OS PASTORES ALOPRADOS VENDILHÕES DOS TEMPLOS
Os fanáticos dominadores antigos, como os navegadores-descobridores portugueses e espanhóis dos séculos XV e XVI, em conluio com a Igreja Católica, tinham convicções de que, além da exploração das riquezas naturais, suas missões eram salvar almas pagãs, mesmo que fosse a ferro e fogo, como ocorreu com o tráfico negreiro durante cerca de 350 anos.
Para esses conquistadores, a escravidão era justificável porque estavam dando aos cativos a oportunidade de se elevarem a Deus e ganhar um lugar no reino celestial. Portanto, os castigos e as torturas eram merecidos. Era esse o pensamento predominante da maioria dos jesuítas e outras ordens, inclusive do famoso padre pregador Antônio Vieira.
Em pleno século XXI, nas mesmas terras brasis, temos hoje os pastores aloprados, ou seriam os vendilhões dos templos que, em nome do seu Deus e de Jesus Cristo, se lambuzam em postos de um governo fascista teocrático radical, para tirarem proveito próprio, misturando religião com promiscuidade. O pensar deles não difere muito do de antigamente, só que os métodos são diferentes, e acham que podem transformar o Estado num reduto evangélico.
Na ganância do poder e de se tornarem mais ricos, esses ditos representantes de Deus se infiltraram justamente no Ministério da Educação, cujo titular é um outro pastor, para com o dinheiro do povo, escravizar o nosso próprio povo brasileiro. Educação para eles é catequizar e evangelizar um rebanho inculto e ignorante, tanto que angariavam verbas até para comprar Bíblias.
Esses evangelizadores não passam de um bando de aloprados que ficaram deslumbrados quando as portas do governo do capitão-presidente se abriram para eles. Acham que assim estão contribuindo para arrebanhar mais fiéis para suas igrejas, crescendo seus poderios e tomando territórios, não importando os meios, se são imorais, estapafúrdios, aberrantes e indecentes. A diferença é que esses aloprados só pensam exclusivamente neles, acima do “salvar almas perdidas”.
Como disse em sua canção nosso cantador e poeta Raul Seixas, eles rezam a Deus, para agradar o diabo. Para liberar verbas aos prefeitos, eles pediam em troca quinze, quarenta mil reais e até um quilo de ouro, o equivalente a mais de trezentos mil. Seria o “ouro de tolo” de Raul Seixas, ou a corrida do ouro, como nos tempos do faroeste norte-americano, onde prevalecia a lei do mais forte?
Todos sabem que esse filme não é desconhecido. Sempre está se repetindo porque a palavra punição para esses crimes do colarinho branco foi banida da nossa Justiça. O enredo da recente película não passa de mais uma franquia dos governos passados, desde os tempos coloniais. Pior que a maior parte do público acha tudo normal, e outros nem estão aí.
O tráfico de influência é tão antigo quanto o Brasil, e os agentes só mudam de nomes, agora sob o comando de uma turma do evangelho que, em nome de Deus, tira do pobre para contemplar suas luxúrias. São os mesmos que jogam pedras nos terreiros de candomblé e discriminam homossexuais.
Esses falsos profetas de Cristo misturam o espiritual com o terreno e ministros de Deus com Ministério da Educação. Como eles se sentem pregando os ensinamentos de Cristo, de orai irmãos para não cairdes em tentação? Falam dos pecadores que vão arde no fogo do inferno. Rodam as sacolas em nome de satanás. O mais repugnante nisso tudo é que os “fiéis seguidores” aplaudem seus atos nefastos e nojentos.
O Brasil sempre foi uma “vaca leiteira”. Essa vaca só trocou de dono. Passou da mão da coroa portuguesa para as elites políticas, oligarquias empresariais, governos federal, estadual e municipal, chegando agora aos pastores evangélicos. Todos querem mamar em suas tetas. Ela sempre tem leite porque sãos as classes mais pobres que a alimenta todos os dias, com o suor de seus rostos.
