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SONHO DE PESADELO

Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Um dia eu sonhei,

Que era menino da roça,

A cantarolar com os pássaros,

Sofrer, Assanhaço e o Bem-te-Vi,

E um dia meu pai me deu uma coça,

Porque não rezei antes de dormir.

 

Ai sonhei que o menino sonhou,

Em fugir para a grande cidade,

Cedo com a sua mochila,

Atravessou aquele monte,

Com os passos de um gigante,

Pra ser um sujeito da civilidade,

E um dia ser um senhor doutor.

 

Ai meu sonho virou pesadelo,

Num labirinto sem novelo,

Minotauro matava Tseu,

Ninguém de mim se comoveu,

Virei freguês da conta do mês,

Escravo vendedor de um burguês.

 

No morro traficante da favela,

Fiz serviço até de sentinela,

Vi passarinho voar sem asa,

Bota e fuzil arrombar casa,

Fumaça tóxica girando no ar,

A dor da fome no asfalto,

E o sangue a riscar no assalto.

 

Ai sonhei outra vez,

Não mais era um pesadelo,

Sonhei até o fio do cabelo,

Que era um lavrador,

Tinha um sítio no Caldeirão,

Dois filhos e um grande amor,

Tomando cafés no bule,

Quente torrado do pilão,

Nas conversas entre compadres,

Noite a dentro até a madrugada,

Tinha meu cuscuz, feijão e salada,

De manhã os pés nos orvalhos,

Animais balançando chocalhos,

Sem aqueles prédios de grades,

 

Sonhei que era bem mais feliz,

Um homem mais educado,

Com a natura ao meu lado,

Amando e sendo bem amado,

Na vida que sempre quis,

Traçando meu próprio enredo,

Sem mais ter pesadelo,

Nem bala pelas esquinas do medo.

OS POBRES E A EXTORSÃO DOS PASTORES

Reza a Constituição Federal que é dada ao cidadão o direito de professar a sua fé através de uma religião da sua escolha, o que significa que existe a liberdade de criação de qualquer igreja em território brasileiro. No entanto, constitui crime o abuso dessa liberdade para praticar extorsões contra os pobres e pessoas vulneráveis que são facilmente vitimadas pela lavagem cerebral de pastores evangélicos inescrupulosos.

No Brasil de hoje temos várias pandemias de doenças, não apenas da Covid-19, da dengue, da gripe influenza e outras. Uma delas que está assolando nossa gente mais inculta e sem instrução, é o fanatismo religioso, mais parecido com o talibã do Afeganistão ou aquele islamismo radical que degola cabeças em nome de Deus.

Talvez aqui ainda seja pior, porque muitos pastores de determinadas igrejas se tornaram verdadeiros bandidos. Se houvesse justiça, eles estariam na cadeia. Em troca de um pedaço no reino do céu, o povo mais sofrido com as mazelas do nosso país está sendo iludido a deixar o pouco que tem na mão de um pregador de araque que só visa o dinheiro.

Mesmo com as tragédias e catástrofes, como as mais recentes na Bahia, a inflação que corrói a merreca de um salário mínimo ou o auxílio do Bolsa Família, o desemprego e a informalidade galopante, esses criminosos não dão trégua e estão sempre de plantão. Eles arrancam tudo do ingênuo fiel em nome da “fé religiosa”.

Contra esses pastores safados que têm bens móveis e imóveis, carros, mansões e comem do bom e do melhor, a justiça brasileira (Ministério Público, OAB, os tribunais e a própria polícia) nada faz para fechar essas igrejas e prender seus pastores que vivem da extorsão dos pobres. São os mercadores do templo e, se Cristo voltasse, chicoteava todos eles.

Além da exploração desenfreada, eles enganam com curas e milagres que não existem. Armam truques que levantam paralíticos de cadeiras de roda, cegos passam a enxergar, mudos a falar e surdos a ouvir. Eles tratam de pessoas com AIDS e do vírus da Covid com chás, grãos de feião ou ervas do mato. É um absurdo o que vem acontecendo há anos, e nada é feito para parar com esses vigaristas, falsários e estelionatários.

As pessoas que vêm do campo para as cidades e passam a morar nas periferias são alvos prediletos dessas igrejas que existem em qualquer praça ou esquina de rua. Os mais necessitados são atraídos com promessas de ajuda e melhoria de vida. Como não contam com assistência social do poder público, essa gente torna-se refém desses pastores que têm como maior “missão” o lucro. Ganham por comissão pelo que arrecadam desses pobres. Repassam a maior parte para seus chefes.

