NEM SEI SE SOU…
Versos do jornalista e escritor Jeremias Macário, que fazem parte do seu último livro “ANDANÇAS”.
Meu amigo camarada,
Desculpe meu jeito serial,
Assim fui criado e feito,
Numa couraça de crença,
De um sistema desigual.
O tempo é uma cilada,
Entre o amor e a dor,
Nem sei se sei, se sou,
Como um quase nada,
Ou um pouco de cada.
A morte só é uma graça,
Quando vira uma piada,
Em conversa na praça,
Mas passa sem dar risada,
Com sua sentença marcada.
Nem sei se assim sou,
Um pavio do candeeiro,
Na face de um escravo e patrão,
Como lobo, e um cordeiro,
Vigilante errante de plantão.
Nada que reluz me conduz;
Faço destinos em pedaços,
De fios de algodão e de aços,
Ora sou laço nos espaços,
Ora sou simples traços.
Nem sei se sou encanto,
Alegria, lamento e pranto,
Em alguma parte desse canto,
Que mais parece um conto,
De encontro e desencontro.
Uma hora penso ser corda,
Grossa de sisal, ou de viola,
Outra hora, sou uma estola;
Procuro quem me consola,
E a dura realidade me acorda.
Nem sei se sou criatura,
Como diz a benta Escritura,
Nessa eterna via de procura,
De caminhos de aventura,
Cheios de ódio e de ternura.
Nem sei aqui qual meu papel,
Se é de cortina, ou de véu,
E assim vou indo ao léu,
Como a semente ao vento,
Do nascente ao sol poente.
MAIS UMA CPI DO FIM DO MUNDO
VITÓRIA DA CONQUISTA SE TORNOU UM PONTO FORA DA CURVA NA BAHIA NA QUESTÃO DO COMBATE Á PANDEMIA. O PODER PÚBLICO PREFERIU CONTRARIAR O DECRETO DO GOVERNO DO ESTADO; BATER DE FRENTE E FLEXIBILIZAR AS MEDIDAS. É UMA VERGONHA!
Quanto ao título acima, com minha idade e experiência jornalística de anos, confesso que já vi este filme. A grande maioria das CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito) sempre terminou em lambanças, gatunagens e até em subornos para não convocar elementos envolvidos na questão proposta pela investigação.
Oxalá não se torne mais uma do fim do mundo, pois já começou errada no que tange à sua finalidade que era exclusivamente apurar negligências cometidas pelo governo federal (Ministério da Saúde, presidente e outros órgãos da saúde) no combate à pandemia da Covid-19, principalmente o caso de Manaus, no Amazonas.
GOVERNADORES E PREFEITOS
No puxa, encói do bate-boca entre os políticos e até nas ameaças do capitão-presidente contra o Supremo Tribunal Federal, ela foi esticada para atingir também governadores e prefeitos no tocante à utilização de recursos federais. Por aí se vê que já começou errada, e tem tudo para ser o fim do mundo, sem prazo para terminar. Talvez até a pandemia se acabe antes dela.
Que me lembre e saiba, nunca vi um acusado nas investigações ir para a cadeia. Os processos sempre terminam engavetados na Justiça. Se o Congresso Nacional tivesse coragem, e não estivesse tão comprometido, como sempre esteve, deveria sim, abrir um entre os mais de 60 pedidos de impeachment contra o capitão, que já cometeu tantas barbaridades, como nenhum outro na história do Brasil.
Vamos ver e ouvir muitos xingamentos. A tropa palaciana, com certeza, vai procurar tumultuar as discussões; emperrar requerimentos; e atentar contra a nossa frágil democracia que vive aos troncos e barrancos. A bola da vez é o general ex-ministro da Saúde que falou de alto e bom tom que “um manda e o outro obedece”.
Na verdade, as mazelas e os absurdos cometidos que terminaram por agravar a crítica situação de milhares de mortes em Manaus por falta de oxigênio, com o envio de um carregamento de cloroquina, vão respingar na farda do general. No entanto, no fim não vai dar em nada. O chefe que mandou fazer as besteiras vai ficar incólume. Acho que a maioria não está acreditando nessa CPI do fim do mundo.
