O “VELHO CHICO” E O MEU SERTÃO
Mais uma vez peguei estrada para Senhor do Bonfim, Jacobina e Juazeiro, e aqui nessa terra de João Gilberto, pedi minha benção ao “Velho Chico”, como sempre faço, e fiz minha oração para que o homem se regenere e pare de tanto maltratá-lo. Agora ele está até robusto porque São Pedro mandou chuvas, mas basta uma estiagem para aparecer as pequenas ilhas rodeadas de areias. Suas margens se estendem até longe, e as embarcações têm dificuldades de navegar. Nada de revitalizá-lo, e os especialistas, pesquisadores e ambientalistas dão suas sentenças de que o “Velho Chico continua morrendo. Um dia, ele vai deixar de existir, e os ribeirinhos dele vão dar suas despedidas, com saudades das épocas de muitos alimentos.
Para mais distante, adentrei na paisagem do meu sertão das juremas, dos espinheiros, umburuçus, umbuzeiros, xique-xiques, dos cactos e mandacarus onde usei minhas lentes para extrair imagens da sua beleza, inclusive do pôr-do-sol diferente do que qualquer outro local. Aqui, tudo é diferenciado e só existe no Brasil da caatinga. As cabas vagueiam soltas entre a vegetação e, às vezes, o cabritinho se perde da mãe. Ele berra quando se sente só, mas a natureza é sábia para proporcionar o encontro com seus irmãos. O sol bate forte e os calangos cortam com destreza os espinhos.
Nos distritos de Maçaroca e Carnaíba, onde o trem cortava o sertão transportando passageiros e cargas, a velha linha férrea está abandonada há anos. Os vagões viraram sucatas que estão sendo roubadas para seus diversos usos e vendidas para receptadores. A linha com dormentes apodrecidos e as pequenas estações caindo aos pedaços (muitas deixaram de existir) me fazem lembrar dos tempos de menino quando saia de Piritiba para passear em Senhor do Bonfim. Bons tempos que já se foram dos telégrafos, dos movimentos dos passageiros com suas bugigangas e malas e dos cobradores de fardas alinhadas com seus quepes para furar os tiques das viagens. Das janelas ia apreciando a paisagem e o trem roncando nas curvas como cobra, apitando para avisar sua próxima chegada. Tudo era festa e algazarras!
O PEQUENO PRODUTOR RURAL SÓ LEVA “FERRO” NA MÃO DO ATRAVESSADOR
Em visita ao meu sertão de Juazeiro conheci uma roça de um pequeno produtor rural na labuta da terra para tirar o pão de cada dia e, mais uma vez, constatei nesse gigante do meu país que ele trabalha para sustentar o atravessador. O governo faz sua propaganda que ajuda a todos com água e outros meios para sua evolução, mas nem todos têm acesso por causa da burocracia.
Tive uma prosa em sua plantação de pimentão e criação de umas cabrinhas, e ele, o nosso Jorge Rodrigues Lima contou as suas dificuldades para manter a sua lavoura. No momento, ele e mais um ajudante estavam fazendo sua colheita e esperando o caminhão para pegar a produção.
Várias caixas (engradados) já estavam cheias e perguntei quanto custava cada embalagem daquela com mais de cem pimentões e, quando respondeu entre 10 a 12 reais, sinceramente não acreditei ao memorizar que no supermercado, na base do peso, quatro ou cinco unidades custam seis a sete reais.
E por quanto o atravessador vende no Ceasa? Em torno de 25 reais, meu senhor. O pimentão ou outros hortifrutigranjeiros rodam o Nordeste, e quando chegam ao consumidor, está na “hora da morte”. Este esquema de exploração persiste há anos e nunca se acaba porque é assim que funciona o sistema capitalista perverso.
Além do aumento absurdo dos combustíveis, essa rotação de mão em mão contribui também para alimentar a perversa inflação em nosso país. Tem o ditado de que o rio só corre para o mar. O grande produtor de alimentos em geral tem sua estrutura e é quem mais recebe subsídios do Tesouro Nacional, que é nosso.
