“MUITO ALÉM DO VÉU”
Ainda sobre a socióloga marroquina Fatema Mernissi, a principal temática de suas obras foi sobre a desigualdade feminina no mundo árabe-islâmico. De acordo com a historiadora Isabelle de Castro, ela questiona como reverter a submissão das mulheres, considerando que a legislação de família ainda é dominada pelos ditames e tradições da jurisprudência religiosa, mesmo no Marrocos, os julgamentos ocorrem em tribunais do Estado e não por um corpo de juristas religiosos como acontece em outros países mulçumanos, como a Arábia Saudita.
Sua obra “Além do Véu: dinâmicas masculino-femininas em uma sociedade mulçumana” é fruto de um período em que a sociedade local enfrentava novos desafios, ainda presentes, como a maior inserção das mulheres no sistema educacional e o consequente crescimento da participação da mulher no mercado de trabalho.
Ela realizou trabalho de campo em seu país visando esclarecer a natureza das relações entre ambos os sexos. “Essa questão básica nos preocupa a todos e é particularmente vital para mim, uma mulher vivendo em uma sociedade mulçumana” – afirmou.
Em seus estudos e escritos, destacou que no islã as mulheres são vistas como seres poderosos e perigosos. Diante disso, segundo ele, as instituições criadas pela religião como o véu, a poligamia, o repúdio, a segregação sexual, podem ser vistas como estratégias criadas pelos homens para controla-las. Em outras palavras: “A ordem social, então, serve como uma tentativa de subjugar seu poder e neutralizar seus efeitos desordenados”.
No entender de Fatema, as mulçumanas estão em um diálogo silencioso, mas explosivo em uma frágil classe dominante, que não tem como barrar esse processo de transformação da sociedade. A legislação marroquina define que é papel do homem ser o único provedor da família. No entanto, a manutenção da exclusão feminina no processo impede o avanço econômico.
Quanto a esse aspecto, ela cita que durante o conflito Irã-Iraque, a entrada de muitas mulheres no mercado de trabalho foi vital para a manutenção da economia e do esforço de guerra em ambos os países. A elite dominante não quer ver isso e desconsidera o papel da mulher. Isso dificulta o desenvolvimento nos países islâmicos.
Em Além do Véu, Fatema indaga o porquê de os direitos femininos serem tão escassos em países de maioria mulçumana? A religião é contrária aos direitos da mulher. A lei islâmica tem como base, além do Alcorão, os hadiths, relatos chancelados por especialistas como verdadeiros de ações e dizeres do profeta Muhammad. Argumenta que a consolidação da religião revolucionou o tratamento dado às mulheres com novas leis. Sabe-se que a prática do infanticídio feminino foi abolida com a ascensão do islã.
Em seus argumentos, assinala que duas esposas do profeta foram atuantes, inteligentes e independentes. Aisha, por exemplo, foi a primeira mulher a se lançar e assumir uma carreira política. Foi ela quem liderou a primeira resistência armada contra um califa.
Destaca que, o ataque à posição das mulheres teria se solidificado sobre o quinto califa que implantou um poder absolutista, quando houve o estabelecimento da sucessão do califado por via dinástica.
A experiência de igualdade buscada entre os primeiros mulçumanos e estabelecida pelo profeta esvaiu-se. As mulheres seriam condenadas a viver com o hijab, o lenço que cobre os cabelos femininos, um resquício da guerra civil travada entre Medina e Meca, e por pressão dos próprios companheiros do profeta.
Os especialistas (uma elite masculina) promoveram uma interpretação predominantemente patriarcal e misógina. “Você encontra no Alcorão centenas de versos que apoiam os direitos das mulheres de uma forma ou de outra, e somente alguns poucos que não fazem. Eles capturaram esses poucos e ignoraram os outros”.
Fatema tentou conciliar sua fé com seus ideais de igualdade. Demonstrou que isso seria possível com um outro olhar sobre os textos clássicos. Ela procurou não criticar os dogmas da religião, mas seus intérpretes.
