“OS MASCARADOS”
Há mais de um ano e meio que fazemos o papel de “os mascarados” (nem todos), como se fossemos guerrilheiros de alguma facção política ideológica, criminosos, testemunhas que não podem ser reconhecidas ou policiais em missões de risco de vida, tudo por conta da pandemia da Covid-19, que já ceifou a vida de mais de 600 mil brasileiros. Hoje as máscaras estão por todas as partes, em farmácias, lojas de materiais de saúde e nas esquinas sendo vendidas até por camelôs, como na foto do jornalista Jeremias Macário. É uma forma de proteção contra o perigoso vírus que mata e deixa sequelas no ser humano. É altamente contagioso, mas, infelizmente, ainda tem muita gente negacionista da ciência que se recusa usar a máscara, que já faz parte da nossa indumentária. Essas pessoas, que não respeitam a vida dos outros, são as mesmas que escolhem qual vacina tomar, e desclassificam outras como imprestáveis, ou que são apenas água. Para a Covid, temos a vacina como saída única para a cura, mas para tratar a mente dessas pessoas, não há vacina que cure e salve.
O GARIMPEIRO E O DIAMANTE
Poeminha inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário
“Quem não aguenta subir serra,
Não arranca candombá”,
Para extrair o diamante da mãe terra,
Consulta Curador Jarê caboclo orixá.
O garimpeiro da Diamantina Minas Gerais,
Cortou morro estrada até Mucugê Sincorá,
Das grunas dos olhos d´água, feras animais,
O pedrista lapidário faz do diamante colar.
Reza a lenda, todo diamante tem seu dono,
E o garimpeiro entra no túnel da encantaria,
Na Chapada Diamantina sonha em seu sono,
Encher de luxo brilhante sua amada Maria.
De Andaraí, Lençóis e das Palmeiras,
Nasceram bravos coronéis das Diamantinas,
E o garimpeiro no bambúrrio das cascalheiras,
Vendeu ao capangueiro suas amantes meninas.
Fantasias, cânticos, ritos, rituais e cultos,
Deuses sagrados e oráculos dos profanos,
Ainda se vê nos rios e vales alguns vultos,
Piçarras e mosquitos, perdas daqueles anos.
Um diamante apareceu no fundo da bateia,
Santo vaqueiro do eito, atabaque da magia,
Como nas bonanças das Lavras uma sereia,
Da Poíesis grega brotou do humano a poesia.
Senhor dos Passos dos mineiros padroeiro,
No enlace místico religioso afro-brasileiro.
ALÉM DO IPTU, PREFEITURA QUE COBRAR TAXA DE LIXO DO POVO
A Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista voltou ontem (dia 4/08) do recesso parlamentar (haja recesso no ano!), com uma extensa pauta de requerimentos, indicações, moções de aplausos e alguns projetos-de-lei do executivo municipal, dentre os quais, a malvada taxação do recolhimento do lixo dos moradores que já pagam um caro IPTU.
A princípio, esse projeto representa um duplo imposto, tendo em vista que o povo já arca com o pesado IPTU todos os anos, e poucos benefícios recebem. Muitas ruas e bairros periféricos de Conquista continuam, há muitos anos, sem calçamento e serviços de esgoto. O brasileiro em geral já não suporta mais tantos impostos, num Estado que recebe o máximo e retribui o mínimo para a população.
O pior de tudo isso é que a maioria dos 21 vereadores (uma bancada que poderia ser reduzida pela metade se vivêssemos num país sério) aprova o projeto da prefeita. Então gente, prepare o bolso para mais um escorcha contra o contribuinte que já sofre com os preços dos combustíveis (Conquista tem os mais altos da Bahia), do gás e da ascendência inflacionária dos produtos alimentícios.
Para não dizer outra palavra, ou palavrão, é um absurdo, e uma falta de respeito contra o eleitor que deu seu voto, acreditando que os vereadores fossem lhe representar e lhe defender no legislativo. Nessa primeira sessão, depois do recesso, o conquistense recebe uma porrada traiçoeira.
Por causa da segunda onda da pandemia no início do ano, quando as sessões estavam sendo praticamente virtuais, ontem os trabalhos foram abertos à população, mas dentro dos protocolos recomendados de distanciamento entre as cadeiras, com álcool gel e máscaras, entre outros cuidados.
NÃO TRAUMATIZE MEU CHAPÉU!
