“ÁRVORE DA VIDA”
Vitória da Conquista foi visitada na semana passada por uma carreta de livros, estacionada na Praça Barão do Rio Branco, chamada de “Expolivro Árvore da Vida”, iniciativa de comunidades religiosas que percorrem o país disseminando a leitura por onde chega. A recepção na cidade foi muito boa, além das expectativas, segundo o coordenador do projeto, Tito Furtado. Estive lá no sábado passado para conhecer o ambiente e me senti mais esperançoso quando constatei a presença de um grande público de crianças ávidas e felizes ao manusear os livros, o que é um bom sinal para o nosso futuro, tão incerto nos tempos atuais quando se tem um governo que chega até a criminalizar a cultura. Não importa que sejam livros de cunho religioso, desde que não sejam fundamentalistas que procurem impor nos pequenos uma doutrina única, mas que abram as cabeças para condenar a intolerância e aceitar o pensar do outro, sem ódio e xingamentos.
PALAVRAS! PALAVRAS!
Mais nova obra do jornalista e escritor Jeremias Macário
Tempos de estiagem,
Num cálido vazio árido,
Assim padece nossa linguagem,
De limitadas palavras,
Menos verbos conjugados,
Cadeados, censuras e travas.
Palavras! Palavras vira-latas,
Nesses mares de piratas;
Sem regras gramaticais;
Travessa de ódio e xingamentos,
Pouca lógica e argumentos;
Códigos que entopem canais,
Nas enchentes das redes sociais.
Palavras! Palavras! Palavras!
Raízes de Alá e Baobá,
Que nos fazem racionais,
Diferentes de outros animais.
Palavras! Palavras! Palavras!
Nascidas nos fios das barbas,
Que perderam seu valor,
Na escrita, fala e nos sinais,
Na guerra, na paz e no amor;
Sejam dos sábios imortais,
Labaredas de fogo incandescentes,
Como nas canções dos festivais;
Iluminem nossas mentes,
Na crítica e nos pensamentos;
Que não se percam aos ventos;
Nunca armas da violência,
E sim, sentido da existência.
EXPOSIÇÃO MOSTRA A HISTÓRIA DA CAFEICULTURA EM VITÓRIA DA CONQUISTA
Exuberância de cores e realismo em dimensões variadas impressionam o visitante quando penetra na “Exposição Café com Arte”, da premiada artista plástica Valéria Vidigal, no Shopping Boulevard, que poderá ser apreciada até o dia 8 de maio.
A perfeição de suas telas dá vida, não somente à lavoura em questão, mas também às pessoas que nela labutam desde o plantio, a colheita de seus grãos (conhecidos como ouro verde ou vermelho) até à preciosa bebida chegar ao consumidor, que não pode passar sem um cafezinho para esquentar seu corpo e seu espírito, principalmente pela manhã.
Não sou crítico de arte, mas pude perceber e observar que a cada quadro que faz, a artista se supera em seus trabalhos, especialmente quando são voltados para a cafeicultura, seu principal tema que abraçou com toda dedicação em seus anos de carreira.
Como jornalista, conheci Valéria praticamente quando aqui cheguei em Vitória da Conquista nos anos 90 para gerenciar a Sucursal do jornal A Tarde, e tive o prazer de fazer algumas matérias com ela, ali na Galeria do Itatiaia, onde possuía um atelier e realizava cursos de pinturas para os interessados desejosos em ingressar nessa arte poética de fotografar coisas e objetos através dos pinceis.
Mesmo sendo suas origens de Minas Gerais, pode-se dizer que Valéria Vidigal já faz parte da própria história do café do Planalto de Vitória da Conquista, cuja cultura foi aqui introduzida nos anos 70, portanto, há cerca de 50 anos.
Suas obras modernistas e cheias de detalhes fantásticos levam as pessoas a entrar nelas como se estivessem numa própria fazenda de café, porque se sentem bem próximas da realidade. É uma artista que, além de conhecer muito bem os meandros da lavoura, faz as cores brotarem dentro da sua alma, numa rara perfeição.
Apesar do tema ser único, seus quadros não se repetem, e cada um nasce com mais força que o outro, o que desperta a atenção do visitante. É uma mostra de pura arte que enaltece a cafeicultura brasileira, conhecida internacionalmente pela sua produção e qualidade.