Com tantas trapalhadas, o Brasil está sendo peça de galhofas no exterior, como ocorreu no parlamento francês nesta semana. Quando o ministro francês falou do receituário do Bozó com relação ao uso da cloroquina no tratamento da Covid-19, os deputados caíram nas gargalhadas.
O ministro precisou pedir mais compostura para não melindrar a terrível diplomacia brasileiro, que se isolou do resto do mundo. Ninguém quer receber mais brasileiro em seu país por temer a contaminação. As mortes aqui em nosso país estão num ritmo acelerado, e cientistas já estimam que podemos atingir a triste cifra macabra de 500 mil até o final do ano, ou até mais, Isso é um genocídio coletivo.
CONQUISTA NA CONTRAMÃO DO COMBATE À PANDEMIA DA COVID-19
A Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista escancarou mesmo na flexibilização das tímidas medidas impostas na Bahia pelo Governo do Estado, colocando os interesses do comércio lojista acima da vida. A impressão que temos é que uma média de mortes de duas a três pessoas por dia é muito pouco para o poder público, que prefere seguir pelo caminho da desobediência civil do decreto estadual, pela contramão do combate à pandemia.
É essa bagunça e a falta de alinhamento que têm deixado a população ainda mais psicologicamente ansiosa, estressada e depressiva diante dessa tragédia que se abateu sobre o Brasil, o maior do mundo em mortes diárias. No caso específico de Vitória da Conquista, quase 400 pessoas já perderam suas vidas, a maioria de pobres dos bairros mais periféricos.
NÃO CONVENCEM
As justificativas de alteração do toque de recolher, das 22 horas para às 5 horas da manhã, a abertura de todos estabelecimentos aos sábados e a liberação de bebidas nos bares e restaurantes anunciadas pelo porta-voz oficial da prefeita não convencem, quando os hospitais do SUS que atendem Covid-19 estão com suas capacidades de leitos de UTI acima dos 90%.
Esse “comitê gestor de crise” continua insistindo em apontar só os números de conquistenses que estão doentes nas unidades de saúde, sem citar os pacientes da região, como se eles não existissem. Conquista não tem nenhum hospital municipal que atende Covid, a não ser o Esaú Mattos que é uma maternidade.
Todas as outras três unidades de saúde são públicas que atendem pelo SUS, e é justo que recebam também gente de fora. A economia de Conquista depende dos municípios em torno dela para sobreviver. São cerca de 80 e mais de 20 mil pessoas que estão aqui todos os dias movimentando o comércio e outros setores, inclusive da educação e da construção civil.
Sobre esse relaxamento das medidas, a TV Sudoeste apenas entrevistou o presidente da CDL, e é claro que ele apoia. Não existe um especialista no assunto para dar outro parecer? Afinal de contas, são os comerciários que ficam na linha de frente nos quadrados apertados em contato direto com os clientes.
A única coisa que a Prefeitura de Conquista tem feito é contrariar os decretos do governo estadual. Não se move para estabelecer algumas políticas públicas para ajudar aos mais necessitados, como vem fazendo vários municípios pelo brasil a fora.
A Prefeitura fala que os bares não podem vender bebidas em pé e nem realizar ajuntamentos com shows musicais. Acontece que não existem fiscais suficientes para controlar os descumprimentos dos protocolos. Será que vamos ter uma nova Amazonas ou um novo Manaus aqui em nossa casa?
Outra questão preocupante é quanto as feiras da Ceasa (Juracy Magalhães e centro) e da Feirinha, no Bairro Brasil. Além das sujeiras que se tem visto, não existe um distanciamento entre as barracas, e nos finais de semana a aglomeração corre solta como se estivéssemos vivendo em tempos normais.
Confesso que sempre frequentava a Feirinha aos domingos para fazer minhas compras devido aos preços dos produtos serem mais acessíveis, mas a última vez em que estive lá (há quase um ano) fiquei assustado com as aglomerações. Por precaução, deixei de ir à popular Feirinha.
Não me consta que exista alguma normatização de distanciamento, ou a Prefeitura tenha feito, pelo menos, alguma limpeza de desinfecção nesses locais. A única ação desse poder público é flexibilizar tudo e não fazer nada para combater essa pandemia.
