CIDADANIA SEM RAZÃO
Versos do jornalista e escritor Jeremias Macário, publicados em seu último livro “ANDANÇAS”
Cidadão é não ter os seus direitos,
Dissolvidos na maior concentração;
Ser alimento no covil dos malfeitos,
E perambular na renda da contramão.
É ser eleitor e só servir para votar;
Viajar de avião uma vez na promoção;
Comer uma pizza com angu e caviar;
E humilhar esmola na fila do bolsão.
É pensar que existe uma democracia,
Onde o povo imagina estar no poder;
Que a submissão faz parte da cidadania,
E que a desigualdade já nasce com você.
Não importa se de fome a barriga dói,
Se todo ano tem uma festa de carnaval,
Quando se tem no peito seu ídolo herói,
E seu time foi classificado para a final.
Ser cidadão é ter orgulho do seu Brasil;
Não ter saúde e educação de qualidade;
Não ser honesto para não ser imbecil,
E não ligar para o regime da impunidade.
Autoestima é sediar os jogos olímpicos;
Armar barraquinhas na Copa do Mundo;
Virar elefantes depois dos paralímpicos;
E continuar resignados em sono profundo.
O barão condenado sorri em liberdade;
É que ele ainda está sendo o investigado;
O dezessete perigoso é menor de idade,
E o povo ferrado vai vagando como gado.
Deixaram queimar na Antártida nossa base;
Nos jogaram no lodo, sem saneamento básico;
Tem classe sem classe que não sabe uma frase,
E o roubo do bem público virou nosso clássico.
Já se falou em botar um astronauta no espaço,
Mas forças invisíveis retorceram os cientistas,
Lá em Alcântara, no país do reboco e do aço,
Musicado nas rimadas dos mestres cordelistas.
Uma cadeira na ONU por qualquer bagulho;
Não importa se já aprendemos a nossa lição,
Se os partidos políticos viraram um entulho,
Vivendo todos marchando nas ruas sem razão.
UM SONHO, OU PESADELO?
Numa noite de muito calor eu acordei lá pela madrugada todo suado e apavorado com um terrível sonho, que depois fui perceber se tratar de um pesadelo. Acho que comi alguma coisa indigesta. Voltei a me deitar, mas nada de sono recuperador da minha cansada mente.
Lá fora só as luzes neon e as folhas das árvores a farfalhar. Uma sombra de medo tomava conta das ruas abandonadas. Uns falam de fantasmas que aproveitam o silêncio para passear e outros de alguns viventes humanos na espreita prontos para dar o bote de assalto, como uma cobra traiçoeira.
No outro dia, ainda zonzo e mal dormido, tentei recapitular algumas passagens daquele pesadelo. Lembrei do saudoso roqueiro Raul Seixas que fala em sua canção que um sonho que se sonha junto se torna realidade, só que não foi um sonho e estava sozinho. No entanto, só para contrariar, meu pesadelo se tornou concreto.
Em meu pesadelo labiríntico grego via o Pantanal do meu Brasil em chamas, e a floresta Amazônica sendo derrubada por ambiciosos lenhadores, e depois sendo queimada. A flora ardia em choros, e a bicharada gemia em dores de morte. Os índios que sobreviveram àquela tormenta foram expulsos de seus lares. Tudo depois eram cinzas, e um deserto sem ar para respirar.
Em meio a toda aquela destruição, um homem com cara de monstro aterrorizador, com outros tantos ao seu lado que mais pareciam zumbis saídos da terra, gargalhava e mandava seus seguidores cobrir o chão de lavouras e gado. Outros avançavam com máquinas para minerar a terra. Os rios ficaram envenenados, e outros simplesmente sumiram. Não existiam mais barqueiros para transportar as almas para as outras margens.
No pesadelo, o homem, com feições psicopáticas de armas na mão, esbraveja contra jornalistas, com palavrões, xingamentos e ameaças. Condenava os cientistas, ambientalistas e pesquisadores que previam um futuro avassalador. Falava coisas malucas e dizia que era o novo dono de tudo aquilo.
Pelas ruas ele jogava seu séquito de apoiadores contra qualquer um que lhe opunha. Propunha investigar e prender os contrários. Às vezes se disfarçava em pele de cordeiro e falava até em democracia e liberdade, mas era mesmo um lobo que queria impor nova ditadura e, para isso, se cercou de generais e coronéis. Espalhava terror em cada pronunciamento, ameaçando fechar os poderes constituídos para ficar só com o dele.
Desde o início do seu surgimento inesperado, ora em forma de animal mitológico e gente, avisou que tinha vindo para destruir, e não para construir. Para tanto, condenou todas as ideias avançadas e evolutivas. Seria o anticristo? Mandou logo cortar a cultura, para ele coisa de comunista comedor de criancinhas. Arregimentou seus ajudantes para sucatear as universidades, para ele lugar de maconheiros e intelectuais pervertidos pecaminosos.