Da Etiópia para o Brasil, para a Bahia e para Conquista até chegar às mãos da artista Valéria que, com a habilidade das tintas fez do café um produto ainda mais admirado. Como ninguém, ela soube eternizar a história dessa planta, que representou um dos ciclos econômicos mais importantes no final do Brasil colonial, permanecendo até hoje como maior produtor e exportador mundial de seus grãos.
O SERTÃO É ÚNICO
28 DE ABRIL É DIA COMEMORATIVO DA CAATINGA
Para os bandeirantes paulistas sanguinários, como Domingos Jorge Velho, irmãos Fernando e Arthur Paes de Barros, Paschoal Moreira Cabral Leme, sertão era penetrar naquelas brenhas para se aventurar na guerra contra os índios, massacrá-los e escravizá-los, bem como descobrir ouro no continente. Para alguns escritores, como Guimarães Rosa, o sertão é diverso, imenso e está dentro de cada um. Graciliano Ramos descrevia em seus romances o árido seco, a penúria, o sofrimento e o social inexistente.
Fico mais com o escritor alagoano, de Palmeira dos Índios. Na minha concepção, o sertão é único, só existe um, aquele estorricado, rachado, pedregulhento, do mandacaru, do cacto, da catingueira, do xinque-xique, do juazeiro, da espinheira, do umbu, da lagartixa e do calango correndo nas folhas secas e nos lajedos. É a vegetação dos engaços e bagaços durante as estiagens. Em meu sertão, não existiu a corrida, nem a febre do ouro e do diamante.
Sertão para mim é essa caatinga cinzenta do sol escaldante fervente, do canto da cauã na beira da cacimba, do carcará e do gavião, da asa branca, da patativa, da rolinha, do pássaro preto e do sofrer. É a terra que se renova e brota rápido em cores diversas entre o verde quando batem forte os trovões nas chuvaradas do verão. É dos profetas da chuva. O restante é mata, pantanal, cerrado ou pampa.
O sertão é poesia da fome ou da abundância de gente simples e humilde labutando no agreste no plantio da abóbora, do feijão, do milho e do andu, com fé me esperança, para vencer as intempéries do tempo, e quase sempre não desiste. É aquele solo geológico descrito por Euclides da Cunha, não o de Jorge Amado do cacau ou do litoral. Sertão, infelizmente, rima com sequidão.
Para mim, sertão só existe um, dos guerreiros, dos penitentes Conselheiros, das rezadeiras, do canto da batida do feijão, das cantorias dos adjutórios, dos cangaceiros de Lampião e da Coluna Prestes torando espinhos para se livrar das volantes. É dos retirantes pau-de-arara se arrastando nas estradas poeirentas em direção ao sul paulista, fugindo dos horrores da seca. É o sertão de Patativa do Assaré, de Luiz Gonzaga, Zé Dantas e Humberto Teixeira.
Sertão é mistério e tem uma cultura específica do caboclo boiadeiro no aboio do vaqueiro, do repentista nato, do sotaque matuto catingueiro, do homem e da mulher cismados. É um chão único inconfundível dos hábitos e frutos diferentes da mata. É onde a terra começa a virar sal e deserto porque os governantes lá de cima só fizeram promessas de melhorias e convivência com a seca. É ainda onde corre o carro-pipa no cascalho, para matar a sede do sertanejo e dos bichos.
Sertão é cheiro de bode e cabra, do gadinho mirrado e do pôr-do-sol bem vermelho corado entre os galhos secos no horizonte infinito, É no sertão onde ainda vive o que restou do jumento, conhecido como jegue, símbolo do Nordeste semiárido, que está sendo dizimado nos currais das matanças para virar carne e pele para os chineses.
O meu sertão não é todo interior por aí. Ele tem um espírito único, um olhar melancólico cheio de histórias e lendas de heróis e carrascos coronéis. É sinônimo de caatinga. Não é Chapada Diamantina. Não tem capim exuberante. Tem ramagem rala e rara onde não frequenta a capivara. Foi lá onde nasci de parteira e respirei o primeiro ar diferente de outro lugar. Foi onde meus pais me criaram e me ensinaram a ganhar o mundo.
“GRAÇA” PARA BANDIDO VIROU DEFESA DE “LIBERDADE” NO BRASIL
Não tem muito o que comentar sobre o assunto da “graça” ou do indulto dado pelo capitão-presidente Bozó ao deputado bombado bandido Daniel Silveira, mas minha indignação como cidadão me obriga a fazer meu desabafo, o meu grito de revolta, sob pena de omissão, o pior pecado do ser humano.
