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QUANDO VAI SE ACABAR?

Há dois anos escrevi um texto poético perguntando a esse bicho de olhos rasgados e coroa de espinhos “Quem é Este Coronavid?, que se transformou num vídeo, e dele, muitos outros geraram um curta-metragem. inscrito e classificado entre os ganhadores num edital da Prefeitura de Vitória da Conquista através da Lei Aldir Blanc.

Esse vírus se transformou em muitas outras variantes do alfabeto grego, e hoje estamos convivendo com a terceira onda da ômicrom. Virou o planeta de cabeça para baixo e já ceifou a vida de mais de cinco milhões de habitantes, dos quais mais de 635 mil só no Brasil. Dele não podemos dimensionar a quantidade de lágrimas que já provocou em milhões que ficaram viúvas, viúvos e órfãos de pais e mães.

A ciência deu o nome de Covid-19, que não só matou e deixou sequelas com sua agressividade terrível, mas também criou um emaranhado de ideias, umas mais lúcidas e outras cheias de intrigas negacionistas, fake news, sofismos e até fez separar famílias e amigos quando se inventou vacinas para neutralizar o maldito. Tirou crianças e jovens das escolas, atrasando seus tempos de conhecimento e saber. Oh quanto estrago!

Varreu mentes e invadiu todos países da terra e, com sua impiedade cruel, eliminou mais pobres que ricos. Deixou um rastro de desigualdades sociais, com muita pobreza e miséria, principalmente nos países mais vulneráveis. Inoculou o estresse, o desespero, o fanatismo religioso e conflitos existenciais. As pessoas passaram a usar máscaras nas ruas, ônibus, trens e metrôs como se fossem robôs em filmes de ficção.

Há dois anos de terror, quando você foi chamado até de “gripezinha” por uma tal capitão-presidente, hoje pergunto quando tudo isso vai se acabar? Até quando vamos continuar nessa procissão de sofrimentos, lamentos, desagregação e confusão? Até quando vai nos jogar uns contra os outros? Será castigo contra nossos pecados por maltratar tanto o meio ambiente?

Por falar em natureza, sua voraz sede de morte, em forma de pandemia, produziu mais um agravante de lixo proveniente dos resíduos de objetos usados para combater seu avanço, como agulhas, seringas, caixas coletoras, aparelhos, plásticos, embalagens de medicamentos e outros itens. Qual destino de tudo isso?

A Organização Mundial da Saúde ressalta a ameaça ao meio ambiente, devido ao perigo da proximidade das pessoas aos depósitos de lixões. Calcula-se que já foram gerados mais de 2,6 milhões de toneladas de material plástico e 731 mil litros de compostos químicos nesses dois anos, com tendência de aumento.

De acordo com dados das Nações Unidas, já se foram 140 milhões de kits de testes de detecção, além de mais de oito bilhões de doses de vacinas. Lá se foram 1,5 milhão de equipamentos de proteção, usados pelos profissionais da saúde, algo superior a 87 mil toneladas. Tudo isso está sendo despejado nas periferias das cidades e proximidades de mananciais hídricos, podendo causar mais doenças.

Mais uma vez, dentro da minha mais profunda angústia, indago aos deuses quando tudo isso vai se acabar, se nem a ciência e os mais sábios especialistas infectologistas sabem responder? A literatura continua a narrar sua saga; tenta interpretar seu caminho e origens; sua evolução repentina; e os poetas cancioneiros a entoar na viola sobre seu enigmático poder de desafiar nossa vã filosofia.

Quando tudo isso vai se acabar? Até quando vai nos atacar e nos deixar enjoados, cabeça e intestino congestionados, cérebro confuso, indisposto, moleza no corpo dolorido, pulmões ofegantes, sem o ar que respiramos, sem paladar e olfato, sem falar na intubação de milhões até a morte? Ele nunca se vai totalmente porque sempre nos deixa sequela para ser tratada.

