A FOME E OS OSSOS
Retratos dantescos de pessoas no Rio de Janeiro disputando os melhores ossos, cartilagens e pelancas de bovinos num depósito insalubre e num caminhão estacionado correram o mundo. Esse é o nosso país do slogan de Pátria Amada, ou Pátria Esfomeada?
O bispo do santuário de Nossa Senhora Aparecida a chamou de Pátria Armada. Ele me fez lembrar as falas de D. Helder Câmara quando sempre clamou por justiça social, dizendo que isso não é comunismo. Como sentir orgulho de ser brasileiro quando milhões passam fome e catam restos de comida no lixo? Tudo nos faz voltar aos tempos do romance “Os Miseráveis”, de Victor Hugo.
Não se trata de ser de esquerda ou de direita. No século XVI a falta de trabalho penalizou toda Europa Ocidental. Houve uma invasão dos indigentes, e os reis decretavam leis proibindo a mendicância e a vagabundagem. Os mendigos eram marcados com ferro em brasa. Qual dos dois era o pior? A fome roendo no estômago, ou o ferro? Nem precisa responder.
Em nosso Brasil de hoje, conforme pesquisas do IBGE, mais de 20 milhões de brasileiros passam 24 horas sem ter o que comer por alguns dias. Dependem de uma cesta básica das campanhas de doações. Nem todos conseguem mais ajudar porque as famílias estão endividas com a alta da inflação.
Ainda de acordo com as pesquisas, 24 milhões de pessoas não têm certeza de como vão se alimentar no dia a dia, e já reduziram a quantidade de alimentos ingeridos. Nesse cenário macabro, não se dá mais para se falar em qualidade por causa da substituição de um produto por outro mais barato.
Pelas contas do IBGE, 74 milhões também estão mergulhados na incerteza se vão ingressar na penúria. Ronda aquele clima de ansiedade e até depressão quando se houve os noticiários na mídia quanto a escalda nos preços dos alimentos, e a possibilidade de amanhã fazer parte do contingente dos mais de 14 milhões de desempregados.
Com a vacinação acelerando e o número de mortes e casos reduzindo, talvez agora o maior medo seja a fome, principalmente dos milhões que recebem um ou dois salários mínimos e têm família para sustentar. Estamos no país do medo, vivendo num presente de pobreza sem futuro.
Pode até ser desanimador e exagero demasiado, mas quem hoje ainda come um pedaço de carne misturada com feijão e arroz pode amanhã estar catando osso e pelancas num carro fedorento, ou num túnel de lixo, servindo de imagem para registrar a degradação humana.
O desespero pode levar o povo faminto a invasões em estabelecimentos, a chamada convulsão social, se bem que o brasileiro não chega a se rebelar a esse ponto. As leis dos reis vão proibir a mendicância e ferrar com brasa os mendigos?
MARIA BETÂNIA É A NOVA IMORTAL DA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA!
É uma exclamação, mas poderia também ser uma interrogação no título, pois gostaria que alguém me explicasse melhor com argumentos sólidos e consistentes do porquê ela ter sido eleita para a Academia de Letras da Bahia. Maria Betânia é escritora, ensaísta, poeta, letrista ou coisa assim? Pelo que sei ela é uma grande interprete de autores e compositores da música popular brasileira.
O seu talento na área lhe abre as portas para uma academia de letras? Sendo assim, Ivete Sangalo, Bel Marques, Lu Lelis, Margarette Menezes, Cláudia Leite e tantos também pode ser indicados. Com esse time vamos formar a academia de letra axé music. Cada um tem o seu devido valor, mas dentro da sua área, no seu terreiro.
Não quero aqui ser espírito de porco ou simplesmente do contrário, mas acho que é um desprestigio com escritores e pesquisadores que passam a vida queimando os neurônios para lançar suas obras. Não estão dizendo que ela também não queima neurônios para apresentar sua arte. No momento, não existe nenhum escritor baiano merecedor de uma cadeira na academia?
Li alguns comentários nos jornais e na mídia sobre a nova imortal, se não me engano cadeira de número 18. Uns a favor e outros contra. Não por inveja, despeito ou coisa assim, confesso que os a favor não me convenceram com a tal cultura da oralidade e porque ela interpreta grandes nomes da literatura, como Fernando Pessoa e Clarice Lespector.
