NAS TRINCHEIRAS
NAS TRINCHEIRAS
De Danilo Jamal, em seu livro “POESTO – Ação Direta”. O autor é um artista de rua, poeta inquieto, ousado, contestador e engajado com questões concernentes à comunidade negra, principalmente periférica, segundo palavras de Marilza Oliveira, que prefaciou sua obra.
Pelas trincheiras da sociedade
Observando o submundo da maldade,
Dói a realidade…
Embora tudo isso seja verdade,
Existe algo que nos trava.
Falta mais sentimento…
Muito mais alma
Para sairmos da fornalha
Que queima os corações sofredores.
Digam-me senhores,
Felizes com seus horrores?
Mas é isto.
A massa gosta de atores.
OS NEGACIONSITAS ATACAM
Em Salvador, na Unidade de Saúde da Família, no Bairro de São Cristóvão, uma mulher atirou pedras contra os trabalhadores após ser orientada a usar máscara nas dependências do posto. Não é somente um caso isolado, mas outros estão ocorrendo contra profissionais da saúde durante essa maldita pandemia.
Nem precisa dizer que se trata de um absurdo nos tempos de hoje, em pleno século XXI, mas isso reflete o mau exemplo que o dito cujo capitão-presidente faz com suas aglomerações e até tirando máscara de criança, sem contar o incentivo ao uso de armas; dizer que não vai vacinar sua filha; destruição do meio ambiente; e comportamentos racistas, homofóbicos, intolerância religiosa e misóginos.
Numa casa onde o pai não dá o devido exemplo, a probabilidade da família (ainda fala de família, pátria e tradição) ser desajustada é bem maior. Ele dá a senha, e aí arrebanha milhões de seguidores, principalmente num país de maioria inculta e sem instrução. Os enrustidos, como os fanáticos evangélicos, saem do armário, e atacam com violência.
Aqui mesmo em Vitória da Conquista, num posto de saúde, vi uma mulher debochar do funcionário porque ele tentava ordenar o distanciamento da fila de vacinação. Simplesmente, ela disse que não adiantava em nada, e tanto fazia juntos como separados, a Covid pegava. Outro resistiu não redar pé do lugar em que estava.
Na capital baiana, a situação está tão grave nas unidades de saúde, que se criou o movimento “Parem de Agredir”! A mobilização do Sindicato dos Servidores da Prefeitura de Salvador tem o objetivo de chamar a atenção do poder executivo, no sentido de garantir segurança aos funcionários.
Um profissional chegou a dar uma entrevista afirmando que as agressões têm sido constantes. “Hoje a gente vem levando até tapa na cara, soco na boca e pedradas (coisa da Idade Média, ou da Antiga mesmo). Para coibir esses atos, a Prefeitura Municipal solicitou aos órgãos de segurança a realização de rondas ostensivas nas regiões dos postos de saúde.
Como pragas do Egito, os negacionistas e fanáticos estão em todas as partes para confundir os incautos. A morte de um idoso vacinado é um prato cheio para eles irem soltando suas fake news. De imediato, apontam o dedo de que foi a vacina que matou, ou que ela em nada adiantou.
Não querem nem saber do histórico de doenças da pessoa, ou se o falecido estava com a imunização completa. Tem muitos que vieram a óbito porque resistiram se vacinar lá atrás e, somente agora, resolveram tomar a primeira dose.
É a chamada turma dos atrasados, sem o reforço, que está totalmente desprotegida. Outros, quando chegam no hospital, têm vergonha de falar que não estão vacinados. Tomei as três aplicações nas datas certas; tive Covid, e só fui acometido de sintomas leves.
CONSELHO DE CULTURA CONVOCA ELEIÇÃO PARA ÁREA DE ARTES CÊNICAS
A diretoria do Conselho Municipal de Cultura está convocando os artistas conquistenses para eleição do Eixo 3 de Artes Cênicas (teatro, circo, mímica ópera, audiovisual, cinema) e dança, a ser realizada no próximo dia 3 de março (quinta-feira) às 14, na sede do Memorial Casa Regis Pacheco, em decorrência de seus membros (titular e suplente) terem renunciado aos seus cargos.