São esses pequenos sofridos que mais alimentam o povo, e não esses empresários que mandam seus produtos para o exterior e comercializam em dólar. Esses nem estão aí para os milhões de brasileiros que passam fome. Com suas bancadas no Congresso Nacional, recebem polpudas verbas com baixas taxas de juros para quitar o débito em cinco ou mais anos.
O nosso simples pequeno produtor com quem conversei, fez seu poço artesiano por conta própria para irrigar sua terra, além de outros benefícios e compra de agrotóxicos para combater as pragas, sem nenhuma assistência.
Disse não ter procurado os órgãos do governo por causa da burocracia infernal, sem falar na demora para ser atendido. Sua produção mal dá para a sobrevivência da sua família, mas não cresce para ampliar sua roça.
Essa é a realidade de milhares, enquanto a propaganda bonita de muita água e fartura mostra programas que só atinge o médio e o grande que possuem outro poder para ser beneficiado. É a imagem da concentração de renda nas mãos de poucos em o aprofundamento das desigualdades sociais, também no campo agrícola.
AS GUARDAS MUNICIPAIS E AS “TRÊS TORRES”
Sempre me posicionei contra essa ideia das prefeituras criarem guardas municipais porque, na verdade, são extensões das polícias militares, embora argumentem que são grupamentos para defesa do patrimônio público. A filosofia de seleção e treinamento é a mesma da corporação militar (sempre é um coronel da reserva que está no comando).
Quando eles caem nas ruas têm o instinto psicológico de agirem como policiais, com métodos truculentos como já presenciamos em várias imagens nas ruas. Qualquer problema, partem logo para a pancadaria quando alguém comete algum desatino, muitas vezes gente com transtorno mental, andarilhos pedintes e até moradores de ruas.
Tenho comentado que a polícia militar, do jeito que está disseminando violência e mortes desnecessárias, não importa se bandidos ou não, precisa ser repensada e reformada, com novos conceitos de segurança ao cidadão que tem o direito de ser respeitado por ser o contribuinte que paga para ter proteção, e não ser desacatado e baleado.
Em Vitória da Conquista, por exemplo, agentes da guarda municipal têm cometido atos tão condenáveis quanto a polícia militar, e feito coisas que não competem a eles. Dias desses, um transeunte de Vitória do Espírito Santo estava agindo de forma estranha na porta de uma loja e deu um surto, talvez desorientado pela fome ou problemas mentais.
Como sempre acontece, o lojista acionou a guarda municipal que colocou o homem na viatura e o levou para a chamada “Três Torres”, na Serra do Periperi. Lá nessa localidade espancaram o rapaz com barras de ferro deixando seu corpo em estado lamentável. Por acaso, é essa a função de um guarda municipal?
Nessa “Três Torres”, no Bairro de Nossa Senhora Aparecida, transformaram a localidade em ponto de espancamento praticado por policiais. Não se sabe se é do conhecimento das autoridades porque essa atitude, seja de quem for, é abominável. Na teoria, a guarda é para estar a serviço da proteção patrimonial, mas nesse sistema é para servir os patrões comerciantes e empresários, e não propriamente do povo.
No lugar de se criar guardas municipais, vamos construir mais escolas e equipar os postos de saúde, duas áreas precárias. A educação, por exemplo, é a única via para se reduzir a violência, o desemprego a fome e a miséria. Nosso povo inculto fica empolgado quando um candidato a prefeito anuncia que em seu mandato vai criar uma guarda municipal.
Os políticos vereadores e a própria população cobram o cumprimento da promessa, como ocorreu aqui em Conquista com respeito ao prefeito Hérzem Gusmão quando assumiu o poder executivo e atrasou o projeto. Somos mesmo um povo facilmente iludido que entra nessa onda de que mais uma guarda vai proporcionar mais segurança para a cidade. Pura ilusão!
CONQUISTA, UM PARAÍSO?