O GAVIÃO E A SECA
Pelas lentes do fotógrafo José Silva, o gavião voa baixo no sol escaldante do agreste do sertão farejando uma presa para matar a fome, mas o chão está rachado pela seca que não deixou muita coisa para se alimentar. Sem flora e sem fauna, ele é um dos últimos solitários nessa paisagem cinzenta a esperar que uma graça desça dos céus, como também o catingueiro que perdeu suas lavouras e o gado. Ainda com um fio de fé e esperança, o roceiro mira todos os dias para o alto à procura de uma nuvem e um vento mais forte que deem sinais de chuva, mas nada de um cheiro dela no ar. Ele é resistente e forte como o gavião que continua a voar, e dificilmente bate em retirada. O carro-pipa corta a estrada de cascalho, cobrindo de poeira os engaços e bagaços, mas a água não chega para todos. Sempre dizem que o homem pode conviver com a seca, mas os projetos para que isso se torne realidade não saem do papel. Os programas se estacionam nas promessas vãs dos políticos. Na cultura religiosa foi Deus que assim quis, mas isso é só uma tentativa de acomodar o sertanejo para que ele continue submisso aos poderosos. Mesmo com a seca, o gavião não vai parar de fazer a sua caça e, se nada encontrar, ele bate asas para bandas mais distante, e retorna à sua terra natal nos bons tempos, como faz o sertanejo.
A DOR DO RETIRANTE
Nova versão de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Ah, Senhor Deus!
O açude secou,
Tudo ao sol se evaporou,
No lajedo o mandacaru,
Nessa imensidão do tempo,
Sem o sinal do vento,
Nem no agreste uma flor.
Ah, Senhor Deus!
Vou embora do Nordeste,
Deixar o meu sertão,
Com a benção da minha mãe,
Pra noutra terra ser peão,
Ser escravo dos capitais,
E vagar nas transversais.
Ah, Senhor Deus!
A dor doida corta o peito,
Como facada no lamento,
Ver esse feito da minha gente,
Partir como retirante,
De fome sem lavoura e alimento.
O rebanho e sem semente,
Sem nascer um rebento.
Ah, Senhor Deus!
Na grande cidade das esquinas,
Filhos soltos desgarrados,
Sinaleiras de meninos e meninas,
Vivendo de parcas esmolas,
Como alvo das chacinas,
Balas perdidas sem escolas,
Nas selvas de pedras infernais.
Ah, Senhor meu Deus!
Nos socorra se quiser,
Para um dia nós voltar,
Pra nossas roças plantar,
Fartura pra renovar a fé,
Sem nunca mais na vida,
Em terra de estranhos,
Viver a mendigar.
UMA INVASÃO DE BÁRBAROS EM NOVA YORQUE E NA ONU
Mais um tremendo estrago na imagem do nosso Brasil, com um monte de falácias, distorções nas informações, mentiras, negacionismo da ciência e contaminação da Covid-19, deixando o mundo estarrecido. Assim foi a segunda invasão de bárbaros em Nova Yorque e na ONU (a primeira foi em 2019).
Sinceramente, é um desgaste de tempo se for elencar as barbaridades, pois já foram estampadas por toda a nossa aldeia chamada terra que hoje está conectada entre todos os cantos através das redes sociais da internet. Entendo que a esta altura até os seguidores, os chamados fantasmas que saíram dos macabros armários, do capitão-presidente ficaram estarrecidos, mas nunca vão dar o braço a torcer.
Foi um torrencial de contradições que superaram as ideias e os pensamentos mais atrasados e retrógrados da Idade Média. Quem é este cara que fala de família e tem uma desajustada e corrupta, especializada em “rachadinhas”, sem contar o alinhamento com os milicianos matadores do Rio de Janeiro?
Que é este que fala em liberdade e democracia, e mobiliza seus apoiadores nas ruas para pregar a volta da ditadura, com o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal? Quem é este que desmoraliza nossa medicina dizendo que o Conselho Federal da categoria recomenda o tratamento preventivo do vírus com a adoção do medicamento cloroquina?
Quem é este que com sua turma invade Nova Yorque e a ONU, sem máscaras, para contestar as recomendações científicas mundiais de combate à pandemia? Quem é este que comanda uma caravana de doidivanas onde um médico ministro da Saúde joga seu juramento no lixo e ainda faz gestos obscenos contra uma manifestação pacífica de oposição?
