abril 2026
D S T Q Q S S
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930  


“DEUS QUER ASSIM, E ASSIM SEJA, MEU FILHO”

Dia desses ouvi de uma senhora idosa citar essa frase título do nosso comentário para um repórter da televisão quando indagada sobre seu sofrimento na fila para marcar uma consulta médica. Logo me veio à cabeça: Que Deus é esse tão malvado, do é assim que sempre quis, que carrega a culpa de escolher uns ricos poderosos e outros miseráveis? Existe esse Deus do conformismo, da submissão, da alienação, da ignorância e da falta de consciência política?

Li em algum lugar de um professor filósofo de que das taras de um mundo velho, condenado, nascera outro novo, tão sonhado. Diria que no caso particular do nosso Brasil, ainda somos almas das taras de um passado medieval, colonial, de uma Igreja Católica que não nos ensinou a indignar-se com as injustiças do homem. Ainda não nos libertamos para a renovação do novo, tão sonhado.

Em muitas mentes, Deus está em tudo, no certo e no errado, quando se ganha e se perde, principalmente nos atuais tempos do fanatismo religioso cego desvairado. Deus é visto, ao mesmo tempo por muita gente como bondoso e cruel, vingativo e misericordioso como no Antigo Testamento da Bíblia que mandava Abraão sacrificar seu filho, e só falava com os seus abençoados.

O homem comete os desatinos; derruba as florestas e entope o meio ambiente de lixo; coloca o poder acima de tudo em detrimento do social; e vem o nosso povo com sua cultura arcaica do passado dizer que foi Deus quem mandou os males e as pestes para nos castigar. Quando muito tarda e vara a sequidão, pede-se a Ele que mande chuvas dos céus. Às vezes, a água só cai no solo quando tudo já está perdido. Foi assim que Ele quis?

Deus tocou em seu cajado de pragas e dele brotou a Covid-19 para matar mais de 600 mil brasileiros. Lá do alto deve, depois de quase dois anos, ter refletido: Bem já basta, já me dou por satisfeito. Agora vou dar uma parada nas mortes. Os que se foram não prestavam. Eram refugos humanos. Faziam parte do maligno chifrudo. Esse Deus escolheu ser terrível e malévolo por algum tempo, e agora resolveu ser caridoso.

Infelizmente, ainda nos alimentamos das taras do passado, e milhões assim pensam de que tudo que acontece no planeta, seja bom ou ruim, é emanado por Ele. O próprio capitão-presidente disse que foi eleito por obra de Deus, esse Supremo que consente acabar com a Amazônia, que é homofóbico e racista, contra a vacinação, que recomenda a população comprar armas ao invés de feijão e que manda a fome, a miséria e o desemprego. É o Deus que faz as pessoas penarem nas filas do SUS, do auxílio emergencial nas portas dos bancos e morrerem sem atendimento médico nos corredores dos hospitais.

Do alto da sua ingenuidade e da cultura da velha tara do passado que o homem do poder inoculou nas pessoas, para que elas continuem sendo seus servos, escravos e súditos, a senhora idosa cheia de marcas e rugas do sofrimento diz que “Deus quer assim, e assim seja, meu filho”. Em toda sua vida foi assim, caiando aqui e acolá, sendo injustiçada, maltratada e aceitando as migalhas. Em toda sua vida lhe negaram a dignidade, o conhecimento e o saber para se rebelar contra esse perverso sistema que esmaga o ser.

Desde os primórdios, a Igreja Católica, em conluio com o Estado, não ensinou o pobre a progredir, mas a se conformar e a obedecer ao dono do latifúndio, dando a ele a esperança de que na outra vida terá o reino dos céus. “Deus quis assim, meu filho” – confortava o padre com seu terço na mão, e dele ainda arranca o dízimo. Com suas mentiras sobre a figura do Deus punidor, de chibata na mão, o pastor evangélico ainda faz o pior.

Esse pensamento de um Deus aterrador, que protege só os fortes de dinheiro, foi desmoronado e desmascarado a partir da Reforma de Lutero no século XVI quando as igrejas anglicanas e presbiterianas, os crentes, como foram chamados, passaram a transmitir a visão de que cada um tinha a capacidade de crescer e viver com dignidade, desde que não fique o tempo todo dizendo amém, e que Ele assim quis.