A mídia tem o dever de informar, e é o seu papel criticar, mas sem distorcer os fatos. De cidade das flores, do frio, dos quebra-molas, Vitória da Conquista tem sido até chamada de “Suíça Baiana”, o que, de certa forma, não combina muito bem em se tratando de um pedaço do território brasileiro que sente os mesmos problemas de precariedade na saúde, na educação, na segurança e no âmbito social.
Quando atuava no jornal “A Tarde” fui vítima de notas de repúdio quando criticava certas mazelas, como irregularidades habitacionais, desigualdades sociais, violência, inclusive policial, caos no trânsito, buraqueiras nas ruas, iluminação precária, depredação da Serra do Periperi, monumentos e patrimônio arquitetônico em degradação, entre outros pontos que diziam ser negativos para a imagem da cidade. Não poderiam ser publicados porque eram considerados como ofensas, na visão dos “críticos”.
São estes, na maioria bairristas, que não enxergam a denúncia como instrumento de cobrar uma melhora. No entanto, tem uns veículos reféns do poder público que se sentem impedidos de falar a realidade, outros são do extremo, e ainda alguns que enfeitam o vocabulário no ar e nas imagens, que chegam a dizer que Conquista está fora do mapa da fome, o comércio aumenta suas vendas em 20, 30 e até 50% e tudo vai a mil maravilhas, na base do acho dos depoentes e otimistas de plantão.
Tem momentos que fico a imaginar que Conquista, com seus 350 mil habitantes, é um paraíso para esses últimos. A impressão que se tem é que aqui tudo é grande, como se fala da cidade de Itu, em São Paulo. Na verdade, a coisa não é assim. Tem um bom serviço de saneamento, mas ainda muita coisa a concluir, com inúmeros bairros e ruas no chão batido. Tem um povo um tanto egoísta que precisa pensar mais no coletivo.
Quero aqui dizer que conheço bem Conquista desde sua história e origens (a maioria desconhece), sua evolução econômica da pecuária, do comércio, da indústria, da política ao crescimento na educação de nível superior que foi um marco de desenvolvimento a partir do final dos anos 90 ao início dos anos 2000. Seus maiores problemas sempre foram a deficiência na infraestrutura (mobilidade urbana) e a escassez de água (racionamentos).
Quanto a fome, não tem muita coisa de diferente do resto do Brasil. Aqui, a desigualdade talvez seja mais acentuada. A riqueza é mais concentrada. Conquista tem um cinturão de pobreza que está situado na encosta da Serra do Periperi, que cresceu de uma forma desordenada a partir dos anos 60 com a vinda da BR-116 (Rio-Bahia). Aproveitaram essa construção para depredar a Serra do Periperi até meados dos anos 90 quando o local foi tombado no Governo de José Pedral.
Sobre essa questão da Serra, da qual sempre fui um crítico que desagradou muita gente, ao ponto de não olhar para minha cara, tenho um trabalho minucioso sobre sua história, plantas nativas, seu subsolo de água, visões de estrangeiros que aqui aportaram e, especialmente, a especulação gananciosa do setor imobiliário. A Serra tinha inúmeras nascentes que foram simplesmente aterradas e extintas pelas escavações na retirada de pedras e areias.
O poder público das administrações passadas foram os maiores culpados pela destruição do meio ambiente da Serra, que ainda não é bem cuidada como deveria ser. A Mata do Poço Escuro permanece sofrendo com a ação desordenada do homem que nela joga lixo e outros objetos que impactam o meio ambiente.
Visitar a Mata num final de semana é um perigo porque não tem nenhuma segurança. O rio Verruga foi aterrado, e onde está aberto, é um esgoto, uma fedentina que ninguém suporta. Mostrar esse lado é mais que um dever da mídia, embora muitos meios de comunicação preferem sobreviver na base do Ctrl “C” e do Ctrl “V,” do recortar e copiar, ou ficar passando matérias nacionais requentadas, sem o foco principal no regional. Seja rádio, televisão, jornal ou blog, queremos notícias locais da nossa terra.
