NA LINHA DE FRENTE
Poema recente do jornalista e escritor Jeremias Macário em homenagem aos profissionais da saúde
Pelas trilhas do curso do tempo,
Como velho curandeiro da mente,
Uma carroça circula lentamente,
No parafuso do trânsito confuso,
Entre o piscar das luzes das sirenes,
Dos socorristas aflitos das pistas,
Com vidas ofegantes não perenes,
Que carecem de sangue na corrente,
Dos salva-vidas da linha de frente.
A pandemia acelera a correria,
De macas nas disputas por vagas,
De cilindros divididos de oxigênio,
Em um SUS sem ar onde falta lugar,
E até no particular plano do convênio,
Vale a escolha do menos fraco doente,
Nas divisórias mascaradas dos hospitais,
Onde pacientes choram nos fios dos sinais,
Das mensagens virtuais da linha de frente.
Entra o intubado e sai o caixão,
Na dor infinita pela perda da vida,
Como num cenário de filme de ficção,
Na milenar guerra entre ciência e fé,
Tem o Buda, o Cristo e o Maomé,
Também o cego negacionista ignorante,
E os profissionais da linha de frente,
Para dar a ingrata última informação.
Quem é essa mortal fera Covid,
Que com tanta intriga nos divide,
Arrasa o pulmão dessa nossa gente,
E também sufoca toda linha de frente?
A CULTURA DO LEVAR VANTAGEM EM TUDO
Logo cedo, seis e meia da manhã de ontem (dia 24/03), já estava na fila da vacinação, em frente da Universidade Federal da Bahia. Quando chegamos (eu e minha esposa Vandilza), mais de 40 pessoas em seus carros já estavam ansiosas na espera, o que indica que muitos idosos foram mais adiantados em cerca de meia hora.
Entre oito e meia e nove horas já se podia contar mais de 500 veículos, e os funcionários aos poucos preenchiam os formulários dos cartões para facilitar o processo lá dentro. Pensei comigo que depois de tantos fura-filas, ali estava a minha vez de levar uma agulhada no braço contra a Covid-19, graças à ciência e à fé.
Tudo corria normal e organizado, não fosse o atraso de meia hora para o início da aplicação da vacina pelos prepostos da Secretaria Municipal de Saúde, tendo em vista que o anunciado na programação era para começar às 9 horas. Por que não a partir das 7 horas? Era o que muitos indagavam em conversas na fila. Até ai, tudo bem! O atraso já faz parte da agenda brasileira.
Como forma de fazer passar o tempo, o papo era a questão da pandemia no país em geral, inclusive sobre os critérios de combate da doença onde cada estado e prefeitura adota medidas diferentes, o que tem deixado a população mais confusa. No entanto, o que deixou muitos revoltados na fila foi presenciar a prática danosa e desrespeitosa da cultura do levar vantagem em tudo, ou aquilo do jeitinho brasileiro.
Para surpresa minha e de outros companheiros que estavam ali há mais de três horas, muitos passavam direto e deixavam seus parentes com outros amigos nos veículos que estavam na frente, e depois seguiam seus destinos. Quer queira, que não, são os famosos conhecidos fura-filas, ou individualistas que só pensam em suas comodidades. Os outros que fizeram o sacrifício de acordar mais cedo que se danem.
A partir daquela cena, numa roda de desconhecidos que formaram amizades naquele momento, o comentário passou a ser sobre a índole malandra do brasileiro que já se acostumou a fazer essas coisas como se fossem normais, sem nenhum remorso de consciência, inclusive dormem muito bem quando colocam a cabeça no travesseiro à noite. São justamente essas pessoas que mais xingam os políticos de corruptos.
No quesito da cultura do levar vantagem em tudo, aproveitamos a ocasião de desrespeito às claras contra os outros, para citarmos muitos exemplos de boas condutas, honestidades e pontualidades em países civilizados, principalmente na Europa. Em nosso país, como disse um senhor, o brasileiro só cumpre as leis e se comporta bem quando é vigiado de perto pela polícia.
É uma questão de educação e formação familiar – disse outro, para complementar que é esse conjunto de fatores maléficos e de malfeitos que não tira o nosso Brasil do atraso e do subdesenvolvimento. É claro que existe muita gente boa e consciente dos seus deveres, mas isso hoje é em bem menor quantidade do que há 50 ou 60 anos, o que significa que houve uma deterioração.
