INSTITUTO DOS CIGANOS PEDE CPI NA ASSEMBLEIA PARA APURAR CHACINA
O Instituto de Cultura, Desenvolvimento Social e Territorial do Povo Cigano do Brasil encaminhou ofício de número 0105ª para os presidentes da Assembleia Legislativa da Bahia, Adolfo Emanuel Monteiro de Menezes, e da Comissão de Direitos Humanos e Segurança Pública, deputado Jacó, solicitando abertura de uma CPI ampla (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar as mortes dos ciganos em Vitória da Conquista por policiais militares há três meses, bem como os recentes sequestros e extorsões contra esse povo em Camaçari e região.
No documento, o Instituto, por meio do seu presidente Rogério Ribeiro e do vice, José Paulo, declara que os ciganos foram vítimas de sequestros e extorsões em Camaçari e região. “Precisamos de um auxílio rápido e uma resposta urgente referente a esses casos, pois os ciganos estão muito assustados com o aumento da criminalidade. Vale ressaltar que as vítimas vêm se recusando a prestar queixa na delegacia, temendo represálias dos bandidos, pois há indícios fortes de participação de policiais”.
SEQUESTROS E ROUBOS
De acordo com os dirigentes da entidade, “necessitamos urgentemente de policiamento preventivo, ostensivo e constante, para coibir e enfrentar a onda de violência. São muitos casos de sequestros, assaltos, roubos e furtos, dia após dia, com violências crescentes em plena luz do dia, que alarmam os ciganos”. Como exemplo, eles citam o sequestro na tarde de sábado, dia 3 de julho último, por volta das 14h, em Camaçari, no Parque das Mangabas.
Relatam que a vítima estava com seu cunhado, quando de repente quatro homens uniformizados de policiais abordaram os ciganos que correram da perseguição. Os policiais deram tiros para cima freando a correria. Na abordagem foi apreendido a chave do veículo da vítima e o celular. Somente depois o seu cunhado foi liberado.
Os criminosos de fardas levaram a vítima com destino a Cajazeiras de Abrantes, a cerca de 25 km do local do sequestro. A vítima ficou em posse dos sequestradores por onze horas. Durante este período, os criminosos usaram o celular da vítima para negociar o pagamento do resgate no valor de R$ 200 (duzentos mil). Em alguns trechos da negociação o sequestrador ameaçou cortar a orelha do cigano.
O irmão da vítima tentou acalmar o elemento, oferecendo 20 mil reais, argumentando que não dispunha do valor requerido. O criminoso continuou com suas ameaças de que iria fazer um vídeo cortando a orelha do cigano, exigindo o não envolvimento da polícia no caso. Depois de muita conversa, os sequestradores aceitaram o pagamento de 40 mil reais.
Depois de sofrer espancamentos, o cigano foi liberado, isto é, trancado e algemado dentro do veículo, em Cajazeiras de Abrantes, em um mato. Sobre o ocorrido, os dirigentes do Instituto ressaltaram que o delegado de repressão a extorsão mediante sequestros do Estado da Bahia, Adailton de Souza Adam, vem realizando um excelente trabalho e pedem apoio das vítimas para elucidar os sequestros contra os ciganos de Camaçari/BA.
“A preocupação com o aumento de sequestros e violência contra os Ciganos da Bahia precisam de trabalho repressivo por parte da Segurança Pública, no sentido de facilitar a identificação dessas pessoas, que promovem esses delitos. A CPI vem no momento oportuno. Não queremos generalizar. Sabemos que a Polícia Militar e a Polícia Civil têm membros que prezam pela transparência, imparcialidade, ética, zelo e comprometimento com a segurança pública”.
EM CONQUISTA
Na ocasião, Rogério e Paulo apresentaram algumas ocorrências evolvendo policiais da Bahia, como a chacina em Vitória da Conquista há três meses (13 de julho) quando oito pessoas foram mortas depois de dois policiais terem sido assassinados por uma família de ciganos, no distrito de José Gonçalves.