Quando tudo isso vai se acabar? A pergunta pode até ser título de uma canção de lamento em forma de blues, um rock, um galope em busca do final da jornada, um samba, um fulk de Boby Dylan, um rep, um sertanejo triste ou até mesmo um arrocha sofrência. Não importa o ritmo ou a melodia. O que mais importa é que ainda temos a arte que é vida e nos faz mais vivos, com mais força para vencer essa peste, não com a negação dela.

 

AINDA NOS CONSIDERAMOS CIVILIZADOS

Uma está sempre superando a outra, numa cadeia de banalização que nos deixa envergonhados de sermos brasileiros. Estou falando das barbaridades praticadas pelos seres humanos que se acham civilizados porque têm um celular na mão para manipular cegamente as mentiras nas redes sociais, de uma internet que tornou o planeta mais imbecil.

Não existem palavras mais duras e ásperas para descrever o quadro de uns brutamontes com um porrete na mão socando um congolês até à morte numa praia do Rio de Janeiro. As imagens correram mundo para nos cravar a pecha de selvagens que se acentuou nos últimos três anos com um capitão-presidente que destila ódio, xenofobia, homofobia, racismo e diz que quanto mais armas nas mãos, mais segurança.

Não tenho nenhuma vergonha de afirmar que, diante de tanta barbárie, tenho hoje vergonha de ser brasileiro. Esse, na verdade, não é o meu pais do homem cordial descrito pelo pensador Buarque de Holanda, em “Raízes”. Cordial vem do latim cord, coração, que está sujeito a emoções sentimentais boas e ruins, mas atingimos o ponto crítico da barbárie.

Essa barbárie brasileira não está somente no bastão daqueles indivíduos que despejaram toda sua raiva numa pessoa indefesa caída no chão. É como se eles estivessem descarregando todos problemas sociais e injustiças de um país num único ser que também é vítima dessas mazelas. Aquela cena macabra representa uma carga de rancor e frustração armazenados no íntimo de cada um.

Os algozes são também dignos de pena e vítimas de um sistema bruto que há séculos impera neste país. Não estou aqui fazendo o papel de advogado de defesa de uma barbaridade, mas apenas retratando a nossa realidade. A própria indiferença já é uma barbaridade.

A indiferença dessa sociedade selvagem que diz que “bandido bom é bandido morto”, que ignora a morte de Marielle Franco, do homem negro que foi alvejado pelo sargento por aparentar ser um bandido, de tantos travestis e homossexuais espancados e mortos, é também uma barbaridade.

A indiferença quanto as falas preconceituosas e genocidas negacionistas que negligenciam a pandemia da Covid e ainda atrasa o processo de vacinação, é também uma barbaridade e prova de que não somos nada civilizados.

São bárbaros os que acham que deixar de vacinar é um ato de liberdade individual, uma simples questão de opção. São bárbaros também aqueles que negam a ciência e disseminam fake news. A falta de indignação contra a barbárie é em si uma barbaridade. Estamos ainda muito longe de alcançarmos a tão propalada civilidade. Não é a tecnologia que nos dá isso.

A SAÚDE PÚBLICA EM CONQUISTA

Carlos González – jornalista

A celeridade que levou a prefeita Sheila Lemos a decretar ponto facultativo (artifício usado pelo gestor público para a palavra feriado) nos dias em que algumas cidades brasileiras promoveriam o Carnaval deste ano, deveria ser adotada na elucidação de problemas que necessitam da mais urgente intervenção da Prefeitura de Vitória da Conquista, como a saúde pública nesses tempos de pandemia.

O decreto que se estendeu ao comércio provocou imediato protesto da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), da qual a prefeita é membro, vai contribuir, sem dúvida, para a queda de faturamento do pequeno empresário, sendo que muitos deles já fecharam as suas portas.

O observador atento já deve ter percebido que a economia em Vitória da Conquista está estagnada, com exceção da construção civil, não por culpa exclusiva da Covid-19 e sua variante Ômicron. A feira agropecuária não se realiza há quatro anos, num terreno que tem as condições para receber os estandes de venda e de entretenimento.