Na ocasião, os trabalhos do pleito serão coordenados pela comissão do colegiado, constituída por Jeremias Macário de Oliveira (presidente), Marley Vital (secretário), Valéria Vidigal, Rosa Auriche, Valdemir Dias e Armênio Santos. Os eleitos, titular e suplente, serão imediatamente integrados como membros efetivos do CMC, e empossados na próxima reunião do dia 7 de março, marcada para as 18 horas e 30 minutos.
VAMOS PUNIR A NATUREZA!
Sem os verdadeiros responsáveis, o negócio é colocar a natureza num tribunal do júri e puni-la por causar das tragédias na Cidade Imperial de Petrópolis. Pelas chuvas e os deslizamentos em massa de terras dos morros, a sentença do juiz deve ser prisão perpétua e até pena de morte pelos danos causados, inclusive, por ter ceifado a vida de quase 200 pessoas. Cadeia para a natureza! Liberdade para os corruptos e malfeitores!
Em quase dois séculos de existência, os homens só fizeram depredar o chão e construir nos altos e nas encostas das montanhas. Os governantes, como sempre, fazem vistas grossas, politicagem e demagogia. Por outro lado, o povo sempre votou neles, e condena quem tenta preservar o meio ambiente. Ai de quem embargar alguma obra por considerá-la inapropriada, inadequada e de alto risco!
Em todas as cidades acidentadas, como Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, regiões serranas e tantas outras, lá estão as habitações penduradas nos precipícios das montanhas. A grande maioria das casas são irregulares, e nada de serviços de proteção! Quando batem as tempestades, tudo se derrete! Moral da história: Os temporais são os culpados. É o progresso do capital selvagem que constrói a degradação social.
Nas catástrofes, a mídia aproveita para fazer seus sensacionalismos. As campanhas de doações se agigantam. Cada um faz seu marketing. É o mesmo melodrama de lágrimas derramadas. Os ambientalistas, arquitetos, engenheiros, sociólogos e urbanistas repetem as mesmas explicações dos desastres anteriores. Falam do aquecimento global, do que já deveria ter sido feito, das negligências dos políticos e, em pouco tempo, tudo é esquecido.
As máquinas da prefeitura limpam os entulhos; as vítimas (nem todos) recebem alguma ajuda social por um determinado período; o gestor continua a fazer sua “administração” populista e eleitoreira; a vida volta ao “normal”; os prefeitos mostram os projetos que nunca foram executados; e as feridas na terra e nas árvores permanecem abertas.
No caso de Petrópolis, por exemplo, no Natal passado, o poder executivo gastou mais de cinco milhões de reais em publicidade e iluminação da cidade. Tudo ficou “lindo de morrer”, para agradar os moradores e turistas! A justificativa de sempre é que os investimentos em boniteza têm a recompensa do retorno. Só elogios da população! Aplausos e votos na próxima eleição!
A humanidade, no caso específico do brasileiro, caminha em direção ao suicídio coletivo, de tanto repetir as desgraças que se abatem, constantemente, sobre ela, ou é burrice mesmo, lembrando aquele velho ditado de que “errar é humano, mas permanecer nele é burrice”.
As tragédias de hoje já não comovem tão intensamente os sentimentos das pessoas como as de 100 anos atrás. Elas tornaram-se rotineiras e, não é preciso jogar os búzios e as cartas, para prever que vão ocorrer todos os anos. Não é necessário ser profeta, nem especialista no assunto. Todas são anunciadas por causa das negligências, aliadas à corrupção.
MANUEL BANDEIRA
Falar do pernambucano de Recife, Manuel Bandeira, não carece de muitas apresentações, principalmente pelo conteúdo de suas obras poéticas. Parnasiano-simbolista aderiu de cheio ao modernismo da Semana de Arte Moderna de 22, junto com nomes notáveis de expressão, como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho e tantos outros.
Um dia, de acordo com Alfredo Bosi (História Concisa da Literatura Brasileira), Manuel Bandeira chamou-se de “poeta menor”. “Fez por certo uma injustiça a si próprio, mas deu, com essa conotação crítica, mostras de reconhecer as origens psicológicas da sua arte: aquela atitude intimista dos crepusculares do começo do século que ajudaram a dissolver toda eloquência pós-romântica pela prática de um lirismo confidencial, auto-irônico, talvez capaz de empenhar-se num projeto histórico, mas, por isso mesmo, distante das tentações pseudo-ideológicas, alheio a decaídas retóricas”.