No Ofício, o Instituto pede que as mortes dos Ciganos em Vitória da Conquista e região também sejam apuradas, destacando que entre as oito vítimas, um adolescente e um empresário não eram da etnia.
No revide dos policiais, muitos ciganos foram torturados, perseguidos e ameaçados de morte O Instituto, na ocasião, encaminhou um relatório minucioso, com base em investigações, para diversos órgãos de segurança e ligados diretamente na causa dos direitos humanos na Bahia e no país.
Rogério Ribeira aponta atitudes, por ele condenáveis, por parte da corporação policial da região, como o fato de militares receberem elogios pelas mortes de três ciganos em Anagé; investigação desarticulada entre a polícia civil e a polícia militar; fragilidade no acolhimento das testemunhas pelo programa PROVITA; policiais justiceiros querem matar, não querem prender; Governo da Bahia permaneceu em silêncio; falta de eficiência nas investigações; corporativismo local; e risco de novas execuções.
Ele argumenta que o Brasil tem um compromisso internacional ao ter assinado, em 2007, o protocolo facultativo da Convenção da ONU contra a tortura. No entender de Rogério, a CPI é um mecanismo para a busca de informações e para contribuir com a discussão de uma nova política de segurança pública, principalmente nas abordagens policiais.
“O parlamento não pode se omitir frente a fatos que estão comprovados. O Instituto Cigano do Brasil-ICB não compactua com nenhum tipo de violência e repudiamos todo ato dessa natureza, qualquer ordem ou origem. Sempre vamos defender o amplo diálogo e não iremos aceitar que os ciganos inocentes sejam vítimas de ação truculência absurda e desnecessária. Os “criminosos” devem responder na justiça pelos seus atos” – assinalou.
A MISÉRIA E A BAIA DE TODOS OS SANTOS
De um lado a miséria brasileira que bate nos portões do Palácio Rio Branco, em Salvador, sede de muitos governos desde o primeiro Thomé de Souza, que nunca resolveram as gritantes desigualdades sociais, apesar das promessas políticas de esperança. Faltam prioridades nas políticas públicas, principalmente nas áreas da educação e da saúde. Do outro lado, a bela paisagem da Baía de Todos os Santos que deixa soteropolitanos e turistas deslumbrados e encantados com tanta beleza. Ambas as imagens são históricas em nossas vidas, mas, com relação à primeira, milhares passam por ela todos os dias e nem olham. São indiferentes. Quanto a segunda, todos param para olhar e tirar fotos de recordação. São contrastes captados pelas lentes do jornalista e escritor Jeremias Macário em sua última visita à capital, no mês passado. A miséria é cada vez mais agravante, o que condena o Brasil a ser um dos piores na colocação do desenvolvimento humano, A Baia de Todos os Santos, descoberta há mais de 500 anos, foi degradada pela ação do homem e sofre os efeitos da poluição e do aquecimento global.
ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (I)
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, no formato de peça teatral e estilo cordelista, ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS será publicado nesta coluna Na Rota da Poesia todas as quintas-feiras. Fala do Nordeste e suas riquezas culturais, destacando personagens mais importantes da nossa história, como escritores, poetas, trovadores e repentistas. Aborda diversas linguagens artísticas da nossa região, inclusive a cultura popular. É uma homenagem ao Nordeste.
Peguei estrada por esse mundão nordestino,
De norte a sul, leste oeste de cenário faroeste;
Apertei a mão do matuto ao cara intelectual;
Falei com doutor, escritor, poeta e até Marechal;
Comi poeira e também asfalto ardente em fogo;
Viajei de carona, carro-de-boi e pau-de-arara;
Filmei aves sabiás, assanhaços, papagaios e arara,
Com minha mochila andarilha em meu rumo e tino,
Me chamaram de profeta e vidente dos tempos,
Porque já avisava de um tal vírus mortal corona,
Com cara feia de coroa de olho apertado da china,
O mais tinhoso cabra da peste dessa terra latina.
Que nesse chão rachado chamaram de Severina.
Em minhas andanças messiânicas, vulcânicas,
Cortei toda Serra da Capivara e varei o Araripe,
Dessa turca locas místicas Capadócia Nordestina,
De praias paradisíacas rodei pelas dunas de Jipee.