Nossos vizinhos, com menos e recursos e mais disposição para o trabalho, estão ocupando o espaço deixado pelo empresariado conquistense. Cito apenas dois exemplos: a cafeicultura em Barra do Choça, cuja produção está sendo exportada para o exterior; a vinicultura em Mucugê, que acaba de anunciar a fabricação de vinhos com a mesma qualidade do Malbec, de Mendoza, na Argentina, abrindo também o caminho para o enoturismo na região.

Saúde é prioridade

O Ranking da Competitividade dos Municípios, uma ferramenta criada com a finalidade de analisar o desempenho da administração pública, ao mesmo tempo que presta orientação aos prefeitos, acaba de publicar sua segunda edição. Sua temática, com 13 pontos, foi desenvolvida por uma equipe de especialistas, em 411 municípios com mais de 80 mil habitantes, correspondente a 59,75% da população do país (126, 52 mi).

Vitória da Conquista ficou na posição número 219. Poderíamos comentar aqui diversos temas de relevância para o município e que devem merecer o devido cuidado de Sheila e sua numerosa equipe de assessores. Mas a prioridade sempre foi e continua sendo, hoje com mais relevância, a saúde pública, classificada no 339º lugar no Ranking.

A baixa aprovação comprova as imagens exibidas na semana passada por uma emissora de TV, comparáveis ao atendimento que era dado aos feridos nas frentes de batalha nas guerras da Idade Média. Atendidos por três enfermeiros, pacientes amontoados numa pequena sala do Hospital Geral aguardavam um leito de UTI.

Esse desapreço pela população pobre de Conquista ficou evidenciado na gestão passada,  quando a  ideologia se impõe ao atendimento à saúde. O então prefeito Herzem Gusmão, obstinado bolsonarista, travou uma guerra de palavras com o governador Rui Costa, posicionando-se, inclusive, contra a implantação de uma policlínica na cidade.

A vacinação (por justiça, aplausos para o time da prefeita) tem evitado um menor número de óbitos, principalmente entre os idosos. Por outro lado, o setor de marcação de testes está longe dos elogios.

Com os sintomas da Covid-19, meu colega Jeremias Macário relatou neste blog o sacrifício para marcar – os telefones indicados pela Secretaria de Saúde não atendem – o teste, e, posteriormente, para receber o resultado, entregue com a ordem: “Fique em casa”, com um detalhe: sem orientação médica. Nem levaram em consideração os mais de 15 anos que ele passou na chefia da Sucursal de “A Tarde”, promovendo o município e o Sudoeste baiano. Jeremias teve que apelar para a Assessoria de Comunicação da Prefeitura.

Com quase um mês pela frente e cinco dias de folga há tempo suficiente para promover uma excursão às praias ou organizar festinhas carnavalescas em recintos fechados, onde quem estiver com máscara é um “estranho no ninho”. Meus amigos, cuidem-se, porque já se projeta para março um aumento do número de contaminados.

 

 

 

 

 

 

 

“A CICATRIZ”

“O tema da escravidão é um tabu no continente africano porque é evidente que houve um conluio da elite africana com a europeia para que o processo durasse tanto tempo e alcançasse tanta gente – disse o arquiteto baiano Zulu Araújo, ex-presidente da Fundação Palmares.

Este depoimento está em “Escravidão” (primeiro volume), livro de Laurentino Gomes. O capítulo “A Cicatriz” é um dos mais impactantes onde escancara a escravidão africana antes e depois da chegada dos europeus ao continente. Na abertura, o autor levanta a questão da “dívida social” onde muitos argumentam que a “dívida” estaria anulada pelo fato dos africanos serem corresponsáveis pelo regime escravagista.

Laurentino destaca que os debates nesse sentido podem ser politicamente perigosos e precisam ser analisados à luz da história. “Havia, de fato, um grande mercado de escravos na África antes da chegada dos europeus nos séculos XV e XVI. Dele participaram reis, chefes e oligarquias locais poderosas, que continuaram a se beneficiar do tráfico de cativos para a América”.

Com os europeus, esse tráfico passou a ser mais intenso entre o final dos séculos XVII e início do XVIII quando a venda de escravos passou a ser a principal pauta de exportação em detrimento do comércio do ouro, do marfim, da pimenta, algodão e outros produtos. Em troca, os reinos e chefes recebia armas, munições para guerrear e bebidas alcoólicas.