Acontece que a caixa de pandora foi aberta e os humanos preferiram seguir o pecado da ganância capitalista da exploração escravagista criminosa contra os mais fracos. O nosso povo precisa sim, se libertar dessa tara do velho mundo e ser bem mais político que religioso.

Não é Deus quem faz ganhar jogo, nem perder. Não vem Dele a maldade do aquecimento global. Ele não está em todos lugares, como se imagina, para tocar fogo na vegetação, nem tampouco apagar incêndios. Não existe esse Deus do quer assim e assim seja. Minha concepção de um Deus é completamente diferente desse de palavras vãs.

 

AO INVÉS DE PRESERVAR LEITOS OS GOVERNANTES DESATIVAM A ESTRUTURA

Não consigo entender quando o governo anuncia que está desativando os leitos montados para atender os pacientes da Covid-19, depois de milhões ou até bilhões de reais investidos em todo Brasil. Por sua vez, a mídia apenas informa essas decisões controversas sem, ao menos, questionar. Esses leitos e aparelhos caros vão virar sucatas em algum depósito?

A população tem o direito de saber se essas desativações estão ou não acarretando desperdícios com o dinheiro público. Até parece que em nosso país a saúde está uma maravilha. Esses equipamentos não poderiam ser aproveitados para reforçar o sistema que sempre foi precário bem antes da pandemia chegar?

Como diz o macaco do programa humorístico, se não me engano do Jô Soares há muitos anos na televisão, eu só queria entender! A mídia nos deve essa explicação que precisa ser respondida pelos governantes. Vamos voltar a conviver com os doentes do SUS morrendo nos corredores dos hospitais, principalmente neste governo que cortou drasticamente investimentos nas áreas da saúde e da educação?

Foi só os números de casos e mortes pela Covid baixarem por causa do aumento da vacinação (o que dizem agora os negacionistas da teoria do jacaré?) e já estão no clima do liberou geral, como em Salvador onde o prefeito diz que vai haver réveillon e carnaval. Estive semana passada na capital e confesso que fiquei assustado com o que vi nos restaurantes, nos bares, nas ruas e no Elevador Lacerda.

Essa de seguir protocolos e regras de prevenção contra o vírus é conversa para boi dormir. De um lado os empresários, especialmente os setores do comércio e serviços, fazem de conta que cumprem as determinações. Do outro lado, os governantes fazem de conta que fiscalizam os estabelecimentos. Assim, vivemos no país das mentiras. Tudo fica nas teorias macabras.

É até hilário o prefeito de Salvador declarar que vai realizar o carnaval com todos regramentos, a começar pela exigência de que os foliões tenham tomado, pelo menos, a segunda dose. Como a prefeitura vai controlar uma festa de massa, de multidões onde existem dezenas e até centenas de entradas na festa? Vai colocar barreiras em todas as ruas, travessas, avenidas e esquinas que dão acesso ao carnaval?

Todos sabem que isso é impossível. É subestimar a inteligência dos outros, tratando a todos de burros e idiotas. Na verdade, o poder público está sendo pressionado pelos donos do carnaval, formados pelas elites que sempre mais lucraram com o evento.

Vários países que liberou geral antes do tempo tiveram que retomar às restrições. Agora, imagina o Brasil, uma nação de indisciplinados que começou o processo de imunização com atraso graças à barbárie do capitão-presidente que nem queria vacina.

CADÊ A BANDEIRA BRASILEIRA NAS MANIFESTAÇÕES CONTRA O GOVERNO?

Cada sindicato, associação, organização, partido e entidade leva sua bandeira, ou carrega sua faixa e cartaz de dizeres nas manifestações contra o “fora Bozó”, mas não se vê a presença da bandeira brasileira, o que significa uma grade falha. Afinal de contas, a esquerda ou a oposição têm que colocar a pátria acima de tudo, não esse patriotismo hipócrita e mentiroso que está destruindo nosso país.