Minha primeira paragem foi lá no Maranhão,
Onde me encantei com os azulejos portugueses,
E em São Luis antigo me embriaguei várias vezes,
Nas noites etílicas de expressões bucólicas e líricas;
Entrei no maracatu, no reague e no bumba meu boi,
E até no blues dos negros melaço da cana caiena,
Rolei nas ondas de areias finas e de tantos sóis;
Ardi minha pele com uma bela sensual morena,
Nadei em lagoas lendárias de ondulados lençóis,
E depois fui conversar com o Ferreira Gullar,
Que me ensinou como laçar as palavras no ar.
E a rimar verbo, substantivo com o árido sertão.
Ah!, seu moço, não podia deixar de abraçar o poeta
Catulo da Paixão Cearense que é mesmo maranhense,
Gente simples com quem ouvi muitos casos caipiras,
Que eternizou o “Luar do Sertão” onde fez sua festa,
Virou hino dos apaixonados amantes do Brasil ao Japão,
Assim Catulo me ensinou a luarar e apreciar as safiras.
UMA CLASSE ESQUECIDA
Não é mais nenhuma novidade dizer que a cultura em nosso país, tachada de comunista pelo capitão-presidente e seus seguidores da morte, está sendo estraçalhada, mas ela resiste às forças do mal. Dentre as tantas linguagens artísticas, a literatura, representada pelo escritor, é a mais devastada de todas. O Dia Mundial do Escritor (13/10) passou em branco pela mídia e outros organismos.
Como na Idade Média, livros estão sendo destruídos e queimados nas fogueiras dos inquisidores vindos dos infernos. Para completar essa destruição por parte do atual governo, por incrível que pareça, a classe de escritor está sendo ultrajada e esquecida pela própria categoria que tudo deveria fazer para prestigiar o artista da escrita, o artesão da palavra e aquele que faz texto e literatura.
Não desmerecendo seu grande talento de intérprete da música popular brasileira, leio que a cantora Maria Betânia acaba de ser erguida ao Olimpo da Academia de Letras da Bahia. Não existe aqui em nosso Estado, ou no Brasil, um merecedor de tal honraria, que tenha uma obra aceitável? Será que o escritor também pode ganhar o prêmio Grammy de música algum dia, mesmo sem conhecer uma nota, como bem indagou Achel Tinôco, no Espaço Opinião do Leitor do “A Tarde”?
Há uns dois anos deram o Prêmio Nobel de Literatura ao cantor e compositor norte-americano Bob Dylan, que se recusou receber pessoalmente a grana de um milhão de dólares. Mais recente, a atriz Fernanda Montenegro tornou-se imortal da Academia Brasileira de Letras. Na época, teve gente que disse que ela foi agraciada pelo mérito de ter escrito aquela quantidade de cartas no filme Central do Brasil. Alguém pode ganhar um Oscar pelo filme em que não atuou?
Concordo com Achel quando afirma que os autores precisam de mais reconhecimento para desenvolver seus trabalhos, caso contrário haverá uma grande debandada de grandes artistas das letras para outras áreas. O escritor é aquele primo mais pobre dos pobres.
Quando se fala de arte, a classe de escritor é a menos lembrada, principalmente em situação difícil como nesse período da pandemia. Muitos entendem que somente a música, o teatro e a dança, por exemplo, precisam de ajuda dos poderes públicos. Praticamente deixam de fora de um auxílio o escritor que também ficou na penúria porque não pode lançar sua obra durante a pandemia.
MOÇÕES DE APLAUSOS E CRÍTICAS À PREFEITA
A sessão de ontem (dia 13/10) da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, depois da leitura da ata e da pauta do dia, foi aberta com a entrega de diplomas a diversos homenageados com moções de aplausos, mas também com duras críticas à prefeita Sheila Lemos pelo presidente da Associação de Moradores do distrito de José Gonçalves, Eunápio Novais.