COMPRA ENTRE FORNECEDORES

Com medo das doenças tropicas, raramente os europeus se adentravam pelo interior do continente. Preferiam comprar os cativos que eram oferecidos pelos fornecedores em fortificações, feitorias e entrepostos. Uma das exceções foi Angola, maior de todos os territórios escravagistas da África onde os portugueses procuraram controlar todos os pontos do comércio, da captura ao embarque nos navios.

“Seria, portanto, correto afirmar que africanos escravizaram os próprios africanos ou que negros escravizaram negros”? Laurentino diz que sim, como chineses escravizaram chineses e brancos escravizaram brancos na Europa e na Ásia. Segundo o autor, até o final do século XVII, a maioria dos cativos no mundo todo era branca.

“A África sempre foi um continente de grande diversidade e riqueza cultural, habitado por diferentes povos, etnias, nações, linguagens e reinos envolvidos em guerras e disputas territoriais. Como em qualquer outro lugar, na África “o escravo era sempre o outro, o diferente, o estrangeiro ou o alienígena”.

O pesquisador cita como exemplo que o habitante do Império Oió (Nigéria), escravizado pelos rivais do Reino do Daomé, era tão estrangeiro na África quanto o próprio escravo daometano seria ao chegar ao Brasil. “Embora a escravidão já existisse na África antes dos portugueses, foi a alta demanda dos europeus por mão de obra cativa que possibilitou ao negócio negreiro no Atlântico atingir proporções significativas” Os europeus estimularam a captura de escravos.

Os historiadores confirmam que os chefes africanos participaram ativamente do comércio, capturando cativos nas regiões. Há séculos, a escravidão era uma prática corrente nas sociedades africanas. Escravos podiam ser encontrados em todas as partes da África, desempenhando todos tipos de atividades.

Para sustentar essa tese, Laurentino cita o historiador John Thornton: “Quando os europeus chegaram à África e se ofereceram para comprá-los, a oferta era aceita. Os cativos não apenas eram numerosos como o mercado já estava muito bem organizado”.

Outro historiador Paul Lovejov, calculou que apenas 45% dos africanos escravizados foram vendidos ou embarcados para outras regiões fora do continente. A outra parte permaneceu como cativos na própria África. No total, seriam mais de 30 milhões de escravos, incluindo os que ficaram e os que partiram.

Alberto da Costa e Silva, estudioso no assunto, ressalta que o escravo continuava escravo, mesmo depois de morto. Os xerbros (Serra Leoa) enterrava o cativo com trapos para demonstrar que nada possuía. As mãos e os pés eram atados por uma corda, cuja ponta deveria sair da cova e amarrar-se a um mourão. Antes de sepultá-lo, o dono lhe dava uma chibatada, para deixar claro que continuava ser senhor do seu espírito, e que, no além, deveria ser escravo de seus antepassados.

De acordo com Laurentino, estima-se que, no século XVIII (auge do tráfico) houvesse tantos escravos na África quanto na América, entre 3 a 5 milhões em cada continente. No século XIX (redução do tráfico – movimentos abolicionistas), a escravidão na África aumentava, devido a maior oferta de cativos e queda nos preços.

Por volta de 1850 (Lei Eusébio de Queirós – fim do tráfico no Brasil) havia, na África, mais escravos do que em toda América. O fim do tráfico negreiro no Atlântico não significou o fim da escravidão africana, segundo historiadores. Ter muito escravos na África era a melhor forma de enriquecer e adquirir poder. Na Europa da nobreza, valia a propriedade do solo, o latifúndio. No Brasil, o escravo era uma máquina de trabalho para a economia.

OS SACRIFÍCIOS HUMANOS

Uma demonstração de poder na África estava nos sacrifícios humanos, como nos funerais dos reis, em ritos para aplacar a ira dos deuses, cerimônias para pedir chuvas e boas colheitas ou para levar mensagens aos antepassados. Em muitas regiões, escravos eram sacrificados e enterrados com o seu dono. Entre os iorubás (Nigéria) havia o hábito de sacrificar um escravo por ano como oferenda ao orixá Ogum.