Um companheiro que estava comigo no movimento de sábado (antigamente a gente chamava de passeata), em Vitória da Conquista, me chamou a atenção desse detalhe: “Não estou vendo nenhuma bandeira do Brasil”. Pior que também cometemos o mesmo erro que abre brecha para os “bozoristas” negacionistas atacarem que vão varrer das ruas o vermelho.

Bandeira nenhuma está acima da nacional, e é dever da oposição, seja qual for nesse momento, preencher essa lacuna nas manifestações. Acima de qualquer palavra de ordem para afastar de nós essa cruz e essa psicopatia que estão acabando com o meio ambiente, que é contra a vida e pratica atos genocidas, está a defesa do Brasil, e a bandeira é o seu símbolo maior.

Bem, aqui em Conquista, o movimento que partiu do espaço Glauber Rocha em direção ao centro foi que maior que o anterior do Sete de Setembro, em torno de três mil pessoas, mas ainda carece de maior organização, se bem ser isso hoje mais difícil porque é programado através das redes sociais.

A tecnologia facilita o chamamento das pessoas, mas peca na questão do planejamento por meio das lideranças. Antigamente os representantes dos estudantes, dos trabalhadores, dos camponeses, associações e outras entidades se reuniam em um local e montavam uma estratégia antecipada com roteiros, planos possíveis de serem substituídos a depender das ocorrências e uma boa segurança para não ocorrer imprevistos. Existia até a ordem das falas e quem estaria habilitado a se pronunciar.

Hoje é tudo na base das redes e sempre acontecem as improvisações. No entanto, o que conta mesmo é o propósito político e a filosofia do movimento. No momento caótico em que o país atravessa, não deve haver espaços para vaidades políticas e quem vamos apoiar nas próximas eleições. O objetivo principal e o foco agora é livrar o país desse mal horrível que caiu sobre nossas cabeças.

É mais que necessário que haja tolerância entre as partes, seja esquerda, centro, moderado ou direita na rejeição ao presente. O que se percebe nas ruas é que o povo não quer mais o passado, nem esse presente de malefícios. O maior medo é que se cometa os mesmos erros de 2018, e aí vamos ter que viver mais quatro anos de inferno astral, ou de Dantes.

Queremos destruir mais ainda do que já foi destruído? Descer mais ao fundo do poço? Fala-se muito nas manifestações da inflação, do desemprego, dos baixos investimentos em educação, pesquisa e saúde, heranças de governos passados, mas tudo isso junto ao retrocesso, ao negacionismo da ciência, à destruição da natureza, aos atos de barbaridades de um governo que isola o Brasil no cenário internacional nos envergonha e aniquila nossa existência.

Mesmo que a economia venha a mostrar sinais positivos de crescimento, que haja redução do desemprego e a inflação seja controlada, não podemos nos aquietar, nos conformar e esquecer dos outros grandes males que o capitão-presidente vem cometendo, como os atentados contra a democracia, a liberdade de expressão e a família brasileira, os quais cinicamente ele abre a boca para posar de defensor.

Quem é ele para falar em família quando tem uma desajustada especializada em “rachadinhas” nas assembleias e câmaras, coligada com milicianos, homofóbicos e racistas?  Quem são eles para falar em democracia e liberdade quando vão para as ruas pedir a volta da ditadura militar? Seus maiores crimes não estão na inflação, na queda da economia e no desemprego. Não adianta só encher a barriga e viver sem dignidade.

“OUSMANE SEMBÈNE E A ÁFRICA TRADUZIDA EM PALAVRAS E IMAGENS”

Pescador, pedreiro e estivador que se tornou um escritor e cineasta intelectual, soube muito bem retratar, como nenhum outro, as realidades africanas e ultrapassou fronteiras sendo reconhecido internacionalmente por acadêmicos de renome. Através da literatura e do cinema, o senegalês Ousmane Sembène (1923-2007) foi para seu povo africano, não somente do seu país, uma espécie de imagem-despertador do passado, do presente e do futuro.

Quem bem interpretou sua trajetória de vida foi o historiador e professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina, Silvio Marcus de Souza Correia, na obra “Intelectuais das Áfricas.  Numa linguagem compreensível, ele diz que, “desde a publicação do seu primeiro livro, em 1956, até o lançamento do seu último filme em 2004, o reconhecimento internacional do seu trabalho fez de Sembène um dos mais importantes intelectuais africanos do século XX”.