A conversa estava fluindo, mas não teve prosseguimento porque cada um entrou em seu veículo para receber a tão esperada vacina, que ainda tem chegado aos tiquinhos. Talvez esse seja o maior motivo das pessoas acordarem bem cedo na fila, com receio de que as doses faltem, como tem acontecido em muitos casos.
SÃO TANTAS MENTIRAS!
Contra o monte de mentiras no horário nobre da televisão, boa parte do povo respondeu com panelaços que, em tempos recentes, foi descrito pela esquerda como posição de pequenos burgueses, coisa da elite. O pior pode estar por vir, pois milhões passam fome, e estamos cercados de pandemias por todos os lados. Os panelaços podem ser só avisos.
Ele sempre se mostrou reticente com relação às vacinas, principalmente da chinesa CoronaVac, e falou que não tomaria. Agora diz o contrário, e tirou do bolso a produção de 500 milhões de doses até o final do ano. Vamos ter estoques sobrando, para doar para nossos vizinhos. Não sabia que o Brasil criou uma vacina própria contra a Covid-19. A única verdade na fala do capitão-presidente é que ele se mantém contra o isolamento social e as medidas de restrição.
Todo o resto é um punhado de mentiras e hipocrisias, como se solidarizar com as famílias que já perderam quase 300 mil entes queridos. Em resposta a toda essa mortandade, fez deboches de o tipo de chamar os brasileiros de maricas e chorões. “E daí! O que tenho a ver com isso! Não sou coveiro”. Foi outra tirada tirana quando o vírus havia ceifado a vida de cerca de 10 mil pessoas.
Onde ele achou esse número de que o Brasil é o 5º país do mundo que mais já vacinou sua população? Seria bem mais decente e ganharia pontos dos brasileiros se ele usasse o tempo na rede de televisão para pedir perdão por suas barbaridades proferidas durante seus dois anos de mandato desastroso.
Seria bem mais confortante para a nação, que vive momentos de pânico, aflição e terror, que ele fizesse um mea culpa dos seus erros e que iria parar de nos destruir com a sua negação da ciência, receitando cloroquina e outros procedimentos condenáveis.
Como seria tranquilizador se ele aproveitasse o tempo para anunciar que iria se alinhar com as instituições de saúde, com os governadores e os prefeitos no combate dessa mortal pandemia, visando unicamente salvar vidas. Que ele conclamasse toda a nação a se unir, sem partidarização da política. Que a partir de agora todos os protocolos e normas teriam um comando central, com transparência em comum acordo com os estados e municípios.
Com certeza, essas palavras fariam com que os brasileiros tivessem um sono mais sossegado nessa noite de 23 de março de 2021. Essa atitude reparadora seria um marco na história brasileira nesse período de caos na saúde. Essas mentiras só fazem confundir mais ainda a nossa população, e deixar o vírus mais à vontade para suas mutações em nosso solo. Por que de tantas mentiras que só fazem dividir mais ainda, e criar mais revolta, ódio e intolerância? Tudo isso só pode ser mais uma manifestação de sadismo e psicopatia.
A DISCRIMINAÇÃO SOCIAL É A MAIS CRUEL
Quando um pobre morre como causa da Covid-19, os parentes nem veem o corpo que é levado imediatamente para o cemitério. Das grades, os familiares acompanham o procedimento à distância. Isso é muito cruel. A alegação é a de ser uma maneira de evitar contágio e aglomeração. A dor é muito grande porque ela já vem do hospital quando o doente é internado e, às vezes, só recebe informações através do celular ou por sinais dos enfermeiros e médicos.
Esse ritual é bem diferente e aberto quando se trata de um político, um poderoso ou rico. Quando falece, fazem velório, translado em carro aberto para o enterro, com aglomeração por parte dos correligionários, parentes, amigos e conhecidos, principalmente agora nesse auge da pandemia. Argumentam outras coisas que não convencem, e a mídia, como sempre, não questiona com receio a interpretações maldosas.
A LEI DOS MAIS FORTES
Enquanto estou fazendo este comentário, sei que estou sendo xingado e visto como insensível, que desejasse algum mal para o morto. Já disse várias vezes e voltou a repetir que a nossa sociedade é hipócrita. Mas, fazer o quê? Seguimos o curso normal da lei natural dos mais fortes no mundo animal. Vejam a questão da vacina que já era previsível. Os mais ricos, como Estados Unidos, Inglaterra e outros países da Europa saíram na frente.