No Brasil essas igrejas fanáticas atuam livremente, mas em outros países, como no continente africano, estão sendo expulsas pelos governos. Como na época dos descobrimentos, o argumento desses chamados “missionários da fé” é sempre o de catequizar os chamados “pagãos” que não seguem sua religião. O papo é ainda salvar almas perdidas, mas praticam mesmo é a extorsão.

UM PAÍS DE “CIENTISTAS” COM BAFO DE CACHAÇA

O Brasil de hoje mais parece um país de botequim onde todos ali naquele ambiente de cachaça, ou cerveja mesmo, entende de tudo, e cada um dá o seu palpite, mesmo sem o devido conhecimento de causa. Cada um quer se aparecer mais que o outro e passa informações deformadas que ouviu de algum imbecil. Vale aquele ditado de quem ouviu o galo cantar, mas não sabe onde.

Por que você ler tanto nas redes sociais, principalmente agora nesses tempos pandêmicos, neófitos sem nenhum saber científico opinando o que é certo e errado, como se fosse um cientista? Na minha profissão, por exemplo, todo mundo entende de jornalismo, e não adianta tentar argumentar o contrário. Será mesmo mania de brasileiro achar que entende de tudo? É um país de “cientistas” com bafo de cachaça.

Por que milhares de pessoas não seguem o que diz a ciência, conduzida por cientistas que dedicam toda sua vida a estudar para oferecer soluções viáveis de curas de doenças graves, como essa maldita Covid-19 e suas variantes? As fake news aparecem como avalanches, ou como tsunamis devastadores.

Como um ignorante sem nada entender da área pode se colocar contra, por exemplo, à vacinação de crianças de cinco a onze anos? Para completar, ainda solta um monte de “cargas d´água”. O pior é que ainda tem gente que concorda! Outros falam de medicina, sem ao menos nada saber sobre a anatomia do seu próprio corpo!

Por onde tenho andado, muitas vezes ouço barbaridades, coisas sem nexo, sem nenhuma lógica e sem fundamento. Faço tudo para me controlar e sigo em frente porque em nada adianta contra- argumentar com um bruto que pode partir para a violência e até lhe matar.

O nosso país se tornou num grande botequim de bêbados, enquanto as doenças se espalham deixando um rastro de destruição de vítimas. Temos quase 620 mil mortos pela Covid, número que poderia ter sido bem menor, não fossem esses “cientistas de botequim”. Com um governo negacionista, só poderia dar nisso.

Agora, a vacinação das crianças está sendo obstruída e retardada pelo Ministério da Saúde, comandado por um médico que jogou seu diploma no lixo e por um capitão-presidente expulso do exército. Está vindo aí uma nova onda da ômicrom, misturada com a gripe da influenza, porque os infectologistas e epidemiologistas foram substituídos pelos “cientistas de botequins”.

Essa de qualquer brasileiro se meter a saber de tudo, não acontece somente na ciência. Temos uma massa ignara e inculta que se arvora entender de direito, de engenharia, arquitetura, de história e outras áreas do saber. Ele é até visto como um grande intelectual e culto.

Tem aquele bêbado nojento e petulante que dá uma de dono da verdade e assegura para o outro ao lado que aquilo que ele está falando é o certo. Ah de quem contrariá-lo! É uma briga na certa! Quando ele sai trocando as pernas, cambaleando, ainda tem gente que o elogia como o cara que tem muito conhecimento. Basta ter um palavreado bonito e arrotar um monte de besteiras! Afinal de contas, estamos num país de “cientistas” falantes, com bafo de cachaça!

TODOS QUEREM UM ANO MELHOR

Tenho lido nos jornais e ouvido nos meios eletrônicos ”receitas” de psicólogos, economistas, religiosos, consultores e até de escritores de livros de autoajuda de como ter um ano melhor do que o que passou. Na verdade, todos querem ter um ano melhor, mas não basta querer.

Não é o ano que muda a gente, mas, ao contrário, é a gente que muda o ano. A passagem festiva, comemorada há séculos, é só um calendário. Se refletirmos bem, ele nos torna mais velhos, e não adianta fazer metas e promessas, se não houver a mudança interior, a força de vontade.