Não é nenhum exagero dizer que Conquista tem um bom clima (ameno), um índice de crescimento da construção dos mais altos do Norte e Nordeste e boa qualidade de vida para se morar, mas longe de ser um paraíso por onde o mapa da fome passou por fora. Isso é um absurdo e ignorar as periferias dos bairros Pedrinhas, Panorama, Nossa Senhora Aparecida, Bruno Bacelar, Miro Cairo e tantos outros.
O número de pedintes nas ruas está aí que comprova a miséria, bem como as filas penosas nas portas dos bancos para receber o auxílio do governo federal, que não dá para quase nada. Conquista, como os mais de cinco mil municípios brasileiros, é carente na educação, na saúde e na cultura, sem falar na monstruosa informalidade do desemprego. Nem tanto chapa branca, nem tanto elogiosa que escolhe ficar nos achismos de empresários e entes do poder executivo e legislativo.
LEMBRANÇAS DOS BABAS!
Oh, que bons tempos de moleque quando não se tinha as preocupações da vida, e qualquer terra batida servia de várzea para “bater um baba” de futebol! Lembro dos tempos de menino na minha querida Piritiba, lá no Piemonte da Chapada Diamantina, quando a cidade ainda nascia para a vida como eu, e a Praça Getúlio Vargas, hoje o ponto do forró, balançada pelo meu amigo Wilson Aragão com suas cantorias, era só poeirão! Nas tardes, principalmente, a meninada aproveitava para bater aquele baba de “bola murcha”, mas dele saíram até craques, como acontece até hoje nas baixadas e planícies das zonas urbana e rural. O futebol é o maior esporte popular que não exige muita estrutura para praticar. Talvez por isso não esteja na lista de prioridades do poder público. As tais escolinhas são particulares, e existem poucos lugares estruturado para juntar a meninada para uma “pelada”, como ainda se diz no popular até hoje. Naqueles tempos, e ainda agora nas pobres periferias, pedaços de pano, couro velho, bexiga de boi e outros objetos serviam para se fazer uma bola. Quem tinha uma de verdade, era mais “rico” e tinha lugar garantido no time, mesmo que fosse um “perna de pau”. O mimado, quando começava a perder, botava a bola debaixo do braço e lá se ia com a nossa gostosa brincadeira. Havia brigas, xingamentos e palavrões, como até hoje, que as mulheres de família daquela época não podiam ouvir. Lá mesmo, na antiga Getúlio Vargas, de Piritiba, onde o dono de um bar em frente sempre ameaçava cortar a nossa “redonda” quando a mesma adentrava ao recinto, é testemunha das nossas molecadas inocentes e divertidas. Lembranças dos memoráveis babas!
MUSA PRIMEIRA
Imagine,
Fim do dia,
O que fizemos?
A noite chega matreira,
Dizem ser uma criança,
Ou às vezes traiçoeira,
Das andanças lembrança.
Toda vida,
Tem entrada e saideira,
Viagem do tempo,
Do abrir cancela e porteira,
Na pisada do sentimento,
Subo serra,
Desço ladeira,
Gira a terra,
Igualdade é uma mentira,
Rico fica com a paisagem,
Pobre com a tira,
Mas cada um já teve,
Sua musa primeira.
Musa primeira,
Fonte inspiradora,
Deusa do ar e do amor,
Da arte redentora,
Bálsamo da dor,
Musa primeira.
CASA DA CULTURA PROMOVEU NOITE DOS VIOLEIROS, VERSOS E CAUSOS
Foi muito bom participar da noite de violeiros, ou encontro, não importa, na Casa da Cultura, (Solar dos Fonsecas, Praça Sá Barreto), ontem (dia 15/06), com apresentações da sua presidente Poliana Policarpo e poeta e compositor Dorinho Chaves, diretor artístico.
Foi uma mistura gostosa de viola, violão, declamações de poemas e contação de causos, com gente que ainda acredita e está na trincheira da resistência em defesa da nossa cultura, apesar do governo lá de cima do Planalto tratá-la como inimiga.
Os trabalhos foram abertos por Poliana e Dorinho que animaram a festa, regada a bebida e comidas típicas do nosso São João. O professor Edgar Lary, secretário da Educação, que se fez presente, declamou três de seus poemas.