Ele, o ministro, deveria se envergonhar pela sua idade e pela sua posição, mais ainda por ter sido contaminado por mera negligência médica. Que ministro da Saúde nos temos! Que vergonha! Perdoai, Senhor, porque eles não sabem o que fazem e o que dizem! Quem é este que fala em nome de Deus e atenta contra a vida de milhões de brasileiros que choram as perdas de quase 600 mil almas porque as vacinas chegaram atrasadas?
Como defender o indefensável diante de tantos paradoxos e barbaridades, com dados falsos, truncados e deturpados, tentando enganar investidores, como se fossem totalmente desinformados da atual situação econômica e social do nosso país? Será que os grandes empresários de hoje ficaram loucos ao ponto de rasgar dinheiro? Quem é este que ultraja a nossa nação? Como reconstruir toda essa imagem enxovalhada no exterior? Como recuperar o nosso meio ambiente devastado pelos desmatamentos e queimadas?
Depois de todas essas cenas de comedores de pizzas e churrascos nas ruas, com máscaras nos pescoços, como me orgulhar do meu país? São esses os nossos diletos representantes, ou seres estranhos de outro planeta? Quem são esses bárbaros que tanto repetem as palavras pátria, família e tradição, e tanto fazem para nos negar o conhecimento e o saber?
O SERTANEJO AINDA NÃO CONSEGUIU CONVIVER COM OS EFEITOS DA SECA
Fotos do jornalista Jeremias Macário
No nosso roteiro para ver de perto os efeitos da seca sobre o sertanejo, os quais perduram há séculos no cenário brasileiro porque os políticos sempre se aproveitaram dela para se eleger, como “indústria do voto”, nos deparamos (eu e o fotógrafo Zè Silva) logo na entrada do distrito de José Gonçalves com seu Tranquilino Almeida Pereira, e a primeira coisa que ele reclamou foi da falta de água pela Embasa.
Os moradores ficam dias sem o precioso líquido para o consumo e utilização doméstica, enquanto logo cedo carros-pipas cortam o agreste para atender algumas casas e povoados. Seu Tranquilino estava realizando alguns serviços com diarista. Tocamos em direção a Caetanos, pegando a poeira da estrada de chão.
História de lutas
Não demorou muito e encontramos com seu Isaias Santos numa carroça que nos contou sua longa história de lutas contra as estiagens que nos últimos anos são mais constantes por causa do próprio aquecimento global. Quanto aos carros-primas, ele denunciou que alguns recebem e outros não, não sabendo explicar ao certo se essa prática tinha algum viés político eleitoreiro. No entanto, no meio da conversa ratificou que isso sempre existiu.
Em todos encontros que tivemos com o homem do campo, ficou evidente que as perdas das lavouras foram totais. O rebanho que ainda restou está sendo alimentado com um pouco de palma que ainda vigou e palhas da cana-de açúcar colhidas das margens da Lagoa do Batista, a única que ainda não secou totalmente. Acontece que nem todos dispõem mais desses recursos.
No povoado de Tanque Velho, Gilmar Barbosa Damaceno, de 38 anos, levantava a poeira com sua foice fazendo a limpeza da cerca. Por sorte arranjou um trabalho como diarista (não por muito tempo) para completar o auxílio de 600 reais que a mulher recebe do governo federal. Debaixo do sol escaldante, ele recebe apenas minguados 50 reais pelo árduo serviço.
Gilmar é uma espécie de caseiro que, com a mulher e o filho, mora na casa do sítio de um amigo de Vitória da Conquista. Em troca ele aluga o pasto para donos de gado, isto quando o verde se renova com as chuvas, mas há quase um ano que elas não caem do céu.
Na mesma situação, próximo da Lagoa do Batista, encontramos Wilson Alves Souza, de 32, que possui nove hectares de terra, seu pai de 75 anos, Dioclides e o primo Genivaldo Gonçalves Silva, de 51. Como não tinham nada a fazer durante a seca, estavam realizando um aceiro na cerca. Todos dependem de uma diária para sobreviver, isto quando acham. Seu Dioclides ainda se vira com a pequena aposentadoria que ganha.