Talvez seja meio burro, de Q.I. muito baixo, para entender a dimensão do fato da baiana santamarense dos Velosos ter sido escolhida para a Academia de Letras da Bahia. Seus dotes de cantora e de intérprete, que são praticamente unanimidade entre os apreciadores de uma boa música, são suficientes para lhe colocar nesse olimpo das letras?
Na minha modesta opinião, entendo ser um desrespeito para com o escritor, poeta ou acadêmico das letras, já tão esquecido devido ao baixo nível de conhecimento e leitura em nossa cultura nos tempos de hoje, principalmente nesse governo federal que elegeu a cultura como seu maior inimigo.
Assim sendo, as academias de letras devem sim prestigiar a classe e não banalizar. Tem um ditado que diz que cada macaco em seu galho, como já cantava o velho e saudoso Riachão. Betânia tem sua importância no cenário da música brasileira, com os versos de autores que saem dentro de sua alma. Reconheço seu grau de inteligência e talento e não tenho nada contra sua pessoa, mesmo porque nem a conheço pessoalmente.
Em 2017 o norte-americano Bob Dylan ganhou o Prêmio Nobel de Literatura e foi uma gritaria. Ele zombou do título e nem foi lá nas homenagens. Bob ainda se justificava por seus poemas e fortes letras de protesto. É um grande compositor reconhecido internacionalmente. Vamos devagar que o andor é de barro!
Um escritor ou músico pode também ser eleito para a Academia de ciências? Li um comentário no jornal baiano onde a pessoa indagava se ele poderia receber o Prêmio Gremmy sem conhecer uma nota musical? Existem na Bahia bons escritores, inclusive no interior, que lutam desbravadamente para lançar um livro, sem apoio nenhum de uma editora porque a empresa nem se presta a ler o trabalho de um desconhecido.
As editoras só atendem aos apadrinhados e só veem o lado comercial. Infelizmente, nesse capitalismo selvagem que só enxerga o lucro, as coisas funcionam assim. Essas indicações, ao invés de estimular aqueles que se dedicam à arte da palavra, como o bom artista pinta um quadro, só desestimulam. Dizia Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra.
AS DIVINDADES E OS ORIXÁS DE SOYINKA NO PASSADO E PRESENTE AFRICANO
Wole Soyinka é um poeta e escritor nigeriano que pautou sua produção literária no passado e presente (o colonial e o pós-colonial) do seu povo africano, fazendo alusões às divindades e aos deuses orixás no universo ioruba.
Quem interpreta o acadêmico no livro “Intelectuais das Áfricas” é a professora de Letras, Divanize Carbonieri. Soyinka nasceu em Abeokuta, na Nigéria, em 1934. Seus pais eram anglicanos que viviam num enclave de cultura europeia e religião cristã.
No entanto, havia uma certa mistura entre as línguas, costumes e crenças, como assinala Divanize. Era um mundo cristão que não abandonou as matrizes nativas. Na Universidade de Leeds, na Inglaterra, concluiu seus estudos em literatura inglesa. Ele se esforçou para adquirir conhecimento acadêmico a partir da cosmologia e mitologia iorubas.
Eliana Lima Reis que estudou sua infância, diz que o discurso de Soyinka parte de uma perspectiva dupla quando fala de dentro da sua cultura. mas também de fora.
O professor Aníbal Quijano, que descreve sobre colonialidade do poder, afirma que a colonização das Américas e de outras partes do mundo pelos europeus, instituiu a divisão da população em raças que foram hierarquizadas numa estrutura de poder que ainda permanece.
“As raças consideradas inferiores são atribuídas as formas de trabalho pior remuneradas”… Para Divanize, o escritor Soyinka pode ser classificado como um autor pós-colonial. Ele sofreu percalços na Nigéria. Foi preso em 1967 por dois anos porque, na Guerra de Biafra, tentou negociar um acordo de paz. Mesmo depois de solto, manteve seu pensamento crítico contra os governos de regimes ditatoriais.
Em 1986 foi o primeiro africano a receber o Prêmio de Literatura. Continuou sendo perseguido e deixou o país nos anos 90, no governo de Sani Abacha. Divanize faz uma alusão da poética de Soyinka com o fenômeno Abiku (criança-espírito) na cultura ioruba.