É justamente dos moradores da zona oeste, nos bairros mais periféricos e pobres, que tem saído a maioria dos caixões da Covid, mas ninguém importa com isso, e nem conhece as famílias enlutadas que perderam seus entes queridos. O negócio é só lucrar e ganhar mais dinheiro, enquanto o fantasma da fome perambula pelas ruas pedindo um prato de comida, pelo amor de Deus.
ESTÁ DIFÍCIL SER OTIMISTA NO BRASIL
Matam a pandemia da Covid-19, a fome e a violência, cada vez mais aterrorizando com seus crimes brutais e hediondos. O cara lá de cima só pensa em armar a população e tramar a favor de uma intervenção militar, com seus generais no poder a manchar suas fardas de sangue.
A esta altura de 2021, ainda no início do segundo trimestre, já tem gente por aí com saudades de 2020, e olha que só ouvimos que tudo vai melhorar, que tudo vai passar, mas quando? Ainda está em meu ouvido o Feliz Ano Novo. Nesse ritmo de tantas mazelas, está muito difícil ser otimista no Brasil.
O povo já vive desesperado, angustiado, estressado e desesperançoso. O medo está nos vencendo. No dia a dia só notícias ruins com aumentos nos preços dos combustíveis, dos alimentos e até da água e da luz. A pandemia avança, enquanto a vacinação vai a passos de caranguejo.
Nosso país, com um desajustado no poder que só faz confundir e desconstruir, não é mais aquela magia turística atraente. Os investidores passam por fora e somos vistos como trogloditas negacionistas da ciência que ainda acreditam que a terra é plana e que a pulga vem da areia.
Temos hoje uma nação que caminha de cabeça baixa, sem saber até quando pode suportar tanta humilhação, descontrole e desorganização. A curto prazo, ou talvez a médio, não enxergamos um Brasil que pode emergir desse buraco que, cada vez, fica mais profundo.
Tudo isso faz bater um desânimo e uma incerteza quanto ao nosso destino. Nesse rumo, tudo pode acontecer de pior. Com evangélicos no poder, caímos no radicalismo, no fundamentalismo e no retrocesso. Até o nosso meio ambiente está sendo vítima das atrocidades.
Gostaria muito de fazer um texto positivo e otimista, mas seria falso dizer que as coisas logo vão mudar para melhor. Vamos ter que esperar por mais tempo. Uma grande parcela da nossa gente ficou cega, muda e surda. Não reagimos, e quem contesta contra os absurdos e as barbaridades que estão ocorrendo, são perseguidos e até ameaçados de morte, como cientistas, intelectuais e políticos mais sérios.
Quando vamos acordar para essa triste realidade? Não se trata agora de questão partidária entre lulistas, direitistas, centristas e esquerdistas. Trata-se de uma nação que está sendo levada para o abismo e que precisa de união para que ela mude de direção. Chega de tanto ódio e intolerância! Nosso povo está entrando numa profunda depressão. Está difícil ser otimista!
“VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ”
Dizem os críticos literários que “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá” foi a melhor obra do escritor Lima Barreto, embora o público em geral sempre comenta e aponta “Triste Fim de Policarpo Quaresma” onde ele fala dos costumes da sociedade da época, com suas trambicagens e velhacarias. inclusive com personagens ciganas.
Em “Literatura Comentada”, da Abril Educação, Antônio Arnoni Prado destaca que neste livro o narrador Augusto Machado traça um esboço biográfico de seu dileto amigo Gonzaga de Sá, um velho bacharel em Letras, solteirão e voltairiano, religioso sem deixar de ser cético e maníaco por balões.
Na narrativa de Augusto, o autor vai alternando o relato biográfico com suas próprias reflexões sobre a vida e os homens. O tom é cheio de ternura pelo amigo, morto quando se abaixava para colher uma flor, numa tarde que ele e o narrador se encontraram no Passeio Público.
Entre os escritos do amigo falecido, Augusto encontra, numa página perdida de papel o que considera ser a teoria filosófica de Gonzaga, com a ideia de que só o acaso decide sobre a sorte das coisas. O texto de Gonzaga se refere ao inventor de uma máquina de voar que passa anos e anos montando seu engenho e se decepciona no momento de fazer o aparelho subir. Por um acaso, a máquina não sai do chão.