O primeiro homenageado do dia foi o major Edmário, diretor do Presídio de Conquista pelos serviços prestados à frente da casa de detenção. Ele agradeceu a moção de aplauso e dedicou o reconhecimento da Câmara aos 145 policiais que trabalharam com ele quando comandava esse pelotão de segurança na zona oeste.
Receberam também moções de aplausos o jornalismo da TV Uesb pela cobertura na área da ciência, o jornalista Tico Oliveira, dono do Jornal Impacto pelos seus 34 anos de atuação no município e região, o Sindicato de Limpeza/Regional da Bahia, um representante dos estudantes e uma mulher que recebeu o diploma Loreta Valadares.
As críticas veladas à prefeita vieram da Tribuna Livre ocupada por Eunápio Navais, representante dos moradores de José Gonçalves. Primeiro ele rebateu as fake News divulgadas na internet dando conta de que as torres de celulares instaladas no distrito foram obras da Prefeitura, quando, na verdade, foi uma intervenção do Governo do Estado.
Afirmou ser vergonhoso a prefeitura se apropriar de um serviço que não contou com a ação do poder público local. Acrescentou mais ainda que a prefeita vive passeando por vários lugares enquanto a zona rural está abandonada.
“Cadê a Comissão de Agricultura da Secretaria? Prometeram que iriam canalizar água nos povoados de Roseira e São Sebastião, e até gora nada. Não temos patrol e trator que foram deixados pelos governos passados” – declarou, ao fazer um apelo para que os vereadores tomem uma atitude e se posicionem em relação aos fatos por ele narrados.
A INTELIGÊNCIA DO SER HUMANO ESTÁ REGREDINDO COM A PASSAR DO TEMPO
Estudos de pesquisadores cientistas (matéria da revista Veja) constataram que a inteligência do homem, medida pelo Q.I. (quociente de inteligência) está sofrendo um retrocesso por conta de mais tempo nas telas de televisão e nas redes sociais. Ao invés de nós tornar mais brilhantes, essa tecnologia mal-usada está nos deixando mais burros e nos levando aos tempos primitivos.
No século XX tivemos décadas de avanços, como as de 60 e 70 em plena efervescência da cultura, do conhecimento, do saber, da leitura e da prática das artes em geral. Nesse século passado, conforme reportagem de Ernesto Neves e Caio Saad, os países mais desenvolvidos anunciavam que o Q.I. de seus habitantes só fazia subir.
Agora, nos tempos atuais, com o advento da internet e das redes, a inteligência está dando marcha ré. Isso quer dizer que o homem está perdendo a lógica do debate racional e do diálogo em troca do ódio e da intolerância, com ideias retrógradas ultraconservadoras. Tudo começou a partir dos anos 2000.
Pela constatação, os filhos passaram a ter mentes menos afiadas que dos pais. Isso nos faz cair nesse buraco desprovido de massa cinzenta, como os antivacina, anti-instituições democráticas (apelos pela volta da ditadura) e contra a ciência. É o lado escuro da polarização ideológica.
No livro “A Fábrica de Cretinos Digitais”, o renomado neurocientista francês Michel Desmurget, diretor do Instituto Nacional de Saúde da França, aponta suas baterias para o excesso de tempo diante da tela dos mais variados aparelhos digitais, os quais estão contribuindo para o atual estado de estagnação intelectual.
A questão, de acordo com ele, está no maior número de horas frente às telas. Afirma que o uso de computadores e celulares por pré-adolescentes é três vezes maior para se divertir do que para realizar trabalhos escolares. No caso de adolescentes, o número sobe para oito.
Durante a pandemia esse tempo de exposição diante das telas e dispositivos, como todos nós sabemos, se elevou, principalmente no Brasil. Antes do vírus, os participantes de uma pesquisa divulgada por universidades brasileiras relataram média de seis horas e meia de exposição diária. Durante a pandemia, o número subiu para dez horas por dia.
E A HISTÓRIA SE REPETE
Em 1989, no pós-ditadura, as eleições diretas para presidente contavam com 22 candidatos, vários de direita e esquerda, como Ulisses Guimarães, Mário Covas, Leonel Brizola, Fernando Collor de Mello e o próprio Luis Inácio Lula da Silva, um sindicalista em ascensão política.