Abiku é um espírito que não quer permanecer na terra. Ele vai e volta do outro mundo, em busca do espírito das crianças. As mães que sofrem abortos constantes e vê seus filhos morrerem (natimortos) ou na infância sofrem com a ação de Abiku. Para detê-lo, as pessoas fazem rituais no sentido de que Abiku permaneça na casa e nela se ambiente, não levando mais criança consigo para outra vida.
As casas são choupanas miseráveis cheias de buracos onde entram morcegos e corujas. A intenção é que ele não leva mais ninguém do mundo dos vivos. As casas têm condições de pobreza extrema, de existência com paredes de bambu que não suportam o harmattan (vento do deserto do Saara), tanto que só servem para alimentar o fogo.
O eu-lírico suplica a Abiku que fique, que outra vez não parta procurando buscar nele o afeto pela mãe e que escolha a esfera dos humanos. Porém, Soyinka, com sua poética, apresenta uma visão diferente. Ele trata o Abiku com zombaria e escárnio. Diz que nada pode aprisioná-lo na terra, numa referência à morte.
Soyinka expressa em sua obra que tudo o que as pessoas fizerem para mantê-lo vivo, na verdade, só servirá para assegurar-lhe ainda mais a morte. Ele anseia verdadeiramente pelo mundo que deixou para trás ao nascer. Em sua poética, destaca que, nem mesmo a dor da mãe é capaz de demovê-lo; ele será para ela como uma cobra sorrateira que dá o bote e morde quando menos se espera, injetando na vítima um veneno letal. Se a mãe esperava obter alegria com seu nascimento, isso é um aviso de que ele só trará tristeza.
Nos versos de Soyinka, existe a noção de que o ser humano está diante de algo que não pode controlar racionalmente. O que prevalece, na ótica de Soyinka, é o ponto de vista do mundo dos espíritos, de onde provém Abiku, e os rituais realizados pelos humanos são inúteis.
Na cosmologia ioruba, a realidade está dividida em três esferas: o mundo dos não-nascidos, o mundo dos mortos ou ancestrais e o mundo dos vivos. Em seu romance The Interpreters (1965), a trama se desenvolve em torno de um grupo de intelectuais nigerianos que retornam de viagens de estudos da Europa ou nos Estados Unidos, e que agora se desdobram em cidades nigerianas.
Eles desempenham a função de interpretes entre a cultura ocidental e a cultura nativa africana. É uma tradução marcada por niilismo e decepção. A desilusão se dá, principalmente, em relação à elite que chegou ao poder após a descolonização do país que se revelou tão ou mais nefasta do que os antigos colonizadores.
Os deuses orixás iorubas sempre estão presentes em suas obras, retratando Oxalá, Ogum, Xangó e outros. Nesse mundo, Soyinka opta pela personalidade de Ogum que, mesmo errando, se arisca para alcançar a autorrealização. Vamos abordar essa questão no nosso próximo comentário.
INSTITUTO DOS CIGANOS PEDE CPI NA ASSEMBLEIA PARA APURAR CHACINA
O Instituto de Cultura, Desenvolvimento Social e Territorial do Povo Cigano do Brasil encaminhou ofício de número 0105ª para os presidentes da Assembleia Legislativa da Bahia, Adolfo Emanuel Monteiro de Menezes, e da Comissão de Direitos Humanos e Segurança Pública, deputado Jacó, solicitando abertura de uma CPI ampla (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar as mortes dos ciganos em Vitória da Conquista por policiais militares há três meses, bem como os recentes sequestros e extorsões contra esse povo em Camaçari e região.
No documento, o Instituto, por meio do seu presidente Rogério Ribeiro e do vice, José Paulo, declara que os ciganos foram vítimas de sequestros e extorsões em Camaçari e região. “Precisamos de um auxílio rápido e uma resposta urgente referente a esses casos, pois os ciganos estão muito assustados com o aumento da criminalidade. Vale ressaltar que as vítimas vêm se recusando a prestar queixa na delegacia, temendo represálias dos bandidos, pois há indícios fortes de participação de policiais”.
SEQUESTROS E ROUBOS
De acordo com os dirigentes da entidade, “necessitamos urgentemente de policiamento preventivo, ostensivo e constante, para coibir e enfrentar a onda de violência. São muitos casos de sequestros, assaltos, roubos e furtos, dia após dia, com violências crescentes em plena luz do dia, que alarmam os ciganos”. Como exemplo, eles citam o sequestro na tarde de sábado, dia 3 de julho último, por volta das 14h, em Camaçari, no Parque das Mangabas.