Quando veio a Lava-Jato, muitos disseram que o Brasil iria ser passado a limpo. Que seria um marco divisor de águas da nossa história. Que corrupção jamais. Não acreditei nisso porque o próprio sistema, como ele foi montado, funciona como uma fonte inesgotável para saciar a sede de dinheiro e poder desses malfeitores malignos que nem pensam no futuro de seus filhos.
CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (V)
O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.
Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:
Conta o historiador Laurentino que existiam algumas leis de punição para quem torturasse ou matasse um escravo, sem motivos, mas elas não funcionavam.
O autor narra que, em 1737, por ter matado dois cativos e um negro alforriado, um dos quais foi deixado pendurado pelos testículos em um gancho de ferro até expirar, Pedro Pais Machado, senhor de engenho de Capanema, na Bahia, foi preso, porém, logo libertado.
Em meados do século XVIII, Garcia D´Ávila Pereira Aragão, herdeiro da Casa da Torre, uma das maiores propriedades rurais da colônia na época, e um dos homens mais ricos da Bahia, foi denunciado à Inquisição por uma série de atos de sadismo e extravagâncias físicas e sexuais contra suas escravas. Apesar das evidências, foi absolvido pelo tribunal.
De acordo com a classificação feita em 1938 pelo historiador Artur Ramos, havia três categorias de castigo de escravos no Brasil. A primeira era a dos instrumentos de captura (correntes e colares de ferro, algemas, machos e peias). A máscara de folha de flandres era usada para impedir o escravo de comer cana, rapadura ou engolir pepitas de pedras preciosas.
A segunda categoria eram as torturas. Uma das modalidades era o “anjinho”, instrumento de suplício de origem medieval. Torniquetes introduzidos nos dedos dos escravos produziam dores atrozes. A terceira eram as surras com palmatória e o bacalhau (chicote de cabo curto com cinco pontas de couro retorcido).
Para identificar escravos fugitivos, utilizavam-se marcas gravadas a ferro quente com a letra F, além do libambo, uma argola de ferro que era presa ao pescoço do cativo. Na prática, três instrumentos eram aplicados com mais regularidade, como o chicote, o tronco e os grilhões. A punição mais comum era o açoite nas costas ou nas nádegas.
Ora, o mais hilário é que no começo do século XVII, o jesuíta italiano Jorge Benci, que viveu 17 anos na Bahia, recomendava que as chibatadas não ultrapassassem o número de 40 por dia, para não machucar o escravo. “Trinta ou quarenta hoje, e outras tantas daqui a dois dias. Daqui a outros dois dias, outros tantos”.
Apesar dessas recomendações do jesuíta, ao invés de condenar qualquer tipo de castigo, narram viajantes que havia punições absurdas de 200, 300 e até 600 açoites. Essa quantidade deixava as costas do escravo em carne viva. O risco de morte por infecção e gangrena era alto. Para evitar isso, banhava-se o escravo com uma mistura de sal, vinagre ou pimenta malagueta.
Outros tipos de torturas incluíam enfiar tições de brasa incandescente na boca dos cativos, e a aplicação do lacre (cera derretida sobre as feridas). Por tudo isso, existia uma elevada taxa de suicídios.
Nos manuais dos jesuítas (eles próprios donos de milhares de escravos e indígenas) sobre a administração de escravos no Brasil, havia recomendações de natureza psicológicas sobre como aplicar as punições aos infratores.
O padre Manuel Ribeiro Rocha, por exemplo, aconselhava que houvesse um certo tempo entre a suposta falta e o castigo, para serenar os ânimos. Dizia que o castigo não deveria ser ministrado com cólera e furor, e sim, com brandura e caridade. Ele orientava o uso da palmatória, cipós e prisão. O Manuel recomendava ainda que os senhores não permitissem que os feitores dessem coices na barriga das mulheres grávidas.
Destaca o autor da obra que o cativeiro separava pais e filhos, maridos e mulheres, famílias e comunidades inteiras que, na África, tinham convivido e compartilhado os mesmos costumes e crenças por muitas gerações. “A escravidão não apenas divide; ela também une o que divide” – observou o sociólogo francês Roger Bastide, um dos grandes estudiosos da cultura africana no Brasil.