Naquela época a inflação batia recordes de mais de 1000% ao ano e o país estava arrasado com José Sarney no governo em substituição a Tancredo Neves que havia falecido. Apareceu o Fernando Collor, de Alagoas, como um salvador da pátria e que se dizia caçador de marajás. Chamava o Sarney de maior batedor de carteira da história.
No final ficou o Collor e o Lula, que era chamado por Brizola de sapo barbudo. No debate Lula foi estraçalhado com ajuda da mídia, principalmente a Rede Globo que ajudou vir à tona um caso de escândalo familiar.
Em Alagoas, ele já tinha fatos condenáveis quando passou pela prefeitura de Maceió e pelo Governo do Estado. Ficou dois anos na presidência e sofreu o processo de impeachment por irregularidades, por atos de corrupção. Aquela eleição foi marcada mais pela emoção do que pela razão.
O tempo passou e veio 2018 quando, como numa repetição da história, o povo elegeu um deputado destrambelhado, expulso do exército, homofóbico, racista e negador da ciência. A eleição transcorreu num clima de ódio contra o PT de Lula. O negócio era varrer o partido do mapa quando havia outros candidatos a escolher.
Passados três anos, num esquema invertido, as pesquisas indicam a volta de Lula para impedir a reeleição do capitão, se bem que ainda tem muita água para passar por debaixo da ponte. Até lá a história pode se repetir com a polarização no segundo turno, e aí o Brasil vai se afundar de vez num poço sem fundo.
O capitão tem uma legião de fanáticos do tempo da Idade Média entre evangélicos, militares e conservadores que viviam trancados num armário como fantasmas que consideram o PT como satanás. No eleitorado tem uma percentagem de arrependidos (cerca de 30%) que não quer nenhum dos dois, mas não se sabe em que campo vai ficar.
O maior risco é essa persistência da polarização do ódio quando, a bem da nação, o PT de Lula poderia ceder para formar um governo de coalizão entre direita, centro e esquerda para eliminar a ultra extrema-direita, mas a vaidade e o poder falam mais alto. Estamos correndo o risco de mais quatro anos de destruição.
Vamos continuar prisioneiros dessa exaltação negativa e desse maniqueísmo que vão mais ainda nos empurrar para o retrocesso? Onde está o senso crítico na escolha de um candidato que, pelo menos, pense nas prioridades nacionais; que tenha capacidade de liderança; e promova o entendimento no exercício do poder?
Quando a história sempre se repete e se comete os mesmos erros, é porque temos um povo sem memória, sem sabedoria, sem lógica, sem consciência política, iletrado e que se deixa guiar pela emoção. Como se diz no popular, estamos num beco sem saída, ou no mato sem cachorro.
UM REVOLUCIONÁRIO MASSACRADO PELO REGIME DITATORIAL DA NIGÉRIA
Através do seu afrobeat, com letras revolucionárias que questionaram os sistemas colonialistas, bem como o puritanismo das elites africanas cristãs e islâmicas, apegadas ao poder, à violência e à corrupção, o músico Fela Kuti foi preso e torturado pelo regime ditatorial nigeriano no governo de Olusegun Odasango, na década de 70.
De acordo com o professor Amaílton Magno Azevedo, que escreveu um capítulo sobre Fela Kuti na obra “Intelectuais das Áfricas”, ele nasceu na Nigéria no ano de 1938 e, ao longo da sua carreira até 1977, compôs uma significativa produção musical que o alçou à cena mundial ao fundar o estilo afrobeat.
O professor organizou o texto em temas chaves, como a África de Fela; o Afrobeat no contexto do Atlântico Negro; Fela, a dança e o corpo negro; Fela, o revolucionário e as questões de gênero (ele tinha uma visão machista); e Zombie: Uma pedrada no poder.
O africanista cita o escritor Carlos Moore, em seu livro “Fela. Esta Puta Vida” onde destaca toda sua história, que se transformou em referência estética e política no contexto da música popular negra do lado de cá da margem atlântica.