O pesadelo ficou ainda pior e aterrorizante quando apareceram na escuridão tenebrosa da noite uns monstros invisíveis em forma de coroa atacando e matando nosso povo, principalmente os mais pobres e famintos. Levaram os diabinhos para o laboratório e lá deram o nome de Covid-19. Vieram voando da China. Foi logo a primeira versão. Invadiram todo planeta e matavam por sufocamento, com morte dolorosa e sofrida.
Muitos irmãos do meu país começaram a perder a vida. Só choro, ranger de dentes e lágrimas dos parentes e amigos pela perda de seus entes queridos. Mesmo diante daquele horror, daquela desgraça que se abateu entre nós humanos, o homem genocida debochou; chamou o visitante assassino contaminador de uma gripezinha de fresco; e ainda humilhou as pessoas classificando-as de maricas.
O estrago foi aumentando. Os hospitais ficaram superlotados, numa agonia desesperadora diante de tantos seres humanos sendo dizimados pelo redondo coroado de espinhos venosos. Mesmo assim, aquele homem pestilento do meu pesadelo condenou todas recomendações científicas para controlar o danado invasor. Saia por aí a cavalo, de moto, de barco e a pé transmitindo a letal doença e ainda receitando uma tal cloroquina para derrubar o invisível.
Vi em meu pesadelo, naqueles escombros e ruínas, muitos lamentos de dor, como se fosse um inferno de Dantes. Tentava acordar para me livrar daquelas imagens macabras, mas não conseguia me desvencilhar dos tentáculos pegajosos em torno de mim. Nas cenas, via feições de caveiras e risos sarcásticos, dizendo sou eu que mando, tudo é meu, meus soldados, meus ministros, meu Brasil.
Em meio àquela aflição perturbadora, enxerguei na penumbra das trevas uma nave extraterrestre que pousava e abduzia o cara do mal e, rapidamente, levantou voo, riscando o universo numa velocidade alucinante. Os seguidores do ceifador de vidas tentaram impedir seu rapto planetário, mas nada puderam fazer. Ficaram até berrando palavras de ordem, mas sumiram depois do sumiço repentino do seu chefe maior, como nas guerras indígenas.
A cabeça doía quando, finalmente, acordei atormentado por nunca ter visto em toda vida aquelas figuras asquerosas. De lá para cá, outros pesadelos parecidos sempre voltam, como num trauma que gruda em nossa alma para sempre. Não foi um sonho para se levantar animado e otimista com a roda da vida. Foi mesmo um pesadelo que deixa o seu dia pesado e nunca dá para se esquecer dele.
A RETOMADA DAS AULAS PRESENCIAIS
É indiscutível a necessidade da volta às aulas presenciais nas escolas públicas e particulares depois de quase uma ano e meio de fechadas por causa da pandemia. A polêmica, no entanto, gira em torno dos protocolos a serem seguidos e fiscalizados, especialmente quanto as públicas que, como sabemos, não oferecem condições físicas adequadas aos alunos, mesmo antes da Covid-19 se alastrar pelo país. O ensino no Brasil já poderia estar normalizado se não tivéssemos um governo retrógrado e negacionista da ciência.
Sabemos que em nosso Brasil as leis nem sempre são cumpridas, e a fiscalização é por demais falha. Na teoria, as recomendações dos decretos municipais nos convencem diante dos cuidados a serem tomados. Na prática, a coisa funciona bastante diferente por falta de estrutura dos prédios e carência dos principais itens de higiene, principalmente quando se trata da zona rural onde existe até falta de água.
Nos primeiros dias das atividades tudo pode correr dentro dos conformes, mas semanas depois começam as escassezes de álcool gel, papéis de limpeza e outros materiais de prevenção, com banheiros quebrados e até ausência de aparelhos de aferição dos alunos. São justamente nessas deficiências que entra a burocracia para a diretora adquirir os produtos que constam dos protocolos prometidos na teoria.
As escolas particulares contam com mais estrutura física, e não existe a tal burocracia para dificultar a manutenção dos itens de prevenção essenciais para que não haja contaminação entre os alunos. Outro problema sério diz respeito à fiscalização permanente da vigilância sanitária, que já é deficitária por natureza, porque não existe um contingente ideal de fiscais para cobrir todo o universo de estabelecimentos escolares.
Outra questão a ser avaliada é quanto a vacinação dos professores, muitos dos quais ainda não receberam a segunda dose que oferece a imunização mais completa e segura. As escolas públicas vão ter gente suficiente para monitorar os protocolos que a própria Secretaria de Educação anunciou para fundamentar a abertura das aulas?