Mas, teve muito mais gente para abrilhantar o encontro fraternal onde só tinha gente que aprecia a cultura e lida com a arte, todos dispostos a contribuir com suas produções. Vitória da Conquista ainda é um celeiro de talentos que precisam ser estimulados.
O encontro contou com as participações de Belchior do Forró, Elder Oliveira, Consuelo Ferraz, Dorinho Chaves, Jânio Arapiranga, Jeremias Macário, Mano di Souza, Mariana Macedo, Papalo Monteiro, Vanberto Vieira, entre outros convidados.
Mais que o poder público, são essas entidades e abnegados que ainda permanecem fazendo e não deixando que ela morra, aliás, não irá perecer, porque a arte é como o ar que respiramos, embora muitos jovens estão ficando de fora e se sufocando com alienações, vindas da internet.
E SE FOSSE UM CIVIL?
Por esse e por outros inúmeros fatos degradantes de arrogância, truculência, prepotência e mortes desnecessárias, sem falar dos malfeitos na corrupção de muitos elementos que nem deveriam vestir a farda, é que sempre tenho defendido que a Polícia Militar seja totalmente reformada e repensada como corporação de segurança do cidadão para qual função foi constituída há mais de 200 anos.
Claro que estou me referindo ao absurdo que ocorreu no último final de semana num acidente de carro no Bairro Santa Cecília, em Vitória da Conquista, onde estiveram envolvidos um motorista de aplicativo e um policial que saiu com um facão fazendo arruaças. Além da sua prepotência (deve ter logo anunciado que era um policial), o cara ainda danificou o veículo do rapaz.
Mesmo com a presença dos colegas de fardamento em viaturas, ele continuou com a arma branca em punho, criando um clima de terror e violência. O policial não foi contido, nem chamado a fazer o teste de bafômetro, conforme deveria ser o procedimento padrão para qualquer ocorrência desse tipo.
Como nada disso aconteceu, o comando soltou uma nota tão ridícula que é subestimar demais a inteligência dos outros, ou achar que todo mundo é burro. Diz a notificação que o teste não foi feito porque o agressor não faz uso de álcool ou outra substância ilegal. Ainda mentiu que, quando os colegas chegaram, ele não mais estava com a arma, o que não foi verdade.
Agora, imagine senhores, se no lugar do soldado fosse um civil qualquer. Seria prontamente dominado com armas de fogo apontadas para ele; obrigado a usar o bafômetro; espancado e algemado. Pelo que acompanhamos de outros casos de brutalidades policiais, o moço poderia até ter sido morto, com alegações de que estaria embriagado e fora de controle.
Para não fazer o teste, por acaso a polícia iria considerar que o civil não era usuário de álcool? O uso de uma arma, mesmo branca, já seria motivo para agressões e entendimento que ele estava bêbado. O policiamento diria de imediato que o “meliante” estava embriagado, entre outras acusações que já nos acostumamos ouvir por aí.
O corporativismo é uma coisa muita feia, mas que se tornou normal e bonita na sociedade atual, e até mesmo nas instituições apodrecidas de hoje. Infelizmente, a polícia é também fruto delas. Para agravar mais ainda a situação, reza o sistema que a polícia investiga a polícia. Todos estão carecas de saber que esse esquema não resulta em nada, e quem denunciar, sofre ameaças de morte.
Mais uma vez está comprovado que nosso país tem duas faces, uma dos oprimidos e outra dos opressores. A polícia também não deixa de ser uma oprimida serviçal a mando das castas maiores que estão no topo da pirâmide. Ela apenas desconta toda raiva nos civis pobres e indefesos.
Não é somente por essa cena lamentável que reafirmou minha visão de que a polícia militar (nome que só existe no Brasil) deve ser extinta e, em seu lugar, ser constituída outra, com uma nova filosofia de comportamento, com seu papel de segurança e respeito ao cidadão. É como uma casa velha caindo aos pedaços. Será que o dono deve reformá-la, ou derrubar para fazer outra?