Segundo Laurentino, ainda durante a viagem, vínculos se formavam entre os próprios africanos. Os sofrimentos compartilhados forjavam amizades entre cativos de diferentes regiões, etnias e linhagens, algumas das quais eram até rivais entre si na África. Esses novos companheiros de travessia do oceano eram chamados de “malungos”, do quimbundo (Angola) correntes de ferro. Sempre existiam laços de solidariedade.
NEM NA FEIRA
É meu amigo, a coisa anda feia até nas feiras livres onde se encontrava produtos frescos com preços mais baixos. Atualmente, com esta carestia, nem na feira o pobre consegue comprar a mesma quantidade de antes, isto com relação há poucos meses. Com a grana escassa, a maioria das pessoas não vai mais com a mesma frequência à feira, um lugar popular onde desde a antiguidade agricultores e consumidores se reuniam para fazer suas trocas e rever os amigos. Quando vou à Ceasa ou à Feirinha do Bairro Brasil, sempre lembro dos meus tempos de menino, em Piritiba, eu ajudando a vender farinha com meu pai. Mas, o assunto aqui é o galope da inflação que está deixando o pobre ainda mais pobre. Há pouco tempo se comprava um litro de andu por cinco reais e hoje mais que dobrou de preço. Além dos combustíveis e dos preços das commodities no mercado internacional, existe ainda o fator psicológico que influi nos custos dos alimentos. Quando se passa do controle, a inflação se comporta como uma onda em cadeia na elevação dos preços, e certos produtos sofrem automaticamente reajustes sem relação alguma com as causas acima citadas. Mesmo sem motivo de ser, o vendedor aponta a alta da gasolina como vilã, e não adianta discutir. Interessante que os preços subiram, enquanto caiu a qualidade das frutas e hortaliças, por exemplo, inclusive nas feiras, que estão mais vazias nos últimos tempos.
RADICAIS DO GELO
Mais um poeminha inédito de autoria de Jeremias Macário
Das rampas voam homens-pássaros;
Suave pouso das pranchas no gelo;
Nos esquis, alturas de aros;
Descidas radicais dos picos:
Montanhas de adrenalina riscos,
Rasgando flocos,
Nos blocos de gelos:
Grass-grass, chaps-chaps!
São Jogos poéticos de Inverno,
De imagens do eterno:
Sê-los atletas radicais do gelo.
Radicais do gelo!
Peles macias, plasticidade,
Desafios da gravidade;
Deuses da mocidade:
Sê-los radicais do gelo.
Mobilete dos trenós,
Cento e trinta de velocidade,
Seguindo os sinais
Nas curvas de nós:
Lá vão deslizando sem medo,
Os radicais do gelo.
Radicais do gelo!
Nos pares patins-patinação:
Arremessos no ar;
Espiral da morte;
Giros espelhados,
No bailado vento esvoaçar;
Ou no individual surreal,
Ao som galopado de Ravel;
Leveza da poesia feminina;
Idade jovial menina:
Sensualidade, sabor de mel,
No sorriso de cada nação:
Sê-los radicais do gelo.
LENDA, ENTREVISTA RAIVOSA E O POLITICAMENTE CORRETO E INCORRETO
Era um final de tarde onde o pôr-do-sol já anunciava o anoitecer. Um cidadão chega aflito e ofegante num posto de saúde, com sintomas de Covid-19, e é atendido por um funcionário. O expediente já era finado.
Mesmo assim, ele o recebe; olha o seu cartão e, ao ver seu nome, meio que espantado diz:
– O senhor é uma lenda, não pode morrer! Começa a clicar várias vezes em seu celular e agenda uma consulta urgente para o paciente que lhe responde:
– Moço, lenda não existe! Não passa de uma imaginação das pessoas! Como posso ser uma lenda diante de tantas contadas pela história? Sou um simples mortal.
– É sim, para mim, que o acompanho há muitos anos, pelo seu caráter, seu comportamento ético, princípios, seriedade, honestidade e reputação ilibada. Também pelo que tem feito, com seu espírito de persistência.