Os pobres e os fracos sempre foram os mais castigados. O exemplo está aí nas catástrofes e tragédias. São os mais submissos, de nível baixo de instrução, que não têm o poder de brigar e impor seus direitos de igualdade que mais sofrerem. Aliás, sem essa de que todos são iguais. Esse anunciado é a maior das mentiras que proclamam, como se fosse verdadeiro.
O enterro do prefeito de Vitória da Conquista acabou tendo aglomeração em todo seu trajeto. Os resultados vão aparecer nos próximos dias. A Prefeitura anunciou que o acesso seria reservado somente aos familiares, mas não foi isso que ocorreu. Primeiro foi reservado um amplo espaço no salão do Mediterrâneo, indicando que muita gente estaria lá. O local ficou superlotado. No caminho para o sepultamento e no cemitério, muita gente, contrariando o toque de recolher.
Para dar o bom exemplo, o poder público, em comum acordo com a família, bem que poderia do aeroporto ir direto para o cemitério, sem essa de programação de translado e reunião num espaço de eventos tão amplo. Era certo que ia haver aglomeração. Na situação atual de colapso nos hospitais, gente morrendo em casa e até na rua por falta de vagas, o mais prudente seria um enterro simples e controlado, mesmo se tratando de uma autoridade. Tudo em respeito à vida que deve estar acima de tudo.
Outra imprudência foi a posse da prefeita ao vivo na Câmara de Vereadores, com muita gente no plenário. Não poderia ter sido feito de forma virtual, para dar o bom exemplo? Todos esses eventos em pouco espaço de tempo constituem insensatez, tendo em vista que os leitos de UTI em Vitória da Conquista já estão com ocupação bem acima dos 90%.
Não tem adiantado muito os apelos emocionantes dos infectologistas, pneumologistas, médicos e especialistas da ciência no sentido de que as pessoas se cuidem usando máscaras; façam a higienização; e, principalmente, não se aglomerem. Vivemos num quadro de total estupidez humana e de bagunça geral onde não existe uma linha central de comando.
Tudo começa pela esfera federal. No momento, temos dois ministros da Saúde, ou nenhum, porque o indicado não tomou posse. O Ministério estabelece uma norma, o secretário de Saúde do Estado formula outra orientação, e cada prefeitura faz seu protocolo, como no caso da vacinação.
O Governo do Estado decreta o toque de recolher e município desobedece. A covid-19 se alastra em terreno fértil. O povo faz festa e morre aos montes. Nos hospitais faltam vagas, insumos, oxigênio e mais gente tomba. Uns negam a doença, e outros que tudo não passa de politicagem. Agora é a fome que ataca ferozmente.
“UMA BREVE HISTÓRIA DO MUNDO”
OS COMERCIANTES E AS RELIGIÕES”
É uma obra do historiador acadêmico britânico Geoffrey Blainey que vale a pena ser lida pela sua didática e fácil compreensão sobre as origens humanas, as subidas das águas dos oceanos, as viagens dos povos entre os continentes, suas evoluções, as tribos nômades, as religiões, os grandes impérios, entre outros temas de importância para o conhecimento geral.
Nessa nossa coluna semanal de “Encontro com os Livros”, vamos aqui focar o capítulo “O Trio Triunfante” que prefiro intitular de “Os Comerciantes e as Religiões”. Nele o autor destaca que num período de tempo pouco superior a mil anos surgiram Buda, Cristo e Maomé, três religiões universais (o judaísmo em parte era também universal) que cruzaram fronteiras para converter uma grande variedade de terras e povos.
A TRANSIÇÃO DO MEDO
Essas religiões refletiam uma transição de que Deus era um símbolo do medo (assim era visto pelo Antigo Testamento) para uma transição do amor divino. Se formos analisar bem, como assinalou o autor da obra, os comerciantes foram os maiores propagadores dessas religiões. Eles precisavam de um clima de afabilidade onde os acordos pudessem ser honrados.
Os primeiros seguidores de Buda (Sidarta Gautama) eram comerciantes, como o próprio Maomé. Como carpinteiro, Cristo também foi, em parte, um comerciante com seu pai José. O cristianismo foi disseminado pelos judeus comerciantes longe de casa. Além dos negociantes, dois grandes imperadores, Asoka, da Índia, e Constantino, de Roma, foram fundamentais parra o sucesso do budismo e do cristianismo.