Manuel Carneiro de Sousa Bandeira (1886-1968) veio adolescente para o Rio de Janeiro, onde cursou o Colégio D. Pedro II. Em São Paulo iniciou o curso de Engenharia, mas a tuberculose impediu-o de prosseguir os estudos. Em 1912 esteve na Suíça onde entrou em contato com a melhor poesia simbolista e pós-simbolista em língua francesa, “fonte de sua linguagem inicial, como atestam os primeiros livros “Cinzas das Horas (1917) e “Carnaval” (1919)
No rio de Janeiro estreitou amizades com Ronald de Carvalho, Ribeiro Couto, Graça Aranha e Tristão de Ataíde, passando para o modernismo. Ao praticar o verso livre, foi acolhido pelo Grupo da Semana como um irmão mais velho (na época de 22, tinha 36 anos), e alguém o chamou de São João Batista do movimento, segundo relata Bosi, que o considera como um dos melhores poetas do verso livre em português, principalmente a partir de “Ritmo Dissoluto” (1924) e “Libertinagem” (1930).
“A biografia de Manuel Bandeira é a história de seus livros. Viveu para as letras e, salvo os anos em que lecionou português no Colégio D. Pedro II e Literatura Hispano-Americana na Universidade do Brasil, dedicou-se exclusivamente ao ofício de escrever poesia, crônica, traduções e obras didáticas”.
Ao olhar de longe o carnaval da vida escreveu: “Uns tomam éter, outros cocaína/Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria/ Tenho todos os motivos menos um de ser triste./ Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria…/Abaixo Amiel!/ E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtsseff./Sim, já perdi pai, mãe, irmãos./Perdi a saúde também./É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band. ……….(“Não sei dançar”).
Um dos poemas mais lembrados de Bandeira, musicado por Paulo Diniz, foi “Vou-me Embora para Pasárgada” em seu livro “Libertinagem” “que oscila entre um fortíssimo anseio de liberdade vital e estética e a interiorização cada vez mais profunda dos vultos familiares (“Profundamente”, “Irene no Céu”, “Poema de Finados”, “O Anjo da Guarda”), bem como das imagens brasileiras extraídas do seu convívio intelectual com Mário de Andrade e Gilberto Freyre (“Mangue”, “Evocação do Recife”, “Lenda Brasileira”, “Cunhantã)”
SEMPRE MODERNO
Embora secular, desde os tempos medievais quando os poetas viajantes passavam em versos as notícias de histórias e estórias de grandes lendas, personagens, povos e acontecimentos de regiões longínquas, o cordel, originário da Península Ibérica, sempre foi um gênero moderno porque a sua essência é popular onde todos entendem suas mensagens. Do parnasiano, do impressionismo, dadaísmo, simbolismo ou expressionismo, ele é sempre único. O cordel já nasceu modernista, pena que muitos acadêmicos metidos a besta torcem a cara, e poucos colocam o tema em suas teses. O cordelista nasceu repórter-jornalista porque, de uma forma ou de outra, jocosa ou não, passa as notícias para o povo dos nossos sertões nordestinos. O cordel sempre esteve à frente das redes socais da internet. Ele está representado na exposição de mais de 20 artistas, no Memorial Regis Pacheco, que homenageia a Semana de Arte Moderna de 22, mas, infelizmente, a mídia pouco faz referência. É uma total indiferença!
MAR PORTUGUÊS
Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzamos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosse nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
O MAIOR CULPADO É O HOMEM
Não me venha colocar a culpa nas tempestades da natureza que saiu arrastando tudo na cidade de Petrópolis (Rio de Janeiro) e vem provocando enchentes gigantes em várias partes do Brasil, deixando um rastro de destruição! A mídia costuma anunciar que os temporais inesperados causaram danos materiais incalculáveis e milhares de mortes.
Deveria dizer que a estupidez do homem é a maior culpada de tudo isso que vemos nas tristes imagens. Dizer sim, que são tragédias anunciadas, porque há anos, ou séculos, o ser humano vem destruindo o meio ambiente. A natureza apenas reage às provocações, e as catástrofes não passam de consequências das perversidades humanas. Só os brutos não enxergam isso.