Gonzaga era ele mesmo um homem sem ilusões, frio e espirituoso. Evitou doutorar-se para fugir das hipocrisias das solenidades. Contentou-se em não ir além de mero funcionário da Secretaria dos Cultos, com intuito de sobrar mais tempo para estudar. Tinha uma verdadeira febre de conhecimento.
Através de árduas pesquisas, ele cultivava uma visão crítica de seu tempo, lendo tudo o que caia nas mãos. Para tanto, evitou o casamento e se afastou das obrigações mundanas.
Augusto vai recolhendo as impressões críticas de Gonzaga, um anônimo das ruas do Rio de Janeiro. Para Gonzaga, de acordo com a narrativa, havia muitas coisas erradas na nossa terra, como a insuficiência nas artes do desenho até a nossa estúpida mania da aristocracia, o preconceito em relação aos negros, o elitismo e a injustificada idolatria pelo “doutor”.
Gonzaga se orgulhava de fazer parte do povo mais humilde que se formou em nossa terra, e detestava a gente de Petrópolis. “Eu sou Sá, sou o Rio de Janeiro, com seus tamoios, seus negros, seus mulatos, seus cafuzos e seus “galegos” também”. Passava os momentos de folga andando no meio do povo, perambulando pelos bairros populares distantes. Havia nele uma certa nostalgia do passado, uma espécie de busca do espaço perdido da infância e dos tempos felizes de moço. Ele é o primeiro a apontar a causa social na modernização arquitetônica do Rio de Janeiro. Sente no começo do século o isolamento entre os bairros e o distanciamento entre ricos e pobres.
Quanto a este assunto, é um cético que se apieda pelos indivíduos. Um cético que tem opiniões práticas acerca do Barão Rio Branco que havia transformado o Rio em uma chicana particular, distribuindo o dinheiro do Tesouro como bem entendia.
De acordo com o narrador, Gonzaga deplorava a comercialização da cultura, a linguagem descuidada dos jornais e os falsos intelectuais reformadores, que só sabiam mostrar o radicalismo de suas convicções nas mesas de cafés. Sua consciência da realidade se agravava diante da miséria e do analfabetismo daqueles que eram explorados e “viviam sob o aguilhão dos deveres”.
Gradativamente, ele vai se resignando, encolhendo-se diante da opressão e da injustiça. Começa a achar que a única saída para os oprimidos estava na morte. “A morte tem sido útil… toda civilização resultou da morte”, cultivando a ideia de que o intelectual não deve, com suas teses, conspurcar a pureza dos ingênuos. Admitia que só o sofrimento engrandecia o homem.
O narrador Augusto Machado, como que pressentindo a morte do amigo Gonzaga, experimenta a tristeza de sua ausência, aproveitando ao máximo os últimos momentos de convivência e refletindo sobre o sentido da vida.
O BRASIL VIVE UM GENOCÍDIO E PRECISA DE AJUDA HUMANITÁRIA INTERNACIONAL
É preciso que se tenha a coragem de dizer, e não é nenhum exagero, que está havendo um genocídio no Brasil pelo descaso no combate à pandemia da Covid-19. Diante do atual quadro aterrador de mortandade em massa, o país precisa com urgência de uma ajuda humanitária internacional.
A história se repete, como ocorreu e ainda ocorre com as guerras e a fome em diversos países do continente africano onde as nações ricas e poderosas fazem de conta que nada está acontecendo. Pela primeira vez, o país está registrando maior número de óbitos que nascimentos. Tem 2,7% da população mundial, e acusou 27% de todas as mortes. É um disparate.
André Cairo faz o seu protesto num apelo aos governadores e prefeitos em defesa da vida. Seu cartaz já diz tudo. O povo necessita de ajuda humanitária.
A COVID E A FOME
Os brasileiros não merecem ser julgados e sentenciados ao cadafalso da morte porque têm um governo que, ao invés de unir esforços com governadores e prefeitos para combater o mal, só tem praticado desagregação; subestimado a doença como “gripezinha”; se posicionado contra os protocolos de isolamento; incentivado aglomerações; e adotado uma diplomacia ideológica externa desastrosa que emperrou a compra de vacinas.