De acordo com eles, com a situação cada vez mais piorando, e sem expectativas, os jovens caíram fora e tomaram a direção da cidade na tentativa de arranjar algum trabalho. Como o nível de estudo é baixo, a grande maioria vive mesmo da informalização e bicos que arrumam, de vez em quando.
Ainda em Lagoa do Batista conversamos com dona Lucinete Santos Silva, de 48 anos, e seu marido Gescino Oliveira Silva, de 64 anos. Eles têm três filhos, de 10, 22 e 25 (os dois últimos foram morar na cidade) porque a roça não proporciona alternativas de vida.
Seu Gescino estava numa moto transportando cana para dar ao gado que já passa fome por falta de pastagem. Dona Lucinete ainda se vale de uma cisterna no quintal com um pouco de água que ainda sobrou. Os animais têm que percorrer alguns quilômetros para beber na Lagoa.
Passamos pelo povoado da Roseira, e em todo o nosso percurso não encontramos ninguém montado em um jumento (coisa rara de se encontrar) para se loco0mover ou transportar os produtos. No lugar do jegue, quando ainda se via há alguns anos em nossas reportagens, agora quem manda no sertão é o “cavalo de aço”, ou a moto levantando poeira como os veículos de quatro rodas.
A seca é a mesma que castiga, implacavelmente, o sertanejo e faz dele um retirante quando não mais tem água para beber e o alimento para matar a fome. A novidade maior é a tecnologia que, através de um celular, aparece na mão de cada agricultor para se comunicar com os parentes e amigos, ou acompanhar as redes sociais, cheias de mentiras e fake news.
TANQUES E BARREIROS VAZIOS PELA SECA QUE CASTIGA VITÓRIA DA CONQUISTA
Fotos de José Silva
Eu com minha máquina e Zé Silva com suas potentes lentes de alcance ganhamos a estrada na semana passada rumo ao agreste conquistense para relembrar aqueles velhos tempos de repórter quando caímos no sertão para registrar a penúria do homem do campo diante das estiagens prolongadas que destruíam lavouras e traziam fome e morte.
Há cerca de oito meses que não chove em Vitória da Conquista e região, e as consequências disso são logo visíveis nos tanques e barreiros vazios de terras rachadas, marcas de mais uma seca que há séculos é fonte de notícias para a mídia impressa e eletrônica. É um tempo de sofrimento que ainda abre passagem para os carros-pipas que cortam as estradas de chão, deixando para trás nuvens de poeiras.
Ela sempre deixa um rastro de perdas, não somente de culturas de subsistência como a mandioca, o milho, o feijão, a abóbora e outros produtos, como mata de sede e fome os rebanhos dos sertanejos. Ela também escorraça o agricultor da sua terra que se retira para outras bandas pela sua própria sobrevivência. Os jovens fogem dela para as cidades e passam a viver de bicos nas periferias.
Foi esse triste quadro que eu, jornalista há 50 anos, e o meu parceiro de labuta nas reportagens, o fotógrafo Zé Silva, testemunhamos no distrito de José Gonçalves e povoados do município de Vitória da Conquista. Há muitos anos que não compartilhávamos dessa experiência de escutar o berro do boi descarregado na caatinga à procura de uma cacimba para beber água.
Sentir o sol escaldante e o pó da poeira dos pés à cabeça foi como reviver tudo aquilo novamente quando realizávamos coberturas jornalísticas para o jornal “A Tarde”. Trazíamos em nosso embornal, ou alforje, um monte de informações não muito boas, mas que vendiam jornais no outro dia.
Ouvir e conversar com os roceiros sobre as agruras da seca, dos plantios perdidos e a falta de apoio dos poderes públicos foram atos que nos deram a certeza de que quase nada mudou para melhor nesse país dos políticos que só aparecem de quatro em quatro anos.
Vamos mais adiante em nosso blog continuar esse relato entrando em mais detalhes através dos papos com nossos entrevistados e das próprias imagens do repórter fotográfico Zè Silva, que sempre foi bom nisso e sabe captar minúcias que outros não conseguem ver. Suas lentes se ajustam muito bem aos fatos, combinando imagem, luz e foco.