Todos nós somos culpados porque elegemos governantes safados que nem estão aí para proteger as áreas degradadas que já sofreram estragos no passado. Todas as vezes que acontecem as tragédias, logo em seguida aparecem nas telas os “milhões de reais que serão liberados para reparar os danos, mas os recursos somem nas próprias enxurradas.
Os especialistas e ambientalistas sabem muito bem (qualquer leigo também) que há anos as construções foram feitas em locais inadequados, as chamadas áreas de alto risco, que vão ceder. A questão é apenas de tempo.
Além do poder público e o setor imobiliário fazerem vistas grossas para essas habitações em morros e encostas perigosas, visando lucros, nunca realizaram obras de proteção. Nada de investimentos em infraestrutura e saneamento.
Agora, depois do leite derramado, não adianta ficar rezando e enxugando as lágrimas, ou rogando a Deus pedindo ajuda. Não foi Ele quem mandou esse sofrimento, e nem matou uns e deixou outros tantos vivos. Não me venham com essa de que foi Deus que assim quis. É até uma burrice assim pensar. É uma maneira de querer apagar a nossa culpa. Enganar a si mesmo.
Como sempre, logo aparecem por todo país as campanhas de solidariedades para os desalojados sobreviventes, como forma de alento, por pouco tempo, mas não se cobra a punição contra os verdadeiros responsáveis criminosos. Em pouco tempo tudo é esquecido. Fazem alguns serviços de limpeza; dão alguns tostões de ajuda; embolsam a maior parte do dinheiro nas burocracias; e as vítimas ficam a ver navios.
As doações não passam de paliativos, e até mesmo esmolas, porque não resolvem o problema daqueles que perderam tudo, principalmente familiares, parentes e amigos. Esses ficam penando nas valas dos esquecidos. Não demora muito e outros temporais acontecem, numa repetição como nos filmes já vistos por várias vezes.
Com o aquecimento global, a ganância do consumismo e a falta de preservação do meio ambiente, a tendência é só piorar. Cada tragédia tende a superar a outra e, mais uma vez, colocam a culpa na imprevisibilidade da natureza, porque nem os serviços atrasados de meteorologia dos homens conseguem fazer mais previsões. A mão estúpida do homem foi tão pesada que as reações do tempo deixaram de ser previsíveis.
CONVERSAS ENTRE COMADRES E O COTIDIANO NUM POSTO DE SAÚDE
Ir a um consultório médico particular para uma consulta já não é nada agradável. Primeiro você é tratado como paciente, porque haja paciência para esperar! Agora, imagine num posto público de saúde onde você escuta papos absurdos que não gostaria de ouvir, principalmente nesses tempos pandêmicos e negacionistas! Como a maioria dos brasileiros, meu plano é o SUS, meu amigo! Só isso basta!
Logo cedo, entre seis e sete horas da manhã passo pela recepção que me coloca numa triagem na sala de uma enfermeira, para depois aguardar o médico que está marcado para chegar às nove horas, mas só começa a fazer as chamadas depois das dez. Não adianta esquentar a cabeça, ou reclamar.
Minha pressão registrou certa alteração no aparelho. Os números não mentem. Não dou muita importância. Depois normaliza. Sempre levo um livro para passar o tempo e me acalmar, mas com os ouvidos (um não estava bem) atentos aos movimentos e às conversas que rolam. Vício de jornalista.
Não existe o devido distanciamento, e logo o posto vira uma aglomeração de entra e sai de funcionários por salas diferentes e usuários misturados com o local de vacinação. O sistema é bruto!
É um tal de entrar e sair das portas que até me dá uma agonia. É muito papel e burocracia! Sento numa fileira de cadeiras vazias e abro o livro para minha leitura. Não demora muito e duas senhoras sentam ao meu lado. Fico prensado ao meio. Elas percebem que não estou para conversa, mas sinto que vai sair resenha. Uma me pergunta se vou ao médico. Respondo laconicamente que sim.
– O calor está demais, né comadre, e pior ainda para a gente nessa idade da menopausa. É uma quentura por dentro! Fale não, comadre – diz uma para outra. Dá vontade de rir, mas continuo calado, lendo meu livro. Lá se foi minha concentração! Penso comigo: Vem mais coisa por aí.
– Comadre, essas vacinas não servem pra nada! É coisa de político, peixe grande entre eles! Olha comadre, minha avó de 80 anos tomou a vacina e até hoje está com o braço duro. Conheço uma pessoa que se vacinou e logo depois teve um infarto. Essas vacinas estão matando gente!