Antes uma peça que fazia parte da indumentária do homem e da mulher, com toda sua elegância nas ruas, restaurantes e eventos festivos, o chapéu é por muitos visto hoje de forma discriminatória e com preconceito. Em tempos passados, ele desfilava soberano, inclusive pela nobreza, reis e rainhas.
Para o homem, por exemplo, ele não é aceito em determinados lugares solenes, reuniões, seminários, e nunca numa audiência judicial em frente ao um juiz. Numa entrevista de emprego, nem pensar! O cara que se atrever a ir de chapéu, será logo eliminado.
Lembro ainda menino que meu pai me obrigava a usar o chapéu na roça e quando ia à cidade, sob o argumento de proteção contra o sol. Com seu jeito matuto catingueiro de ser, ele dizia que o sol “cozinhava o juízo”, o que não deixa de ter certa razão. Livrei-me dessa exigência quando fui estudar, mas voltei ao hábito nos finais de semana nos anos 70, porque como repórter de redação, o jornal não admitia no trabalho.
No entanto, passei a adotar o chapéu, com maior frequência, quando vim assumir a Sucursal do “A Tarde”, em Vitória da Conquista, em 1991. Nos últimos anos, ele passou a ser minha marca registrada e não saio sem ele, embora impedido, ou autocensurado quando raramente entro num templo religioso, como na Igreja Católica.
Podem me criticar e até me chamarem de ignorante, mas não consigo entender o porquê consideram ofensa entrar numa Igreja de chapéu! Ele é tão imoral que constitui uma profanação à Santíssima Trindade? Na Igreja ele é um excomungado! Não posso falar com o Senhor Cristo com o meu chapéu? Será que Ele deixa de me atender por isso?
Por que o tabaréu, principalmente, quando fala em Deus tem que tirar o chapéu? Por que não se pode orar ou rezar com o chapéu? Ele é tão pecaminoso e símbolo de heresia? Esses conceitos não entram em minha cabeça que sempre está coberta pelo meu querido companheiro chapéus.
Outra discriminação é quando se entra num restaurante. Na hora de comer, o sujeito tem que tirar o chapéu para não ser julgado como mal-educado e desrespeitoso com o ambiente. Existe alguma explicação plausível para isso? Se o argumento for bem lógico, quem sabe, poderei acatar, mas meu chapéu não vai gostar nada disso, e nunca vou abandoná-lo. Vai ficar magoado e com traumas para o resto da vida, mas ainda do que ele já sofre.
Bem, tenho uma pequena coleção de cerca de 160 a 170 chapéus, e sempre digo a eles que tudo isso não passa de mais um preconceito. Quando vou sair, é uma gritaria danada para me acompanhar. Para agradar a todos, costumo sempre sair com um diferente, muitas vezes de acordo com as estações do ano.
Tenho procurado, com meu jeito de conversar, contentar a todos e dar uma de psicólogo para que não se sintam rejeitados ou frustrados por essa gente preconceituosa. Só pediria que deixem meu chapéu viver em paz. Não incomoda, e nem fala mal de ninguém.
A MATANÇA DOS CIGANOS
Desde o dia 13 de julho foram mais de 15 dias de perseguições, espancamentos, torturas e mortes de oito ou nove ciganos, inclusive de menores, todos, segundo informações da polícia. em confronto. De preso mesmo só o pai Rodrigo, de 58 anos, que foi ferido e hoje se encontra preso. Essa pessoa até agora, que eu saiba, não foi ouvida e entrevistada pela mídia, para contar a verdadeira história. Teve gente que nem era cigano.
Trata-se de mais um caso nos moldes de uma chacina que logo cairá no esquecimento, ou como se diz, vai para o rol dos arquivos mortos de Vitória da Conquista, como tantos outros, como dos assassinatos do marinheiro numa cadeia de uma delegacia, do prefeito de Manuel Vitorino, do massacre num bairro periférico da cidade, do dono do jornal, João Alberto, do menino Maicon alvejada com uma bala numa operação policial e de tantos outros.
