Quando era menino e frequentava as feiras em Piritiba e suas redondezas com meu pai, ficava encantado com os repentistas com suas violas e pandeiros nordestinos trocando versos num embate para ver quem se saia melhor em suas estórias e histórias, envolvendo personagens importantes, o cotidiano da vida, a seca, os retirantes, os causos de coronéis, os compadres e as comadres e até de pessoas ali presentes.

  Nem entendia aquela arte milenar cultural e popular da oralidade, típica do Nordeste, vinda da Península Ibérica (Portugal e Espanha), mas vibrava mesmo era com as improvisações e as rimas trocadas que fechavam os versos. Era uma admiração de menino que continua até os dias atuais da minha vida. Pena que pouco estudada pelos acadêmicos da cultura erudita, só que o repente também é erudito.

Só depois de séculos de história, principalmente pelo chão árido nordestino, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu, na semana passada, o repente como patrimônio cultural do Brasil. O repente é reconhecido também como cantoria e tem como fundamento versos, rimas e oração. Os cantadores se espelham pelas cidades do interior do nosso Nordeste e ainda em regiões onde receberam migrações nordestinas.

A votação foi feita pelos 22 membros do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, órgão do Iphan. O pedido foi feito pela Associação dos Cantadores Repentistas e Escritores Populares do Distrito Federal e Entorno. Pelo menos alguma coisa boa acontece nesse governo destruidor da nossa cultura e que procura impor aos nossos jovens uma ideologia do atraso, do retrocesso, do negacionismo e do preconceito.

No repente, a rima é a marca da espontaneidade poética do artista que faz uma espécie de repórter do sertão e historiador do cotidiano. Os repentistas empolgam e atraem anônimos que passam para apreciar as emboladas, um estilo que não deixa de ser repente, irmã do cordel. Eles são, acima de tudo, irreverentes e criativos, resultando em relatos carregados de figuras de humor.

Essa cultura vem dos poetas dos tempos gregos de Homero e Hesíodo, falando das intrigas dos deuses, dos heróis e mortais. Essa cultura da oralidade foi passando de geração em geração até a Europa antiga e chegando depois ao nosso Nordeste.

A Bahia desponta como um celeiro de repentistas (Alô Bule-Bule), grandes duelistas com suas violas, aboios e emboladas. Contam os historiadores que o berço do repente veio de lá da Serra do Teixeira, seguindo pelo Vale do Pajeú pernambucano até alcançar o Seridó, em terras potiguares. São mais de 50 modalidades, com acentuação tônica obrigatória, espalhadas por todos estados nordestinos, com suas belezas de prosas poéticas que engrandecem ainda mais a nossa rica cultura.