O perigo está no relaxamento das medidas, coisa que sempre ocorre com o passar do tempo em nosso país de um modo geral, não apenas em Vitória da Conquista que está reabrindo o ensino presencial, de fundamental importância para as crianças e os jovens estudantes que estão por demais atrasados em suas séries.
No setor educacional, pelo menos essa maldita pandemia nos deu uma lição de resposta sobre o tal projeto fascista do ensino domiciliar. Esse tempo fora das escolas, sem a presença pessoal dos professores e o contato com os colegas, representou perdas incalculáveis para os estudantes, não somente no âmbito da aprendizagem, como em termos psicossociais na forma do relacionamento humano.
Isso é uma doideira num Brasil tão desigual e analfabeto onde a maioria dos pais é obrigada a trabalhar para sobreviver. Além do mais, milhares não têm instrução suficiente, nem pedagogia para ensinar seus filhos. Vão catequizar seus filhos numa doutrina que lhe convenham?
Por sua vez, o Ministério da Educação, conduzido pelo pastor evangélico conservador, só faz gastar nosso dinheiro com propaganda de programas que nem estão funcionando. São milhões de reais desperdiçados, quando as universidades estão sucateadas e o ensino básico numa situação vexatória.
Usa uma tremenda verba para anunciar o Enem e ainda dizer que é uma das maiores plataformas de concursos do mundo, como se isso fosse uma glorificação para o Brasil que apresenta as piores notas em provas de língua e matemática.
UM EDITAL MERRECA E EXCLUDENTE
Numa cidade do porte de Vitória da Conquista, a terceira maior da Bahia, com cerca de 230 mil habitantes, o novo edital de premiação artística da Secretaria de Cultura, no valor de 300 mil reais, é uma merreca, principalmente se levarmos em consideração o universo de preponentes que atuam na área, podendo abranger até cinco mil ou mais que isso.
Eu diria que é mais um desprestígio e falta de consideração com a nossa já combalida cultura onde os poderes públicos pouco dão importância, e os prefeitos fazem dela uma pasta apenas decorativa, quando deveria estar equiparada com a sua irmã siamesa educação. As duas caminham juntas e se complementam.
Outra vergonha, no caso de Conquista, que tem uma falsa impressão de ser uma cidade cultural, é que não existe uma política traçada para atender todas as linguagens artísticas, durante todo o ano. Nunca tivemos uma Feira do Livro, ou Festa Literária, e há muito tempo que não vemos os salões de artes plásticas e os festivais de músicas, dança, teatro, exposições de fotografias, mostras de audiovisual, seminários, encontros e outras expressões culturais acadêmicas e populares.
Até antes da pandemia só tivemos dois calendários, um no meio do ano – o São João – e outro no final – o Natal, que mais beneficiam a área de música, com uns cachês pequenos e pagos com atraso para os artistas. Arte não é somente a música, e somos carentes de atividades programadas para movimentar a cidade, inclusive com a geração de renda e emprego.
Quanto ao novo edital lançado recentemente, com premiações de apenas 750 reis, excluindo aposentados e pensionistas, diria que isso não passa de uma esmola e um cala boca às manifestações dos artistas que foram para a porta da Prefeitura Municipal contestar a declaração do secretário que mandou os músicos passarem o chapéu para ganhar uns trocados.
Esse edital de 300 mil, uma vergonha para uma Prefeitura, que gasta milhões em outras coisas (propaganda, comunicação, slogans), deveria ser para cidades como Anagé, Belo Campo, Tremedal, Piripá, Caetanos, Caatiba, Bom Jesus da Serra, Aracatu e outras da nossa região. Conquista não merece isso e nem os artistas.
A iniciativa da Secretaria de Cultura teve o propósito de se equiparar a um auxílio emergencial (insignificante) em tempos de pandemia, e o pior é que muitos vão ficar de fora desse “benefício” pela desclassificação e exclusão dos aposentados. Não digo todos, mas a maioria de artistas aposentados ganha um salário mínimo, ou pouco mais que isso. Vivem catando um trocado aqui e acolá. Outros possuem outras atividades para sobreviver.
A Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista também tem sua parcela de culpa nessa falta de tratamento adequado e desrespeito com a nossa cultura porque deveria cobrar mais do executivo e formular um projeto-de-lei criando uma política para o setor, numa parceria com o segmento privado se bem que, lamentavelmente, os empresários de Conquista não investem em cultura porque acham que não dá dinheiro de imediato.