Tudo começou no dia 13 de julho quando dois soldados foram mortos por um grupo de ciganos, no distrito de José Gonçalves. O comando da PM e o próprio secretário de Segurança Pública sempre insistem em dizer que eles sofreram uma emboscada quando faziam uma investigação, o que não bate. O fato está envolto em mistério e em vários pontos cegos do esclarecimento. Não houve transparência, conforme apuração do próprio Instituto dos Ciganos do Brasil. É subestimar a nossa inteligência”
Além das mortes, sempre em confronto, como já se costumou propalar nesses crimes que têm a marca da vingança, houve uma generalização com fortes sinais de preconceito, que o próprio povo cigano sempre sofreu desde as eras antes de Cristo. A violência de soldados da corporação foi tão brutal que muitos ciganos foram obrigados a deixar a cidade em debandada, em correrias, como nos tempos passados desde Brasil Colônia.
Foi, por assim, dizer, um arrastão nesse rastro de matança e sangue. Ameaçados e aterrorizados, um grupo de mulheres e crianças teve que ser acolhido pelo Programa de Proteção a Vítimas de Testemunhas (Provita/SP). O relatório do Instituto, encaminhado para vários órgãos ligados aos Direitos Humanos, estampa cenas chocantes de pessoas torturadas. A maior parte de mulheres que sofreram espancamentos para dizerem o paradeiro dos supostos assassinos.
Diante de todo esse quadro de violência e barbárie, como sempre, nenhum segmento da sociedade conquistense (Ministério Público, Justiça, Câmara de Vereadores, Sindicatos, Associações e outras entidades) se pronunciou, pelo menos para pedir uma apuração rigorosa para punir os verdadeiros responsáveis. Não se ouviu uma voz para se colocar ao lado da lei, e em defesa dos direitos humanos. Para mim, que aqui moro há 30 anos, não é nenhuma novidade.
Conquista sempre foi uma cidade famosa nesses casos de matanças, desde os tempos dos coronéis. Aqui ainda impera a prática antiga de se fazer justiça com as próprias mãos. É quando os justiceiros entram em ação, sabendo de antemão que não serão punidos.
Existe uma falsa ideia de que o brasileiro é uma gente com o DNA de solidariedade ao outro. Confundem solidariedade com caridade quando a pessoa se prontifica a dar um quilo de feijão, arroz, óleo, açúcar, uma camisa, uma calça, uma jaqueta ou um coberto para aquecer o frio.
Quando se fala em agir em defesa dos direitos humanos, do respeito ao ser, sem preconceito e discriminação, todo mundo se esconde em sua pele de lobo. Nem estão aí! Os outros que se lasquem. Vá chamar alguém para se juntar a uma manifestação quando um semelhante é morto injustamente! Todos somem, mas aparecem para dar uma cesta básica. Vivemos sim numa comunidade individualista e egoísta.
“REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (Final)
A COMUNIDADE DE REMANSO
Os autores acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar Aguiar consideram a obra como um ensaio antropopoético e identificam o povoado de Remanso, em Lençóis, não como um quilombo, mas como uma comunidade de Jarê, com duplo pertencimento religioso católico e do candomblé orixá caboclo indígena-afrodescendente.
Trata-se de um grupo com profundas marcas, vistas como tribais, envolta na ambiência cultural das Lavras Diamantinas, miscigenada, com suas crenças, símbolos e rituais peculiares.
Narram os escritores e professores, que Remanso nasceu de uma propriedade localizada às margens esquerdada dos Marimbus, no município de Andaraí, na primeira metade do século XX. Essas terras pertenciam e ainda pertencem a membros da família Gondim que consentiu a instalação de um grupo negro de etnia angolana, isto a julgar pela quantidade de vocabulário banto. Eles nasceram nas Lavras Diamantinas.
A comunidade, conforme pesquisadores, foi fundada em 1920, habitada por aproximadamente 350 pessoas. As habitações eram simples choupanas feitas com paredes de barro (sopapo) e cobertas com folhas secas de palmeiras e tabuas. Esse quadro se modificou nos tempos atuais com o uso de paredes de tijolos de cerâmica, tetos de telhas, energia elétrica, água encanada e fogão a gás (antes era a lenha).
Os moradores de Remanso ainda praticam uma agricultura de subsistência (mandioca, feijão e milho), um pouco de pecuária e pesca. Esses produtos servem para o sustento das famílias, e a outra parte que sobra é vendida nas feiras. A área está localizada no Parque da Chamada Diamantina, criada em 1985, e é uma APA Marimbus Iraquara, fundada em 1993 por decreto estadual.
Ronaldo e Itamar chegaram a entrevistar o seu Anísio, de 83 anos, na data, sócio da Sociedade União dos Mineiros, nascida em 1930. Ele era filho de garimpeiro e informou que do outro lado do Marimbus (Andaraí) vivia um grupo de pessoas já organizado em comunidade, sob a liderança do negro “Manezim do Remanso”.