Pelo andar da carruagem, estamos caminhando para um golpe militar porque, infelizmente, as forças armadas, que debocham das torturas cometidas durante a ditadura civil-militar, se renderam às benesses oferecidas pelo capitão, e abandonaram de vez seu papel na ordem constitucional brasileira. O poder e o luxo subornaram os quarteis dos viagras e das próteses, dos bacalhaus e dos files mignons. Que se dane a pátria e seu povo!
Como disse na abertura, não se tem muito o que falar porque tudo está claro nessa intentona antidemocrática, mas temos que reagir antes que nossos lares sejam invadidos pelos bárbaros que estão chegando de motociatas. O capitão fala de ato histórico de “liberdade” na data da invasão de Cabral e seus degredados em terras brasis, e os idiotas acreditam nesse sofismo.
“Liberdade” é atacar a democracia para implantar uma intervenção militar; ameaçar de morte ministros do Supremo Federal e fechar a instituição; acabar com o Congresso Nacional; e baixar o cacete em estádios de futebol? Onde está a “liberdade” do capitão quando tentou censurar a mídia e prender quem criticasse ou levantasse uma bandeira contra sua pessoa de presidente?
“Liberdade” é fazer desfile de tanques pela Praça dos Três Poderes, enquanto parlamentares rejeitavam proposta de retorno ao voto impresso? É exonerar comandantes alinhados com o comportamento exemplar esperado de um oficial? Tudo isso sinaliza a violência de um golpe. O conceito de liberdade dele é unilateral. Criticar e agredir os adversários pode, opor-se a ele, não.
O que nos deixa envergonhados é que milhões de imbecis fanáticos e cegos defendem essa esdruxula “liberdade” dele, e nem imaginam que se houver um golpe militar eles serão os primeiros a serem condenados, se lá na frente praticarem qualquer ato de oposição contra o próprio regime hoje proposto pelo capitão. A impressão que se tem é que o brasileiro é suicida, que não consegue aprender com os erros do passado recente.
A única explicação e razão disso tudo estar acontecendo tão depressa em nosso país está nos próprios políticos gafanhotos que sempre acharam que fazer uma nação de ignorantes, analfabetos e incultos era bom para eles se manterem no poder das mordomias e das ladroagens. Agora, os que hoje se opõem e começam a enxergar o abismo em que nos meteram, estão experimentando do próprio veneno por terem criado dragões e monstros.
A esquerda mambembe tupiniquim que fez pactos com o satanás e belzebu agora patina e está perdida nesse labirinto, e não vejo nenhum Teseu para exterminar o monstro. Os fantasmas, com a voz que ganharam do seu exterminador, saíram de suas tumbas dispostos a acabar de vez com a liberdade, o meio ambiente, a cultura, os povos indígenas e armar o povo para uma guerra.
O voto poderia ser uma saída, mas este também está contaminado, viciado e podre pelo sistema que lá atrás esses mesmos políticos instituíram. Quem com o ferro fere, com o ferro será ferido. Está mais que comprovado que as eleições, do jeito que foram estruturadas, não são instrumentos de mudanças, e não vão ser. No entanto, apelar para uma ditadura não é a salvação, nem a opção correta.
Acontece que é justamente isso que os seguidores malucos dos motoqueiros, dos milicianos, dos fanáticos da bíblia e vendilhões dos templos, dos inimigos da democracia, dos retrógrados terraplanistas, dos garimpeiros da Amazônia, dos defensores das armas, dos homofóbicos, dos racistas e dos misóginos estão querendo. Hoje já somos vistos lá foram como bárbaros.
O LIVRO É COMO A NASCENTE DE UM RIO QUE SE TRANSFORMA EM VIDA
DIA MUNDIAL DO LIVRO (23 DE ABRIL): UMA HOMENAGEM A TODOS ESCRITORES
Para dizer a verdade, meus primeiros contatos com a leitura foram através dos gibis, mais por influência dos coleguinhas de rua pelo encantamento nas histórias de faroeste dos personagens-heróis norte-americanos de Zorro, Buffalo Bill, Billy Kid, Django e tantos outros que até me faziam esquecer os deveres escolares.