Os dados estatísticos e os fatos não negam, a começar pelo número diário de mortes, o maior do mundo, com recordes acima de quatro mil, sem contar o colapso nos hospitais e os milhares de casos de vidas perdidas por falta de insumos e vagas nos leitos de UTI. Do outro lado, a vacinação é lenta, e agora se agrava com a escassez de doses, o que indica que o quadro tende a se agravar, como prevê os cientistas.
Como se não bastasse, num momento de mais de 14 milhões de desempregados, a Covid fez escancarar a peste da fome que também está deixando uma multidão debilitada de barriga vazia e morrendo aos poucos por falta de comida nas geladeiras e nas panelas. É um quadro aterrador que está a carecer de uma ajuda humanitária internacional porque as doações e o parco auxílio emergencial não estão dando conta da demanda.
O problema não está apenas restrito ao Brasil, mas afeta também os outros países, principalmente os nossos vizinhos da América do Sul. Portanto, é uma questão mundial. Os cientistas brasileiros estão sendo amordaçados por suas posições de alerta, e até as instituições, das quais fazem parte, chegam a sofrer cortes de verbas para desenvolver seus trabalhos.
O último mês de março foi tenebroso e o mais letal depois de um ano que o coronavírus aterrissou em nossa terra e encontrou um campo fértil. Os infectologistas fazem um prognóstico ainda mais terrível para abril, podendo chegar a mais de cinco mil mortes por dia. Até agora, mais de 345 mil pessoas perderam suas vidas, deixando famílias destroçadas para sempre.
Sem vacinas suficientes (somente pouco mais de 10% de uma população superior a 230 milhões de habitantes receberam a primeira dose) para imunizar o povo, o Brasil foi emboscado pelo vírus numa encruzilhada da morte. A nação brasileira não pode ser punida por uma diplomacia desastrosa de um governo negacionista que criou atritos com laboratórios e países fabricantes de matérias-primas para as vacinas.
Existe um conjunto de fatores negativos que transformaram nosso país num cenário de genocídio, como numa guerra onde o inimigo invisível só faz avançar porque encontrou aqui um “exército” desorganizado, bagunçado, sem liderança no comando e sem as armas avançadas para neutralizar o exterminador.
As aglomerações nas portas dos bancos são verdadeiros convites à Covid-19 que só faz elevar o número de mortes em mais de quatro mil por dia no país. Aonde vamos parar? 
Aqui mesmo em Vitória da Conquista temos os reflexos disso com uma prefeitura que está mais preocupada com o movimento do comércio lojista do que com a vida, e vem rebatendo as medidas restritivas do Governo do Estado. Tem sido inerte com relação a iniciativas próprias que outros municípios vêm tomando nas áreas política e social. Com quase 400 mortes, a cidade registra hoje uma média de três óbitos por dia, o que é um número bastante alto.
“A REGRA DO JOGO”
No último 7 de abril foi lembrado o “Dia do Jornalista”. Diria que não se tem muito a comemorar diante do atual quadro político do Brasil onde a categoria tem sido hostilizada, principalmente pelo chefe da nação, mas me faz voltar aos tempos das redações barulhentas, fumacentas e de muitas discussões sobre as matérias que estavam saindo do forno diretamente para o público leitor, ou telespectador. Infelizmente, temos hoje um sindicato bem mais enfraquecido. Mesmo durante aquele período tenebroso da ditadura civil-militar, tenho saudades daquele jornalismo à prova de fogo onde se questionava “A Regra do Jogo” que muito nos ensinou Cláudio Abramo em seu livro título. Nesse dia, presto a ele uma homenagem e a todos os profissionais que fizeram “O Pasquim”, um jornalismo alternativo, satírico, de contestação, de reportagens inéditas que sabiam driblar a censura do regime militar. Sobre Abramo, comentou Jânio de Frietas na orelha da sua obra que, “apesar disso, surge um Cláudio. Surge na multidão de jornalistas, um ao qual o tempo pode magoar, mas não pode vencer: Seu talento é mais forte do que a pressão de todos os relógios”. Para ele, ressalta Jânio, o jornal morria com a rapidez de um dia, mas seus artigos entravam para sempre na memória de milhares e milhares de leitores… “Podia fazer melhor, não fosse a exiguidade do tempo”. Abramo foi morto em agosto de 1987, deixando um grande legado, como a modernização dos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. “Suas lições percorrem todo espectro da atividade e da ética jornalística”- disse Mino Carta, no prefácio da obra. Não desmerecendo o jornalismo de hoje da internet, não se se tem mais pauteiros e chefes de reportagem como antigamente que, sem muitos recursos tecnológicos, apresentava mais criatividade, imaginação e tramavam matérias mais empolgantes e históricas. Não quer dizer que naquele tempo não haviam falhas, mas as reportagens eram mais consistentes, investigativas e completas, sem deixar furos clamorosos como atualmente. Hoje se usa o “ctrl c, ctrl v” bem mais que o “gilete press” daqueles tempos. A busca pelo furo era mais intensa e emocionante. Os repórteres hoje precisam melhor formular as entrevistas e pesquisar mais o tema da matéria. Existe uma deficiência no preparo, talvez pelo vício demasiado da internet.