Eles têm uma mentalidade atrasada quanto a ajudar um projeto dessa natureza. O futebol amador e profissional é um dos exemplos de que não recebe apoio dos empresários. O time do Vitória da Conquista vive penando por patrocinadores, e sempre está na linha do rebaixamento no fraco campeonato baiano por falta de atletas da contratação de melhor qualidade.
Quando se vai pedir algo a um deles, para um determinado projeto, mete a mão no bolso e sai com uma esmola, dizendo que está lhe ajudando porque é seu amigo. Não tem nenhum senso de custo/benefício. Eu mesmo já senti isso na pele quando me atrevi a realizar algo cultural e precisei de colaboração, porque não disponho de posses para bancar um trabalho sozinho.
O escultor e multifacetado artista, Alan Kardec, está bancando a implantação de um museu com recursos próprios e ainda é criticado por esse tal Conselho Municipal de Cultura e por empresários. O museu já é o maior a céu aberto do Norte e Nordeste, e vai ficar para a posteridade como grande patrimônio cultural de Vitória da Conquista.
Quem faz cultura em Conquista não é reconhecido. Pouco é lembrado. Não valorizam a arte, o intelectual, o estudioso ou o pesquisador. Eles só são lembrados quando morre. Para que homenagens depois de morto? Isso soa a falsidade, hipocrisia e mesquinharia. Quando muito se dá é um título de cidadão, e olhe lá.
Infelizmente, nossa cultura continua desprestigiada e vivendo de esmola, como esse vergonhoso edital. Que digam os artistas, principalmente os músicos a quem se mandou passar o chapéu. Conquista conta com grandes talentos, mas adormecidos e desconhecidos por falta de apoio dos setores público e privado.
“REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (III)
A GARIMPAGEM DO DIAMANTE DE MINAS GERAIS À BAHIA
No livro, os autores e professores Ronaldo Senna e Itamar Aguiar fazem um relato histórico importante e bem fundamentado sobre a garimpagem do diamante em Minas Gerais e na Bahia, destacando os municípios de Mucugê, Andaraí, Lençóis e Palmeiras onde as primeiras explorações se deram por volta de 1848. Na cata do diamante, segundo eles, nesses pontos a Chapada Diamantina foi colonizada pelos mineiros e pela mineração.
Os primeiros achados do diamante no Brasil deram-se através do processo da garimpagem do ouro em Minas Gerais. De acordo com os acadêmicos, Bernardo Fonseca Leão foi quem primeiro passou a informação do descobrimento do diamante às autoridades portuguesas, mas as provas não são precisas. Conforme historiadores, a descoberta se deu em 1720. A identificação dessa gema foi feita por um missionário enviado ao Tijuco (Diamantina).
Versões de historiadores dão conta de que a primeira descoberta de diamante na Chapada ocorreu entre 1817 e 1818, na Serra do Gagau. “Também se fala em achados no Sincorá, em 1821, quando os naturalistas alemães Spix e Mratius atravessaram a região”. Registros, no entanto, descrevem que até 1838 os garimpos de diamante estavam circunscritos a Minas Gerais.
No ano seguinte, o minério foi encontrado em terras baianas, no local denominado de Tamanduá, próximo a Gentil do Ouro (Sales 1994 p. 30). Na Bahia, a primeira companhia de mineração foi criada por volta de 1848, nas proximidades da Villa Santa Isabel (Mucugê). A minuta do primeiro contrato foi elaborada por Teófilo Ottoni. Consta que existiram oito companhias.
Logo depois da descoberta, citam os autores do livro “Remanso”, a Coroa Portuguesa cuidou de fazer uma declaração como proprietária dos diamantes. “Caçou as licenças para exploração dos garimpos de ouro e estabeleceu uma taxa de cinco mil réis por pessoa nos garimpos de diamantes”. Outra providência foi proibir os escravos de adquirir o minério.
A partir de 1º de janeiro de 1740, a Coroa permitiu que o trabalho fosse destinado a empreiteiros, impedindo a exploração individual. Cada empreiteiro, com até 600 escravos no máximo, era obrigado a recolher um imposto anual de 236 mil réis por cada negro cativo. O governo passou à condição de único explorador dos garimpos até 1832, ano da liberação geral da garimpagem. A partir daí houve uma corrida à procura clandestina das gemas.
Com isso, a vigilância foi apertada contra os contrabandistas, e o transporte do diamante tinha que ter uma licença. Os casos de fraudes eram punidos com o confisco da mercadoria e dos bens. O fraudador, segundo os escritores, era encarcerado e podia até ser deportado para África. A repressão gerou mais clandestinidade e muitos foram mandados para Angola.
Ronaldo e Itamar contam que, na segunda metade do século XIX, estudiosos viajaram pelo interior da colônia, inclusive estrangeiros, como o inglês John Mawe que narrou os atos de truculência usados pela fiscalização contra os garimpeiros de diamantes.