A CULTURA ÁRABE-ISLÂMICA E OS DIREITOS DA MULHER POR CHEBEL E FATEMA
No livro “Intelectuais das Áfricas”, o filósofo argelino Malek Chebel se debruçou nas questões da cultura árabe-islâmica, enquanto a socióloga ativista marroquina tratou dos problemas da submissão e dos direitos das mulheres mulçumanas, com base na legislação e na religião do islã.
O pensamento de Chebel (1953-2016) é interpretado pelo historiador Murilo Sebe Bom Meihy quando escreve que o trabalho do filósofo merece destaque por retirar o monopólio do conhecimento científico das mãos dos analistas europeus, e por romper a dura supremacia dos teólogos e pensadores do Oriente Médio clássico em relação aos temas e debates sobre o islã.
Murilo destaca ainda que, “no contexto de reconstrução nacional após a independência, uma geração de jovens, incluindo Chebel, tentava sobreviver no interior de uma conjuntura política centralizadora dominada pelos líderes da emancipação, e marcada pelo flerte com o pan-arabismo, o socialismo terceiro mundista da Guerra Fria, e a crença em uma revolução social, política e cultural que não se limitasse às fronteiras da Argélia recém-criada.
De acordo com o historiador, autor de dezenas de livros, a obra de Chebel pode ser dividida em três áreas, tais como, os estudos mediterrâneos, a quebra da imagem do islã como uma ameaça para o Ocidente e a relação entre cultura e sexualidade no islã. Entre suas obras primas, Murilo cita L´esclavage em Terre d´Islam, de 2007.
Na questão sobre as formas de servidão, Murilo diz que o filósofo redireciona a bússola cultural africana para o Oriente, conectando o espaço mediterrâneo do islã ao infame caminho da escravidão que parte do Magrebe (Líbia, Tunísia, Argélia, Marrocos e Mauritânia) para o Golfo Pérsico, não antes de deixar um rastro de sofrimento envolvendo negros, brancos, europeus, africanos, crentes e infiéis.
Nesse sentido, Chebel constrói uma geografia da escravidão quando se relaciona ao território da África. Afirma em sua obra que partes específicas da rota comercial dos escravos tinham uma função bem determinada no interior da cultura escravista desenvolvida nas terras do islã. Assinala que o Egito era o cérebro do tráfico de escravos.
A QUESTÃO DO FEMINISMO
Sobre Fatema Mernissi, a abordagem coube a Isabelle Christine de Castro, doutora em História Social. Ela afirma que Fatema desenvolveu em suas obras a questão do feminismo. “Dedicou-se em sua vida (faleceu em 2015) a demonstrar a necessidade de combater o discurso de uma elite sobre uma propalada inferioridade feminina que, ao contrário do que é disseminado, não teria apoio nas escrituras religiosas”.
Assinalou que Fatema deixou bem claro em seus livros a força da mulher magrebina, mulçumana e africana com seu próprio exemplo ao desafiar o patriarcalismo global. A socióloga argumentava que, mesmo que a religião conceda privilégios aos homens, não há indicações inquestionáveis nos textos religiosos que justifiquem uma posição de subordinação às mulheres.
Isabelle enfatiza que a marroquina sempre questionou premissas tradicionais em busca de demonstrar que a igualdade de gênero não é apenas uma necessidade social, mas uma demanda da religião que se instalou na região há cerca de 14 séculos.
“Mernissi (nasceu na cidade de Fez no ano de 1940) fez parte de uma geração de marroquinas que se beneficiou da abertura promovida para a educação feminina, pouco antes da independência do Marrocos, em 1956. Ela fez doutorado em sociologia, em 1973. Ao contrário de outras mulheres ativistas, como a médica egípcia Nawal el Saadawi, a marroquina não se afastou da religião para combater a privação de direitos que muitas sociedades mulçumanas impõem à metade de seus cidadãos. Ela sempre tentou combater a subordinação feminina usando como arma os ensinamentos ligados ao islã”.
Igual a ela, muitas ousaram desafiar o mundo patriarcal, especialmente no campo da política. “Fatema optou por desafiar o establishment religioso em seus próprios termos, ao acusá-lo de promover uma interpretação equivocada dos fundamentos do islã relativos aos direitos da família. Criticou a falta de políticas estatais para atacar as desigualdades e denunciou o impacto delas sobre as mulheres. Preferiu criticar as bases do discurso religioso”.