Nesse Brasil atual, tão difícil de viver e de se conviver uns com os outros, da falta de respeito mútuo, tudo se torna mais complicado, principalmente depois de dois anos de pandemia e com outro surto batendo em nossa porta. Não entra aqui a questão de ser, ou não pessimista. Temos que encarar a realidade de que o esforço para as coisas melhorarem tem que ser maior.

Quando juntamos todos problemas que o país atravessa num só cesto (são muitos se formos citá-los), confesso que bate no peito aquela angústia, mas logo penso no espírito guerreiro de não cair na tentação do desistir enquanto existe vida. É mais uma prova que tenho que enfrentar, e só posso fazer isso seguindo em frente.

Portanto, não existem receitas, porque cada pessoa é um ser diferente, com suas questões existenciais e sentimentos próprios. Seu ano não pode ser bom, se você não aceitar o outro como ele é, se você não dedicar uma parte do seu tempo ao conhecimento e ao saber e se não for mais humildade e menos presunçoso, mesmo que ganhe na loteria.

Falei aqui que não existem receitas mágicas de como viver um bom ano, mas se continuar falando e escrevendo mais, vou cair nos mesmo erros de quem acha que tem o caminho para a felicidade. Como diz o poeta cancioneiro, se cair, levante outra vez na busca do seu ideal. Todos querem um ano melhor, mas nem todos chegam lá.

NOSSOS LIVROS COMEÇAM A FLORESCER NO JARDIM DAS MENTES BRASILEIRAS

Até que afinal de contas uma luz começa a surgir lá no fim do túnel da nossa cultura, um jardim tão pisoteado nos últimos anos. Essa esperança faz o sol nos tirar das trevas através do livro. Acabo de ler uma boa notícia do Painel do Varejo de Livros. Ele diz que entre os meses de janeiro a novembro deste ano, a venda de livros superou em 33% o ano de 2020, e em 31% o ano de 2019, antes da pandemia.

É uma boa nova cultural entre tantas macabras neste ano que se finda com a destruição do nosso patrimônio histórico, com a negação da nossa memória e o retrocesso em direção aos tempos da Idade Média. O aumento da leitura, não importa os estilos e gêneros, é um sinal do florescer das mentes, porque ela oferece mais visão ao indivíduo que passa a expressar melhor suas ideias.

Espero que neste 2022, a venda de livros nas livrarias que ainda restam (muitas foram fechadas) supere a do ano que se vai. Isso pode até dar um ânimo no mercado livreiro, mas o governo federal, um negacionista e retrógrado, já trama o pior contra a nossa combalida cultura, que é a intenção de elevar os impostos para os livros. Isso poderá tornar menos acessível às classes de menor poder aquisitivo.

Ler é florescer as mentes. Ler um livro é como plantar mais uma semente do conhecimento e do saber no quintal do nosso jardim. A maioria dos nossos grandes escritores sempre tiveram uma infância e uma juventude de leitura, principalmente nos tempos em que se tinha fome de cultura, e se devorava livros, e não redes sociais em celulares de ódios e intolerâncias, cheias de fake news.

Sobre a leitura, um alimento para a alma faminta, aqui listaria uma série de benefícios para o espírito que poderia até virar bordões chatos como de final de ano, mas o livro é um templo sagrado que o ser humano deve sempre frequentar, não importando sua religiosidade. É um rememorar o passado para o conhecer das nossas origens; entender melhor a realidade do presente; e abrir novos caminhos para um futuro melhor.

Se o brasileiro está lendo mais, isso logo vai refletir na sociedade, e vamos ter mais capacidade de agir e reagir contra as mentalidades atrasadas. Vamos ter gente falando melhor, e transformações sociais virão por aí. É um sinal de que estamos saindo dessa letargia, desse apagão mental e de que está despontando aí o senso crítico. Incentivar o hábito de ler é lutar por uma país melhor, como disse o escritor e poeta Leandro de Assis, autor do livro “O Poder Transformador da Leitura: Hábitos e Estratégias para Ler Mais”.

Como diz o escritor, precisamos de mais espaços para a leitura, como a criação de mais bibliotecas, estímulo às livrarias e projetos do poder público para lançar novos talentos da literatura. Em Vitória da Conquista, por exemplo, precisamos resgatar a nossa cultura em reverência aos grandes nomes que projetaram nossa cidade através das letras.

Umas das estratégias seria a criação de um Plano Cultural para Conquista através de uma Fundação, para dar normas às diretrizes políticas culturais. Nesse sentido, o novo Conselho Municipal de Cultura tem, neste ano de 2022, a obrigação de fazer decolar esse plano, deixando um legado para as novas gerações.