Sobre o termo intelectual, o professor afirma ser alguém que reflete sobre questões e dilemas do seu tempo com base em teorias, e cujo trabalho acadêmico ou artístico tem a capacidade incomum de contribuir para o conhecimento de determinadas realidades sociais.

Se o conceito de intelectual for mesmo esse, foi o que o senegalês procurou fazer como escritor-cineasta, com ética e sem viés religioso ou partidário político. Sembène fez os africanos acordarem para suas realidades sempre atuando com o passado pré-colonial, o presente e o futuro pós-colonial.

O autodidata que criou sua consciência política através da leitura, Sembène dedicou-se, depois de passar por vários países, como a França, à arte de escrever romances e novelas e fazer filmes numa época em que escritor e cineasta era reconhecido como intelectual e não raro como maître à penser, conforme assinalou o historiador Sílvio Marcus que o considera como “pai do cinema africano”.

“Sua obra foi pródiga em temas ligados ao passado colonial e aos dilemas da África contemporânea. Assim como sua experiência de vida foi matéria prima para muitos romances, novelas e filmes, Ousmane fez da historiografia uma fonte de suma importância para a sua ficção” – diz o professor de Santa Catarina.

Em sua narrativa sobre Sembène, o historiador chega a citar o filósofo Jean Paul Sartre que, em 1949, enfatizou a importância da negritude enquanto movimento de afirmação identitária para africanos, afro-caribenhos e afro-americanos, e também o quanto essa literatura era inovadora.

De acordo como o historiador, para alguns, como Sembène, a negritude tinha um valor literário, porém escapava-lhe a realidade social dos trabalhadores negros. Não demorou muito para a literatura africana de expressão francesa ser renovada por uma nova geração de escritores.

Sembène foi um desses. Militante marxista, passou por Marselha, na França, como estivador, e logo depois criou uma seção do Movimento de Liberação da Guiné e do Cabo Verde, em 1959.

No mesmo ano participou do segundo congresso de escritores e artistas negros, em Roma. No ano seguinte publicou seu romance Les Bouts de Bois de Dieu e renunciou sua nacionalidade francesa saindo do Partido Comunista e outras organizações políticas para se entregar totalmente à arte.

Em 1961, o senegalês partiu para Moscou para estudar cinema. Depois de sua temporada na Rússia, Sembéne visitou alguns países africanos e se radicou em seu país para criar, em Dacar, a Filmes Domirey. Segundo Sílvio, o escritor-cineasta acreditava no poder de transformação por meio da literatura. Porém, ele se convenceu de que o cinema tinha um maior alcance do que a literatura entre aquela gente com quem simpatizava.

O senegalês levou para as telas algumas novelas e romances de sua autoria, como Lá Noire de… em 1966, exibido na França e no Senegal, onde recebeu, respectivamente, o prêmio Jean Vigo e o grande prêmio do Festival Mundial de Artes Negras. Foi o primeiro longa-metragem de um cineasta da África Subsaariana.

Nos anos seguintes ele foi membro e presidente de vários juris de festivais da sétima arte, inclusive no Rio de Janeiro. Em 1968 filmou sua novela intitulada Mandato, agraciado com o prêmio especial no festival de Veneza. Em 1988, o senegalês realizou um dos seus mais importantes filmes de longa, o Camp de Thiaroye, coroando seu trabalho de cineasta aos 65 anos.

Para Sembène, tanto a palavra como a imagem deveriam servir à desconstrução do discurso neo-colonial que tanto fez uso de palavras e imagens. Como assinala Silvio, para o senegalês, a literatura tinha a missão de fazer os leitores refletir sobre suas condições de existência e lhes mostrar que é possível melhorá-las. Seus romances quase sempre tinham um personagem principal capaz de refletir sobre a condição humana e de buscar alternativas com impacto social.

“Assim como na literatura, o cinema lhe oferecia a oportunidade de formular um contradiscurso, uma nova linguagem para mostrar uma outra África, diferente daquela folclórica. As imagens de uma África exótica era produto de um imaginário ainda colonial” – escreve Sílvio sobre o cineasta.