Nesse capítulo dedicado à socióloga pela historiadora Isabelle, vamos ainda falar sobre o véu, o harém e as fronteiras e a revolução da informação.
O SONHO PERDIDO E UMA ESQUERDA QUE TODOS DESEJAMOS PARA O BRASIL
John Lenon há 50 anos fez uma canção do sonho imaginado pela humanidade, de todos de braços dados irmanados lado a lado, sem ódio, individualismos, divisões e sem fronteiras, com justiça social para todos. Como disse D. Hélder Câmara, sem senhor, sem escravos. Esse sonho também ainda é o desejo dos brasileiros que um dia acreditaram que isso seria possível.
Você veio até nós e prometeu honestidade, seriedade e igualdade para todos, mas nos traiu se coligando com corruptos e com essa elite suja que não aceita repartir seu banquete com os mais pobres. Passou a ser pai dos ricos e mãe dos pobres. Da cachacinha passou para o uísque escocês e tomou gosto pelas mordomias.
Quando quebrou as juras de amor, você alimentou um facínora da extrema direita fanática que só nos trouxe medo e destruição das nossas poucas conquistas. No lugar do sonho e da esperança, nos deu um monstro do lago misterioso. Abriu espaço para evangélicos radicais conservadores retrógrados negacionistas da ciência que ainda creem que a terra é plana.
Não queremos mais essa esquerda que, apesar de ter roubado nosso sonho e cometido tantos erros nas péssimas alianças traçadas, tudo pelo poder, nunca fez um mea culpa. Você permaneceu pedante, cioso de sua superioridade, como se fosse dono absoluto da verdade, como aquele que acha que tem um rei na barriga.
Você não cede e acha que ainda pode voltar a ser o “salvador da pátria”, mas, como diz o ditado, quem bate esquece e quem apanha não. Uma grande parte da população já está calejada de suas promessas, e uma outra arrependida de também ter contribuído para a criação da sociopatia do retrocesso. Essa última, um dia marchou nas ruas com bandeiras e camisas verde amarelo para afastar a esquerda que meteu o pé na jaca e nos separou na base do “nós contra eles”.
Agora você guarda ressentimentos e quer seguir novamente sozinho. Não aceita se afastar do processo eleitoral a bem do Brasil, e nem caminhar lado a lado para exterminar o maior inimigo que, mais uma vez, poderá ser o mais beneficiado por essa atitude egocêntrica do poder. Até quando vamos ter que continuar nessa agonia, nessa aflição de morte?
Vamos começar tudo de novo, para ficarmos no mesmo fundo do poço? Em nome da pátria, seja mais humilde e dê passagem para outro cavalheiro, porque seu tempo já se foi e nos decepcionou com suas trapalhadas e roubalheiras. Nosso país não merece carregar mais essa forquilha da forca em seu pescoço que a impede de seguir em frente. Não merece ser mais enxovalhado lá fora a viver isolado da civilização.
O sonho que nós todos almejamos é de uma esquerda progressista iluminista que nunca mais se coligue com maus elementos oportunistas e aproveitadores da ingenuidade e das boas intenções do povo. Uma esquerda que jamais roube e que não aceite que outros façam isso. Uma esquerda que devolva nossos sonhos de dias melhores, com mais empregos, educação e saúde para todos. Uma esquerda que construa uma imagem positiva do Brasil no exterior. Uma esquerda do tipo Pepe Mojica com seu fusquinha.
Nem é preciso privilegiar uns e outros com cotas individuais e benefícios por causa da cor e do gênero. Não é preciso encher as burras de dinheiro das faculdades particulares em detrimento do sucateamento das universidades públicas. Elas foram criadas com o suor da nação e necessitam de mais recursos para investimentos em tecnologia, ciência e pesquisa. Uma escola básica e uma universidade para todos, com qualidade.
Queremos uma esquerda iluminista que traga de volta nossos cientistas que embarcaram para outros países porque foram renegados pela sua própria pátria. Não só a formação de técnicos para atender ao faminto mercado capitalista, mas também homens e mulheres com saber humanista e conhecimento da nossa história a fim de que os mesmos erros não sejam repetidos.
