram do dicionário o termo dignidade. Aliás, nem sabem o que é isso.
Nem precisa aqui citar os nomes dos safados ladrões que estavam nos governos passados e agora pularam de barco. É uma verdadeira aniquilação do ser humano! Eles se transformaram em vermes nojentos que, cinicamente, ainda afirmam que são patrióticos quando estão ajudando a acabar com nossas florestas, sucatear nossas universidades, negar a ciência, provocar mais mortes com a pandemia, fechar laboratórios de pesquisas e contribuir para o aumento da miséria e da fome.
São seres desprezíveis, e posso dizer sem titubear, que nem sabem o que é consciência limpa e caráter, tanto que dormem o sono pesado com a barriga cheia de dinheiro, achando que vão viver para sempre. Nem estão aí para seus filhos que estão recebendo um país em ruínas. Não têm pesadelos como o pobre que batalha o dia todo para ter o mínimo de sustento.
Como todos sabem, é um dos Congressos mais caros do mundo, repleto de penduricalhos, verbas de indenizações, emendas parlamentares, propinas e subornos. De cada eleição, cujo sistema eleitoral foi feito para favorecer a eles mesmos, sai uma fornada pior que a outra. Os novos vão se contaminando com o vírus letal da velharia. No fim, toda a área está podre, com odor insuportável.
O Brasil, infelizmente, está entrando numa era de há dois mil anos. A Idade Média é moderna para classificar o nosso nível de atraso na forma de pensar, de agir e de tratar as pessoas. Estamos nos tornando seres das cavernas quando se achava que a terra era plana. Não é um celular e os sistemas sofisticados da informática que irão nos definir como civilizados.
O Congresso Nacional comporta hoje todas as espécies de animais racionais e bichos selvagens, desde o sério de boas intenções (coisa rara), aos brucutus que até pedem o seu fechamento, intervenção militar, o corrupto, o preconceituoso, o partidário do nazifascismo, o racista e o que apoia a destruição do Brasil, mas, afinal de contas, foi eleito pelo povo a quem por séculos foi negado a educação e o conhecimento.




