Diz o autor do texto que, se a África viveu décadas perdidas no período pós-colonial, em termos social e econômico, a vibração cultural das artes negras reposicionou o continente numa dimensão de vitalidade e pujança, principalmente quanto as lutas de resistência cultural.
Assinala que a obra de Fela sempre esteve inserida na dinâmica de reinvenção da África sob o prisma da descolonização e imersa na ordem do renascimento. Fela viveu nos períodos colonial e pós-colonial. Ele testemunhou essas duas experiências. Uma, amarga, sombria e devastadora. A outra vislumbrava um tempo de esperança e renascimento.
Pela sua historiografia, segundo Amailton Magno, a África transitou de uma esperança utópica de renascimento com a meta narrativa da independência para uma realidade de frustrações e desencantos. Apesar de tudo isso, o estudioso de Fela afirma que a África continua sendo aquilo que Gilberto Gil falou de “terra fundante, terra matriz, terra onde se encravam as raízes corporais e álmicas da humanidade, reconhecido berço de todos nós”. É a terra dos mais injustiçados do mundo, completa Amaílton.
Depois de fazer uma descrição sobre o pan-africanismo e as influências das diásporas negras na musicalidade da África, o autor do texto ressalta que desde os anos 20 encontram-se vestígios de memórias sônicas ligadas a jazz, às músicas rítmicas do Brasil e Caribe.
“Essas conexões guardam também um rastro de memórias rítmicas entre Brasil e Nigéria desde a década de 30 do século XIX, quando os retornados brasileiros se estabeleceram em Lagos e outros locais. Os iorubas e crioulos nascidos no Brasil formaram uma comunidade e contribuíram na culinária, arquitetura e musicalidade”.
Conta que Fela se inseriu no universo do highlife antes do seu envolvimento no afrobeat. “A visão de Fela se cristalizou num período em que os povos negros da África, Caribe e das Américas estavam estabelecendo uma aliança política, cultural, artística e pessoal sem precedentes. Direitos civis, descolonização e independência tornaram-se os temas centrais da luta negra na segunda metade do século XX”.
Durante sua trajetória, Fela incorporou estilos musicais, instrumentos e ideias do discurso nacionalista negro dos Estados Unidos (antes ele passou por Londres). Seu contato com Malcom X também contribuiu na configuração estética e política do afrobeat.
Após essa experiência, ele modifica sua forma de pensar, nascendo dali uma nova consciência sobre si, os negros e a África. A partir dali ele passou a adotar atitudes mais combativas, descolonizada e ativista. Suas bandas adquiriram um tom político e contestador.
“Inspirada na vida dos injustiçados, do gueto e contra as instituições do status quo, o afrabeat surgiu da necessidade de recomposição da História da África, do seu renascimento, da superação do passado colonialista e do esquecimento no pós-independência. A retórica de Fela pró-negra atraia inclusive setores políticos com inclinações marxistas que desprezavam as convenções estabelecidas”.
Alguns trechos do texto de Amaílton em “Intelectuais das Áfricas” sobre Fela: “Ele fez do afrobeat um instrumento crítico da pilhagem da África. Desejou encarar a “dimensão trágica da África”, dilacerada pela contradição em negar uma herança de submissão e afirmar um novo destino, como assim sugerem o repertório das letras, que se transformavam em “pedras atiradas nas classes dominantes”. Nelas revelam-se a orientação ideológica e política de crítica ao Estado pós-colonial, de repulsa ao imperialismo euro-americano e de apoio aos ideais pan-africanistas”.
“Seu canto é manifestação de resistência. É improviso, é canto anasalado, é um canto negro. Gilberto Gil fala dessa maneira de cantar em que se busca uma “excelência da alma, numa emissão mais natural, mais malemolente, mais negro mesmo”. O músico revolucionário, segundo ainda Amaílton esbarrava numa visão torpe quando refletia sobre o universo feminino. Dizia ele acreditar na superioridade masculina e na obrigação da mulher em se conformar com sua inferioridade física”. No final da sua carreira ele não adotava mais esse conceito machista.