Claro que naquela época não tinha consciência formada sobre a importância do livro na vida de uma pessoa. Era também uma forma de enganar o meu pai que me colocara para estudar em Piritiba. Como ele era analfabeto, mas queria que eu frequentasse a escola, achava que eu era um estudioso aplicado quando me via grudado com os gibis.
Essa é uma outra história, mas foi a partir dali que mais tarde, no Seminário de Amargosa, peguei o gosto pela leitura do livro, na minha concepção, uma nascente de olho d´água, que em sua corredeira se transforma em riacho da vida, para depois desaguar no mar como rio. A minha singular narrativa é uma maneira simples que tenho para homenagear o Dia Mundial do Livro neste 23 de abril.
Pegando o gancho do jornalista e escritor Laurentino Gomes sobre os vocábulos que sempre estão se evoluindo no tempo, diria que os livros são como rios caudalosos que correm para os oceanos da evolução humana. Não importa aqui se eles são impressos ou virtuais. O que interessa é que o livro é cultura e vida que alimenta a nossa alma e afasta os maus espíritos.
O contador de histórias, mesmo que ele não saiba ler, é também um livro porque ele utiliza da sua oralidade para manter a tradição e os costumes da sua ancestralidade. Nesta data, pelo menos temos alguma coisa com que nos alegrarmos nesse conturbado governo de negacionistas e terraplanistas, que censuram autores e até queimam exemplares, por considerar que não seguem suas linhas retrógradas, fanáticas e psicopatas de pensamento.
Por incrível que pareça, as vendas de livros nos últimos dois anos têm dado sinais de aumento nas livrarias, o que significa que as mentes estão se abrindo para os livros, inclusive das crianças e dos mais jovens. Se esse nível de demanda permanecer, dentro de mais alguns anos vamos ter uma nação mais culta e, consequentemente, mais conhecedora de seus deveres e direitos, bem como, defensora das liberdades. Resumindo: Mais esclarecida que a de hoje. É uma luz que surge no final do túnel.
Estava contando minha trajetória na leitura, mas tive que interromper para lembrar esta data tão especial em todo ser humano que se dedica à leitura. Bem, no Seminário fui influenciado pelos colegas e pelo bom conteúdo e qualidade do ensino da instituição que despertava em nós a necessidade de ler para aprender mais e mais. Apenas havia um detalhe, o de que existia uma “proibição” para os menores de idade ler determinados escritores, vistos pelos padres como de linguagem pornográfica. Nos diziam que eram inadequados para o tempo.
Isso fazia despertar a curiosidade e, entre amigos, liamos escondidos os livros “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego, “Iracema”, de José de Alencar e outros autores como Eça de Queiroz e até alguns de Machado de Assis e Graciliano Ramos. Comecei por eles e segui com outros internacionais não recomendados pela direção do Seminário.
Nessa época, ainda na década de 60, quando existia uma grande efervescência cultural, onde os escritores e autores eram discutidos em rodas de amigos e em mesa de bar (cada um tinha o seu favorito, como se fosse um time), conheci um colega que só andava com um livro debaixo do braço, e até nos arvorarmos em criticar por achar que aquilo já era exagero demais.
Hoje, com essa idade, posso dizer, sem sombra de dúvidas, que a leitura me deu régua e compasso. Abriu mais meus horizontes e me ensinou a empregar melhor as palavras no papel, na máquina datilográfica (maior parte quando estive na ativa jornalística) ou na tela desse computador. O pouco conhecimento que tenho, veio dos livros.
Não vou aqui citar, nesta data comemorativa ao livro, os grandes escritores da humanidade, dentre os quais centenas de brasileiros que são conhecidos até internacionalmente, embora nossa país ainda não tenha sido merecedor de um Prêmio Nobel de Literatura, como nossos vizinhos da Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Uruguai e México.
No entanto, temos grandes talentos, inclusive aqui em Vitória da Conquista e na região. Apenas confesso meu pesar e tristeza de que a arte de escrever não tem recebido o devido apoio, especialmente do poder público. Passou do tempo de pelo menos realizarmos uma feira literária em Conquista. Um bom gesto de abraçar o Dia Mundial do Livro.
Ao tempo em que nos felicitamos com a volta da leitura, também nos entristecemos ao testemunhar o maltratar da nossa língua mãe, a fina flor do Lácio, com o uso de códigos e grunhidos nas redes sociais, sem falar na substituição do português por termos estrangeirados ou inglesados nas portas das lojas, em placas, panfletos, cartazes, anúncios e até em matérias jornalísticas.