– Não sou nada disso, mas agradeço seu reconhecimento. Moço, como posso marcar um teste para saber se estou contaminado? Venho tentando há dias pela Central de Marcações, mas ninguém atende.
– Pronto! O senhor já está agendado com o médico para logo mais amanhã cedo. Procure descansar, porque o senhor é mesmo uma lenda, e não pode ir assim levado por esse vírus.
Ele foi para casa imaginando: Quem sou eu para ser uma lenda, apenas um contribuinte entre tantos milhões, que dedicou toda sua vida batalhando e pagando seus impostos e, quando precisa do Estado, é considerado como mais um número esquecido lá no canto.
Mesmo assim, ele se sentiu recompensado e envaidecido, porque pelo menos uma pessoa reconheceu seu valor. Mas, não sou nenhuma lenda – responde para si mesmo. Será que lenda tem a ver com travessia de vida?
De um polo ao outro, quero aqui aproveitar o momento para repudiar o tratamento rústico, fanático e radical praticado por dois radialistas conquistenses contra duas professoras sindicalistas, numa entrevista de bate-boca, quando as representantes da entidade tentavam explicar o aumento do piso do governo federal aos profissionais da educação.
As mulheres foram interrompidas abruptamente. Confesso que, em toda minha vida jornalística de 50 anos, fiquei horrorizado com o que vi e ouvi. Foi uma aula de como fazer antijornalismo e antiradialismo, sem nenhuma compostura e ética profissional. Uma entrevista raivosa, mais para conversas atravessadas de botequins. Os entrevistadores pareciam dois ferozes pits bull em ataque descontrolado, sem o devido traquejo jornalístico!
Simplesmente, foi uma aula de como não se deve fazer uma entrevista. Foi lamentável, para não dizer, uma vergonha para imagem do nosso jornalismo e da nossa cidade de Vitória da Conquista! Ao invés da mídia ser agredida, como geralmente acontece, foi a mídia quem agrediu as pessoas que ali estavam sendo entrevistadas. Nunca vi tanta descompostura no ar!
Mas, nessa mistura que hoje resolvi fazer, falo agora do politicamente correto e do politicamente incorreto. Os dicionaristas deveriam eliminar certas palavras de seus compêndios de significados e traduções.
Aqueles radialistas até podem vestir o manto do politicamente correto, recomendado pelo falso sistema, mas sempre vão estar com suas unhas afiadas para cravar no pescoço de alguém que esteja do outro lado do seu pensamento político. Tudo requer formação e profissionalismo no que está se fazendo.
Detesto esse politicamente correto porque remete à censura. Um amigo poeta-letrista me disse que não coloca o termo “zumbi” em suas músicas porque é pejorativo e racista. Afirmei para ele que uso a palavra “zumbi” e outras quando for necessário, para dar ênfase à narrativa, não com o fito de destilar ódio e intolerância racial.
Ora, voltando ao caso da lenda, ela pode ser empregada como metáfora para reforçar o texto, sem essa de preconceito e racismo. Tudo depende como empregar. O cara pode não usar a palavra “zumbi” por temer ser julgado e jogado na fogueira da inquisição. No entanto, isso não quer dizer que ele não seja racista. Não se pode falar em lobisomem?
Certa vez fui repreendido numa conversa porque falei a expressão denegrir, no sentido de outrem tentar caluniar ou manchar a reputação de outro. Entendo esse tipo de coisa como patrulhamento ideológico. Então, tenho que me policiar o tempo todo, para não ser visto como preconceituoso?
Entendo como preconceituoso o indivíduo que se vigia o tempo todo, ou se esconde numa couraça do politicamente correto, para agradar e enganar. O politicamente correto pode ser um farsante racista de primeira, ou um lobo na pele de cordeiro. O racismo existe, como o complexo de inferioridade, onde em tudo ver preconceito e racismo.
SOBRANDO NESSA TERRA…
São tantas coisas acontecendo, gente matando gente; tanta raiva e contradição, de uns querendo impor suas ideias aos outros, sem diálogo e compaixão, na base da truculência, que às vezes fico a conversar com meus solitários botões, que aqui estou sobrando nessa terra onde plantando tudo dá. Estão plantando mais veneno que bondade e compreensão!