Disse seu Anísio que, do lado de cá, em Lençóis, existiu um terreiro de Jaré, cujo curador se chamava de “Manezim Bumba”. Lembra que, quando ainda menino, ia a mando do pai, à casa desse Manezim abrir “revista” e buscar remédios que ele fazia quando era procurado por garimpeiros que desconfiavam estar enfusados. ou seja, não conseguiam extrair pedras.
Seu Anísio confirmou que a casa de “Manezim Bumba” era um terreiro de Jarê onde existia festa todas as semanas, batia atabaques, tinha filhos de santo, abria revista, reza para mordida e espantar cobras do pasto e fazia remédios.
O pesquisador Gonçalves, em seu livro “Garimpo, Devoção e Festa”, em Lençóis, cita no capítulo Medicina, receitas usadas pela comunidade para curar doenças, como hortelã miúdo, das dores, Imburana, batata de purga, quebra pedra, capim lanceta, fedegoso, arruda do mato, raízes de caiçara e xiquexique, dom bernardo, dentre outras plantas. Destaca ainda a pele de sapo, usada para curar vários tipos de câncer.
Quando foi mesmo que a comunidade de Remanso mudou-se para o lugar onde se encontra hoje? Seu Anísio respondeu que foi em 1950, acreditando ter sido por causa do terreiro de seu “Manezim Bumba”, e para ficar mais perto de Lençóis. Afirmou que a comunidade vivia mesmo da pescaria e das roças que plantava. Também, muitos trabalhavam no garimpo, inclusive o Manezim, como o do Calderão, e o de Cabaá – nome popular porque quando aprendia a ler sempre colocava o polegar na letra “A” que, com o tempo, se apagou.
Seu Anísio chegou a ser presidente da Sociedade União dos Mineiros por várias vezes quando trabalhava por conta própria no garimpo. Ela foi fundada em 1920 quando a Sociedade de Socorros Mútuos foi extinta. O velho Anísio informou que umas das atividades da Sociedade era organizar a festa em louvor a Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, cuja imagem chegou em 1855, trazida do Rio São José.
“Então o coronel Filisberto Sá reuniu os garimpeiros mais fortes, pegaram Nossa Senhora do Rosário, que é a padroeira da cidade (para as autoridades eclesiásticas é Nossa Senhora da Conceição), fizeram uma procissão e foram pegar Bom Jesus dos Passos lá no porto. Tempos depois uns portugueses doaram um terreno onde foi construída uma igreja. Daí nasceu a relação entre Senhor dos Passos e os garimpeiros”.
Contam Itamar e Ronaldo que, no ano de 2014, o pároco da cidade entrou em desentendimento com os filiados da Sociedade União dos Mineiros, boa parte da população e o poder público municipal. O sacerdote julgou que a Sociedade não tinha o direito de participar da organização da festa, tentando modificar uma tradição centenária. Foi um embate jurídico movido pelo advogado Alexandre Aguiar onde a comunidade saiu vitoriosa. As pessoas de Remanso sempre participavam da festa com reis e marujadas.
O Hino dos Garimpeiros foi trazido de Mato Grosso por Samuel Salles, avô do cineasta Orlando Senna, segundo seu Anísio, que também apontou o nome do sr. Isaias Malaquias da Ressurreição, um grande comprador de diamantes. De acordo com os autores do livro, a letra do hino foi feita por Sá de Carvalho, com música composta por J. Toledo, de Uberlândia. A canção foi executada pela primeira vez em 1º de fevereiro de 1927, na Festa do Senhor dos Passos, e reconhecida pela Prefeitura como hino municipal, em 2010. Quanto ao hino de Senhor dos Passos, foi elaborado por Dilson Cunha, em 1954.
A comunidade se localiza à margem direita dos Marimbus, formado pelo encontro das águas dos rios Utinga, Santo Antônio e seus afluentes. Esses rios desembocam na margem esquerda do Rio Paraguaçu. O povoado é circundado por uma grande mata secundária, fronteirizada pelos Marimbus e pelos rios Roncador e São José, afluentes da margem direita do Santo Antônio.
O Remanso dista 18 quilômetros da cidade de Lençóis e se constitui no que se pode chamar de comunidade afrodescendente, num sistema tribal. Entre os personagens do povoado, os autores da obra citam Nusenço, Aurino (músicos) e Salvador do Remanso, ator de cinema, cantador de chula, rezeiro e marujo, um típico Griô.