Sembène chegou a afirmar, certa vez, que os filmes projetados nas telas africanas nada tinham a ver com os africanos. Dizia que o trabalhador africano carece de imagens reveladoras de uma realidade encoberta ou distorcida pelo colonialismo.

Sílvio Marcus destacou que, mesmo que seus personagens sejam suas criações, muitas delas foram inspiradas em pessoas que ele conheceu ao longo da vida como pescador, pedreiro, estivador, soldado, imigrante, sindicalista, escritor e cineasta.

Em seus filmes, ele mostrava como essas pessoas viviam, como puderam resistir e como morreram. Fazia questões para o passado a partir do seu presente. Para ele, o real histórico era matéria para transformar em arte. “Eu sou por um cinema militante. Eu acredito que é possível realizar filmes que sirvam de ponto de partida a debates”- declarava Sembène.

 

A SALVADOR DOS BONS TEMPOS

Oh quanta saudades da Salvador (Bahia) das décadas dos meados do século passado quando ainda não havia tanta violência e a cidade era convidativa para os boêmios da noite, sem perigo de assaltos, sem contar a calmaria do dia, com um trânsito de pessoas e veículos sem sinais de estafa!

Lembro dos finais da década de 60 até os anos 80 quando curtia as noitadas com os amigos sem a preocupação de horário para retornar para casa, muitas vezes a pé dando minhas baforadas de cigarro ao ar e apreciando as paisagens da Baia de Todos os Santos.

Da Cidade Baixa do Mercado Modelo subia pela Ladeira da Montanha ao Gravatá dos cabarés cortando a Avenida Carlos Gomes ao Braseiro, ou Avenida Sete de Setembro – Piedade – Campo Grande até o Corredor da Vitória. Saudades do prédio de “A Tarde” (hoje Hotel Fasano) onde comecei a laborar em início de 1973 como Revisor e depois Repórter de Redação!

A Rua Chile ainda era famosa com seus personagens cativos como a Mulher de Roxo, a escadaria rolante das Americanas, artistas e intelectuais papeando nos cafés e bares. O velho Cacique e o Anjo Azul estavam sempre com suas portas abertas para se farrear até o dia clarear.

Como era prazeroso assistir o pôr-do-sol do final da tarde caindo sobre a bela paisagem da Baia de Todos os Santos vendo no horizonte a orla de Vera Cruz, na Ilha de Itaparica, tendo ao lado o Teatro São João e o Edifício Sulacap! Tomar um banho de mar sossegado no Porto e na Barra Avenida, acompanhado do Farol e do Edifício Oceânico!

Naquela época ainda era bom viver em Salvador porque ainda se podia respirar a qualidade do ar, não o de hoje tão poluído e arriscado por causa da violência da bandidagem.  Tomar um cravinho com os amigos e as morenas no Centro Histórico com suas arquiteturas seculares, e depois pegar o buzú na Barroquinha, Baixa dos Sapateiros, ou descer o Elevador Lacerda!

Quantas boas lembranças daqueles tempos de andanças e causos para contar nas noites de boemias com companheiros e colegas de trabalho! Não tenho mais saudades da Salvador de hoje onde a cidade ficou mais desumana, e as pessoas pouco se conhecem. Não tenho mais saudades dessa Salvador estressada do corre-corre pelo ter que reduz nosso tempo de vida. Tenho saudades da Salvador do ser, do curtir e do existir.

BEM ACOMPANHADO

“Viva o Povo Brasileiro” é uma das obras-primas do jornalista e escritor baiano de Itaparica, João Ubaldo Ribeiro, que fala das nossas origens ancestrais, mistura do índio com o português, o negro, o turco sírio-libanês e do nosso caboclo. Esse caldeirão de ingredientes, para muitos indigesto, gerou a nossa cultura miscigenada. Em homenagem ao grande escritor, foi erguido na Praça da Luz, na Pituba, uma estátua onde ele apresenta a premiada obra. Até aí tudo bem, mas o inusitado é o personagem do idoso morador anônimo de rua que praticamente passa todo dia ao seu lado, como um vigia ou escutador das imortais palavras do escritor de tantos livros, artigos e crônicas em jornais e revistas. No flagrante da sua máquina fotográfica, o jornalista Jeremias Macário ouviu dele (o morador) que se sentia bem acompanhado do homenageado por tão bem ter retratado na literatura o povo brasileiro. Coincidência ou não, João Ubaldo em seus trabalhos literários e em seus comentários sempre escreveu sobre essa tão profunda desigualdade social e clamou por justiça e direitos humanos para todos. A impressão é que o idoso ali se aportou em segurança, na fé e na esperança de dias melhores. Em seu silêncio, parecia refletir sobre seu passado e presente, não sabendo ao certo o seu futuro. Só de uma coisa ele tinha certeza de que se sentia bem acompanhado do escritor.