Mesmo assim, continuo seguindo em frente, assuntando barbaridades e agressões; lutando com minhas últimas forças para manter firme e incólume minha formação que recebi desde minhas raízes pequeninas, para não arredar pé dos meus princípios e não entrar no buraco dos ratos, para não transar com os ratos, como já disse nosso poeta cancioneiro Raul Seixas.
Foi dele também quando denunciou que tem gente que reza a Deus, para agradar o diabo. Fala-se de pátria amada, para maltratar nossos filhos; contaminar nossos rios com lixo e esgotos; derrubar florestas e tocar fogo na Amazônia. Fala-se em desejar bem ao Brasil, mas só querem embriagar-se no poder, não importando se o mal vai nos corroer. Estou matutando…
Penso que estou sobrando nessa terra da cega polarização política, que nenhum bem vai nos trazer. Ficar no mesmo lugar com o satanás, ou voltar ao passado traidor que nos prometeu fé e esperança e nos entregou separação, roubo, raiva e intolerância.
Nem um, nem o outro. Nem o presente maléfico, nem o passado de escândalos, misturado com cabras da pior espécie, do “nós contra eles”. Prefiro vislumbrar um futuro, mesmo que seja um risco. Se você não tem a coragem de enfrentar o desafio, nunca vai saber se dá certo ou errado. Um passo para frente, ou um passo para trás?
Não nasci para ser escravo de ninguém, mas, mas esse sistema bruto está sempre nos empurrando para essa escravidão. De tanto violar nossos direitos, de tanto nos injustiçar, de tantas mentiras propaladas, de tanto nos humilhar, de tantas asneiras, de tanto radicalismo fanático, de tanta negação da ciência, de tanta brutalidade e estupidez de uns contra os outros, sinto que estou mesmo sobrando nessa terra.
Há mais de dez anos calculei que essa terra iria ser extremada, que em seu chão iria germinar muito fundamentalismo porque estavam plantando árvores daninhas. Elas se espalharam por todos os cantos, como joios no trigo, cujo cultivo ficou sufocado. Os radicais, tanto de um lado como do outro, engrossaram suas fileiras e dizem que só pensam em fertilizar a terra. Será que não é mesmo torná-la mais árida, seca, agreste e infértil?
Pois é, meus amigos camaradas, que me perdoem o atrevimento, longe de ser o dono da verdade absoluta, mas sinto-me como um ente sobrando nessa terra. Posso até ser uma sobra, ou uma voz que clama no deserto, sem ser profeta da maldição. Apenas extravaso meus sentimentos, sem nenhuma presunção de ser guia ou guru de ninguém.
No quadro atual, não importa muito ser de direita ou de esquerda. O que mais conta é ter juízo menino, como falava nossos pais. Os de hoje estão mais preocupados no ter que no ser. Estão mais para competir de qualquer maneira, mesmo passando rasteiras, para sobreviver nesse mundo cão e ganhar algum dinheiro para alimentar os seus. Outros são ainda mais vampiros ganancioso, e até roubam, sem nenhum pejo.
Acho que nessa terra sobra cegueira e soberba e falta mais humildade e raciocínio lógico para consertar os erros; fazer uma sincera mea culpa e não repetir a história. Passo aqui nessa terra, mais um dia cheio de informações truncadas, catando as sobras que os caras do alto de suas sacadas jogam para os que estão no asfalto.
Diante de toda essa parafernália, o tempo parece correr mais rápido, de forma mais desumana, mas ele continua no mesmo compasso. Nós que aceleramos demais os passos, e nem olhamos mais para trás, nem paramos para construir o futuro. Muitos deixaram de dar suas opiniões com medo de levar umas bordoadas, e alega que não tem mais tempo para isso. Será que não estou sobrando?…
CONQUISTA SEM FUTEBOL POR UM ANO
Carlos González – jornalista
Sem a presença de Vitória da Conquista, cujo futebol acompanha a letargia dos governantes, políticos, setores produtivos e esportistas, o interior baiano se prepara para realizar a festa do campeonato estadual, que, provavelmente, será uma espécie de ensaio para os festejos juninos. Atlético, de Alagoinhas, Bahia, de Feira de Santana, Jacuipense, de Riachão do Jacuípe, e Barcelona, de Ilhéus, vão brigar por um “caneco” que sempre esteve nas galerias de Bahia e Vitória.