Por volta dos anos 900, essas três religiões alcançaram a maior parte do mundo. A mais nova, o islã, muito dependeu dos comerciantes árabes. A mais antiga, o budismo, teve sua maior força na população chinesa. Os monges atravessaram fronteiras da Índia até a Coreia, Japão e a Indochina.
O cristianismo contava mais com o nordeste da África e da Ásia Menor. Somente na Europa ele passou a ser dominante da Irlanda até a Grécia. Fazendo seus negócios, os comerciantes espalhavam as palavras e preparavam os caminhos para os missionários.
No capítulo sobre a Polinésia, o autor fala da Europa e da China que formavam grandes mundos com o tráfego fluindo entre si, enquanto outros povos viviam isolados, principalmente quando eram separados pelo mar. De acordo com ele, em toda história humana houve somente três grandes momentos em que viajantes cruzaram os mares para povoar terras desabitadas.
Um foi há mais de 50 mil anos, da Ásia para a Nova Guiné e Austrália. Outro foi a migração da Ásia para o Alasca, há mais de 20 mil anos, com a lenta ocupação do continente americano devido a obstáculos geográficos. O terceiro momento foi a migração dos povos da Polinésia para uma extensa faixa de ilhas do Oceano Pacífico e Índico.
A CHINA E SEUS INFORTÚNIOS
Quanto as potencialidades da China, que terminou por não aproveitar seus conhecimentos como devia, o historiador destaca a arte da comunicação com a invenção do papel manufaturado e a arte da imprensa, usando sinais gravados em blocos de madeira. Foi o acontecimento mais memorável desde a invenção da escrita.
O livro mais antigo data de 868, o qual serviu para difundir a mensagem do budismo e os preceitos de Confúcio. Todos os candidatos ao serviço público tinham que conhecer. Em 1273 imprimiu-se um livreto para fazendeiros e cultivadores de seda natural. A China possuía os fazendeiros mais capacitados do mundo.
Os chineses eram mestres em projetos de vias marítimas, enquanto os romanos especialistas do aqueduto. A China foi exímia na construção dos canais de embarcações (O Grande Canal da China). Com o enxofre, o salitre e o carvão, descobriu a pólvora, e dominava as técnicas de navegação e construção de navios. Na medicina e na saúde, os chineses foram vigorosos em experimentar novas soluções.
Diz o professor que o maior infortúnio foi que eles, por muito tempo, foram quentes, frios, criativos e letárgicos. Mesmo tendo inventado a bússola, fracassaram no mar porque não tinham o desejo de descobrir o desconhecido. Eram bons cartógrafos, mas seus mapas se resumiam aos seus distritos agrícolas. Os cientistas acreditavam que a terra era plana. Quando eles saiam ao mar, longe de casa, só visitavam portos conhecidos da Ásia e do Oceano Índico.
NOS TAPETES E OUTRAS ARTES NA LUTA PARA VENCER O DESEMPREGO E A COVID
Por cerca de três anos desempregada quando teve seu contrato cancelado pela Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, a professora Vandilza Gonçalves viveu momentos de apreensão à procura de outro trabalho, mas deu a volta por cima e ocupou seu tempo na aprendizagem de uma arte que ocupasse seu tempo e lhe proporcionasse alguma renda.
No início, atuou com coadores de papel de café (a arte da borra do café), pintando paredes, decorando jarros, garrafas e outros objetos que encontrasse, com uma técnica toda especial. Não deu muito certo como geração de alguma renda para, pelo menos, suprir seu desemprego e ganhar algum dinheiro. Então, partiu para realizar alguns cursos de croché, rendas e outras especialidades que dessem mais resultado comercial.
UMA VOLTA POR CIMA
Não é fácil ficar parado sem uma atividade remunerável. O tempo corre e a angústia vai invadindo sua mente por falta de um emprego. Em seu caso, o sentimento de ausência numa sala de aula entre alunos batia forte, mas tinha que vencer mais um obstáculo em sua vida. Foi aí que surgiu a ideia de confeccionar tapetes, souplasts (jogo americano), toalhas e outras utilidades do lar, de forma artesanal com fios e cordões de algodão que são encontrados em armarinhos.