Seu disco Zombie foi uma pedrada no poder que, conforme Fela, era violento e devastador. As letras expressavam uma encorpada crítica ao governo ditatorial da época (1976). Para protestar contra o II Festival Mundial de Artes Negras, na Nigéria, em 1977, Fela criou o dele em sua República Kalakuta, que foi cruelmente atacada por mil soldados que estupraram várias mulheres (27) de Fela, feriram sua mãe e destruíram seus acervos.
Fela foi preso e torturado pela ira do general presidente Olusegun Obasango. Sua República foi totalmente destruída. Ele foi um músico popular e querido na Nigéria e no continente. “Sempre clamou por democracia, desejou ser candidato a presidente da República; sem, no entanto, ter conseguido o direito de disputar eleições”.
“Desejou justiça e felicidade para a África, mesmo sabendo das dificuldades enfrentadas com prisões e torturas. A repressão sofrida por Fela não foi praticada pela colonização e sim por um poder negro”. Depois de tudo isso, transformou-se num homem solitário, desconfiado e sisudo. No final da sua vida passou a recorrer a práticas de misticismo, como forma de autoproteção.
TÚNEL BAMBUZAL
Fotos de Jeremias Macário
Quem vai ao Aeroporto Internacional Dois de Julho (assim prefiro denominá-lo em repúdio ao nome histórico trocado por de um político), ou dele desce e segue de carro se depara com um belo túnel bambuzal construído pela própria natureza há muitos anos, só que dá pena porque as árvores carecem de maiores cuidados. Muitos dos bambus que formam o túnel estão prestes a cair e pode ser um risco para quem transita por aquela via que passa uma sensação de calma na alma de qualquer pessoa. Sempre me deixa encantado todas as vezes que entro ali, principalmente quando morava em Salvador. É como se você se sentisse uma outra pessoa, onde logo na entrada o bambuzal varre do seu espírito todos problemas da vida, e o corpo fica mais leve. Pode ser chamado de um pequeno grande túnel da poesia, da natureza e do bem-estar. Sem dúvida, esse túnel é um dos mais bonitos cartões postais da capital, e não há turista viajante desconhecido que não dê aquela suspirada e diga: Que coisa mais linda! Mesmo assim, imagina que já chegaram a cogitar na derrubada daqueles bambus que tanto deixam as pessoas fascinadas! Isso mostra como o ser humano é perverso e insensível. No lugar de cobrar das autoridades mais zelo e preservação, tem gente que prefere a destruição. Confesso que a pressa não me deixou captar melhores imagens da minha máquina, mas a sensação de encantamento é sempre mais forte quando caio naquele túnel verde. Sempre é como se fosse a primeira vez.
MENTE BRASILEIRA
Versos do jornalista e escritor Jeremias Macário
Mente moura, ibérica, negra e índia,
Essa cor do melaço brasileiro mente,
Mente feio o eleitor na urna ao ir votar,
Depois o eleito só quer tirar proveito,
Promete pão e escola e dá circo e esmola;
Enganam o governo e o caro parlamentar.
E a avenida histérica se racha para xingar.
Mente sem hora e horário,
Reino virado ao contrário,
De sangue mestiço Pau Brasil!
Nos una de quem nos dividiu.
Gente falsa compra sapato em Nova York!
Só quer falar I love !very good, nok, nok;
Rouba meu cofre e sempre se diz inocente;
O demente mente que a ditadura não existiu;
Mente na TV que não pratica preconceito;
Faz de conta que lê e só vê as redes sociais;
Avança os sinais e se diz humano solidário;
Apoia os fascistas e o corrupto salafrário.
Mente vil brasileira tão incoerente mente,
Onde o forró lambada virou coisa normal;
A puta finge amor na cama e que gozou;
A Igreja prega que a inquisição já passou;
O malandro se gaba de esperto inteligente;
Todo mundo só quer em tudo levar vantagem;
Cabra da peste está sumindo do Nordeste,
Como Suassuna com sua viagem armorial;
Mente brasileira de cultura e vida desigual.

