Existe ainda a Associação dos Pescadores de Remanso, criada em 1959, e registrada em cartório de Lençóis em 1969, sob orientação de Paulo da Silveira, que nos anos 70 foi eleito prefeito. Os moradores da cidade ainda participam da festa em louvor a São Francisco de Assis e Divino Espírito Santo, em Andaraí. Também frequentam terreiros de Jarê.
“ A julgar pelos ritos religiosos, Remanso seria uma comunidade católica semelhante a inúmeras outras existentes no sertão brasileiro, levando em conta a descrição dos aspectos físicos da comunidade. O que solta aos olhos são os símbolos do catolicismo”.
Remanso fica dentro da Área de Proteção Ambiental dos Marimbus Iraquara, na junção dos rios Utinga e Santo Antônio, onde existe uma grande variedade de peixes, como a piranha, a traíra, piaba, crumatá, tucunaré, apanhari, o martim pescador, dentre outros, sem contar os animais silvestres, como o quati, veado e tatu. Além da pesca, a comunidade também extrai mel de jataí, mandaçaia, uruçu, tubi, arapuá e italiana.
UM CENTRO CULTURAL NO “PAU DA BANDEIRA”
Na foto do jornalista Jeremias Macário, quase todos conquistenses conhecem muito bem a popular Praça “Pau da Bandeira” onde funciona uma feirinha com um amontoado de barracas de corredores apertados, uma área de artesanato, também nos mesmos moldes, algumas lojinhas nas laterais do quarteirão, e o Teatro Carlos Jheová. Nesses tempos de pandemia, é um local perigoso por ser muito fechado, de pouca circulação. Há uns cinco ou oito anos, no Governo do PT, se cogitou derrubar esse “monstrengo” de prédios, salas e barracas, para no lugar se implantar um Centro Cultural, só que houve resistência dos usuários com apoio de vereadores da Câmara Municipal. O projeto, na sua concepção, em parceria com o Banco do Nordeste, que bancaria todo investimento, era um presente para a cultura de Vitória da Conquista. Nele funcionariam espaços que iriam beneficiar todas as linguagens artísticas, como audiovisual, literatura, teatro, dança, artes plásticas, artesanato, oficinas de treinamento e um auditório multiuso para eventos diversos e cinema. O “Pau da Bandeira” é um local que só enfeia a cidade. O projeto ficou no papel, mas ainda se fala nele, como ouvi de um amigo dia desses. No próprio Centro poderia ser construído um teatro em homenagem ao nosso saudoso Jheová. Uma obra desse porte marcaria a gestão de qualquer prefeito. Existe ainda o antigo Cine Madrigal que está lá se deteriorando com o tempo e nada se faz.
O ALUNO E O MESTRE
Versos do jornalista e escritor Jeremias Macário
Um dia o aluno pediu ao seu mestre
para que definisse o sentido do viver.
Respondeu que o enigma não importa,
e que o certo é aprender abrir a porta.
O aluno insistiu no Sou e para aonde Vou?
e que explicasse origem e fim do universo.
O mestre olhou perplexo e emendou sério:
Viva sempre cada verso e nada de mistério;
As florestas possuem seus próprios espíritos,
e o homem não suportaria viver sem conflito,
mas o jovem se intriga com o finito e infinito.
Por que uns ricos saudáveis e outros miseráveis?
Para o mestre, o homem tem a diferença imposta;
do nada ao cósmico, nem a ciência tem resposta.
MAIS TRÊS CIGANOS SÃO MORTOS E SEUS CADÁVERES SÃO VILIPENDIADOS
Numa troca de tiros, de acordo com versão das polícias militar e civil, mais três ciganos da família Matos, suspeitos do assassinato de dois PMs, no dia 13 de julho último, no distrito de José Gonçalves, foram mortos ontem (dia 28/07) nas imediações do Rio Gavião, em Anagé.
Com essas baixas na ação policial, sobe para nove o número de mortos desde a caçada aos ciganos no dia 13 do mês, incluindo dois menores de 13 e 15 anos e um empresário, dono de restaurante, de nome Diego Santos Souza, de 39 anos, membro da Pastoral da Igreja Católica, sem contar a prisão, com ferimentos, do pai Rodrigo Silva Matos, de 58 anos, interrogado no Distrito Integrado de Segurança Pública.