“No século XVII, o holandês Pieter de Moraes escreveu que, “na ocasião da morte de um rei na Costa do Ouro (Gana), cada um dos nobres oferecia um escravo para acompanhá-lo ao seu túmulo”. Antes de descer com o soberano morto, essas pessoas eram decapitadas e tinham seus corpos salpicados de sangue. As cabeças ficavam expostas ao redor da cova.

Entre os meios de produção de escravos na África, destacavam a guerra, o sequestro ou a captura. Haviam ainda os processos judiciais, em que os condenados de roubo, adultério, prática de feitiçaria e outros delitos se tornavam cativos para o resto da vida – descreve Laurentino.

No caso de dificuldades financeiras, os chamados peões na África (tropas de infantaria na Europa, pedestres em Portugal e trabalhador temporário no Brasil) podiam se oferecer como escravos temporários em troca de ajuda e apoio material. Quando em extrema necessidade ou fome, as famílias vendiam seus filhos ou parentes como escravos.

Uma das alternativas era a venda como peões, e a liberdade só seria resgatada mais tarde em troca do pagamento das obrigações. Na impossibilidade de pagar a dívida, o peão poderia ser transformado em escravo para o resto da vida.

O historiador Alberto da Costa e Silva relata que, em algumas sociedades cada vez que findava um rei ou um chefe, abria-se a disputa pelo poder. Os candidatos vencidos e suas mães, mulheres, filhos e partidários costumavam ser mortos ou ter seus membros amputados e até os olhos vazados.

Todas essas formas de escravidão antes da chegada dos europeus aumentaram em paralelo à demanda por cativos na América. A Justiça preferia condenar o criminoso à escravidão porque rendia dinheiro, do que sentenciá-lo à morte.

Com a chegada dos portugueses, o comércio de escravos passou a superar as trocas regionais. Os europeus estimularam a captura e a venda de escravos para transformá-los em um negócio global, “numa escala até então nunca vista”, envolvendo a África, Europa, América e parte da Ásia.

“A partir de 1650, a venda de seres humanos se tornou a principal atividade econômica na costa da África. No final do século XVIII já respondia por 90% da pauta de exportações do continente, nos cálculos do historiador nigeriano Joseph Inikori.

A implosão, segundo Laurentino, dos antigos mercados regionais seguiu-se um ciclo interminável de conflitos, guerras endêmicas e desordens sociais, estimulados pela importação de armas de fogo, munições e bebidas alcoólicas. As armas alimentavam as guerras que, por sua vez, sustentavam a captura e a escravidão de milhões de pessoas vendidas para os navios negreiros.

No capítulo “A Cicatriz”, o autor fala dos reinos africanos rivais que eram os maiores fornecedores de escravos  na metade do século XVII, como os de Hueda e Aladá, situados na atual fronteira do Benin com a Nigéria. O reino do Daomé consolidou-se como principal na virada do mesmo século para o XVIII. Uma das consequências disso foi a redução populacional na África, compensada com a poligamia existente em algumas regiões, como Angola.

UMA ÁRDUA TAREFA!

Dois dias tentando agendar uma consulta ou exame de teste de Covid pelos telefones do call center da Secretaria de Saúde da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista e não deu em nada. Foi uma tarefa árdua, irritante e estressante!

Eu, minha esposa e até uma enfermeira do município entraram no circuito, mas ninguém atendeu. Apelamos para outra via e, através de um link, respondemos várias perguntas e, no final, nos deixaram um aviso de possível resposta.

Só no final da tarde de ontem consegui, finalmente, agendar um atendimento no gripário para hoje (dia 04/02), mas, dessa vez através do Posto de Saúde do bairro onde moro. Talvez esteja aí o segredo que faltava ser desvendado, tendo em vista que os telefones não passam de propaganda enganosa. Um preposto da própria prefeitura me confessou que não adianta ligar.

No Posto de Saúde do Bairro Jardim Guanabara, um atendente, ou coordenador da unidade, me recebeu muito bem e, com toda cordialidade, em pouco tempo agendou minha consulta para o final dessa tarde de sexta-feira. Essa pessoa se sensibilizou com minha situação, e não mediu esforços para me atender.