Relatam que a vítima estava com seu cunhado, quando de repente quatro homens uniformizados de policiais abordaram os ciganos que correram da perseguição. Os policiais deram tiros para cima freando a correria. Na abordagem foi apreendido a chave do veículo da vítima e o celular. Somente depois o seu cunhado foi liberado.
Os criminosos de fardas levaram a vítima com destino a Cajazeiras de Abrantes, a cerca de 25 km do local do sequestro. A vítima ficou em posse dos sequestradores por onze horas. Durante este período, os criminosos usaram o celular da vítima para negociar o pagamento do resgate no valor de R$ 200 (duzentos mil). Em alguns trechos da negociação o sequestrador ameaçou cortar a orelha do cigano.
O irmão da vítima tentou acalmar o elemento, oferecendo 20 mil reais, argumentando que não dispunha do valor requerido. O criminoso continuou com suas ameaças de que iria fazer um vídeo cortando a orelha do cigano, exigindo o não envolvimento da polícia no caso. Depois de muita conversa, os sequestradores aceitaram o pagamento de 40 mil reais.
Depois de sofrer espancamentos, o cigano foi liberado, isto é, trancado e algemado dentro do veículo, em Cajazeiras de Abrantes, em um mato. Sobre o ocorrido, os dirigentes do Instituto ressaltaram que o delegado de repressão a extorsão mediante sequestros do Estado da Bahia, Adailton de Souza Adam, vem realizando um excelente trabalho e pedem apoio das vítimas para elucidar os sequestros contra os ciganos de Camaçari/BA.
“A preocupação com o aumento de sequestros e violência contra os Ciganos da Bahia precisam de trabalho repressivo por parte da Segurança Pública, no sentido de facilitar a identificação dessas pessoas, que promovem esses delitos. A CPI vem no momento oportuno. Não queremos generalizar. Sabemos que a Polícia Militar e a Polícia Civil têm membros que prezam pela transparência, imparcialidade, ética, zelo e comprometimento com a segurança pública”.
EM CONQUISTA
Na ocasião, Rogério e Paulo apresentaram algumas ocorrências evolvendo policiais da Bahia, como a chacina em Vitória da Conquista há três meses (13 de julho) quando oito pessoas foram mortas depois de dois policiais terem sido assassinados por uma família de ciganos, no distrito de José Gonçalves.
No Ofício, o Instituto pede que as mortes dos Ciganos em Vitória da Conquista e região também sejam apuradas, destacando que entre as oito vítimas, um adolescente e um empresário não eram da etnia.
No revide dos policiais, muitos ciganos foram torturados, perseguidos e ameaçados de morte O Instituto, na ocasião, encaminhou um relatório minucioso, com base em investigações, para diversos órgãos de segurança e ligados diretamente na causa dos direitos humanos na Bahia e no país.
Rogério Ribeira aponta atitudes, por ele condenáveis, por parte da corporação policial da região, como o fato de militares receberem elogios pelas mortes de três ciganos em Anagé; investigação desarticulada entre a polícia civil e a polícia militar; fragilidade no acolhimento das testemunhas pelo programa PROVITA; policiais justiceiros querem matar, não querem prender; Governo da Bahia permaneceu em silêncio; falta de eficiência nas investigações; corporativismo local; e risco de novas execuções.
Ele argumenta que o Brasil tem um compromisso internacional ao ter assinado, em 2007, o protocolo facultativo da Convenção da ONU contra a tortura. No entender de Rogério, a CPI é um mecanismo para a busca de informações e para contribuir com a discussão de uma nova política de segurança pública, principalmente nas abordagens policiais.
“O parlamento não pode se omitir frente a fatos que estão comprovados. O Instituto Cigano do Brasil-ICB não compactua com nenhum tipo de violência e repudiamos todo ato dessa natureza, qualquer ordem ou origem. Sempre vamos defender o amplo diálogo e não iremos aceitar que os ciganos inocentes sejam vítimas de ação truculência absurda e desnecessária. Os “criminosos” devem responder na justiça pelos seus atos” – assinalou.