Entre casos pitorescos para burlar as normas, o viajante descreve a história de um negro escravo que com sua astúcia conseguiu passar num posto com uma pedra. Num tição de fogo ele colocou um diamante na cavidade. En- quanto tocava os animais ia acendendo seu cigarro de palha. Ao empacar um deles demonstrou excesso de raiva e atirou o tição que foi cair do outro lado do posto. Depois da carga ser revistada, o negro apanhou o tição e seguiu acendendo seu cigarro.
A legislação editada em 1832 foi sucedida pela lei de 24 de setembro de 1845 e exigiu outra organização administrativa através da regulamentação de 17 de agosto de 1846 definindo o preço de arrendamento das áreas. Uma nova lei, segundo Sales, foi editada em 1852 que passou a vigorar no ano seguinte.
Esta lei vigorou até 1870, quando surgiu a notícia de descobertas do minério no Cabo, na África do Sul, o que provocou baixa do produto e decadência na exploração no Brasil, com a consequente crise nas cidades das Lavras Diamantinas, como Mucugê, Andaraí e Lençóis.
Com isso, o Visconde do Rio Branco baixou o regulamento 5955, de 1875, ordenando as atividades garimpeiras. Esta portaria vigorou até a lei de Minas do Estado, em 1906, sendo, posteriormente, reformulada. A descoberta do diamante, em Mucugê, coincide com a perturbação da ordem pública em Minas e a chegada dos irmãos Ottoni entre 1847 e 1848, nascendo daí a fundação das companhias de mineração nas Lavras.
Nos anos de 1990, o governo, pressionado pelos movimentos ambientalistas e pelas empresas de turismo, decretou o fechamento dos garimpos em Lençóis. Até então, prevalecia o sistema de garimpagem, sucessor das companhias. Conforme pesquisa dos acadêmicos de “Remanso”, após o declínio da extração do diamante restaram os garimpos artesanais, que foram substituídos, na segunda metade do século XX, pela mecanização através das dragas, em Lençóis e Andaraí.
Esse sistema chegou a atrair muita gente de outros estados e até mesmo empresas multinacionais. “Esse cenário devastador provocou a fundação do Parque Nacional da Chapada Diamantina, em 1985, por decreto da Presidência da República, abrangendo toda Serra do Sincorá, onde estão localizados os municípios de Lençóis, Andaraí, Mucugê e Ibicorá” – destacam os autores da obra.
UM CAOS NA AVENIDA INTEGRAÇÃO
Transitar pela Avenida Integração (antiga BR-116 – Presidente Dutra) é um tormento para os motoristas, e exige muita atenção e paciência. Da Rodoviária até o alto da Serra do Periperi você tem que enfrentar as pragas dos quebra-molas e os inúmeros semáforos. Quando se chega nas imediações do Bairro Brasil, entre as zonas oeste e leste, no comércio propriamente dito das casas de peças de automóveis, tudo vira um inferno para se dirigir.
Sem fiscalização para disciplinar o trânsito e multar os infratores, motoristas estacionam seus veículos, inclusive grandes e pequenos, praticamente no meio da pista em sentido duplo e ligam os alertas, como se isso dessem a eles o direito de parar sem serem penalizados. Quando se chega no miolo da avenida, aí embola tudo, e quem está transitando é obrigado a desviar, correndo o risco de provocar um acidente.
Sinceramente, a Avenida Integração virou uma bagunça, e cada um faz o que bem entende para preservar seu egoísmo e individualidade de estacionar em frente da loja que ele vai comprar uma peça, ou fazer algum conserto no carro. Além desse caos, existem os pedestres, bicicleta e até carretas que fazem complicar mais ainda o trânsito, especialmente nas horas de pico. Por tudo isso, essa artéria tem sido alvo de muito acidentes, inclusive com mortes.
A Secretaria de Mobilidade Urbana precisa tomar uma providência para melhorar o fluxo de veículos na Avenida Integração, multar os infratores, tirar os quebra-molas, colocar radares em sua extensão, pintar as faixas de pedestres e até impedir a passagem de carretas, tendo em vista que já existe o Anel Viário para isso. Nesta semana, por exemplo, um caminhão parado no fundo dos carros pequenos tomou toda pista, criando um tumulto infernal.
Nas Avenidas Juracy Magalhães e a Brumado também ocorrem quase que a mesma coisa. Muita gente acha de estacionar no meio das referidas pistas para resolver algum problema nas casas comerciais, e os motoristas que seguem na direita que se danem para desviar dos carros. O comodismo impede que o cidadão pare seu veículo numa transversal de rua e ande uns 30 ou 50 metros até o seu local desejado.