O QUE RAUL DIRIA?

Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Se vivo fosse, o que Raul diria?

Que ninguém quer mais alugar o Brasil,

A Amazônia vai virar uma pastagem,

Sem índios, só garimpos e pilhagem,

Na onda assassina vil dessa psicopatia.

 

O que mesmo Raul diria?

Sou a mesma mosca a lhe atanazar,

Em sua sopa venosa da loucura,

Estúpida que pede a volta da ditadura.

 

O que mesmo Raul diria?

Ainda sou a metamorfose ambulante,

Que cospe na cara do facínora farsante,

Negador da ciência e da letal pandemia.

 

O que mesmo Raul diria?

Que soltaram todos os capones,

Deletaram provas e os telefones,

No país do samba e da hipocrisia.

 

O que mesmo Raul diria?

Essa via é trevas da Idade Média,

Com milhões nas filas da fome,

De gente sem nome a penar todo dia.

 

O que mesmo Raul diria?

Ele ainda falaria de amor e dor,

Tocaria outra canção alternativa,

Para esta sociedade alienada primitiva.

 

O que mesmo Raul diria?

Que tenho medo, muito medo,

Das pedras que rolam a chorar,

Nas gigantes ondas revoltas do mar.

 

O que mesmo Raul diria?

Que se continua aceitando a mentira,

De que Deus é quem quer assim,

E que assim seja seu castigo e ira.

 

O que mesmo Raul diria?

Que o nosso Brasil regrediu,

Como há dois mil anos atrás,

Quando a terra era quase vazia.

 

O que mesmo Raul diria?

Que você vive como gado em manada,

Com a morte escancarada no sofá,

Aceitando o cloro pra seu vírus curar.

 

O que mesmo Raul diria?

Que não tente errar outra vez,

Na tentação do pecado capital,

Na estação do mal todo mês.

 

O que mesmo Raul diria?

Alibabá tem milhões de ladrões,

Pra fazer sucesso tem que a bunda rebolar,

E fingir que é o enviado de Javé e Alá.

 

O que mesmo Raul diria?

Hei anos vinte e vinte e um de horror!

Muito fanatismo evangélico e militar,

Lixo, violência e estação sem cor.

 

O que mesmo Raul diria?

Com esse diabo nem lero levar,

Que ele só quer do ser humano,

Levar para o sacrifício do altar.

 

 

 

 

A PRESERVAÇÃO DA NOSSA HISTÓRIA AINDA RESISTE A DURAS AMEAÇAS

Quem não conhece o seu passado não pode vislumbrar o seu futuro. É uma pena lamentável que a cultura em nosso país esteja sendo destruída por falta de um maior apoio dos governantes. As instituições vivem sempre em crise, com a cuia na mão, sob ameaça de perder seus valiosos e inestimáveis acervos, como é o caso do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, guardiã da Independência da Bahia (2 de julho de 1823).

Em minha recente viagem a Salvador fui visitar o meu amigo diretor do Instituto, Fernando Souza, quando, na oportunidade, fiz a doação dos meus livros “Uma Conquista Cassada – cerco e fuzil na cidade do frio” e “Andanças” – causos, versos e prosas. Ouvi relatos das dificuldades para manutenção do Instituto Histórico que guarda nossa preciosa história em livros, jornais e revistas inéditos, muitos dos quais originais não mais encontrados em outros lugares.

Encravado na Avenida 7 de Setembro, em frente da Praça da Piedade, palco da condenação dos líderes da Revolução dos Alfaiates (Conjuração Bahiana), e ao lado do Gabinete Português, outra casa de grande valor cultural, o Instituto por si só é a própria história da Bahia que deveria estar em boas condições financeiras para preservar seu acervo, mas não é isso que ocorre.