Nada de racismo, de homofobia e misoginia. Nada de distinção uns com os outros que nos cause mais sofrimentos. É só dar oportunidade igual para todos com políticas públicas voltadas para o social. Bastam de divisões porque todos têm capacidade e inteligência para crescer quando se tem os mesmos direitos. Sem essa de branco, pardo e preto, de hetero ou homo, de gay ou não gay, de ser mulher ou ser homem.
Desejamos uma esquerda que zere a derrubada e a queimada de nossas florestas e que preserve nossos biomas da invasão gananciosa dos homens do agro que só visam exportar e embolsar lucros. Uma esquerda que pare de vez com o extermínio de nossos índios e acabe com os garimpos que matam nossos rios com mercúrio.
Não queremos uma esquerda do toma lá e dá cá, com um “Centrão” de ladrões que há anos, como verdadeiros vampiros, sugam o sangue dos brasileiros e se refestelam das nossas riquezas produzidas pelos mais pobres. Queremos uma esquerda que acabe de vez com essa reforma trabalhista escravocrata. Uma esquerda que devolva o nosso sonho.
O CALDO E O PASTEL
Fotos do jornalista Jeremias Macário
Como e bom e gostoso um caldo de cana e um pastel (com moderação por causa da fritura) numa feira livre que faz lembrar o velho hábito dos nossos ancestrais! A feira é um comércio milenar desde os tempos mais antigos onde os povos iam trocar seus produtos quando não havia inventado a moeda. Era uma forma também socialista de sobrevivência do homem do campo e das cidades. Mas, vamos deixar de lado essa história, porque estamos falando da Feirinha do Bairro Brasil, na qual sempre estou lá aos domingos e me deleito com aquela gente simples diferente da dos supermercados, mais caros e com menos calor humano. A feira também me faz lembrar dos meus pais e seus compadres e comadres/amigos e amigas que aos sábados e domingos marcavam encontro para prosear depois das vendas e das compras. Ainda tem a cara de um ambiente familiar, por mais que seja nas médias e grandes cidades como Vitória da Conquista. Um caldo e um pastel são sempre boas combinações para muita gente, mas há também que adora uma buchada, um mocotó, um sarapatel ou uma rabada com uma gelada ou uma pinga da pura. De qualquer forma, feira sempre tem sua face poética e literária. Feira é cultura onde se encontra cantadores, trovadores, cordelistas e repentistas. Viva a feira e seus caldo de cana com pastel!
PORTA ABERTA
Poema inédito de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Por muito tempo,
Nessa vida desumana,
Entre a lida sagrada/profana,
Juntos rimos e choramos,
Na alegria e no sofrer,
Com a porta aberta pra você.
Nos separamos em vias diferentes,
Com a jura de nunca mais nos ver,
No cego rancor de intolerantes,
Cheios de dor com o que restou.
O ódio dessa gente nos repartiu,
Fui egoísta como colonizador,
E troquei o ser pelo ter.
Hoje com os conceitos a rever,
Minha porta está aberta pra você.
Meu peito não guarda mais mágoa,
Lavei a alma no Rio do Amor,
Não consigo viver do esquecer,
Saudades do abraço afago,
Do banhar no mesmo lago,
Na porta que está aberta pra você.
Volte logo,
Não suporto está solidão,
Desse viajar na contramão,
Sem o sentido do viver existir,
Basta de tanto levantar e cair,
Do só cobrar o receber,
Sem abrir minha porta pra você.
Quando um viola do outro o feito,
É como canção sem o som da viola,
Vamos fazer nossa linha de frente,
Onde sopra o fresco vento,
Que atrás de nós vem gente,
Para roubar o nosso direito.
O segredo está em saber conviver,
Tire a tramela da sua janela,
Que minha porta está aberta pra você.
Perdoe meu passado de pecado,
Quero das cinzas como Fenix renascer,
Minha porta não é mais de ferro,
A intransigência aqui enterro,
Não mais um vil pintado de anil,
Minha porta está aberta pra você.


