Em todos esses lugares está faltando mais fiscalização dos agentes de trânsito para multar esses imbecis preguiçosos que só pensam neles e não respeitam o direito dos outros. É difícil entender como o cara para quase que no meio de uma pista de rolamento impedindo a livre passagem dos outros. Infelizmente, na Bahia e no Brasil como um todo, a coisa só funciona na base do rigor e da punição porque quase ninguém obedece as leis.
Outra coisa na via urbana de Vitória da Conquista que inferniza os motoristas são os quebra-molas, elevatórios antiquados que só servem para provocar danos nos carros. Não é um quebra-mola que faz evitar um acidente. O que impede de acontecer um acidente é a prudência do condutor. É só seguir as sinalizações, tanto horizontais como verticais. Conquista virou a capital dos quebra-molas, e cada vez chegando mais quando se abre uma rua ou avenida.
A Prefeitura Municipal precisa acabar com esses monstrengos anacrônicos, e a Câmara de Vereadores deixar de aprovar a construção desses elevados de cimento e ferro pela cidade. Ninguém está aguentando mais esse tal de subir e descer que irrita e enerva qualquer motorista, principalmente os visitantes.
Centenas deles são colocados em locais impróprios, em subidas e descidas, que arrebentam qualquer pessoa desavisada, sem contar os prejuízos que o dono tem de arcar nas oficinas. Um deles mesmo está bem lá postado numa descida da Avenida Bartolomeu de Gusmão, próximo do cruzamento com o Hospital Samur. É só um exemplo. Existem outros assim.
Quem gosta de quebra-mola é justamente dono de oficina mecânica. Será que não basta a escorcha nos preços de combustíveis praticados pelos proprietários de postos em Vitória da Conquista, que tem a gasolina mais cara da Bahia? Estamos, então, na capital dos quebra-molas e do combustível mais careiro. Esses títulos não nos orgulham em nada. Muito pelo contrário.
A SIMPLICIDADE DAS CAPELAS
As capelas com todas suas simplicidades, diferentes das ostentações das catedrais, retratam o modesto e sincero sertanejo, o homem do campo, como a da imagem fotográfica do jornalista e escritor Jeremias Macário, captada num povoado entre São José de Jacuípe e Várzea da Roça. Nela está a comadre e o compadre, e todos se conhecem em oração, no mesmo sentido de pedir bonança e chuva para molhar o solo que seca com a estiagem. Lá está a rezadeira para puxar o terço, o Pai Nosso e a Ave Maria e, seu vigário, quando aparece, a todos abraça com distinção e apreço. Nas catedrais imperam os estilos grandiosos, painéis e interiores banhados a ouro, com seus bispos, papas e cardeais. O senhor do poder, que só quer se aparecer para a mídia, participa das solenidades para angariar votos e dizer que é católico. Por isso, como sertanejo-catingueiro, admiro muito mais as capelas porque elas espelham a honestidade, a solidariedade e o humano. As capelas me encantam porque nelas existe o encantamento da fé.
QUANDO E O AGORA
Uma nova versão corrigida e lapidada pelo autor Jeremias Macário
Quando vim ao mundo bebê,
No caldeirão fervente cultural,
Do conhecimento e do saber,
Cada escritor, poeta e jornal,
Eram como torcida de futebol,
Pelas noites etílicas ao pôr-do sol,
Nas praças, esquinas e botequins,
De livro na mão aprendendo a lição.
Lá fora cartazes e faixas gigantes,
Os jovens enfrentavam a censura,
Com o livre amor, todos vibrantes,
Marchavam contra a tirana ditadura.
O agora rotula a nova geração,
Como embalagem fora do produto,
Entre painéis, construção e viaduto,
Os milhões contam seus seguidores,
No youtuber, twiter, face e zap-zap,
Entre códigos pq, mt, mentes cores,
Troca o ser pelo consumo do ter,
No lixo joga a nossa memória,
Rosna a língua e nada de história,
E ainda acha você um careta que ler.
Quando o sábio visita o agora,
Sente o vazio no sentido do existir,
Um humano sem essência de elixir,
Como uma planta que não flora.
“O ÓPIO DO POVO”
Carlos González – jornalista
“O futebol é o ópio do povo”, frase atribuída ao jornalista, dramaturgo e torcedor fanático do Fluminense Nélson Rodrigues (1912-1980), adaptada da máxima “a religião é o ópio do povo”, de autoria do filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), idealizador da doutrina comunista, está associada aos regimes totalitários e aos governantes que adotam a velha política do “pão e circo”. Extraída da papoula, a droga era usada, a partir do século XIX, pelas populações famintas da Ásia e do Leste Europeu como antidepressivo, com a capacidade de causar um efeito sedativo. Nos tempos modernos, o entorpecente de origem vegetal foi substituído pelo esporte, mais precisamente pelo mais popular deles, o futebol. A indesejada Copa América, em disputa no Brasil, está sendo usada por um presidente – que se diz palmeirense, mas posa com a camisa do rival Corinthians, – para tentar frear sua queda de popularidade, em função da situação caótica em que vive o país.