Ainda bem que ainda existe funcionário público com outra visão de responsabilidade, porque se fosse outro (a maioria é assim) simplesmente mandaria que continuasse ligando para o tal call center que não funciona. Essa pessoa foi muito prestativa, e agradeço a sua atenção, se bem que todos deveriam ser iguais a ele.

Outra coisa que descobri nessa jornada diária para marcar uma consulta médica no setor público é a pessoa necessitada ter alguém conhecido lá dentro para lhe dar o caminho certo para se livrar das pedras, quando não precisaria disso de forma alguma e, não é do meu feitio, ir por esse esquema.

Fica aqui o meu recado como cidadão comum, com direitos iguais a todos, para a Secretaria de Saúde, no sentido de que tome providências urgentes, para que os telefones instalados e publicamente divulgados, funcionem de verdade. Como está, o paciente fica todo tempo batendo cabeça e adoece ainda mais, enquanto tenta agendar uma consulta.

MAIS POBREZA NAS RUAS

A pandemia da Covid-19 nos últimos dois anos, a alta da inflação, a crise na economia, o desemprego alarmante e o desgoverno de um capitã-presidente destrambelhado colocaram mais pessoas na ruas com o aumento da pobreza e da miséria. Calcula-se que mais de 50% da população brasileira de mais de  200 milhões de pessoas estejam vivendo no nível de pobreza e de extrema pobreza por causa desses fatores.   Na verdade, estamos num país rico de pobres onde a cada dia mais gente vai morar nas ruas. É uma população invisível, sem cidadania, que a nossa sociedade, com seu egoísmo burguês elitista, construiu ao longo da nossa história. A concentração de renda cada vez mais acentuada fez do nosso Brasil ostentar o vergonhoso título de um dos piores índices de desigualdade social do planeta. Diante desse quadro macabro, não podemos dizer que temos uma real democracia.

OS TELEFONES NÃO ATENDEM

Quem depende do serviço público de saúde, o chamado SUS, ou Susto, neste país, está ferrado, e o destino de milhares é uma cova rasa para enterrar o Severino nordestino do poeta João Cabral de Mello Neto.  A Constituição Federal diz que saúde é um direito de todos os cidadãos, mas isso não passa de uma letra morta, conversa para boi dormir, que morre na teoria.

Caso específico é de Vitória da Conquista (acontece em todo Brasil) cujos telefones e o sistema “ZAP” não atendem quando a pessoa está necessitando. Estou tentando entrar em contato desde ontem para marcar uma consulta no gripário (Covid), através do call center, e nada. Tem gente felizarda que consegue e testemunha que foi bem atendida pelo centro. Que bom! Gostaria de saber onde está o segredo.

Comentei aqui várias vezes que a tecnologia virtual da internet em nosso país deixa muito a desejar em termos de solução do problema. Talvez esteja no nosso DNA do atraso cultural. Os aplicativos sempre param no meio do passo a passo, e o cidadão tem que começar tudo de novo. Outras vezes é o sistema que se evapora no ar.

Quanto a questão de saúde, a situação é ainda mais grave porque está se lidando com vidas. Quando a pessoa, depois de muita insistência, obtém uma resposta de agendamento, seu quadro já sofreu uma piora. Nesses tempos pandêmicos, poucos têm condições de procurar uma farmácia, um laboratório ou uma clínica particular para um teste ou um exame médico.

A consequência nessa falha no pronto atendimento todos sabem no que resulta. Nem precisa dizer que milhões falecem antes de chegar ao médico. Entendo que o agendamento tem o sentido de evitar aglomerações e reduzir a contaminação mais ainda pelo vírus, mas que funcione porque o doente não pode ficar três ou cinco dias na espera. Como a fome, o paciente tem pressa.

Como se não bastassem os negacionistas da ciência que abrem a boca para arrotar que não vacinar é uma opção sua, o sistema público de saúde é deficitário. Tem ainda os idiotas que escolhem qual imunizante tomar, sob o argumento de que é a mesma coisa de um cardápio de comida num restaurante.