É uma técnica milenar que exige muita paciência e atenção, mas a coisa foi dando certo. Primeiro Vandilza foi anunciando e mostrando, na base do boca-a-boca, seus trabalhos para amigas e parentes. Sua maior surpresa foi a aceitação positiva, com a venda de algumas peças coloridas bordadas. Começou, então, a receber encomendas de outras pessoas de fora.
Seu maior resultado veio quando resolveu colocar suas artes nas redes sociais através do Zap e do Instagram. Surgiram muitos pedidos de conhecidos e outros interessados que se encantaram com os tapetes quando viram suas obras na internet. Nada de emprego como professora, mas suas vendas vão aos poucos suprindo suas necessidades, principalmente nesses tempos de pandemia
O negócio deu tão certo que Vandilza resolveu fazer seu MEI de microempresária no Sebrae, para formalizar seu trabalho como autônoma, pagar seu INSS e ter sua nota fiscal no caso da exigência dela por parte de algum cliente. Com o agravamento da pandemia, seus pedidos caíram, mas a professora não desistiu e continua armando seus tapetes e aproveitando o tempo em que fica em casa se protegendo desse vírus matador.
Como a iniciativa evoluiu, Vandilza está agora programando criar sua própria página na internet para a venda direta por meio do cartão de crédito e até pelo PIX. Tudo está dependendo de uma trégua dessa pandemia, para evoluir seu projeto, mas, enquanto isso, ela não para de confeccionar seus tapetes.
A ARTE DA “BORRA DO CAFÉ”
Outra arte interessante de Vandilza é o aproveitamento de coadores de café, inclusive com o fornecimento do material por outras pessoas amigas. É a chamada arte da “Borra do Café”, que utiliza colas e exige um cuidado para que a montagem não tenha falhas.
Como complemento, ela criou umas pinturas em torno dos coadores que lembram formas rupestres e indígenas dos nossos antepassados. As pessoas sempre se encantam quando se deparam com esses desenhos nas paredes e, dificilmente, conseguem decifrar que elas são feitas da borra do café.
Com esses papéis que são reciclados e até contribui para preservação, do meio ambiente, a professora já pintou várias paredes de cor amarronzada com aparência de pedras montadas umas nas outras. Além disso, os coadores são aproveitados para cobertura de jarros, garrafas e outros objetos. Seu contato pode ser obtido através do Zap 77 99121-7795.
Alguns dos seus produtos podem ser também encontrados no Cesol de Conquista, uma entidade do Governo do Estado, voltada para a economia solidária. O Cesol está localizado no Bairro São Vicente e lá são encontrados trabalhos artesanais de artistas de vários municípios da região.
TODOS CAMINHOS LEVAM A CONQUISTA
Além de ser a terceira maior cidade da Bahia, com cerca de 340 mil habitantes, Vitória da Conquista é a capital da região sudoeste. Em torno dela giram mais de 80 municípios, cuja população circula todos os dias em Conquista vinda de todos lugares através de vans e carros particulares. É o caso de se dizer, que todos os caminhos levam a Conquista, de segunda a sexta-feira, fortalecendo a economia da cidade. Estima-se que circule, diariamente, por Conquista, 50 mil pessoas, e aqui deixam boa parte de suas economias. Uns vêm a negócios, outros para tratamento de saúde; visitar parentes ou filhos estudantes; fazer compras; e resolver outros problemas. Logo cedo as vans vão chegando de Tanhaçú, Ituaçu, Barra da Estiva, Anagé, Barra do Choça, Brumado, Guanambi, Belo Campo, Tremedal, Aracatu, Nossa Senhora do Livramento, Caatiba, Itambé, Itapetinga, Maetinga, Presidente Jânio Quadros e tantos outros municípios. A ausência desse povo da região na cidade causaria um tremendo impacto negativo no comércio e no setor de serviços, principalmente. Poderia se dizer que toda essa gente é uma roda na economia de Conquista. Numa segunda-feira, a população do município mais os circulantes podem atingir até 400 mil habitantes.
PODEM ME CRITICAR
Um dos poemas inéditos do jornalista e escritor Jeremias Macário
Podem me criticar!
Podem me criticar!
Faça sua arte de lá,
Que eu faço a minha de cá,
Cada um com seu estilo,
Ameno, radical ou sarcástico,
Tanto que traça sua parte,
Nessa sociedade de plástico.