Recusada pela Colômbia, que convive com uma crise social, e pela Argentina, sem controle da pandemia, a Copa América foi prontamente aceita pelo genocida, que viu no torneio uma forma de armar o “circo” para aquela camada da população desempregada, ameaçada pelo vírus, sufocada pela alta da inflação e sem condições de se alimentar. Não adiantaram os protestos dos cidadãos conscientes, inclusive cientistas, e dos profissionais de saúde que cuidam dos infectados pelo coronavírus.
As confederações de futebol da América do Sul (Conmebol) e do Brasil (CBF) só visavam os milhões dos patrocinadores (Ambev e Mastercard retiraram o apoio financeiro); os jogadores brasileiros divulgaram um irrelevante comunicado onde juravam que o amor pela seleção era maior que tudo. Maior, evidentemente, do que o sofrimento dos familiares das mais de 530 mil vítimas da Covid-19. A maioria dos governadores se negou a receber os jogos, que estão sendo disputados apenas nos estádios de Brasília, Cuiabá, Goiânia e Rio (Maracanã e Engenhão).
O homofóbico (a Justiça do Rio quer saber por que a camisa nº 24 da seleção foi “cassada”) presidente imaginou que a Copa iria afagar seu devoto Sílvio Santos, dono do SBT, emissora que adquiriu os direitos de transmissão dos jogos, e criar picuinha com a Globo. A temporada circense não teve o êxito esperado. Sem público nas arquibancadas e um futebol violento e de péssima qualidade técnica, as seleções sul-americanas não empolgaram o torcedor, nem mesmo a brasileira, em franca decadência depois dos 7 a 1 aplicados pela Alemanha na Copa do Mundo de 2014, e no êxodo de jogadores para Europa e Ásia.
Os índices de audiência do SBT têm sido bem abaixo dos apresentados pela Eurocopa, transmitida pelo canal Sportv. A CBF até que procurou dar uma ajuda, transferindo partidas do Brasileirão para às 11 horas, e tirando um Fla-Flu do Maracanã – quem poderia imaginar – para o estádio do Corinthians.
“Pra frente Brasil”
Nessa Copa América envergonhada, Bolsonaro imaginou também que poderia desviar a atenção do país para os escândalos do seu governo, como se o brasileiro fosse o mesmo alienado dos anos de chumbo (1969 a 1974), o mais sanguinário da ditadura militar (1964-1985). O rigor da censura aos meios de comunicação impedia que o povo tomasse conhecimento das sessões de tortura e das mortes nos porões da ditadura, enquanto o presidente Garrastazu Médici (1905-1985) assumia o posto de torcedor número 1 da seleção, com direito a intervir na comissão técnica e na convocação dos jogadores, campeões mundiais de 70, no México. A marchinha “Pra frente Brasil” se transformou numa espécie de hino do regime autoritário.
A vitória alcançada pelos comandados de Zagalo estimulou Médici a continuar a se valer do futebol com finalidade política partidária. O AI-2, assinado em 1965 pelo marechal Costa Silva, criou o bipartidarismo, a fim de dar a impressão no exterior de que o Brasil respirava democracia. Após cassações de políticos que faziam oposição ao regime foram criados a Arena, o braço da ditadura no Poder Legislativo, e o MDB, uma espécie de coadjuvante da comédia. Para fortalecer a Arena no interior do Brasil, Médici começou intervindo na CBF, colocando o almirante Heleno Nunes na presidência da entidade, com a orientação de aumentar o número de participantes do Campeonato Brasileiro, chegando a marca recorde de 94, sendo 30 do Nordeste, região que era representada apenas pelo Bahia. Daí surgiu o slogan: “Onde a Arena vai mal, um clube no Nacional”.
Ambicioso em suas pretensões, o Partido dos Trabalhadores (PT), que governou o Brasil de 1º de janeiro de 2003 a 31 de agosto de 2016, se candidatou, por iniciativa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a promover os dois mais importantes eventos esportivos do planeta, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, no intervalo de dois anos, contrariando a opinião dos economistas e de uma considerável parte da população, sob o argumento de que o país tinha outras prioridades no âmbito social.