BRASIL DO CAOS ABSURDO DESUMANO
Para quem tem sentimentos e consciência política de espiritualizar os constrangimentos absurdos de um Brasil tão paradoxal e desumano, às vezes nosso ser fica despedaçado e aniquilado como uma barata de Kafka, nauseado existencialista como “Náuseas” de Jean Paul Sartre, melancólico e nulo como Dostoievski, deprimido e banzo como Schopenhauer e enigmático filosófico de Nietzsche, onde do caos pode nascer a luz.
Estamos vivendo nesse caos absurdo de mais de 30 milhões de pessoas passando fome num país grande exportador de grãos (um dos maiores), cujos produtores só estão de olho no dólar. É uma mentira de que esta nação alimenta um bilhão de humanos no planeta (grande parte serve de ração para os animais) e, se isso fosse verdade, nem deveria ser dito diante de tanta miséria em nossa casa.
Quando Nietzsche escreveu “Humano, Demasiado Humano”, no século XIX, não foi compreendido. Sobre o homem, disse ser o criador dos valores, mas esquece sua própria criação… Em nosso país, especificamente, esses valores foram totalmente banidos, invertidos e entraram em degradação. No sobe e desce dessa gangorra banal, batem a depressão e o pessimismo de Schopenhauer.
Em quem acreditar? Nos deuses ou nos demônios? No Cristo ou nos Anticristos? Eles se misturam e se disfarçam nessa multidão amorfa. Sabem que não existe a crítica para analisar os fatos. As propagandas, inclusive agora pré-eleitoreiras, são praticamente todas falsas, e nem a linguagem demagógica cheia de clichês dão ao trabalho de mudar, de dar uma nova roupagem. Para que, se a massa continua cada vez mais inculta e ignorante!
Não importa se a Amazônia pega fogo, se o clima está mais para tragédias, se a violência brutal não mais choca os indivíduos, se o racismo e a homofobia matam, se o satanás cria seu próprio conceito de liberdade, democracia, família e pátria. O que mais conta é não se preocupar com essas coisas. Cada um que se vire e quem fala é porque é uma ranzinza ultrapassado. A polícia age para torturar e matar. Mala de viatura se transformou em câmara de gás.
Aqueles com maior poder aquisitivo estão mais para idolatrar o deus do consumir, para preencher o vazio oco existencial da vida e dizer que é tudo felicidade. A grande mídia está aí para dar seu empurrão de deformar, bajular, induzir, estimular e fazer a lavagem cerebral do “compre logo seu presente”, senão será um pária da sociedade. Embaralha os papéis, em função do senhor supremo do capital. Ela também nos confunde e, muitas vezes, é uma cordeira na pele de loba.
Será que desse caos pode nascer a luz? Desses absurdos desumanos e paradoxais podem vir a lógica? É o que se espera. Ora, a gênese não brotou de um caos! Só que tudo que saiu de ruim da caixa de pandora continua a prosperar no mortal humano em detrimento do bem e do coletivo social.
A sociedade está inerte, paralisada e hipnotizada. Nada mais lhe move em direção da indignação. Todos se calam e cada um procura seguir seu rumo sem olhar para trás, com medo de virar estátua de sal. Para essa população entorpecida, tanto faz a democracia como a ditadura. É um debate inútil, coisa de um punhado de extremistas nazifascistas. O que interessa mesmo é manter seu emprego escravo.
Quem tem mais um pouco de grana, faz mesmo é questão de ser um otário consumidor que sai nos shoppings distribuindo cartões e pix. Essa categoria nem tem mais domínio de si. Não passam de teleguiados das propagandas e da mídia, porta-voz dos lojistas. Pensar e contestar são especialidades em extinção. Não existe mais tempo para isso. Aliás, é coisa de poeta desocupado.