Podem me criticar!
Do meu jeito de ver o mar,
De olhar a linha do horizonte,
Sem essa do errado e do certo,
Cada um construindo sua ponte,
Na solidão desse árido deserto,
Com sua forma de pensar.
Podem me criticar!
Sem o seu ódio intolerante,
Que defendo a sua canção,
Não importa o ritmo e a melodia,
Respeite minha pena rasgante,
Cada obra tem seu toque de poesia,
De amor, da cidade ou do sertão.
Podem me criticar!
Sigo a minha estradeira guerreira,
Você segue a sua de lá,
E cada um em seu lugar.
UMA POPULAÇÃO DE BÁRBAROS
Mesmo com toda tecnologia, com a revolução da internet, o nascimento do celular e o avanço da ciência nas viradas dos últimos séculos, infelizmente o Brasil continua sendo um país primitivo.
Tudo isso se acentuou de forma mais aguda a partir de 2019 com o aparecimento dos negacionistas da ciência que estavam em suas locas vivendo no mundo da escuridão. Talvez isso explique o porquê de até hoje eles não acreditarem nem na luz, e de que a terra é redonda.
Temos atualmente uma população de bárbaros e assassinos da aglomeração onde 22%, conforme pesquisa da empresa Data Folha, acham bom o desempenho do capitão-presidente com relação à pandemia que já matou mais de 285 mil pessoas, por culpa de um governo que debocha do vírus e dos próprios brasileiros que lhe elegeram, chamando-os de frescos e chorões.
Diante de toda essa tragédia histórica, da qual faltam palavras para comentar, mais de 30% ainda aprovam seu governo desastroso. Na minha visão, é um dado muito alto, e não estou aqui tratando de linguagem partidária, se de direita, centro, esquerda, comunista ou outra ideologia qualquer.
Nesse quadro tão caótico em que estamos vivendo, com hospitais superlotados e milhares tombando todos os dias, o comportamento de boa parte da população é parecido, e ainda mais atrasado que há 200 anos ou até mesmo se comparado com o da Idade Média dos tempos da Peste Negra.
Há mais de 100 anos, até médicos negaram a existência da Gripe Espanhola que ceifou a vida de mais de 50 milhões de pessoas no mundo, e atingiu em cheio o Rio de Janeiro, se espalhando por todo país. A mesma história se repete com a Covid-19 onde bárbaros se aglomeram, saem sem máscaras e não adotam medidas de higienização.
São esses mesmos bárbaros que atacam jornalistas e veículos de comunicação que defendem o isolamento social, medidas restritivas e clamam para que a população se cuide, uns respeitando os outros no distanciamento. Que povo é esse que ameaça quem procura preservar a vida contra um vírus tão mortal que rouba nosso precioso ar e intuba o paciente numa UTI?
Ainda ontem (terça-feira) no programa do Profissão Repórter, do jornalista Caco Barcellos, vi e ouvi uma idosa confessar, quando saia de um hospital, depois de meses intubada, de que antes de pegar a Covid não acreditava na doença. Precisou entrar no portal da morte para mudar de opinião? Solidariedade é só dar um prato de comida a quem está com fome? Por que tudo isso está acontecendo num Brasil onde se propaga que o povo é solidário[i]? O que mais presenciamos são atitudes de egoísmo e individualismo. Os bárbaros e brutos ainda acham que andar sem máscara é somente um problema dele.
O JOGO MAIS PITORESCO DA HISTÓRIA
Em pleno Nordeste de cabra da peste onde tem mulher macho, sim senhor, o jogo de futebol entre “Pedregulhos” e “Botocudos”, na cidade de Jaracuçu, pela Copa do Brasil, era o mais esperado do ano. Ia ser na ponta da peixeira. Era uma questão de vida ou morte. Aconteceu de tudo.
Quem ganhasse receberia uma boa grana. Uma funerária se posicionou próximo ao campo. Também queria levar a sua parte nesse quinhão. Antes da peleja, os jogadores, os dirigentes e a comissão técnica foram revistados pela polícia. Tinha gente armada. Ninguém nas arquibancadas por causa de uma maldita pandemia que está matando muita gente.
O juiz mijão
Antes da partida foi uma confusão danada para escolher o melhor lado a favor do vento. O juiz já estava nervoso e mijou ali mesmo no árido gramado. Depois de mais de dez minutos, saiu o ponta pé inicial no apito rouco do árbitro. Veio logo a pancadaria dos dois lados. Coisa de soltar torrão.