O VERDE E O CONCRETO
Em meio a esta selva de pedras e o concreto, ainda temos um pouco de verde para suavizar a vida. A correria é tão grande que quase ninguém para numa praça para admirar uma planta florida e relaxar seu espírito carregado de problemas do dia a dia, quer sejam financeiros, materiais ou da própria alma. Mesmo com a linda Praça Tancredo Neves, que serve de acolhimento para os passantes, inclusive para uma reflexão sobre donde viemos e para onde vamos, Vitória da Conquista ainda é carente de mais verde, principalmente em certos pontos do centro, como na Avenida Siqueira Campos, que poderia ser uma alameda de árvores de espécies da região. A Brumado, a Frei Benjamim e a própria Juracy Magalhães são outras avenidas desprovidas do verde. Não é somente fazer canteiros e ciclovias de concreto. A natureza tem que vir em primeiro lugar. Ao invés do eucalipto, bem que o bosque ao lado do Parque de Exposições poderia ser mais fresco, úmido e bonito se fosse preenchido com outras espécies do nosso sertão. O verde ameniza a dureza do concreto.
TREM DE BITOLA
Versos inéditos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Não seja trem de bitola,
“se oriente, meu rapaz”:
Seu time não é sua vida,
Curta a canção da viola,
Pra tudo tem uma saída,
Não seja trem de bitola.
Fazer o quê, seu moço?
Use sua pensante cabeça,
Pra não ficar ai nessa cola,
Cresça, faça e apareça,
Não seja trem de bitola.
Troque a conta pela filosofia,
Se livre dessa burocracia,
Que rima com tirania;
Seja vaqueiro na laçadeira;
Vá abrindo sua porteira;
Não fiquei aí com cara de estola,
Nem seja trem de bitola.
Entre a comida a la carte,
Prefiro mocotó e a buchada,
Assim vou tocando minha arte;
Sou cabra nordestino da enxada,
Longe dessa sociedade depravada,
Cheia de porcarias no buxo,
Que só pensa consumir o luxo,
Ser seguidor de pistola,
E andar como trem de bitola.
LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA QUE AINDA ACONTECEM NO PRESENTE
Existem fatos que marcam para sempre a infância de uma criança, e outros desaparecem da mente, coisas que os psicanalistas Freud e Lacan explicam a partir de estudos do subconsciente que guarda a sete chaves os medos e os fantasmas humanos.
Pois é, quando ainda criança, talvez uns quatro ou cinco anos, na cidade de Monte Alegre, hoje Mairí, no sertão da Bahia, nunca me esqueço de um missionário, se não me engano da ordem dos capuchinhos, por causa da cor marrom da batina, que vociferava palavras de “terror” contra os fiéis “pecadores”.
Do púlpito nas escadarias da igreja, em frente da praça, ele descrevia ou berrava, com todas as forças de seus pulmões, o fogo do inferno como se ele estivesse saído de lá naquele exato momento. O frade falava das caldeiras e tachos ferventes dos diabos que espetavam as almas pecadoras. Dava para se ouvir os gemidos e o ranger de dentes.
As cenas eram horríveis, ao ponto de terem me deixado traumatizado por muitos e muitos anos, tanto que ainda recordo delas até hoje. Mesmo com minha pobre inocência de menino, sentia um temor nos rostos dos meus pais e de toda aquela gente, num silêncio sepulcral que dava para escutar o voar de um mosquito.
Se não me engano, era festa da padroeira ou do padroeiro do município, e o pároco tinha o costume de convidar uns missionários bem brabos para os sermões das novenas noturnas. Sem dúvida, esse era de encomenda no quesito transcrição do inferno, que convertia qualquer pecador, por mais maligno que fosse.
Depois da pregação de horrores que fazia tremer as carnes, lembro que enormes filas se formaram dentro da Igreja para as confissões. Com aquele inferno pior do que o de Dante, quem se atreveria ficar em “pecado”? Todos ali deviam ter o mesmo pensamento: Vá que eu morra e vou parar no inferno. A salvação era confessar e não mais pecar, mas a carne é sempre fraca.
Não deveria estar escrevendo este texto tão macabro, mas é que 70 anos depois observo ainda hoje situações similares àqueles tempos. Não mais por parte da Igreja Católica, se bem que ainda acontece, mas de certos pastores evangélicos fanáticos e intolerantes que aterrorizam suas comunidades com as figuras de satanás, muitas vezes com objetivo para que todos contribuam com o dízimo.