Viver no caos social tornou-se prática normal. O certo mesmo é aprender a conviver com as injustiças; saber lidar com essa máquina infernal das leis da competição e onde clicar certo no passo a passo; destrinchar os nós da burocracia; e aprender a ser astuto e sagaz para passar a rasteira no outro. Você já ouviu esse papo de quem não estiver adaptado ao mercado vai ficar para trás e perecer? O saber e o conhecer humano são coisas superados.
OS PARDOS, OS CRIOULOS E OS MULATOS
A própria discriminação racial adotada pelos conquistadores (portugueses, ingleses, espanhóis e franceses, principalmente) serviu para introduzir rivalidades entre os próprios negros escravizados a partir das cores da pele entre “pardos”, “mulatos” e “crioulos”.
Essa situação constrangedora ficou bem explícita na trilogia “Escravidão”, escrita pelo jornalista Laurentino Gomes no capítulo que fala sobre “Áfricas Brasileiras”. Isso deu, inclusive, na criação das irmandades, todas com nomes de santos e Nossa Senhora (a Virgem Maria), bastante difundidas na Bahia, Pernambuco, Maranhão e Rio de Janeiro.
“No século XVIII, por exemplo, havia no Rio de Janeiro, o segmento dos “pardos”, pessoas afrodescendentes mais bem posicionados socialmente, organizados em confrarias religiosas de grande prestígio, que procuravam se distanciar dos negros, em especial os recém-chegados da África, e se aproximar dos brancos, dos libertos ou mesmo dos escravos “crioulos”, ou seja, nascidos no Brasil”.
Segundo Laurentino, a expressão “pardo” (classificação até hoje feita pelo IBGE), teve diferentes significados no Brasil colonial. No século XVII era usado em São Paulo para designar indígenas escravizados ilegalmente. Nas regiões produtoras de açúcar do Nordeste, era sinônimo de “mulato”, descendente de brancos e negros. Em Minas Gerais equivalia a escravo alforriado ou homem liberto nascido no Brasil.
“Os “pardos” não escravos no Rio de Janeiro eram também chamados de “mulatos de capote” e gozavam de importância social superior aos negros e cativos, entre outras razões por se vestirem como os europeus. Muitos deles eram ourives, profissão de grande valor na época da corrida do ouro no Brasil”.
Foram os ourives os organizadores da primeira irmandade de padres do Rio de Janeiro em meados do século XVII, sob a proteção de São Brás e os auspícios do Mosteiro Beneditino. Nas décadas seguintes criaram mais três irmandades, a de Nossa Senhora do Amparo, Nossa Senhora da Boa Morte e Nossa Senhora da Conceição.
O autor da trilogia destaca que todo escravo descendente de homem branco era chamado de “pardo”. Assim como todo negro nascido livre, fosse negro ou não. “Havia filhos de africanos negros que eram registrados como “pardos”.
“Portanto, chamar alguém de “pardo” era o registro de uma diferenciação na hierarquia da sociedade colonial, assim como “crioulo” designava escravos negros nascidos no Brasil, enquanto “preto” se referia aos africanos”.
De acordo com Laurentino, “nas irmandades religiosas do Rio de Janeiro, dava-se preferência ao uso do termo “pardo” em detrimento de “mulato”, qualificativo, conforme observam alguns historiadores, associado a atributos como preguiça, desonestidade, astúcia, arrogância e falta de credibilidade, em resumo, moralmente inferior”.
O escritor Laurentino cita o professor Luiz dos Santos Vilhena que afirmava que “quase todos os mulatos ricos querem ser fidalgos, muito fofos e soberbos, e pouco amigo dos brancos e dos negros, sendo diferentes as causas”. O jesuíta padre André João Antonil dizia que os mulatos são soberbos e viçosos…
Esses conceitos refletiam-se no universo da escravidão, e entre os próprios negros e mestiços, cativos ou libertos – um dos estigmas mais profundos e antigos da cultura portuguesa, o da “impureza” de sangue. As leis canônicas exigiam que candidatos a determinadas funções públicas, títulos ou cargos honoríficos, fossem submetidos a uma demorada e detalhada investigação para comprovar que tinham “sangue limpo”.



