VILIPÊNDIO
Sobre os mortos, o Instituto dos Ciganos do Brasil (ICB) recebeu um vídeo e fotos dos corpos mostrando a voz de um homem e mais duas pessoas vilipendiando, ou seja, profanando, aviltando, desrespeitando e ultrajando os cadáveres.
Provavelmente, segundo a entidade, o local seria o Hospital de Anagé. O ICB enviou a gravação às autoridades competentes, para que o caso seja rigorosamente apurado, como crime previsto no Código Penal, artigo 212. Pede ainda que o servidor da Prefeitura de Anagé e todos que participaram do vídeo sejam identificados e punidos dentro da lei. O Instituto também requer que as circunstâncias das mortes sejam investigadas. “O vilipêndio causa dor e angústia às pessoas, cujas intimidades são expostas”.
O que se percebe nessas diligências dos policiais é que praticamente ninguém dos envolvidos chegou a ser preso para responder judicialmente pelos seus supostos crimes. O presidente do Instituto, Rogério Ribeiro, esteve em Vitória da Conquista, entre os dias 19 a 22 de julho e declarou que houve excessos por parte de membros da corporação militar, com torturas e espancamentos, inclusive contra uma idosa de 82 anos e três netos adolescentes.
Diante da violência, ainda segundo Rogério, vários ciganos tiveram que ser removidos de Conquista para outras cidades da região, no sentido de proteger essas famílias de mais represálias. Por intermédio de órgãos ligados aos direitos humanos, e com o consentimento das vítimas, cinco mulheres e sete crianças podem ser, em breve, incluídas no Provita (Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas de São Paulo), dependendo tão somente dos tramites burocráticos.
Na ocasião, no último dia 19, estiveram também em Conquista o secretário de Segurança Pública da Bahia, o comandante Geral da Policia Militar da Bahia e a delegada geral da Polícia Civil, quando negaram excessos dos policiais nos atos, e que tudo foi feito dentro da lei, o que foi negado pelo presidente do ICB, Rogério Ribeiro.
Disse que o secretário não foi transparente em nenhum momento. Em seu relatório, enviado para a Promotoria Pública Estadual, Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores de Conquista e do Congresso Nacional, defensoria pública e outros organismos, as fotos de espancamentos e torturas são chocantes. O documento faz um apelo para que providências sejam tomadas contra os responsáveis, e os crimes sejam punidos.
Esse fato em Conquista lembra os tempos do Brasil Colônia e Império quando os ciganos viviam em correrias, sendo empurrados de um estado para o outro, como corja de sujos, malandros, ladrões e marginais. Os bandidos aproveitavam a presença dos ciganos próximos a seus acampamentos para praticarem seus crimes, sabendo que eles levariam a culpa.
O BRASIL PRECISA CICATRIZAR SUAS FERIDAS QUE CONTINUAM ABERTAS
A história do Brasil é como a de um Velho Senhor que há séculos continua acamado porque não conseguiu cicatrizar suas feridas. Em seu divã de análise psicanalítica, Ele carrega marcas traumáticas do colonialismo escravocrata, do império oligárquico aristocrático burguês, da Velha República dos senhores coronéis, de uma Nova que se cansou no meio do caminho, de uma ditadura civil-militar que não fechou suas feridas, de uma redemocratização abalada pelas corrupções e o populismo de duas faces e agora por uma extrema de ódio às minorias excluídas, que está nos levando a uma caverna de trevas dos tempos primitivos.
Podemos nos ater às feridas mais recentes dos últimos 70 ou 80 anos, a começar pelo suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, quando uma turba ignara tentou dar um golpe militar, mas foi interrompido por um general chamado Lott. Quando o ministro do Trabalho João Goulart propôs um reajuste de 100% sobre o salário mínimo, a elite gananciosa e egoísta, como sempre, mais a ala conservadora das forças armadas, mostraram suas garras afiadas. Nesse elenco, não podemos esquecer do caudilho Carlos Lacerda, como um Catilina venenoso na cata pelo poder a qualquer custo.
Na ausência de Getúlio, assumiu o vice-presidente João Café Filho que foi instigado a puxar o golpe. No ano seguinte, teve a candidatura de Juscelino Kubistchek e Jango. Mais uma vez, as forças armadas tiveram que engolir o osso, mas o rancor ficou ainda mais guardado nas entranhas malditas. Como fake news do passado, ligaram a eleição de Juscelino ao contrabando de armas para os comunistas, os inimigos satânicos da nação. JK foi eleito e aí veio a conspiração para que ele não tomasse posse.