Não existem mais aquelas missões de antigamente, mas as crenças de purgatório, céu e inferno, sim. Os mais radicais ainda acreditam que somente sua religião salva, e tenho testemunhos sobre isso. Outros saem por aí apedrejando terreiros de candomblé, dizendo que é coisa do diabo.
Até hoje ainda ocorrem as guerras e as matanças de cunho religioso, um sinal de que a humanidade pouco evoluiu e está longe de alcançar a civilização desejada. O mal e o bem estão sempre se cruzando, e cada um traz no seu íntimo o seu conceito de verdade absoluta, o que não é verdade.
OS GENERAIS DEBOCHAM ENQUANTO SE LAMENTA PELO LEITE DERRAMADO
Por que os generais debocham quando aparecem novas denúncias de torturas durante a ditadura civil-militar de 1964? A resposta é porque os torturadores não foram punidos quando terminou o regime e começou a redemocratização com os governos civis, como ocorreu na Argentina, no Chile e no Uruguai.
As feridas ficaram abertas com a anistia de 1979, e não adianta ficar aí agora lamentando pelo leite derramado, com falas de historiadores, das vítimas e especialistas no assunto. Além de debochar, com a maior cara de pau, eles estão agora no governo do capitão-presidente tentando desconstruir a história, até negando de que não houve ditadura no Brasil.
De certa forma, o vice-presidente, general Hamilton Mourão tem razão quando diz que, “apurar o quê? Os caras já morreram tudo, pô. Vai trazer os caras do túmulo (…) A mesma coisa que a gente voltar para a ditadura de Getúlio Vargas. São assuntos já escritos em livros, debatidos intensamente”.
O presidente do Superior Tribunal Militar (STM), Luis Carlos Gomes Matos “esnobou” os áudios da ditadura, dizendo que “não atrapalharam a páscoa de ninguém”. Enquanto isso, eles compram 35 mil comprimidos de viagra superfaturados e próteses penianas para o exército, além de bacalhaus e outros artigos de luxo num país de 50 milhões de subnutridos.
Pois é, recentemente, com 93 anos, se foi o general Newton Cruz, chefe da Agência Central do Serviço Nacional de Informações, entre 1977 e 1983. Em 2014, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou Cruz por participação no atentado a bomba no Riocentro, em 1981. Meses depois a Justiça Federal concedeu habeas corpus aos cinco militares e um delegado envolvidos.
No mesmo ano, o general foi apontado pela Comissão da Verdade, que ficou no papel, como um dos 377 militares que cometeram crimes durante a ditadura. Antes de morrer, em 1982, o jornalista Alexandre von Baumgarten deixou um dossiê no qual acusava integrantes do SNI de planejar sua morte, e apontava o general Cruz como autor da sentença. Todos foram absolvidos.
A ação no Riocentro foi planejada por seis acusados integrantes da linha dura do regime, para causar pânico em um show pelo Dia do Trabalho que reuniu cerca de 20 mil pessoas. Ocorreu que a trama deu errada, e uma bomba explodiu no colo do sargento Guilherme do Rosário, que morreu no local.
Muitos outros, como o general Newton Cruz e o maior torturador coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do Doi-Codi do II Exército entre 1970 a 1974 (um dos órgãos da repressão política), já se foram sem terem sofrido nenhuma punição. Com base no código da anistia, o próprio Supremo Tribunal Federal absolveu os torturadores.
Os governos ditos de esquerda do PT, nos períodos de Lula e Dilma, não chegaram a empreender qualquer esforço no sentido de punir os torturadores. Em algumas ações, como na Comissão da Verdade, eles foram rechaçados e até ameaçados com pronunciamentos duros. Todos se calaram, e alguns até disseram tratar da questão seria revanchismo e ameaça à democracia.
O Brasil foi covarde e o único país da América do Sul onde essas feridas da ditadura ficaram abertas. Boa parte dos documentos foram queimados e destruídos. Na época, de 1964 a 1990, cerca de 500 presos políticos foram mortos e desaparecidos. O maior massacre aconteceu na Guerrilha do Araguaia. Está aí a explicação mais plausível do deboche quando são revelados episódios de torturas durante o regime militar.




