Em conversas sobre essa questão do desprezo e até odiosa posição política contra nossa cultura, ouvi de Fernando que o Teatro da Gamboa (não desmerecendo suas atividades em prol da cultura) recebe do Governo do Estado uma maior subvenção financeira que o Instituto Histórico. Não dá para entender esse tipo de tratamento desproporcional.

Além do aporte de livros (mais de 50 mil), o Instituto possui várias relíquias do nosso poeta maior Castro Alves, como uma mexa do seu cabelo e suas obras mais importantes, intituladas “Espumas Flutuantes” e “Navio Negreiro”, grande parte escrito durante sua última viagem de navio do Rio de Janeiro para a Bahia quando já se encontrava doente.

Mesmo com parcos recursos, a direção da Casa conseguiu digitalizar grande parte dos principais jornais baianos e espera começar esse mesmo processo a partir de todo seu acervo, de modo a disponibilizar conhecimento e saber aos interessados pesquisadores pela internet. Pelo Instituto já passaram grandes nomes como de Pedro e Jorge Calmon (meu chefe de Redação do jornal A Tarde), Consuelo Pondé (tive o privilégio de ser seu aluno), Theodoro Sampaio e tantos outros que lutaram para manter a instituição em funcionamento.

Quero agradecer a boa receptividade e acolhida do meu amigo Fernando e sua equipe de trabalho, bem como agradecer pelos livros recebidos sobre “Manuel Querino”, de autoria dos colegas Carlos Alberto Dória e Jeferson Bacelar, “Mestre Josaphat – um militante da democracia”, de Luiz Almeida e a “Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia”, editada em 2020, que traz um estudo sobre “Luiz Gama – o advogado dos escravos”, de autoria de Nelson Câmara.

MUSEU CONSAGRA SALVADOR DOS GRANDES ARTISTAS DA NOSSA MÚSICA

Há muito tempo que Salvador precisava ter um museu que resgatasse a riqueza musical de seus grandes artistas que ganharam fama nacional e internacional, como João Gilberto, Gilberto Gil, Raul Seixas, Caetano Veloso, Dodô e Osmar, Luis Caldas, Tom Zé, Capinam, Assis Valente, Morais Moreira e tantos outros nomes que nos orgulham.

Com um projeto iniciado lá no governo de ACM Neto, finalmente “A Cidade da Musica da Bahia” foi inaugurada na semana passada no antigo casarão de azulejos da Cidade Baixa, na Praça Cairú, em frente do Mercado Modelo e do Elevador Lacerda, numa boa localização que revive a nossa história.

Em viagem à capital por motivo familiar, tive o privilégio de ser um dos primeiros a visitar e conhecer seu grandioso acervo musical, com um estilo que não deixa nada a dever a outras casas dessa natureza em outros países avançados. Foi como entrar no túnel do tempo! Foi um planejamento de anos que valeu a pena, com um pessoal bem treinado no quesito atendimento ao turista.

Posso dizer que fiquei encantado com o que vi lá dentro sobre a Bahia Musical, se bem que faço minhas restrições a muitos personagens de “compositores” sem conteúdos em suas letras, com músicas que deixam muito a desejar, como é o caso do axé dos tempos mais atuais. Muita coisa é lixo, na minha concepção.

No computo geral, é, sem dúvida, um apanhado histórico que fica registrado para a posteridade. Lá dentro existe uma interação muito grande entre os atores dessa linguagem artística com o público. Existem estilos para todos os gostos, como do karaokê, o funk, o sertanejo, o arrocha até o pop, a bossa nova, o samba, o reague e outras misturadas características da Bahia.

Ao entrar, me senti dentro da cultura baiana em se tratando da sua expressiva musicalidade que irradia o mundo. Lá dentro você recebe uma gama de conhecimento sobre os variados tipos de samba, a capoeira, sobre o conjunto das batidas percussionistas em harmonia com o candomblé, o rock de Raul Seixas e as festas de carnaval, Santa Bárbara, de Largo e tantas outras que atraem milhões de turistas brasileiros e do exterior.