Acredito que um país culto é um país desenvolvido onde seus cidadãos passam a ser donos de si mesmos, elegendo políticos comprometidos com a educação e a cultura. Só assim poderemos extirpar de uma vez os preconceitos racistas, a homofobia, a xenofobia, a misoginia, e olhar os outros sem diferenças. A cultura exerce influência também no nível econômico e social das pessoas, reduzindo as desigualdades.

 

 

A SECA E A CHUVA

Fotos de Jeremias Macário

Há pouco tempo, a paisagem no sertão era assim, só sequidão e desolação. Desesperado, com tudo perdido, o sertanejo rogava pela chuva. Rezava para São José e São Pedro. Aí, vem chuva em demasia, e o sertão seco vira mar, como na profecia do Conselheiro. Não se sabe qual dos dois castiga mais. A diferença é que na estiagem prolongada, o sofrimento é mais lento do que nas enchentes que logo se vão. No entanto, ambos geram fome e tristeza diante das perdas físicas e humanas. São justamente as adversidades que fazem do sertanejo um forte, como dizia Euclides da Cunha em seu livro “Sertões”. Esses desastres climáticos, provenientes do aquecimento global, poderiam ser minimizados se houvesse prevenções antecipadas, porque a ciência já faz suas previsões. Em outros países que investem em tecnologia e pesquisa, esses efeitos causam menos danos às pessoas. A situação é bem mais controlada. Os governantes aqui só pensam no poder e se apropriar da coisa pública, como se fosse privada. Agora são as inundações que deixaram um rastro de terra arrasada. As plantações foram perdidas, como acontece no período da seca. É pau de todo lado!

LA VIE EST AUSSI

Poeminha do jornalista e escrito Jeremias Macário

La vie est aussi,

Comme toujours, c´est fini.

O venal é um avestruz avarento,

Como se não existisse finitude,

Quer mudar a direção do vento,

E imola os ideais da juventude.

 

La vie est aussi,

Comme toujours, c´est fini.

 

Tem o passageiro farsante peru,

Almofadinha na linha do metrô,

Que imagina ser do capital guru

E não passa do sistema um gigolô.

 

La vie est toujours aussi,

Feita de sonho e de amor,

Às vezes nascida da violência,

Nas favelas dos morros da milícia,

Ou no fuzil rasante da polícia,

Que rouba da criança a inocência,

Suga o seu sangue até o fim,

E vota no patrão, sim senhor.

 

La vie est toujours aussi,

Vinda do campo ou da cidade,

Com seu tempo limite de idade,

Uns sofrendo na danada seca,

Outros no torpeço da travessia,

A vida é assim na máquina moída,

Do império ao marechal Fonseca,

Nessa república nua sem saída.

 

CHUVAS, BUROCRACIA E FESTAS

Depois das chuvas e os estragos físicos e humanos, o sofrimento das vítimas tende a se agravar. É como uma grande ressaca depois de uma bebedeira. O socorro de alimentos, vestuário e objetos de uso pessoal feito através de doações serve de alívio nos primeiros dias, mas aí entra a burocracia que impede a recuperação de prejuízos e danos materiais para quem tinha pequenos negócios como meio de sobrevivência.

A mídia faz a cobertura jornalística dos fatos que acontecem no dia-a-dia, muitas vezes até com certa dose de sensacionalismo, mas esquece de pautar matérias para averiguar se as famílias foram mesmo atendidas como prometeram os governantes. Dentro de mais um mês, ninguém fala mais nisso e nem retorna aos mesmos lugares das catástrofes e das tragédias.

Infelizmente, essa prática é um dos maiores defeitos da nossa imprensa, inclusive a nível internacional. Em nosso Brasil, ainda com maior gravidade   por causa do fantasma da burocracia que deixa muita gente para trás quando tenta recorrer ao recurso do governo para erguer sua casa, seu comércio ou adquirir utensílios valiosos que foram destruídos.

Quando se vai bater à porta da verba anunciada, o processo é sempre emperrado nas exigências de papéis e provas de que a família perdeu seus pertences. Essa medida de liberação do FGTS para o trabalhador é sempre praxe nessas ocasiões, só que milhares não dispõem desse dinheiro porque são desempregados e informais.  Se for o caso de auxílio, tem que ter o Cadastro Único, e aí muita gente fica de fora do programa.

