Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Um dia eu sonhei,

Que era menino da roça,

A cantarolar com os pássaros,

Sofrer, Assanhaço e o Bem-te-Vi,

E um dia meu pai me deu uma coça,

Porque não rezei antes de dormir.

 

Ai sonhei que o menino sonhou,

Em fugir para a grande cidade,

Cedo com a sua mochila,

Atravessou aquele monte,

Com os passos de um gigante,

Pra ser um sujeito da civilidade,

E um dia ser um senhor doutor.

 

Ai meu sonho virou pesadelo,

Num labirinto sem novelo,

Minotauro matava Tseu,

Ninguém de mim se comoveu,

Virei freguês da conta do mês,

Escravo vendedor de um burguês.

 

No morro traficante da favela,

Fiz serviço até de sentinela,

Vi passarinho voar sem asa,

Bota e fuzil arrombar casa,

Fumaça tóxica girando no ar,

A dor da fome no asfalto,

E o sangue a riscar no assalto.

 

Ai sonhei outra vez,

Não mais era um pesadelo,

Sonhei até o fio do cabelo,

Que era um lavrador,

Tinha um sítio no Caldeirão,

Dois filhos e um grande amor,

Tomando cafés no bule,

Quente torrado do pilão,

Nas conversas entre compadres,

Noite a dentro até a madrugada,

Tinha meu cuscuz, feijão e salada,

De manhã os pés nos orvalhos,

Animais balançando chocalhos,

Sem aqueles prédios de grades,

 

Sonhei que era bem mais feliz,

Um homem mais educado,

Com a natura ao meu lado,

Amando e sendo bem amado,

Na vida que sempre quis,

Traçando meu próprio enredo,

Sem mais ter pesadelo,

Nem bala pelas esquinas do medo.