A MISÉRIA E A BAIA DE TODOS OS SANTOS
De um lado a miséria brasileira que bate nos portões do Palácio Rio Branco, em Salvador, sede de muitos governos desde o primeiro Thomé de Souza, que nunca resolveram as gritantes desigualdades sociais, apesar das promessas políticas de esperança. Faltam prioridades nas políticas públicas, principalmente nas áreas da educação e da saúde. Do outro lado, a bela paisagem da Baía de Todos os Santos que deixa soteropolitanos e turistas deslumbrados e encantados com tanta beleza. Ambas as imagens são históricas em nossas vidas, mas, com relação à primeira, milhares passam por ela todos os dias e nem olham. São indiferentes. Quanto a segunda, todos param para olhar e tirar fotos de recordação. São contrastes captados pelas lentes do jornalista e escritor Jeremias Macário em sua última visita à capital, no mês passado. A miséria é cada vez mais agravante, o que condena o Brasil a ser um dos piores na colocação do desenvolvimento humano, A Baia de Todos os Santos, descoberta há mais de 500 anos, foi degradada pela ação do homem e sofre os efeitos da poluição e do aquecimento global.
ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (I)
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, no formato de peça teatral e estilo cordelista, ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS será publicado nesta coluna Na Rota da Poesia todas as quintas-feiras. Fala do Nordeste e suas riquezas culturais, destacando personagens mais importantes da nossa história, como escritores, poetas, trovadores e repentistas. Aborda diversas linguagens artísticas da nossa região, inclusive a cultura popular. É uma homenagem ao Nordeste.
Peguei estrada por esse mundão nordestino,
De norte a sul, leste oeste de cenário faroeste;
Apertei a mão do matuto ao cara intelectual;
Falei com doutor, escritor, poeta e até Marechal;
Comi poeira e também asfalto ardente em fogo;
Viajei de carona, carro-de-boi e pau-de-arara;
Filmei aves sabiás, assanhaços, papagaios e arara,
Com minha mochila andarilha em meu rumo e tino,
Me chamaram de profeta e vidente dos tempos,
Porque já avisava de um tal vírus mortal corona,
Com cara feia de coroa de olho apertado da china,
O mais tinhoso cabra da peste dessa terra latina.
Que nesse chão rachado chamaram de Severina.
Em minhas andanças messiânicas, vulcânicas,
Cortei toda Serra da Capivara e varei o Araripe,
Dessa turca locas místicas Capadócia Nordestina,
De praias paradisíacas rodei pelas dunas de Jipee.
Minha primeira paragem foi lá no Maranhão,
Onde me encantei com os azulejos portugueses,
E em São Luis antigo me embriaguei várias vezes,
Nas noites etílicas de expressões bucólicas e líricas;
Entrei no maracatu, no reague e no bumba meu boi,
E até no blues dos negros melaço da cana caiena,
Rolei nas ondas de areias finas e de tantos sóis;
Ardi minha pele com uma bela sensual morena,
Nadei em lagoas lendárias de ondulados lençóis,
E depois fui conversar com o Ferreira Gullar,
Que me ensinou como laçar as palavras no ar.
E a rimar verbo, substantivo com o árido sertão.
Ah!, seu moço, não podia deixar de abraçar o poeta
Catulo da Paixão Cearense que é mesmo maranhense,
Gente simples com quem ouvi muitos casos caipiras,
Que eternizou o “Luar do Sertão” onde fez sua festa,
Virou hino dos apaixonados amantes do Brasil ao Japão,
Assim Catulo me ensinou a luarar e apreciar as safiras.
UMA CLASSE ESQUECIDA
Não é mais nenhuma novidade dizer que a cultura em nosso país, tachada de comunista pelo capitão-presidente e seus seguidores da morte, está sendo estraçalhada, mas ela resiste às forças do mal. Dentre as tantas linguagens artísticas, a literatura, representada pelo escritor, é a mais devastada de todas. O Dia Mundial do Escritor (13/10) passou em branco pela mídia e outros organismos.
Como na Idade Média, livros estão sendo destruídos e queimados nas fogueiras dos inquisidores vindos dos infernos. Para completar essa destruição por parte do atual governo, por incrível que pareça, a classe de escritor está sendo ultrajada e esquecida pela própria categoria que tudo deveria fazer para prestigiar o artista da escrita, o artesão da palavra e aquele que faz texto e literatura.
Não desmerecendo seu grande talento de intérprete da música popular brasileira, leio que a cantora Maria Betânia acaba de ser erguida ao Olimpo da Academia de Letras da Bahia. Não existe aqui em nosso Estado, ou no Brasil, um merecedor de tal honraria, que tenha uma obra aceitável? Será que o escritor também pode ganhar o prêmio Grammy de música algum dia, mesmo sem conhecer uma nota, como bem indagou Achel Tinôco, no Espaço Opinião do Leitor do “A Tarde”?