A Bahia, o estado mais afetado, como cerca de 100 mil desabrigados e quase 700 mil afetados pelos temporais, vai ficar com uma merreca dos 80 milhões de reais do governo federal destinados para o Nordeste. Essa conversa de que é só no início, não convence. Os prejuízos são incalculáveis, e o Governo do Estado não tem condições de arcar com tudo, como conserto das estradas.

Outro fato que a nossa mídia deixa de questionar são as festas de final de ano que muitos prefeitos vão realizar. Além de ser um tremendo desrespeito diante da situação calamitosa, tem o lado da contradição com a tão decantada solidariedade do povo brasileiro, que confunde doação de cestas básicas com sentimento humano.

A prefeitura de Salvador está anunciando shows pirotécnicos em 20 pontos da capital, sem contar os gastos com músicos e cantores. O município de Porto Seguro, no sul, região mais castigada pelas chuvas, vai realizar a maior queima de fogos de artifícios de todos os tempos. Vivemos no país das contradições e dos absurdos, principalmente na Bahia, cujo cenário atual é de terra arrasada pelas enchentes.

Todo esse dinheiro que está sendo investido nas festas de final de ano não poderia ser revertido para as milhares de famílias que hoje estão sem nada e vivendo em abrigos improvisados, expostos a todo tipo de doenças, inclusive da Covid-19 e da gripe influenza? Cadê o sentido de solidariedade? Tudo isso não passa de um grande paradoxo, pouco comentado pelos veículos de comunicação, porque eles também lucram com as festividades.

 

AS CHUVAS E O DESEQUILÍBRIO CLIMÁTICO

A Bahia e Minas Gerais sendo arrasados pelas chuvas e ele de férias em Santa Catarina se aglomerando com seus malucos seguidores e declarando que não vai vacinar sua filha de 11 anos. Mais parece coisa do anticristo na figura de um Herodes que mandou matar as crianças na Judéia. O pior é que ainda fala em pátria amada.

Sem mais comentários sobre essa personagem amaldiçoada num Brasil que sofre hoje todos os tipos de mazelas. Sobre as chuvas torrenciais em pleno mês de dezembro, prefiro classificá-las como desastre ecológico ou desequilíbrio climático de tanto o ser humano castigar e poluir o meio ambiente. Sobe o nível do mar e as catástrofes varrem a terra, impiedosamente.

O pior em tudo isso é que são sempre os pobres os mais atingidos pelas tragédias, como dessa natureza que leva tudo pela frente e deixa um rastro de destruição e mortes. Nesses casos, a mídia foca na força das águas e nos alagamentos que expulsam os moradores de suas casas, mas existe um conjunto de fatores lá atrás que, somados um ao outro, agravaram mais ainda a situação. As consequências só poderiam ser desastrosas.

O homem pratica o mal contra a natureza e esquece do que faz. Na hora de pagar a conta sempre lembra de pedir socorro a Deus, e ainda diz que tudo está sob o seu controle, como se fosse Ele o causador da desgraça. Quando o temporal passa e as águas baixam, foi Deus que assim quis. É a cultura do homem religioso que não se previne.

Primeiro polui o ar de gazes tóxicos; despeja todo tipo de lixo no planeta para satisfazer seu consumismo desvairado; desmata as margens dos rios; levanta habitações em locais inadequados; constrói barragens de barro e acha que nunca virá o castigo.

Os governantes do passado e do presente continuam cometendo os mesmos erros, e o quadro só tende a piorar, com custos cada vez mais altos porque não se fez o devido controle lá na frente. Nessas horas, uns aparecem para capitalizar mais votos e outros somem, mas sempre quem leva a bordoada é o povo pobre que perde tudo, até a vida, mesmo com as ajudas que logo são relegadas.

Estava demorando a imprensa fazer seu sensacionalismo barato através de um “herói” dos resgastes, como do idoso em Itabuna que, sozinho e teimoso, insistiu em ficar dentro de casa, mesmo com a água subindo. Visivelmente uma pessoa desorientada e sem parentes para lhe cuidar. Não vi a repórter entrevistando algum filho ou neto do senhor que foi socorrido por alguns moradores.

Há quase 30 anos, ainda na atividade jornalística, acompanhei volume de chuvas desse porte, em 1992, quando testemunhei, como repórter, cidades como Guanambi, Ibiassucê, Caculé, Caetité, Malhada e outras invadidas pelas águas, mas não no final de ano.