Era faísca para todo lado. O narrador tinha a voz de rodeio de peão de touro brabo. A bola mais subia que descia ao chão. Coitada da redonda! Aos oito minutos, numa cruzada da esquerda, feita por “Faca Amolada”, no bate-rebate na pequena área, saiu um gol dos visitantes “Botocudos”.
Todos correram para cima do juiz com barrigadas e cabeçadas, mas o tento foi mantido com o reforço dos soldados. Não demorou muito tempo do recomeço e entrou nas quatro linhas um rebanho de bodes famintos da seca para dar umas capadas na grama. Nova parada para retirar os resistentes do Nordeste. Todos invadiram o campo em meio à bodada. O técnico e o presidente dos “Botocudos” xingavam condenando a armação. Tumulto geral!
No 5 X 4 no pau e na tora
Foi uma noite inusitada, e o locutor já estava rouco de tanto gritar. Palavrão pra lá, palavrão pra cá, depois da parada forçada, o “Pedregulhos” logo empatou com uma cabeçada de “De Cabeça Dura”. Não tinha VAR, e tudo era mesmo decidido no grito.
Os gols foram saindo de lá e de cá, e depois de quase duas horas de primeiro tempo, o placar já marcava 4 X 4, com gols de “Caçamba” para “Pedregulhos” e de “Carcará” para o “Botocudos”. Os gandulas se viravam para repor rápido a bola para os donos da casa e sumiam quando era dos adversários.
Quando começou o segundo tempo, num lance claro de impedimento, “Gavião” marcou para o “Pedregulhos”, no pau e na tora e virou o escore para 5 X 4. A essa altura, o juiz não se atrevia a marcar nem pênalti. Era no vale tudo! Não demorou muito, e não se sabe de onde partiu, não é que entrou uma boiada no campo, conduzida pelo berrante de um vaqueiro do sertão! Em seguida veio uma tropa de tropeiros transportando mercadorias do agreste nordestino. Entre engaços e bagaços, meu amigo, uma bagaceira mesmo.
Quando tudo passou, o juiz deu prosseguimento à labuta do fim do mundo. Na escorada de uma bola alta, no empurra-empurra, na trombada para valer, o leão de chácara “Quebradeira”, numa trombada de sair sangue do seu marcador, empatou novamente para o “Botocudos”. É, minha gente, o ambiente já era de guerra, com cinco gols de cada lado.
Água, ambulância e refletores
Com todos os descontos, os minutos estavam correndo para os momentos finais, mas “Jararaca” recebeu uma bola cruzada no alto e entrou rasgando a defesa do inimigo, fazendo um gol para o “Pedregulhos”. Faltavam dez minutos para o juiz encerrar aquela tão pitoresca partida que ficou na história do esporte brasileiro quando começou a jorrar água do sistema de irrigação. Bem que o resto da maltratada grama estava precisando de um refresco.
Nova parada obrigatória até o problema ser resolvido. O “Pedregulhos” não queria mesmo perder aquela parada e tinha que fazer outra armação pra derrubar de vez o “Botocudos”. Numa entrada pesada, um jogador do time da casa foi ao chão e, de imediato, em disparada entrou uma ambulância no campo para socorrer o atleta. Depois que o veículo parou ao lado do campo, ele retornou ao jogo sem nada avisar ao juiz.
A coisa já estava feia mesmo! Os dois técnicos já estavam se esmurrando, e dirigentes entravam no tapa, quando os refletores do estádio se apagaram. A soldadesca teve que baixar o pau e separar os valentões. Mais uma hora de espera. Com quase cinco horas do seu começo, a partida já era a mais demorada de todos os tempos. Já entrava pela madrugada!
Quando as luzes se acenderam, o juiz tentou recomeçar a peleja, mas, naquela altura a equipe do “Botocudos” em protesto se recusou a retornar ao gramado, digo à terra batida porque tudo já tinha ido aos ares. Todos foram parar na delegacia, e o dinheiro da premiação sumiu. Ninguém sabe, ninguém viu. O gato comeu! Assim terminou o jogo mais pitoresco de toda história do futebol. Acredite, isso não é nenhuma ficção!

