Mas, voltando ao problema do não atendimento dos telefones instalados pela Prefeitura Municipal de Conquista, o poder executivo precisa tomar uma providência urgente para melhorar seu funcionamento. Não existe essa estatística, mas desejaria saber o número de atendidos e não atendidos, para ter um percentual exato entre essas duas figuras.

Na demora do atendimento, muitos partem para chás, dipironas, analgésicos e outros medicamentos que, geralmente, não resolvem, mas não têm outra saída. O ser humano, especialmente no Brasil, só reage quando o problema acontece com ele, ou com um parente da família.

Estou aqui criticando o sistema como um todo, o conjunto, que sempre foi bruto, sobretudo diante das profundas desigualdades sociais em que vivemos, de pobreza e miséria. Infelizmente temos um país rico de pobres por causa dessa política malvada, a qual deveria ser a solução.

O ASSÉDIO AO TURISTA EM SALVADOR

Essa questão absurda do assédio dos ambulantes em geral aos turistas na capital baiana não é de hoje. Tornou-se uma prática culturalmente enraizada. Bastou um visitante postar um vídeo nas redes sociais para o assunto viralizar porque todos são vítimas dessa falta de educação. Isso não tem nada em ser hospitaleiro, muito pelo contrário. Não se trata de cultura turística.

Comentei várias vezes sobre esse problema em meus artigos e matérias. Sou também testemunha e fui vítima em vários pontos, como no Pelourinho, Terreiro de Jesus, Praça da Sé, Mercado Modelo e Senhor do Bonfim, principalmente. As baianas e os baianos chegam a lhe atacar com as fitinhas, colocando em seu braço, mesmo diante de uma recusa.

Entram com o papo de que as fitinhas são grátis, mas depois metem outros objetos artesanais, como correntinhas e lhe obrigam a comprar. Conheço uma sobrinha que se queixou comigo de ter dado 60 reais numa peça dessa, uma verdadeira facada, sem misericórdia.

Certa vez, no Mercado Modelo, praticamente um deles me agrediu porque não atendi à sua insistência. Me identifiquei como baiano (morei em Salvador durante 23 anos) e disse que não estava ali como turista. Não satisfeito, falou que eu não era baiano porque não gostava das coisas da Bahia. O pior é que continuou me xingando.

Os órgãos ligados ao setor turístico e a entidade que dirige os ambulantes já deveriam, há muito tempo, terem tomado providências, mas fazem vistas grossas, como se esse tipo de abordagem malandra fosse normal. Esse negócio de que Salvador é uma cidade hospitaleira não passa de um mito. Peça uma informação a um soteropolitano e verá!

Outro problema sério é a exploração. Quando o ambulante percebe que a pessoa é de outro estado ou de outro país, ele mete a “faca”, sem dó e compaixão. Cobra o triplo num produto ou serviço. Isso acontece até nos bares, restaurantes e lojas de lembranças.

Como o inverno é fraco em termos de visitantes, no verão os vendedores e comerciantes cobram preços exorbitantes para compensar a “paradeira” nas outras estações do ano.  Estes e outros motivos têm refletido negativamente na queda de turistas na capital.

ATÉ A RAPADURA SUBIU DE PREÇO

Nem mais a feira livre é refúgio para os pobres de poder aquisitivo menor, visando fazer uma economia no orçamento familiar. Semana passada estive na “Feirinha” do Bairro Brasil e senti na pele a carestia. Moço, até a rapadura teve uma alta de 100% e em relação há dois meses. Um tijolo que custava R$5,00 agora está por R$10,0, e difícil de ser encontrado porque os barraqueiros se recusam a comprar o produto catingueiro.

Até há pouco tempo era vantagem fazer compras de frutas, verduras e folhas na feira porque os preços eram bem mais baixos do que nos supermercados. Atualmente, com a inflação em disparada, está praticamente tudo equiparado.  Um litro de andu que no final do ano era vendido por R$5,00 e R$6,00 o litro, agora está por R$10,00 e R$12,00. Virou grão de rico.