Lembro o quanto foi difícil fazer as coberturas enfrentando correntezas de rios em cima de tambores e passando de barco quase no nível das copas das árvores, com cobras caindo dos galhos.  Registrei, com o fotógrafo José Silva, pontes caiando e bairros dentro d´água onde o povo chorava com as perdas.

 

NÃO GOSTO DE FINAL DE ANO

A televisão anuncia a ceia de Natal com peru, chester, nozes, ameixas, castanhas, lentilhas para dar sorte, produtos importados e vinhos na farta mesa. Os preços subiram, mas isso não faz diferença para a elite. Do outro lado, o pobre deve imaginar que a sua “ceia” é feita de feijão com arroz quando ele é um dos felizardos das doações da cesta básica. O barraco, na maioria, fica lá na encosta da periferia ou no alto do morro, sem nenhum sistema de saneamento. As crianças correm de pés no chão em pleno esgoto a céu aberto.

Nas lojas e shoppings, os movimentos de compras de presentes superam todos os anos, evidenciando um consumismo exagerado. Milhões nem passam por lá porque são malvistos. Alguns meninos e meninas ganham uns brinquedos doados, e assim a cena se repte todos os anos. Alguém diz que a cesta significa também uma esperança, mas que esperança, se não lhe é oferecido a instrução e o emprego? Se não lhe é dado uma alternativa, uma saída?

Por isso que não gosto desse final de ano de Natal tão desigual, e da queima de fogos de artifícios que brilham nos céus, desse estampido dos champanhes, dos comes e bebes luxuosos e dos uísques festejantes. Lá fora, nas marquises e viadutos, os moradores de rua dormem ao relento, e o número deles só faz crescer.

Não gosto desse Natal, nem desse final de ano porque não aguento mais ouvir bordões de amor e paz, de Feliz Natal e Ano Novo, de que as coisas vão melhorar, como se ao amanhecer, em questões de horas, a vida tomasse outra forma. Nisso tudo, existe mais falsidade que sinceridade. Dizem por aí que nesse período a pessoa fica mais sensível, mas no amanhã se volta a ser uma multidão invisível.

O solstício de inverno do hemisfério Norte, quando o sol faz os dias mais longos, virou Natal dos anos 300 da era cristã imperial dos romanos, instituído por Julius I. Era uma antiga festa pagã dos celtas e dos druidas. Era também festa de Mitra, o deus persa da luz e do Hanukkah entre os judeus.

O cristianismo escolheu uma data mais próxima às crenças de todas religiões para atrair mais seguidores, mas queria que esse Natal fosse de todos os irmãos da fome. Assim nasceu o Natal, “natale domini”, e São Francisco criou o presépio de um Deus Menino de olhos azuis, numa manjedoura cercada de animais e dos reis magos.

O Papai Noel veio lá dos gelados países nórdicos com seu trenó que só passava na casa dos ricos, como até hoje. Os pobres miseráveis nem têm acesso a um shopping ou a uma loja de consumo. De um lado, as reuniões do clima onde os reis assinam papéis para reduzir o aquecimento global. Do outro, o incentivo consumista do capital guloso para crescer o tal do PIB (Produto Interno Bruto), cujo bolo nunca é dividido entre os mais pobres. Ainda continua sendo o Natal do esbanjamento para alguns, e frustração para muitos, mesmo com as campanhas de doações.

Esse Natal só me faz lembrar daquele menino retraído ao pé do fogão a lenha, ao lado da mãe cozinhando um feijão sem carne. O pai que vive de bicos foi à rua logo cedo para tentar ganhar uns trocados, para fazer umas comprinhas. Desiludido e sem nada, passou no boteco e encheu a cara de pinga. Chegou tarde à noite revoltado por sua condição social e quebrou tudo.

Na confusão, a polícia passou e levou aquele homem para a cadeia, e lá deram-lhe umas bordoadas. Sem dinheiro e sem emprego, a família foi despejada do casebre porque não pode pagar o aluguel e passou a engrossar a lista dos moradores de rua. O menino daquela triste noite nunca mais gostou desse Natal, nem eu.

Enquanto isso, os bilionários em foguetes potentes festejam passeio no espaço para, das alturas, ver uma parte do universo cheio de estrelas, e lá embaixo a terra azul a navegar com seus oito bilhões de habitantes, dos quais, quase um bilhão vivendo em extrema pobreza. Nela está o Brasil isolado viajando na contramão, detentor de títulos negativos na educação e um dos maiores índices de desigualdade humana e social.

 





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