A IDEIA É ESSA
Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário
A ideia é essa, meu amigo,
Seja como vaga-lume na escuridão,
Se não tem certeza da sua opção,
Se vai dar certo ou errado,
Se arrisque fundo no desafio,
Mesmo que seja na luz do pavio.
A ideia é essa, meu amigo,
Para desvendar o seu segredo,
Nunca tenha medo do castigo,
Seja qual for o final do enredo,
Ouça a mensagem da canção,
Que vai guiar sua difícil decisão.
A ideia é essa, meu amigo,
Nunca deixe de regar a sua flor,
Seja na alegria ou na triste dor,
Sempre encare seu presente,
Curta os momentos da vida;
Construa bem seu futuro abrigo,
Com sua mente mirando o mar.
Ao lado do seu grande amor.
AMOR PELA NATUREZA
Nona Alves Fernandes – jornalista
Para aliviar os momentos tensos e exaustivos vividos em 2020, o médico Getúlio Borges Fernandes escolheu a Ilha de Itaparica para passar um período de descanso nos primeiros dias de janeiro. Na maior parte do tempo era a Natureza que preenchia os momentos de reflexão do cardiologista. Ao término do curto período de férias, Getúlio já não podia esconder para si mesmo que estava apaixonado por algo que significa vida para o ser humano.
Numa dessas manhãs de verão, “contaminado” pelo clima de serenidade do lugar, que contrastava com a aflição e a dor dos hospitais, manifestou em Getúlio a ideia de editar os versos escritos na época de estudante e os mais recentes, a maioria dedicada à Natureza. Entre bulas e reclamos de medicamentos e com a ajuda de sua secretária Lizandra Nunes, os versos rascunhados em receituários foram reunidos no livro “A Vida Humana e a Natureza”
Prefaciado pelo escritor Eduardo Olympio da Silva Braga, o primeiro trabalho literário do doutor Getúlio contem 142 páginas e 124 poemas. Editado pela Fontenele Publicações, em São Paulo, encontra-se à disposição dos amigos, colegas e clientes do escritor nas principais distribuidoras de livros do país, podendo ser adquirido pela internet.
“Amor pela Natureza” é o título de um dos poemas do médico-poeta. Numa das estrofes, ele adverte:: “Se cometer o pecado/ da natureza lesar/nunca será perdoado,/seu ato será levado pra no futuro julgar”. Observa-se que a métrica usada pelo autor se aproxima da figura poética das redondilhas (versos de sete a nove silabas). Itaparica, celeiro de inspiração e “beleza por todo o canto”, foi lembrada pelo escritor ao citar a água da Fonte da Bica, uma das atrações turísticas da ilha. “Viva o povo brasileiro/ Escreveu nosso poeta”, é uma lembrança, uma homenagem, ao mais conhecido dos itaparicanos, o “imortal” da Academia Brasileira de Letras (ABL), João Ubaldo Ribeiro.
Médico e escritor Getúlio Borges Fernandes
A dedicação de profissionais da Medicina pela literatura pode ser constatada numa consulta aos anais da ABL. Vamos encontrar entre dezenas de médicos acadêmicos os nomes de Ivo Pitanguy, Miguel Couto, Deolindo Couto e Moacir Scliar. Com 24 livros (poemas, contos e romances) publicados, o pediatra Aramis Ribeiro Costa presidiu em duas oportunidades a Academia Baiana de Letras.