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Foto do fotógrafo Evandro Teixeira e instalação do escultor Edmilson Santana
Mais uma vez, a tentativa de uma ditadura não colou, crescendo o ódio para uma revanche lá na frente. O golpe estava marcado para 10 de novembro de 1955. Queriam a cabeça do presidente interino Carlos Luz, substituto de Café Filho. O general Lott mobilizou seus oficiais, e a ave de rapina Carlos Lacerda fugiu a bordo do Cruzador Tamandaré. Nessa lacuna, Café Filho assumiu a presidência, mas ele também fazia parte da trama golpista e foi afastado.
Nesse interim, o Congresso Nacional aprova o estado de sítio até a posse de Juscelino, em 31 de janeiro de 1956, adiando um novo golpe. Vieram as eleições de 1960, e o destrambelhado Jânio Quadros é eleito contra o general Lott. Na vice tem o João Goulart, aquele demonizado perlo militares. O maluco renuncia no mesmo fatídico mês de agosto. Pela Constituição, o vice tem o direito de ocupar a cadeira, mas, novamente, as forças armadas, que diziam ser de ocultas, peitam sua posse. Os grupos de resistências, comandados por Leonel Brizola, furam o cerco. O homem senta no trono, mesmo enfraquecido por um parlamentarismo arranjado de última hora. As cicatrizes permanecem abertas.
Os generais recuam, guardando o revanchismo ditatorial no baú dos quartéis, com apoio de segmentos conservadores de alas civis, para 1º de abril de 1964. A promessa era ter eleições em 1965, mas em seu lugar nos mandaram um carrasco chamado Ai-5 (Ato Institucional), em 1968. No pacote de serpentes peçonhentas, vieram os anos de chumbo que assassinaram as liberdades individuais, censuraram, cassaram parlamentares, políticos, torturaram, esquartejaram, mataram e deram sumiço aos corpos dos adversários ao regime.
Foram quase 30 anos de repressão com cinco generais no governo, cometendo atrocidades, atos arbitrários e de terror até que veio uma tal de anistia tupiniquim que não puniu os torturadores, os que cometeram crimes hediondos de lesa-humanidade. As feridas do Velho Senhor, cansado de levar pancadas, não foram cicatrizadas. O Brasil continuou no divã psiquiátrico tomando doses cavalares de antidepressivos, remédios pesados para curar suas dores mentais traumáticas.
Pulamos mais 30 anos de turbulências, populismos, tramas e truques ilusionistas, e os poderosos de uma casta nababesca mandando no poder. Veio a polarização da intolerância entre o “nós e eles”, e ai se elege outro maluco, tipo psicopata, incarnado numa personagem histórica que espalhou desgraça e matança pelo mundo, com fins de selecionar uma raça pura.
Em seu governo de militares oficiais da reserva e da ativa (generais e coronéis), ávidos por vaidades, status e dinheiro, eles apoiam a linha arbitrária de um desequilibrado que também arma para implantar no Velho Brasil outra ditadura.
As investidas já foram várias, como fechar o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (em maio do ano passado). As raposas e as hienas rondam o nosso terreiro, com carabinas e metralhadoras. Elas não desistem e querem repetir a história através da mão de ferro. Afinal de contas, são carniceiras da democracia.
Agora, o obcecado da extrema, que nos deixou sem vacina em plena pandemia da Covid-19, diz que o sistema eleitoral é fraudulento e quer, a todo custo, o retorno do voto impresso. Dá um ultimato que, caso contrário, não haverá eleições, o que significa um golpe. Como outrora, é um general que também lhe dá voz e manda um recado para o Congresso. A intenção é preparar terreno para uma intervenção militar. De legítimo, só se as urnas do próximo ano lhe derem a vitória.
Nesse jogo estão as polícias militares estaduais que são estimuladas a fazerem um motim. Elas são responsáveis pela segurança do pleito. Será que vamos ter um general Lott, como em 1955/56? Perceberam que em todas as tentativas e as consolidações de golpes nesse nosso Velho Senhor Brasil têm o rastro das forças armadas conspirando nos bastidores? Tudo isso tem uma razão de ser: As cicatrizes das feridas desse Senhor continuam abertas.



