Na verdade, o Esporte Clube Primeiro Passo Vitória da Conquista não vai estar totalmente ausente dessa festa dos seus companheiros interioranos. Ao Bode será dada a incumbência de carregar a lanterna que vai iluminar o salão de dança.
Conhecedor habitual das séries “C” e “D” do futebol brasileiro, o Vitória da Conquista não terá dificuldade em disputar a 2ª divisão do Campeonato Baiano de 2023, que só será iniciada dentro de aproximadamente um ano, o que significa fechamento do Estádio Lomanto Júnior, cujos operários só terão a obrigação de aparar a grama.
Em nota oficial divulgada em sua página na internet, a diretoria e os conselheiros do Conquista garantem que “o momento é de tristeza e dor”, e pedem desculpas aos torcedores, patrocinadores e apoiadores, “por não terem conseguido conquistar os objetivos traçados”. Em seguida, é óbvio, a nota se refere ao período de pandemia, o que provocou uma queda na receita, sem que o clube deixasse de honrar seus compromissos financeiros. Por fim, prometem ao conquistense voltar a fazer parte da elite do futebol baiano, onde se manteve por 17 anos seguidos.
A nota não se refere à dispensa de jogadores, o que sempre gera uma enxurrada de processos na Justiça do Trabalho, uma preocupação até para os grandes clubes do país, obrigados a se desfazer do seu patrimônio (o Santa Cruz, do Recife, está na iminência de perder seu estádio). Também não há nenhum indicativo a respeito da vigência dos contratos com os patrocinadores.
O futebol da terceira maior cidade do Estado – um dos seus filhos, Ednaldo Rodrigues, é o presidente da CBF -não pode continuar vivendo de migalhas, aliada à indiferença dos governantes. Exige um patrocinador de peso. Tenho uma sugestão: por que sua diretoria não procura o Homem de Verde (não se trata do Hulk), a cor predominante no uniforme do Conquista? Refiro-me ao bilionário catarinense Luciano Hang, que ultimamente vem colocando parte dos seus US$ 2,7 bilhões em cinco clubes de futebol, inclusive Vasco e Flamengo, além de investir no voleibol, natação e automobilismo.
A ajuda do Hang ao clube alviverde seria uma maneira dele retribuir ao conquistense o acolhimento recebido desde abril de 2018 quando aqui inaugurou uma das suas 160 lojas, sendo duas – a outra está em Barreiras – na Bahia.
Mesmo preservando o nome do município, o ECPP Vitória da Conquista é vítima de uma “doença” que bloqueia o crescimento da maioria dos clubes nordestinos: a falta de amor do torcedor local, sentimento que é transferido para os clubes cariocas, em especial ao Flamengo. O jornalista, dramaturgo e torcedor do Fluminense Nelson Rodrigues (1912-1980) chamaria esse apego ao que vem de fora de “complexo de vira-lata”, colocando o ser humano numa posição de inferioridade.
DIA MUNDIAL DA ÁGUA
As antigas civilizações, muito antes de Cristo (oito ou dez mil anos) cresceram e prosperaram às margens de grandes rios, como os sumérios entre os rios Tigre e Eufrates, o Egito e outros povos ao redor do Nilo, os gauleses ao lado do Sena e a própria China.
A história nos conta a preponderância da água na formação de grandes impérios e na construção de suas economias, inclusive contribuindo no desenvolvimento da cultura, dos inventos e até no domínio de outros territórios. Desde o início que a humanidade guerreia pela água, bem antes do petróleo e dos minerais.
Neste 22 de abril é comemorado o Dia Mundial da Água que, de tanto ser desperdiçada, hoje vive uma crise de escassez, e mais de um bilhão de habitantes no mundo a consome sem ser tratada, gerando doenças e mortes. A falta de água mata mais depressa que a de alimentos.