Há uns dois anos deram o Prêmio Nobel de Literatura ao cantor e compositor norte-americano Bob Dylan, que se recusou receber pessoalmente a grana de um milhão de dólares. Mais recente, a atriz Fernanda Montenegro tornou-se imortal da Academia Brasileira de Letras. Na época, teve gente que disse que ela foi agraciada pelo mérito de ter escrito aquela quantidade de cartas no filme Central do Brasil. Alguém pode ganhar um Oscar pelo filme em que não atuou?
Concordo com Achel quando afirma que os autores precisam de mais reconhecimento para desenvolver seus trabalhos, caso contrário haverá uma grande debandada de grandes artistas das letras para outras áreas. O escritor é aquele primo mais pobre dos pobres.
Quando se fala de arte, a classe de escritor é a menos lembrada, principalmente em situação difícil como nesse período da pandemia. Muitos entendem que somente a música, o teatro e a dança, por exemplo, precisam de ajuda dos poderes públicos. Praticamente deixam de fora de um auxílio o escritor que também ficou na penúria porque não pode lançar sua obra durante a pandemia.
MOÇÕES DE APLAUSOS E CRÍTICAS À PREFEITA
A sessão de ontem (dia 13/10) da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, depois da leitura da ata e da pauta do dia, foi aberta com a entrega de diplomas a diversos homenageados com moções de aplausos, mas também com duras críticas à prefeita Sheila Lemos pelo presidente da Associação de Moradores do distrito de José Gonçalves, Eunápio Novais.
O primeiro homenageado do dia foi o major Edmário, diretor do Presídio de Conquista pelos serviços prestados à frente da casa de detenção. Ele agradeceu a moção de aplauso e dedicou o reconhecimento da Câmara aos 145 policiais que trabalharam com ele quando comandava esse pelotão de segurança na zona oeste.
Receberam também moções de aplausos o jornalismo da TV Uesb pela cobertura na área da ciência, o jornalista Tico Oliveira, dono do Jornal Impacto pelos seus 34 anos de atuação no município e região, o Sindicato de Limpeza/Regional da Bahia, um representante dos estudantes e uma mulher que recebeu o diploma Loreta Valadares.
As críticas veladas à prefeita vieram da Tribuna Livre ocupada por Eunápio Navais, representante dos moradores de José Gonçalves. Primeiro ele rebateu as fake News divulgadas na internet dando conta de que as torres de celulares instaladas no distrito foram obras da Prefeitura, quando, na verdade, foi uma intervenção do Governo do Estado.
Afirmou ser vergonhoso a prefeitura se apropriar de um serviço que não contou com a ação do poder público local. Acrescentou mais ainda que a prefeita vive passeando por vários lugares enquanto a zona rural está abandonada.
“Cadê a Comissão de Agricultura da Secretaria? Prometeram que iriam canalizar água nos povoados de Roseira e São Sebastião, e até gora nada. Não temos patrol e trator que foram deixados pelos governos passados” – declarou, ao fazer um apelo para que os vereadores tomem uma atitude e se posicionem em relação aos fatos por ele narrados.
A INTELIGÊNCIA DO SER HUMANO ESTÁ REGREDINDO COM A PASSAR DO TEMPO
Estudos de pesquisadores cientistas (matéria da revista Veja) constataram que a inteligência do homem, medida pelo Q.I. (quociente de inteligência) está sofrendo um retrocesso por conta de mais tempo nas telas de televisão e nas redes sociais. Ao invés de nós tornar mais brilhantes, essa tecnologia mal-usada está nos deixando mais burros e nos levando aos tempos primitivos.
No século XX tivemos décadas de avanços, como as de 60 e 70 em plena efervescência da cultura, do conhecimento, do saber, da leitura e da prática das artes em geral. Nesse século passado, conforme reportagem de Ernesto Neves e Caio Saad, os países mais desenvolvidos anunciavam que o Q.I. de seus habitantes só fazia subir.
Agora, nos tempos atuais, com o advento da internet e das redes, a inteligência está dando marcha ré. Isso quer dizer que o homem está perdendo a lógica do debate racional e do diálogo em troca do ódio e da intolerância, com ideias retrógradas ultraconservadoras. Tudo começou a partir dos anos 2000.