Não é somente o fator econômico de combustíveis e dólar mais alto que exercem influência na subida da inflação. Existe aquele fator psicológico invisível que conta. Quando vê tudo subindo, até o barraqueiro e o ambulante acrescentam mais uns reais, sem explicação plausível. É a onda dos preços altos. É como se fosse uma moda.

Na feira não tem aquela comodidade e conforto de uma loja ou supermercado, sem contar os gastos que são bem maiores com empregados, luz, água, impostos e outras obrigações. No entanto, a nossa feira de cada dia, mesmo nos redutos menores, está com os preços quase nivelados. Vamos começar a comer capim.

A situação está cada vez mais complicada, e nem a feira é mais saída para as hortaliças e frutas. Por falar em frutas, já percebeu que elas chegam ao consumidor bem mais ácidas, azedas e podres, cheias de pragas, principalmente o mamão, a manga, a melancia, a laranja, a tangerina, o abacaxi, o melão e até o nosso umbu sertanejo.

Para isso, imagino dois ou três motivos. Quando se trata de produto de exportação, os brasileiros ficam com o resto, o refugo. O melhor vai para o exterior. Outro problema é a modificação genética que introduziram nas lavouras, sem contar os agrotóxicos.

Depois que inventaram o umbu gigante, a fruta ficou mais azeda. Umbu doce é ainda o nativo da caatinga que, embora pequeno, é bem mais saboroso e nutritivo O grande só tem mais polpa, mas nem se compara com o nato do sertão que a gente vai lá e derruba no pé.

“MACUNAÍMA” DE MÁRIO DE ANDRADE

Quando se fala do livro “Macunaíma” lembra-se logo de Mário de Andrade, e o inverso dá no mesmo. Considerado o “Papa do Modernismo”, segundo o crítico literário José de Nicola (Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias), Mário Raul de Morais Andrade nasceu em São Paulo, em nove de outubro de 1893, e faleceu na mesma capital, em 25 de fevereiro de 1945, há 77 anos.

No ginasial, na Escola de Comércio Álvares Penteado, abandonou o curso após uma briga com seu professor de português. Em 1911 matricula-se no Conservatório Musical de São Paulo, formando-se em piano.

Em 1917, ano em que trava amizade com Oswald de Andrade, publica seu primeiro livro e “descobre” a artista plástica Anita Malfatti. Foi diretor do Departamento de Cultura de São Paulo. Lecionou história e filosofia da arte na Universidade do Distrito Federal (RJ). De volta a São Paulo, trabalhou no Serviço de Patrimônio Histórico.

No mundo literário, estreou com “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema”, no ano de 1917, onde retrata a Primeira Guerra Mundial, ainda sob influência parnasiana, mas encantado com as obras de Anita, segundo ele, revolucionárias. Sua poesia mostrou-se modernista a partir da publicação de “Paulicéia Desvairada”, rompendo com as estruturas do passado. A obra tem como objeto de contestação a São Paulo provinciana, misturada, miscigenada, burguesa, aristocrática e operária.

De acordo com Nicola, o escritor e poeta sempre lutou por uma língua brasileira que estivesse mais próxima do falar do povo. Seus livros revestem-se de nítida crítica social. Escreveu “Amar, Verbo Intransitivo”, um romance que penetra fundo na estrutura familiar da moral paulistana com seus preconceitos. Fala também dos sonhos e da adaptação dos imigrantes que agitaram a pauliceia com seus movimentos anarquistas.

“Macunaíma” (o anti-herói) foi sua obra prima onde o autor enfoca o choque do índio amazônico (que nasceu preto e virou branco) com a tradição e a cultura europeia na cidade de São Paulo. A obra contém figuras folclóricas por ele estudadas.

Com seu pensamento selvagem, o personagem Macunaíma faz as transformações que ele quer. A cidade de São Paulo vira um bicho preguiça; um inglês vira London Bank, colocando as estruturas de pernas para o ar. Macunaíma é o próprio “herói de nossa gente”, como afirma Mário de Andrade na primeira página do romance.

“No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapannhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma”.

“Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incentivavam a falar, exclamava: – Ai que preguiça”!





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