Antes de ser celebrada como vida, o ponto principal a se refletir é que o homem cada vez mais destrói e envenena nossos rios. O nosso planeta, por exemplo, poderia ser chamado de água. Estou aqui falando da água doce que é menos de 1% do que existe em comparação com os oceanos salgados.
Em se tratando de guerra pela água, essa disputada existe bem perto de nós, aqui na Bahia e na região sudoeste. Quando aqui cheguei para chefiar a Sucursal de A Tarde, umas das minhas primeiras reportagens foi justamente sobre uma briga que estava ocorrendo entre produtores irrigantes de Nossa Senhora do Livramento e Dom Basílio.
Eles se digladiavam pela água do rio Brumado, se não me engano, pois, um bloco estava recebendo mais que o outro. A coisa foi feia e tinha gente até armada na reunião que houve entre as partes. Esse entrevero está lá até hoje. Estou citando apenas um exemplo. Mas essa mesma situação acontece no oeste e entre os irrigantes do Rio São Francisco, tão maltratado.
Por falar no “Velho Chico”, é só rememorar as divergências (a penitência e o jejum do bispo de Barra) para que o projeto de transposição das águas do rio não fosse concretizado. Hoje ele está cheio e transbordando por causa das chuvas, mas o que será dele quando bater por aí uma longa estiagem, uma seca daquela bem intensa?
Por tudo isso é que a água é o bem mais precioso de todas as riquezas existentes na terra, mas as pessoas no geral, sem a devida educação, nem pensam nisso e desperdiçam esse líquido divino. Na Bahia, de acordo com dados levantados pelo Instituto Trata Brasil, quase 42% da água potável é jogada fora. Além disso, lixo e esgotos são lançados em nossos mares e rios. Esse recurso se encontra atualmente ameaçado, mas existem ações de preservação, que ainda são poucas.
CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (IV)
O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.
Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:
Sobre os procedimentos dos desembarques dos cativos no Brasil, Laurentino descreve que “a primeira providência consistia em retirar, com vários dias de antecedência, as correntes e algemas que prendiam os escravos, de modo que não houvesse marcas visíveis na pele. A segunda era lavá-los com esponja e sabão”.
Os homens tinham os cabelos raspados e a barba feita com esmero. Fios grisalhos eram arrancados ou pintados de preto. Os mais velhos que tivessem pele macilenta ou enrugada, teriam os rostos ou os troncos polidos com uma pedra ou areia fina. Por fim, os marinheiros untavam os corpos com óleo de dendê, de maneira que ficassem brilhantes e bem hidratados para a venda.
O leilão era a forma mais comum de venda dos escravos no Brasil e no continente americano. Porém, haviam expedições previamente encomendadas por um comprador individual ou grupo. Isso era mais utilizado no século XIX. Nesse caso, fazendeiros contratavam a aquisição de um determinado número de cativos, que eram desembarcados às escondidas em locais remotos (Ilha Grande ou Mangaratiba, no Rio de Janeiro).
Na maior parte, nos séculos anteriores, as transações eram feitas na base da oferta pública, semelhante ao das feiras agropecuárias. O valor de mercado era comparado ao de um animal de carga. Na chegada aos portos brasileiros, o capitão do navio deveria antes registrar sua carga, pagar os impostos na alfândega e submeter-se à fiscalização sanitária.
Diversas epidemias ocorridas no Brasil no início do século XVII tiveram como origem o desembarque de escravos vindos de regiões da África onde havia doenças, como varíola, malária ou febre amarela. Os leilões começavam pela “primeira escolha” onde os compradores mais ricos tinham a preferência de arrematar os mais jovens, fortes e saudáveis, por preços mais elevados.
Os mais idosos, doentes e portadores de alguma deficiência física eram vendidos pela melhor oferta, como numa liquidação de ponta de estoque, comprados por gente mais pobre. Os mais fracos e doentes eram abandonados nas ruas do Rio de Janeiro onde morriam como indigentes. O maior mercado comprador era o Valongo, no Rio de Janeiro, situado nos atuais bairros da Gamboa, Saúde e do Santo Cristo.