– É comadre, sei de dois conhecidos que receberam as duas doses e pegaram a danada da covid – responde a outra, para acrescentar que um não teve muitos problemas de saúde, mas o outro, que sofria de diabetes, foi internado. Deu vontade de contra-argumentar, mas recuo. Melhor não!
– Só Deus, comadre, porque essas vacinas não valem nada! Começo a ficar irritado com os absurdos negacionistas. Lembro do Bozó, mas procuro me controlar e me agarrar ao meu sábio silêncio. Pensei em sair do lugar, mas seria falta de educação, e poderia até ser recriminado com palavrões.
– Onde já se viu, comadre, esse pessoal do governo do estado pedir cartão de vacinação para entrar numa repartição! Isso tá fora da lei – protestou. Não aceite isso comadre!
O funcionário do posto foi até a fila de vacinação para tentar manter uma certa distância entre as pessoas, mas não estava sendo compreendido. Resistência! Um cara foi logo dizendo que não ia sair dali. Não se sabe no que deu nesse povo. Deve ter sido a infiltração do mau exemplo que vem lá de cima do capitão-presidente.
– Tá vendo aí, não adianta comadre, junto ou separado, a covid pega do mesmo jeito – apontou a comadre ao lado para o agente de saúde que estava procurando colocar ordem na fila, para evitar ajuntamento.
Nem percebi, e logo as duas se foram. Ah, uma foi para o dentista. A outra conversadeira, nem sei. Que alívio! Estou livre das barbaridades! Meu ouvido esquerdo começa a zunir. Ele está entupido e surdo, mas o outro ainda está funcionando. Deu para captar as conversas atravessadas.
Olho o relógio, e os ponteiros marcam próximos das dez horas. O tempo não para. Estava impaciente, decidido a ir embora. Nisso, passa a enfermeira e pergunto quando o médico, ou a média, ia me chamar.
– Tenha paciência, meu senhor! Não vai demorar! Já estava ali há mais de três horas, e nada. Dei uma pausa na leitura. Passa um rapaz, visivelmente homossexual, esbanjando sua descontração de não paciente sisudo como eu, e diz que meu livro é bonito. Pela capa (o livro estava fechado em minha mão) ele viu que era “Escravidão”, de Laurentino Gomes. Pensei em responder que não existe livro bonito, mas bom ou mal escrito.
Levantei um pouco para esticar as pernas. O rapaz, que depois descobri, foi lá para se vacinar, e não demonstrava muita preocupação com os problemas da vida. Senta no mesmo lugar em que estava e toca a ligar. Corri as vistas, e observei que a maioria conduzia um celular na mão. O jovem parecia falar com a mãe, uma tia ou com a avó.
No meio da conversa, contou que no colégio, ou faculdade, entrou no banheiro das mulheres por engano. Isso levou uns três ou cinco minutos para explicar sobre aqueles desenhos-letreiros de feminino e masculino que colocam nas portas dos sanitários. Tem símbolos confusos e até em inglês. Melhor falar toilette, que fica mais civilizado e bacana.
Como seu argumento de ter adentrado no banheiro feminino por equívoco não convenceu, o rapaz levantou-se, foi até a porta dos sanitários do posto de saúde, e tirou uma foto para enviar. Hoje a tecnologia oferece essa rapidez através da imagem virtual. O processo é instantâneo. Do outro lado, a mulher disse que não estava podendo abrir o arquivo. Percebi que o moço ficou desapontado. Pela conversa, supus que a pessoa estava internada em algum hospital.
Confesso, e bem sabe quem conhece meu temperamento, que não estava mais suportando ficar mais ali. A decisão era desistir da consulta, mas, para minha sorte, a médica, finalmente, me chamou. Já eram dez e meia.
Sai dali pensando um monte de coisas, como na ignorância do nosso sofrido povo, nas questões sociais de tantas desigualdades, num Brasil ainda atrasado que pouco cuida dos seus filhos, nessa pandemia que parece não mais se acabar, na minha própria impotência como cidadão e nessa outra pandemia da tal fake news que se alastrou por todo país, tirando a vida de muita gente.