Vaidoso e no auge da popularidade, Lula pretendia que o Brasil exercesse maior influência no concerto das nações, ou talvez sonhasse com vida longa para o petismo na chefia do poder. A indicação para a Copa de 2014 foi tranquila, diante das desistências de Argentina e Colômbia. A FIFA exige oito cidades-sede, mas Lula conseguiu ampliar para 12, cujas arenas, entre reforma e construção superfaturadas, minaram os cofres das estatais e do Executivo.
No primeiro dia de 2011 Lula passou a faixa presidencial para sua ex-ministra Dilma Rousseff, que ficou encarregada de montar toda a estrutura para realização da Copa. Com as obras atrasadas, que provocaram a reação da FIFA, ameaçando levar o torneio para outro país, a presidente não agiu para impedir os escândalos financeiros em seu governo, envolvendo ministros, diretores da Petrobras e empreiteiras. A campanha de “Não vai ter Copa” ganhou as ruas. Na abertura do torneio, em 12 de junho de 1914, Dilma foi recebida no Maracanã sob vaias e xingamentos.
A candidatura do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016 trocou o noticiário esportivo pelo policial. No dia 2 de setembro de 2009, em Copenhague, na Dinamarca, autoridades governamentais e esportistas comemoraram a indicação da capital fluminense. Um ano depois da realização do evento, o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, preso por desvio de dinheiro público e condenado, confessou que seu governo, naquela reunião de setembro de 2009, comprou os votos de nove delegados africanos por 2 milhões de dólares. O intermediário da negociata foi Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, que chegou a passar 15 dias numa prisão, além de perder o cargo que ocupava há 22 anos. O suborno foi o método usado para afastar a cidade de Madri da disputa.
Muitos dos estádios construídos para a Copa do Mundo e os equipamentos para os Jogos Olímpicos estão hoje sem serventia, passando por um processo de deterioração. O legado financeiro negativo deixado por esses dois megaeventos não foi questionado nem pelo Ministério Público Federal nem pelo Tribunal de Contas da União.
A ESCOLHA DE VACINAS E AS RACHADINHAS
Misture as rachadinhas (a família rachadinhas) com atraso e negociações superfaturadas nas compras de vacinas, xingamentos a jornalistas, negação da ciência, destruição do meio ambiente, atitudes homofóbicas e racistas, incentivo ao armamento da população, apoio a uma intervenção militar e desprezo pelos mais pobres, e tudo isso resultará num prato indigesto de prevaricação, improbidade administrativa, descompostura, corrupção e crimes de lesa-humanidade, mais que suficientes para um impeachment.
É esse o boletim de ocorrência de um capitão-presidente que está na lista entre os que mais odeiam a mídia no mundo, e a trata jornalistas com desprezo, agressividade, ameaças e palavrões, principalmente quando o profissional é uma mulher. O povo está indo às ruas para pedir o seu afastamento, mas o Congresso Nacional, comandado por um punhado de deputados do “Centrão”, se cala, traindo a pátria que ele diz que é amada, mas maltrata seus filhos.
Disse outras vezes e repito novamente, que em toda a minha vida nunca vi tanto caos junto em meu país, onde a metade dos jovens, se tivesse condições, gostaria de deixar a sua terra natal. O voto de raiva contra um partido e seu dono fez tudo isso, quando se tinha outras opções. Será que valeu a pena tanto ódio e intolerância? Sobraram os arrependidos e os da extrema-direita fascista que insiste em seguir um desequilibrado que se acha blindado de todas as acusações.
Mesmo com toda essa folha corrida, o capitão-presidente que, a essa altura já conseguiu ser o prior da história do Brasil, em todos os aspectos, vai terminar o seu mandado e ainda se lançar à reeleição, com o risco de termos mais quatro anos para ele complementar sua saga de destruição.
Infelizmente temos uma massa inculta e manipulável por fake news e boatos, ao ponto de em meio a toda essa crise pandêmica, com cerca de 530 mil mortes, agora inventar de escolher qual vacina tomar, como se fosse uma marca de cerveja num bar, ou numa prateleira de supermercado.
Esses indivíduos truculentos e trogloditas, certamente seguidores do seu chefe, mas incoerentes, ainda aparecem aos pontos de vacinação para xingar e agredir os técnicos de enfermagem que lá estão fazendo o seu trabalho de imunização. Puni-los, sem direito à vacina não é o mais correto porque esses nocivos elementos podem tirar vidas através da contaminação de outras pessoas.
No entanto, se fosse um país sério, o panaca que quer escolher qual vacina tomar e desacata o profissional, pelo menos deveria ser preso, e só sair da cadeia quando decidisse aceitar a dose disponível. Se a pandemia é comparável a uma guerra, quem assim age não tem nenhum direito à liberdade de se comportar dessa maneira, porque ele está cometendo um atentado contra a pátria e seu semelhante.

