No processo de venda, eles ficavam nus. Eram pesados, medidos, apalpados, cheirados e observados nos mínimos detalhes. Tinham de correr, pular, esticar braços e pernas; respirar fundo e tossir. Os compradores enfiavam os dedos nas bocas para checar se os dentes estavam em bom estado. Uma observação mais detalhada era feita nos genitais dos homens e mulheres, em busca de sinais de doenças.
As senzalas brasileiras, na definição do sociólogo Clóvis Moura, eram um conjunto habitacional de construção rústica, sem janelas, construído de taipa e coberto de palha. Num espaço curto, ficavam homens, mulheres e crianças, na maioria sem vínculo parentesco, o que geralmente se transformava num ambiente de promiscuidade.
Para evitar fugas, durante a noite, o feitor trancava as portas por fora com cadeado e corrente. Os cativos ficavam confinados em cubículos até de manhã, quando seriam libertados para o início do trabalho. Segundo historiadores, a definição de senzala teria sido dada pelos próprios escravos, derivada do quimbundo, língua de Angola.
Torturas e atrocidades
A fase inicial da vida do escravo no Brasil e na América era de torturas físicas e psicológicas como maneira de mostrar ao cativo quem era mesmo o dono. De acordo com o padre jesuíta Manuel Ribeiro Rocha, missionário na Bahia em meados do século XVIII, citado pelo autor do livro, nessa etapa muitos senhores de engenho no Recôncavo Baiano tinham o hábito deliberado de surrar os escravos.
O holandês Dierick Ruiters, que em 1618 passou um ano preso no Rio de Janeiro, relata coisas horríveis, como de um negro que faminto furtou dois pães de açúcar. Ao saber do ocorrido, seu senhor mandou amarrá-lo de bruços a uma tábua e, em seguida, ordenou que um negro o surrasse com um chicote de couro. Da cabeça aos pés, seu corpo ficou uma chaga aberta, e os locais poupados pelo chicote foram lacerados a faca. Um outro negro derramou sobre suas feridas um pote contendo vinagre e sal. Conta o holandês, que o homem foi transformado em carne de boi salgada. Depois de tudo isso, derramaram piche derretido sobre suas feridas.
Em 1700, a Justiça mandou que fossem investigados todos os casos envolvendo mutilações e mortes de escravos por falta de comida. O rei de Portugal, D. Pedro II, mandou averiguar denúncias de atrocidades e assassinatos. No entanto, o governador da Bahia, na época, D. João de Lancastre, recusou acatar as determinações do rei, alegando que a medida abriria precedente perigoso, e levaria à quebra da disciplina na relação entre escravos e senhores. As leis eram inúteis num país ermo.
O ARCO-ÍRES E O PÔR-DO-SOL
Nas lentes do jornalista Jeremias Macário, um flagrante poético-mágico da natureza num final de tarde onde a luz cede seu lugar para o anoitecer. Ambas as imagens se reverenciam e se penitenciam com seus significados misteriosos. O Arco-íris é o símbolo da comunidade LGBT, com suas cores de esperança e renovação da vida. Na verdade, essa simbologia é de todos nós quando nos faz refletir sobre nossa pequenez diante das belezas do universo. É o momento do nosso instinto primitivista de ódio e intolerância dar lugar para a paz espiritual, de que devemos respeitar os outros. É o portal para o outro lado do ser.
O pôr-do-sol é como o beijo da luz do dia com o escurecer da noite, com suas cores rajadas de despedida de uma jornada entre nascente e poente, prometendo um novo alvorecer de outro dia. Pode também representar o ciclo da vida: o nascer e a morte onde cada um procura deixar o seu sentido nessa passagem de luz. São duas belas figuras poéticas supremas onde cada um tem um olhar e interpretação diferentes. Dizem que o homem é a imagem do criador, mas, por mais esmero que seja, o pincel humano artístico jamais conseguirá alcançar tal perfeição.
