Pela constatação, os filhos passaram a ter mentes menos afiadas que dos pais. Isso nos faz cair nesse buraco desprovido de massa cinzenta, como os antivacina, anti-instituições democráticas (apelos pela volta da ditadura) e contra a ciência. É o lado escuro da polarização ideológica.
No livro “A Fábrica de Cretinos Digitais”, o renomado neurocientista francês Michel Desmurget, diretor do Instituto Nacional de Saúde da França, aponta suas baterias para o excesso de tempo diante da tela dos mais variados aparelhos digitais, os quais estão contribuindo para o atual estado de estagnação intelectual.
A questão, de acordo com ele, está no maior número de horas frente às telas. Afirma que o uso de computadores e celulares por pré-adolescentes é três vezes maior para se divertir do que para realizar trabalhos escolares. No caso de adolescentes, o número sobe para oito.
Durante a pandemia esse tempo de exposição diante das telas e dispositivos, como todos nós sabemos, se elevou, principalmente no Brasil. Antes do vírus, os participantes de uma pesquisa divulgada por universidades brasileiras relataram média de seis horas e meia de exposição diária. Durante a pandemia, o número subiu para dez horas por dia.
E A HISTÓRIA SE REPETE
Em 1989, no pós-ditadura, as eleições diretas para presidente contavam com 22 candidatos, vários de direita e esquerda, como Ulisses Guimarães, Mário Covas, Leonel Brizola, Fernando Collor de Mello e o próprio Luis Inácio Lula da Silva, um sindicalista em ascensão política.
Naquela época a inflação batia recordes de mais de 1000% ao ano e o país estava arrasado com José Sarney no governo em substituição a Tancredo Neves que havia falecido. Apareceu o Fernando Collor, de Alagoas, como um salvador da pátria e que se dizia caçador de marajás. Chamava o Sarney de maior batedor de carteira da história.
No final ficou o Collor e o Lula, que era chamado por Brizola de sapo barbudo. No debate Lula foi estraçalhado com ajuda da mídia, principalmente a Rede Globo que ajudou vir à tona um caso de escândalo familiar.
Em Alagoas, ele já tinha fatos condenáveis quando passou pela prefeitura de Maceió e pelo Governo do Estado. Ficou dois anos na presidência e sofreu o processo de impeachment por irregularidades, por atos de corrupção. Aquela eleição foi marcada mais pela emoção do que pela razão.
O tempo passou e veio 2018 quando, como numa repetição da história, o povo elegeu um deputado destrambelhado, expulso do exército, homofóbico, racista e negador da ciência. A eleição transcorreu num clima de ódio contra o PT de Lula. O negócio era varrer o partido do mapa quando havia outros candidatos a escolher.
Passados três anos, num esquema invertido, as pesquisas indicam a volta de Lula para impedir a reeleição do capitão, se bem que ainda tem muita água para passar por debaixo da ponte. Até lá a história pode se repetir com a polarização no segundo turno, e aí o Brasil vai se afundar de vez num poço sem fundo.
O capitão tem uma legião de fanáticos do tempo da Idade Média entre evangélicos, militares e conservadores que viviam trancados num armário como fantasmas que consideram o PT como satanás. No eleitorado tem uma percentagem de arrependidos (cerca de 30%) que não quer nenhum dos dois, mas não se sabe em que campo vai ficar.
O maior risco é essa persistência da polarização do ódio quando, a bem da nação, o PT de Lula poderia ceder para formar um governo de coalizão entre direita, centro e esquerda para eliminar a ultra extrema-direita, mas a vaidade e o poder falam mais alto. Estamos correndo o risco de mais quatro anos de destruição.
Vamos continuar prisioneiros dessa exaltação negativa e desse maniqueísmo que vão mais ainda nos empurrar para o retrocesso? Onde está o senso crítico na escolha de um candidato que, pelo menos, pense nas prioridades nacionais; que tenha capacidade de liderança; e promova o entendimento no exercício do poder?
Quando a história sempre se repete e se comete os mesmos erros, é porque temos um povo sem memória, sem sabedoria, sem lógica, sem consciência política, iletrado e que se deixa guiar pela emoção. Como se diz no popular, estamos num beco sem saída, ou no mato sem cachorro.
