O BRASIL PRECISA DE UM NOVO GRITO DE LIBERDADE DA ARTE DE 1922
Nesses tempos tão bicudos de destruição da nossa cultura através da censura e do corte de verbas; de imitação e repetição dos costumes e hábitos estrangeiros, principalmente originários dos Estados Unidos; de tanto lixo musical; de desprezo pela literatura e outras linguagens artísticas, o Brasil precisa de um novo movimento, de um novo grito de liberdade e de uma nova Semana de Arte Moderno de 1922, que aconteceu há 100 anos no Teatro Municipal de São Paulo, entre 13 e 18 de fevereiro.
Comemorar é memorar, mas como vamos comemorar um episódio tão significante para a nossa cultura, se a nossa arte está se deteriorando nos museus que, inclusive, estão sendo incendiados por falta de uma política pública de preservação, se o nosso patrimônio material e imaterial não está recebendo o devido apoio do poder dos governantes, se o incentivo limitado à produção artística está sendo condicionado à uma adesão às diretrizes ideológicas fascistas de extrema-direita?
Precisamos do grito de liberdade de um Oswald de Andrade, de um Mário de Andrade, de um Menotti Del Picchia, de um Heitor Villa-Lobos, de um Brecheret, de uma Anita Malfatti, de uma Tarsila do Amaral, de um Di Cavalcanti, de uma “Pagu”, de um Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho e até de um Graça Aranha contra todo esse retrocesso que está deixando o Brasil na contramão da cultura e das artes.
Precisamos de novos manifestos, como do “Pau-Brasil” (1924) e do “Antropofágico” (1927) de Oswald com sua inquietude e agitação; de um “Brasil Desvairado”, como a “Paulicéia Desvairada”, de Mário que, apesar de terem saídos do ventre da burguesia, tiveram a coragem de colocar o dedo na cara, ou na ferida da própria burguesia.
A Semana de Arte Moderna de 22 fez uma ruptura com o passado e com a cultura europeia, para abraçar e comer o nosso nacional, não com esse ufanismo delirante fascista atrasado. Naquela época, Oswald, Anita e Tarsila beberam das fontes do vanguardismo futurista europeu, mas fizeram suas artes voltadas para valorizar o que era nosso, conectados com a nossa realidade brasileira.
Hoje precisamos romper com essa imitação da cultura norte-americana que absorve nossos jovens para adorarem, idolatrarem e apreciarem seus grandes heróis (super-homem, homem aranha, hulk, batman, mulher maravilha), esquecendo-se do nosso potencial cultural e do nosso rico folclore. Ninguém fala mais em Saci, de Curupira e das lendas amazônicas, gaúchas e nordestinas (Câmera Cascudo).
Nosso português está sendo vilipendiado, depenado e substituído por termos e letreiros inglesados. Nas redes sociais aparecem um horror de códigos. Nas portas das lojas, só nomes em inglês. Não se fala mais em seminários, mesas-redondas, encontros, conferências e congressos. Os cabeçários dos folhetos, nomes em camisetas e até cartazes (banner) são escritos em inglês.
Tivemos grandes movimentos entre as décadas 50, 60 e 70, inclusive com a Tropicália, a Bossa Nova, Clube da Esquina (Chico, Caetano, Gil, Milton Nascimento, Ferreira Gullar, Edu Lobo, Geraldo Vandré, a turma do Pasquim) e tantos outros, que se miraram na Semana de Arte Moderna, que deu cara ao nosso modernismo, mas se foram com a ditadura. Não mais aquela mesma efervescência cultural, com conteúdo.
Por tudo isso e mais, é que precisamos de um novo movimento que lembre o centenário da Semana de Arte Moderna de 22, ainda mais consistente e revolucionário. De lá para cá, nesses 100 anos, nossa sociedade passou a se lambuzar no óleo sujo do consumismo e entrou em decadência em termos de pensamento, conhecimento e saber. Nos tornamos uma sociedade alienada.
A burguesia de hoje não difere muito da de 1922. Os coronéis dos tempos atuais continuam sendo os mesmo dos anos de 20 e 30. A diferença é que os de hoje usam métodos mais sofisticados, especialmente digitais virtuais mentirosas e enganosas, para fazerem suas malandragens políticas de perpetuação da elite burguesa oligárquica. Está aí a compra de votos por outros meios. Mais do que homenagear, o Brasil precisa de uma nova Semana de Arte Moderna.