Membro da Academia de Letras de Vitória da Conquista, o jornalista, escritor, poeta, escultor e produtor de vídeos, Jeremias Macário, num passeio pelo seu jardim, como faz diariamente para esquecer a covid-19, comentou: “Tente refletir sobre o mistério contido numa flor. Vamos apreciar com mais atenção a natureza. As flores me deixam menos tenso nesses tempos de pandemia e de crise política, econômica e social”
Getúlio Borges Fernandes nasceu em 13 de fevereiro de 1954, em Igaporã, no sudoeste da Bahia, onde iniciou os estudos; os cursos ginasial e colegial foram feitos em Caetité. Adolescente, transferiu-se para Salvador, onde ingressou na Faculdade de Medicina da UFBa, especializando-se em cardiologia e clinica médica. Em seu consultório, no Itaigara, atende há mais de 35 anos uma clientela fiel. Suas atividades profissionais incluem a docência universitária nos cursos de graduação em Medicina e de pós-graduação em Clínica Médica.
A GRAVIDEZ E A PANDEMIA
Uma população inteira de Vitória da Conquista foi dizimada. Simplesmente desapareceu do mapa, como se estivesse sido exterminada por uma bomba. Calma gente, não é nada disso! Conquista continua viva com o mesmo número de habitantes, mas também está sendo sacodida pela pandemia que já ceifou a vida de mais de 333 mil pessoas em nosso país, o mesmo contingente de humanos da nossa cidade do Sertão da Ressaca.
O dado é só para ilustrar a dimensão do estrago que a Covid-19 já fez no Brasil, e só aumenta a cada dia, ultrapassando mais de quatro mil mortes por dia, o maior índice do mundo. No entanto, minha intenção é fazer uma relação entre a gravidez de mulheres nesse período de pouco mais de um ano e a doença. Trata-se de um assunto pouco comentado pela mídia.
DUPLO PERIGO
Não sou nenhum infectologista ou especialista nesse campo, mas qualquer um sabe que é um duplo risco para a mulher se engravidar nesse tempo tão aterrador. Confesso que ainda não li e não vi nenhuma reportagem mais específica e profunda, mostrando os perigos para a mãe e o bebê no caso de a mulher vir a ser contaminada.
Mesma que a grávida de Covid tenha um parto sem problemas, a criança pode nascer com sequelas de deficiências, como ocorreu no caso da Zica? Entendo que o risco seja bem maior para a mãe infectada que já tenha doenças crônicas, como pressão alta, diabetes, asma e deficiência coronária.
Como jornalista, creio que é uma pauta importante para uma matéria esclarecedora. Nesse ponto, e diante do atual quadro, os casais têm pensado nessa questão antes de decidir ter um filho? Dá para mensurar se nesse período de Covid houve um aumento, ou uma redução no número de partos nos hospitais? Outra questão é a falta de vagas nas unidades de saúde, especialmente do SUS.
O que mais me espanta, ou aliás, já era de se esperar, é perceber que as mulheres mais grávidas são as mais pobres e que já têm três e quatro filhos pequenos numa situação de desnutrição alimentar, o que demonstra, mais uma vez, a falta de educação e instrução para evitar nascimentos nesse panorama de pandemia, desemprego e fome.
É a cara de um Brasil desigual onde a miséria aparece ao lado da Covid-19 como uma praga que está exterminando os brasileiros mais fracos. O insignificante auxílio emergencial mais as iniciativas de doações de grupos e associações não estão dando conta da demanda de milhões de bocas famintas.
Todas essas mazelas são resultado da falta de uma liderança no comando central e de uma coordenação que ouvisse as recomendações científicas de combate ao vírus desde o seu início, numa frente de isolamento social e adoção dos protocolos de higienização, como o uso de máscaras e outras medidas de restrição.
No entanto, o que temos é um governo de negacionistas que ainda acredita que a terra é plana e que a pulga vem da areia. É um governo que se indispôs com nações das quais tanto necessitamos de negociações para aquisição de mais vacinas para imunizar a população. É um governo que se isolou do resto do mundo e disse que ser pária é bom. É um governo que levou o Brasil a bater o recorde de mortes no mundo.


