O museu, que só enriquece mais Salvador, está em três andares do prédio todo forrado de azulejos, com cabines que apresentam ao visitante um leque variado de artistas e gente que contam as histórias dessa capital da música. O local ainda possui um estúdio de gravação para quem estiver interessado em musicar seu trabalho, uma biblioteca com obras valiosas, não apenas sobre o tema do museu, uma loja de objetos de lembrança da terra e uma lanchonete.

Lá dentro existem várias salas de exibições dos carnavais e das principais festas, com belas performances dos cantores e compositores. É claro que não podiam ficar de fora os trios elétricos criados por Dodô e Osmar, sem deixar de citar o Tapajós. Diante do poder aquisitivo do soteropolitano, considero alto o ingresso de 20 reais inteira e 10 meia.

FEIRA DE AMBULANTES NO CENTRO DEIXA A CAPITAL COM PÉSSIMA IMAGEM

Fotos do jornalista Jeremias Macário

Quando morei em Salvador durante 23 anos até início dos anos 90 andava livre pelas calçadas das avenidas 7 de Setembro (imediações da Piedade e Relógio de São Pedro com a Ladeira de São Bento) e Joana Angélica, sem a preocupação de me bater numa barraca ou banca de feira livre. Saudades daquelas noites de boemia descendo até a Barroquinha ou a Ladeira da Montanha com o Gravatá!

Nos últimos anos isso ficou impossível porque aquela área mais parece um mercado indiano ou turco ao ar livre. Estive lá na semana passada para conversar com um amigo diretor do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e fiquei, sinceramente, horrorizado com um quadro que envergonha Salvador pelo seu aspecto de feiura.

Não recomendo a visita de nenhum turista porque ele vai levar para sua terra uma péssima impressão da capital e de seus governantes que deixaram aquelas avenidas serem invadidas, mais por questões eleitoreiras que sociais. Será que não existiria outra alternativa para resolver o problema de desemprego, com a consequente informalidade?

A travessa entre o Relógio de São Pedro com a Avenida Joana Angélica até o Colégio Central se transformou numa verdadeira feira de livre de verduras, frutas e outros produtos expostos a céu aberto, sem o mínimo cuidado de higienização. Aquilo ali é um atentado à saúde pública! Até a entrada da Estação da Lapa está tomada de ambulantes.

Nos locais você se depara com barracas, tendas e bancas de camelôs onde se encontra de tudo, de verduras, hortaliças, tecidos, roupas, aparelhos de som, celulares, cintos, sapatos e uma grande variedade de objetos domésticos. Muitos produtos são vendidos no chão mesmo.

As feiras livres das cidades do interior são bem mais organizadas do que aquele amontoado de vendedores que ocuparam aquelas avenidas que fazem parte do Centro Histórico. Aquilo ali é a cara de um Brasil pobre de milhões de desempregados e muita gente vinda de fora atrás de um trabalho fixo, que passaram a viver de bicos nas ruas, comercializando bugigangas.

Não dá para transitar naquelas artérias da capital, só mesmo para quem tem um negócio para resolver ou tem um emprego fixo. Não tem como uma pessoa com problema de deficiência física andar naquelas avenidas. As calçadas estão arrebentadas e a sujeira está por todo lugar.

A Praça Castro Alves e a Avenida Chile perderam totalmente seu glamour dos tempos antigos, mesmo com os hotéis Fasano (antigo prédio do jornal A Tarde) e o Palace. É um centro vazio que perdeu seu colorido e suas atrações de antigamente onde por ali passeavam todos os dias a Mulher de Roxo e outras personagens importantes, como artistas, intelectuais, políticos, governadores e prefeitos. Até o Cine Glauber Rocha (reativado) está ameaçado de ser fechado por falta de patrocinadores, depois da saída do Itaú-Unibanco do circuito.

Não temos mais o Teatro São João, as escadarias das Lojas Americanas, o Adamastor do pai de Glauber Rocha, os bares e as cafeterias que sempre estavam cheios. O quadro é de total abandono, não mais frequentado por turistas e apreciadores daqueles pontos em frente à Baia de Todos os Santos, uma paisagem deslumbrante e bucólica de encher os olhos.





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia