O BRASIL AGE COMO O PAÍS MAIS BURRO DO MUNDO SEM O NOSSO SÃO JOÃO
“Errar é humano, mas persistir no erro é burrice”. Há um ano se dizia que no próximo (2021) nós teríamos os festejos nordestinos do tão sonhado São João, mas por culpa do governo federal, o maior responsável, e do próprio povo, o evento foi cancelado. Repetimos as mesmas coisas de antes. O que mais se ouve é “se Deus quiser”. Como Ele vai ajudar, se você não faz sua parte.
Nesse ritmo do abre e fecha o comércio, das aglomerações, das festas clandestinas e de uma vacinação que dá um passo à frente, enquanto a Covid-19 dá quatro ou cinco adiante, não vamos ter as festas juninas em 2022. Como se vê, o Brasil age como o pais mais burro do mundo que continua cometendo os mesmos erros. Outras nações, não somente as mais desenvolvidas, fizeram diferente e já estão até liberando o não uso das máscaras.
Aqui temos um capitão-presidente que faz tudo ao contrário do que o seu Ministério da Saúde tenta recomendar. Gasta-se milhões com propaganda (bastante atrasada), mas o cara lá de cima desfaz tudo e provoca aglomerações com seus seguidores da morte, para xingar governadores, prefeitos, jornalistas e adversários. Cá embaixo, o povo fica a dizer, “se Deus quiser tudo vai passar”.
Há mais de um que estamos nesse sistema sanfona do abre e fecha. Quando baixa um pouco o número de mortes e reduz o percentual de ocupação dos leitos de UTI, os governantes flexibilizam as medidas e depois volta tudo novamente quando se registra um avanço da doença. Nessa gangorra, não tem economia que se segura, e os informais e os negociantes menores são os que mais sofrem.
Essa “lógica” psicopata e persistente caracteriza total burrice de um país desgovernado, como uma carruagem em disparada num desfiladeiro. Aqui, tudo é incerto, confuso e perdido no tempo. Estamos chegando ao meio do ano com mais de 500 mil mortes, num país de muito choro e lágrimas por uma boa parte da população que perdeu seus entes queridos. Uma outra se refestela nas festas e comemorações, e uma terceira amarga a miséria da fome. Ainda tem a tropa dos negacionistas da ciência.
A grande imprensa tem a sua parcela de culpa nessa burrice. A mídia que faz matérias com especialistas, recomendando cuidados, de acordo com os protocolos científicos, é a mesma que incita, indiretamente, as pessoas a irem às compras em datas festivas, como o Dia das Mães e agora faltando um mês para o São João. As reportagens consumistas, com imagens juninas do passado, por exemplo, incentivam muita gente para corrida aos supermercados e às feiras livres, no intuito de comemorar a data em suas casas, com comidas e bebidas típicas, num ajuntamento de parentes e amigos, sem contar as fogueiras.
Depois das queimas de fogos, todos sabem que vem outra onda do vírus, inclusive com outras cepas mais perigosas em termos de contaminação e mortes. A vacina se arrasta, ou porque são escassas, ou porque tem município que para tudo em final de semana, caso de Vitória da Conquista, cuja Secretaria da Saúde apresenta uma justificativa fajuta de queda na demanda. Assim, São João, São Pedro e Santo Antônio vão ter que ficar desolados.
Nesse nosso Brasil, esse meio de campo está todo embolado e bagunçado, batendo cabeça, e o inimigo dando de goleada. Cada município faz o seu critério de imunização, inclusive com a tal hora marcada que não funciona nesse país atrasado onde milhões não têm internet, e quando se tem, não se consegue agendar porque os aplicativos emperram e os telefones ficam tocando uma musiquinha. Do outro lado, milhares, por insensatez, deixam de tomar a segunda dose.
Assim é o Brasil que insiste em permanecer nos mesmos erros diante de uma pandemia avassaladora. Ele segue no trote com um dos últimos da fila no combate da Covid. Como um país burro, cada abertura das atividades econômicas é seguida de mais um pico de casos e um aumento de mortes, com hospitais superlotados e até falta de insumos médicos e equipamentos.
“A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER” – (Parte I)
Um livro que fala da guerra, mostrando um outro lado desconhecido, não das batalhas heroicas, das vitórias, das estratégias dos grandes generais e dos heróis. É uma obra de sacada jornalística da autora ucraniana Svetlana Aleksiévitch, vencedora o Prêmio Nobel de Literatura de 2015, onde ela entrevista as mulheres russas que participaram da II Guerra Mundial.
Mesmo com a rejeição da editora (aqui no Brasil é da Companhia das Letras), a escritora se manteve em seu propósito de apresentar uma outra face praticamente nunca explorado numa guerra. Essa face é das mulheres com suas cargas de sentimentos, sofrimentos e garras nos campos de batalha. Ela entra também no âmago do ser humano existencial.
Em “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher” estampa cenas e depoimentos chocantes das mulheres, todas jovens adolescentes entre dezesseis e vinte anos, que foram para a linha de frente e resistiram com bravura. Tem também o seu lado de ternura, de muitos choros e até de amor contido. É uma obra que encanta pela sua narração e passagens comoventes, num estilo jornalístico de entrevistas. São mulheres que se transformaram em homens.
“Passei três anos na guerra… E, nesses três anos, não me senti mulher. Meu organismo perdeu a vida. Eu não menstruava, não tinha quase nenhum desejo feminino. E era bonita… Quando meu futuro marido me pediu em casamento… Isso já em Berlim, ao lado do Reichstag… Ele disse: “A guerra acabou. Sobrevivemos. Tivemos sorte. Case comigo”. Eu queria chorar”.
É um dos trechos comoventes do livro, que a editora diz ser impressionante, de uma história pouco conhecida, contada com minucias pelas próprias personagens, incríveis soldadas soviéticas que lutaram com violência, mas sem perder a ternura. Trata-se de “um capítulo obscuro que agora ganha luz do dia e promete trazer novo entendimento sobre um dos eventos mais trágicos da história humana”.
Numa conversa entre a escritora e um historiador, este cita que no século IV a.C, em Atenas e em Esparta, havia mulheres lutando nas tropas gregas. Depois elas participaram das campanhas de Alexandre, o Grande. Segundo o historiador russo Nikolai Karamzin, as eslavas iam para a guerra com seus pais e maridos… no cerco a Constantinopla, em 626.
Na Inglaterra, nos anos de 1560 a 1650, começaram a se formar hospitais militares em que mulheres-soldados serviam. Na I Guerra Mundial, a Inglaterra já aceitava mulheres na Força Aérea Real. Na II Guerra, em muitos países, as mulheres serviam em todas as forças armadas. Nas tropas inglesas eram 225 mil, nas americanas, 450 mil e nas alemãs, 500 mil.
A obra traz narrações de mulheres que prendem o leitor do início ao fim dos depoimentos, como “eu era tão pequena quando fui para o front que, durante a guerra, até cresci um pouco”. “Para nós, a dor é uma arte. Quase do outro lado de lá… Não há por que enganar os outros e enganar a si mesmas”.
Do diário do livro, a escritora afirma que o ser humano é maior que a guerra. Ela mesma diz que não escreveu sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra, “Não estou escrevendo a história de uma guerra, mas a história dos sentimentos, Construo templos a partir de nossos sentimentos… De nossos desejos, decepções. Sonhos. Não se pode arrancar uma flor sem motivos”.
“Os homens se escondem atrás da história, dos fatos, a guerra os encanta como ação e oposição de ideias, diferentes interesses, mas as mulheres são envolvidas pelos sentimentos”. “A guerra delas tem cheiro, cor, o mundo detalhado da existência. E é ainda mais insuportável e angustiante matar, porque a mulher dá a vida”.
Svetlana ressalta em seu livro que “penso no sofrimento como o grau mais alto da informação, diretamente conectado ao mistério da vida. Toda a literatura russa fala disso. Nela se escreveu mais sobre o sofrimento do que sobre o amor. E é a respeito disso que mais me contam… – destaca.
Em uma de suas entrevistas, a autora ouviu de uma ucraniana a respeito da terrível fome: Já não encontravam nem sapos, nem ratos. Tinham comido tudo. Metade das pessoas do povoado dela tinha morrido. Da família, somente ela sobreviveu porque à noite roubava estrume de cavalo do estábulo do colcoz e comia. Melhor congelado, tem cheiro de feno. Quente não entra.
Para editar o livro, ela confessa que passou dois anos recebendo recusas das editoras. “Procuro pelo pequeno grande ser humano”. A escritora descreve sobre o que a censura cortou da sua obra, mas foi mantido na publicação. Narra sobre a conversa que teve com o censor.
Sobre a Grande Guerra, Svetlana fala de situações chocantes e até dos prisioneiros condenados a trabalhos forçados pelo regime sangrento de Stalin, como nesse trecho: “Quando fugiam do campo de trabalho, eles levavam um jovem para isso… A carne humana é comestível… Era assim que se salvavam…
Existia um decreto que dizia que os soldados soviéticos não se rendiam ao inimigo. Como disse o camarada Stalin, não temos prisioneiros, temos traidores. Os rapazes levaram a mão à pistola… O instrutor político ordenou que os jovens ficassem vivos, e ele mesmo se matou com um tiro. São revelações da autora do livro que deveria ficar de fora.
Em 1943, Svetlana narra de uma testemunha que, quando o exército estava avançando pela Bielorrússia, um menino apareceu de algum lugar gritando: Matem minha mãe… Ela amava um alemão. No começo, os alemães desfizeram os colcozes (cooperativas coletivas), deram as terras para as pessoas.
UMA PROFISSÃO QUE AINDA RESISTE
Em meio ao avanço da revolução industrial do século XVIII, da evolução das civilizações, da tecnologia da informação e do mundo virtual, muitas profissões milenares ainda resistem a todas essas mudanças e insistem em continuar vivas. Elas tiveram suas origens em nossos antepassados, cujos netos e bisnetos agora tentam, com dificuldade, transmitir aos seus filhos, mas somente alguns abraçam a atividade. A grande maioria dos jovens parte para outras carreiras que dão mais dinheiro e visibilidade no mercado. São as chamadas profissões em extinção, e a de alfaiate, entre tantas como a de relojoeiro, serralheiro, sapateiro, ferreiro, amolador de tesouras e facas, é uma delas que ainda é procurada em pleno século XXI.
Como em todas outras grandes cidades, em Vitória da Conquista os alfaiates são contados a dedo, como respondeu Divanei “Sansão”, de 53 anos, que desde os treze anos aprendeu a costurar com seu pai Ausírio Correia da Silva, um dos mais antigos que já faleceu. Seu filho Hélio Correia da Silva, de 70 anos, também fez a mesma caminhada do irmão, mas sua irmã tomou outro rumo. Divanei disse que sua mãe também era costureira. Coisa de família, de pai para filho. Há quanto tempo ainda vamos encontrar um alfaiate no comércio para fazer um terno, uma calça, uma camisa, uma jaqueta ou consertar uma peça que não se ajustou no corpo? Essa pergunta é difícil de responder porque essas profissões estão ficando cada vez mais escassas.
Além da anunciada extinção do alfaiate e outras profissões, a sociedade e o mercado em geral não dão mais valor para elas, e a mídia raramente levanta uma matéria sobre este assunto. Só lembramos do alfaiate, por exemplo, quando precisamos de fazer um conserto ou correção numa peça comprada numa loja. Atualmente, poucas pessoas, somente as mais idosas, compram uma “fazenda”, como se falava antigamente, para mandar o seu alfaiate costurar uma calça, um paletó ou uma camisa. Em tempos passados, quando se encontrava muitos deles espalhados pelas cidades, se dizia “o meu alfaiate é muito bom”, e recomendava o profissional para um amigo. Hoje a pergunta é se ainda existe alfaiate, e aonde encontrar um.
POEMA DE AMOR
Poema de autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor,
Mas minha veia é nordestina,
De sangue catingueiro da sina,
Que tenta tecer os fios do amor.
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor,
E eu já te amo do jeito que sou,
Seco como pedregulho sertanejo,
Te vejo no meu eu interior,
Com o coração que ainda tem dor.
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor,
E eu sigo como um viajante,
Errante nas asas do Condor,
Não sou do tipo romântico,
Sou mais fechado lacônico,
Mas também fonte de calor.
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor,
Perdão, não sei fazer poema de amor,
Só sei falar dessa injustiça social,
De tanta gente viver desigual,
Na cidade e no sertão sem cor.
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor,
E peço que não me leve a mal,
Sou assim meio bruto e rude,
Talvez seja um sujeito anormal,
Nascido em outro planeta sideral,
Mas que procura cativar sua flor.
O SUCATEAMENTO DAS UNIVERSIDADES
Como se não bastassem a destruição do meio ambiente, as dificuldades criadas para a não aquisição antecipada das vacinas contra a Covid-19 que já ceifou a vida de mais de 441 milhões de pessoas, a exclusão social das minorias, entre outros atos, como o isolamento do Brasil das outras nações, o capitão-presidente investe agora contra as universidades, com a intenção de acabar com o ensino superior, sucateando suas unidades.
Seu propósito, na verdade, é transformar as universidades num espaço exclusivo para cursos médios técnicos, limitando o conhecimento e o saber apenas para áreas especializadas demandadas pelo mercado empresarial. No seu ponto de vista, as universidades são covis de comunistas, drogados, esquerdistas, subversivos e pervertidos.
Em sua concepção, o slogan “Pátria Amada Brasil” é fazer dela pária para o mundo, porque isso é “bom” no dizer do brucutu do ex-ministro das Relações Exteriores. Gostaria de saber como essa pátria está sendo amada pelos seus filhos com mais de 30 milhões vivendo na miséria e passando fome? Como essa pátria está sendo amada vendo suas florestas sendo derrubadas e queimadas? Como essa pátria está sendo amada sem vacina para imunizar seus filhos?
As universidades estão ameaçadas de fechar suas portas com os cortes de milhões de reais em seus orçamentos, como é o caso da Universidade Federal da Bahia que foi atingida em cheio com a retirada de mais de 30 milhões de reais em relação à sua verba destinada no ano passado. De acordo com o reitor, se for levado em conta a inflação dos últimos anos, essa cifra pode significar uma perda de mais de 100 milhões.
Há poucos dias, a reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro e de outros estados denunciaram a mesma situação. Milhares de bolsas de estudos, ajudas financeiras a estudantes pobres, auxílios alimentação e outros programas foram bloqueados, sem contar os trabalhos de pesquisas que deixaram de ser realizados.
Como uma pátria pode ser amada sem investimentos em pesquisa, tecnologia, conhecimento e saber? O que será dela no futuro próximo? Um país que voltará a viver uma era primitiva? Um Brasil sem intelectuais, sem cientistas, sem pesquisadores, sem cabeças pensantes, um bando de fundamentalistas de extrema direita e de negacionistas da ciência? Na verdade, já estamos nesse caminho macabro.
Queremos uma pátria amada que seja respeitada lá fora, não apenas pelo seu crescimento econômico, pelo seu PIB, pela sua força militar, pelo seu tamanho territorial, pela sua história, mas, sobretudo, pelo seu valioso capital de conhecimento e saber, bem como um povo que preserve o meio ambiente e cuide bem do seu patrimônio cultural.
Os reitores das universidades lançam um forte apelo à toda sociedade para que se mobilize no sentido de que esse quadro de sucateamento seja revertido, e as instituições de ensino superior voltem a ser fonte de vida e alma para o desenvolvimento da pátria. Infelizmente, senhores reitores, a nossa sociedade está inerte, acomodada, egoísta, individualista e insensível.
O país está sendo aos poucos destruído e impera o silêncio dos bons, enquanto os destruidores não tiram férias e instigam contra a nossa nação. Não estamos respondendo à altura para barrar estas e outras barbaridades que já têm uma extensa folha corrida de crimes.
O cara e sua turma chamam os jornalistas de bundões, canalhas, comunistas, idiotas, imbecis, entre outros palavrões, e a classe não responde à altura, no mesmo tom. Está mais para uma categoria morta e passiva que aceita as bofetadas, dando o outro lado para bater.
Não são somente os jornalistas que estão sendo debochados e ridicularizados, mas outros segmentos e profissões. No entanto, as respostas e as reações têm sido tímidas, na base do ôba-ôba, da lengalenga. Não se tem levado a sério para o que vem acontecendo contra o nosso povo, contra a nossa nação e contra as nossas instituições.
Estão querendo acabar com o Congresso Nacional, com o Supremo Tribunal Federal, com a Amazônia, com os indígenas, com as universidades e, simplesmente, nos calamos e nos acovardamos. Como seremos uma pátria amada sem uma democracia, porque até isso eles querem tirar de nós? O que será das novas gerações? Estamos, no mínimo, sendo omissos.
MILHÕES DE SEGUIDORES
A tecnologia da informação poderia ser uma ferramenta para nos tornar mais inteligente, humano e ampliar o nosso conteúdo de conhecimento e saber. Com a lacuna na base educacional, ela criou uma sociedade fútil e imbecil comedora de lixo, sobretudo com o advento das redes sociais que expõem a nossa decadência, ao invés da evolução.
É no mundo virtual que a maioria das pessoas sente a necessidade de se afirmar, de se aparecer, de dizer que existe e de chamar a atenção para gritar: Olhem estou aqui! A maior preocupação é ter “seguidores”, e aí tudo é válido para conseguir mais cliques em seus feitos, não importando a aniquilação da sua personalidade.
A busca incessante e frenética por esses “milhões de seguidores”, mesmo que comprados e emprenhados, resulta numa enxurrada de besteiras de gente que chegam a expor seus corpos como se fossem mercadorias. Nas músicas fanqueiras, pagodeiras, de arrochas e outros estilos de baixo nível, verdadeiros lixos, mulheres e homens se rebolam para conseguir os tais milhões. Mostram as bundas e ficam até nus.
É comum hoje numa entrevista na TV, principalmente, logo de cara o entrevistador perguntar ao criador de vídeos, de memes, de piadas sem graça, de palhaçadas e de startup sobre a quantidades que tem de “seguidores” nas redes sociais. Só conta se tiver milhões, de 10 ou 20 milhões para cima. O cara vale pelo número de seguidores.
Escritor, colunista, vídeos de textos poéticos, trabalhos acadêmicos de professores, músicos de letras que forcem as pessoas a pensar, críticos literários, inventos e outras atividades de cunho filosófico não têm seguidores e não merecem nenhum valor. Passam despercebidos.
Hoje no Brasil temos até seguidores da morte que se aglomeram em bailes funks, paredões, arrochas, pagodes, carros der som e outras festas para ouvir aquelas músicas conhecidos como “batem estacas”. Tem que fazer muito barulho. A tecnologia nos fez retornar aos tempos primitivos e externalizar os instintos mais primitivistas.
Temos seguidores da morte, como agora do MC Kevin que reuniu uma multidão em plena pandemia seu velório e enterro. Temos seguidores da morte que não usam máscaras e não seguem os protocolos recomendados pela ciência como faz o capitão-presidente.
Estamos vivendo numa época dos “milhões de seguidores”, mesmo que sejam falsos e efêmeros. Herói hoje é jogador de futebol e quem angariar mais seguidores no mundo virtual. O seguidor segue as pegadas do seu “ídolo”, como no caso da vencedora do BBB que depois de passar uns meses numa casa cheia de mordomias conseguiu mais de 20 milhões. É a sociedade da bestialidade.
CULTURA NÃO É SÓ MÚSICA
Quem veio primeiro, o verbo ou a música? Dizem que a explosão de uma estrela na criação do mundo permitiu a propagação do som em forma de música, mas a palavra estava lá. A música é tão importante quanto a literatura, talvez esta última mais ainda. Outros que sem letra não existe música, mesmo que ela saia antes da composição.
Na verdade, não deixa de ser pontos de vista de cada um na sua interpretação filosófica. No entanto, essa não é a questão primordial, e a discussão pode ser infinita. O que eu quero mesmo expressar é que a cultura não pode ser resumida apenas na música. Existe uma mentalidade impregnada nas pessoas no conceito de cultura, achando que artista é somente aquele que é cantor e músico.
Essa concepção advém da premissa de que a música tem mais visibilidade do que as outras artes por atingir o maior número de público. Ela é mais fácil de ser captada e atrai muito mais gente do que a literatura, a dança, o teatro, o cinema, as artes plásticas em geral, o artesanato, a oralidade e outras linguagens artísticas.
Aqui em Vitória da Conquista, por exemplo, onde não existe uma política cultural definida, mal ou bem, com raras exceções, só a música tem sido contemplada pela Secretaria de Cultura, principalmente nas festas de São João e Natal. As outras artes são sempre esquecidas, jogadas lá no fundo do baú, e ficam empoeiradas.
Há muito tempo não temos aqui um salão de artes plásticas, um festival de dança, teatro, poesia e audiovisual promovidos pelo poder público em conjunto com o setor privado. Uma cidade do porte de Conquista, a terceira maior da Bahia, com mais de 230 mil habitantes, nunca abrigou uma feira do livro, enquanto outras cidades menores têm realizado com sucesso.
Não estou aqui, de forma alguma, querendo tirar o pão da boca dos músicos por serem os mais beneficiados. Muito pelo contrário, até entendo que é muito pouco o que a Prefeitura Municipal faz pela classe. Só quero afirmar que as outras artes, tanto quanto a música, precisam ganhar seu merecido espaço na cultura.
Essa mentalidade de se trabalhar mais a área musical precisa ser mudada. A literatura, por exemplo, e aqui não estou puxando a sardinha para o meu lado, é a linguagem mais sacrificada, talvez pela grande perda do hábito da leitura e também por ser a menos compreendida pelo público. É a mais difícil de ser entendida.
Digo de mim mesmo que cheguei a publicar meus livros com muito sacrifício e dor, inclusive pensando em desistir no meio do caminho, como foi o caso de “Uma Conquista Cassada”, uma obra de pesquisa que exigiu muito trabalho e poderia ter sido melhor se tivesse tido apoio de recursos de fora. Felizmente, o seu lançamento foi possível graças a ajuda do deputado estadual Jean Fabrício que intermediou sua edição junto à Assembleia Legislativa.
Quanto aos outros, tive que correr atrás pedindo a ajuda de um e de outro para fazer a impressão, sem contar que fui obrigado a colocar dinheiro do meu bolso. Como não sou um Jorge Amado e nem um João Ubaldo da vida, as editoras não têm interesse, e aí o “bicho pega”, como se diz no popular. Por essas e outras, existem hoje muitos talentos engavetados que poderiam até ter virado grandes escritores nacionais.
JOSÉ DE ALENCAR-SUCESSO DE PÚBLICO (Final)
UM ESCRITOR MUITO CRITICADO E POLÊMICO
Como vimos na coluna anterior, além de advogado e escritor romancista, José de Alencar foi também político como deputado e ministro da Justiça. No Rio de Janeiro, como advogado a partir de 1851, Alencar foi convidado pelo seu colega Francisco Otaviano a colaborar no jornal “Correio Mercantil” onde escreveu sobre diversos assuntos numa coluna intitulada “Ao Correr da Pena”.
Como jornalista estreou com sucesso em 1854, tanto que no ano seguinte torna-se redator-chefe do “Diário do Rio de Janeiro” onde publica seus folhetins de fatos variados. Em 1856, o poeta Domingos Gonçalves de Magalhães, que oficialmente lançou o romantismo no Brasil”, com o livro “Suspiros Poéticos e Saudades”, publica o poema “A Confederação dos Tamoios”, sem o consentimento do Imperador D. Pedro II.
CONTRA E A FAVOR
No “Diário do Rio de Janeiro”, Alencar faz uma série de críticas ao poema de Gonçalves, fazendo com que várias pessoas se manifestassem contra e a favor. Um dos defensores foi o próprio imperador com quem Alencar travou vários conflitos. Em 1856, o advogado e jornalista escreve “Biografia do Marquês de Paraná”, “A Constituinte Perante a História” e seu primeiro romance “Cinco Minutos”.
No ano seguinte começa a publicar “A Viuvinha” e logo depois o famoso “ O Guarani” que primeiro apareceu em folhetim no “Diário” e depois virou livro. Foi um total sucesso lido por boa parte do Rio de Janeiro. Os leitores logo se comoveram com os amores entre Ceci e Peri, envolvidos com os perigos dos bugres selvagens.
Em São Paulo os estudantes e demais interessados pela literatura ficavam na expectativa de receber o “Diário do Rio” para ler em voz alta os folhetins de “O Guarani”. O sucesso da obra levou Alencar a experimentar a área teatral e escreve a opereta “Noite de São João” e mais duas comédias “Verso e Reverso” e “O Demônio Familiar”.
Em 1858 ele tenta o drama com a peça “As Asas de um Anjo”, que é proibida pela censura por ser considerada imoral por ter como heroína uma prostituta. Em 1860 estreia o drama “A Mãe”. Logo depois segue para o Ceará onde tenta a carreira política do pai que havia falecido.
Naquele estado nordestino, candidata-se a deputado pelo Partido Conservador e é eleito, deixando um pouco à sua atividade literária. Em 1861 estreia na tribuna como parlamentar e, em 62, escreve “Lucíola”, bem como o primeiro volume “As Minas de Prata”.
No ano de 1864 casa-se com Ana Cochrane da mesma família do Almirante que foi herói da luta pela independência. Nesse mesmo ano, sai a edição de “Diva” e, em três meses, redige os cinco últimos volumes de “As Minas de Prata”. No ano seguinte faz “Iracema”, seu segundo maior sucesso, e no final de 1865 começa a publicação de “Cartas de Erasmo ao Imperador”.
Aos 39 anos de idade, em 1868, Alencar torna-se ministro da Justiça. No mesmo ano o “Correio Mercantil” publica uma carta de Alencar apresentando Castro Alves a Machado de Assis. Em 1869 candidata-se ao Senado e é eleito em primeiro lugar. Deixa o Ministério e retorna à Câmara para fazer oposição ao imperador, que veta seu nome ao Senado.
Sobre os conflitos entre esses dois personagens, Taunay escreve que D. Pedro teria dito ao político e romancista para ele não se apresentar ao Senado por ainda ser moço. Alencar teria respondido: “Por esta razão, Vossa Majestade devia ter devolvido o ato que o declarou maior antes da idade legal”. O veto do imperador encerra a carreira política do escritor.
Com 41 anos ele já se considera velho, mas tenta retomar a literatura, tanto que em 1870 publica “A Pata da Gazela” e o “Gaúcho”, com o pseudônimo de Sênio. Sobre as fortes críticas que recebe redige “Advertência Indispensável Contra Enredeiros e Maldizentes”, incluída no primeiro volume de “Guerra dos Mascates”, uma sátira à personalidade do Império.
Em 1871 publica “O Tronco do Ipê” e, em 72, “Til e Sonhos d´Ouro”. Ele sofre pesadas críticas, mas continua a escrever, tanto que em 1873 nasce “Guerra dos Mascates e Alfarrábios” que reúne: “O Garatuja”, que se passa no Rio colonial, e o “Ermitão da Glória” e “Alma de Lázaro”. No mesmo ano estreia a peça “O Jesuíta” que foi um fracasso de público. Em “O Globo”, Alencar critica a indiferença do público que, segundo ele, tem desinteresse pelo texto nacional.
No mesmo jornal, Joaquim Nabuco faz uma série de artigos sobre a obra de Alencar, criando uma longa polêmica entre os dois. Em 1874 escreve “Ubirajara”, o segundo volume de “Guerra dos Mascates” e “Ao Correr da Pena”. No ano seguinte aparecem “Senhora” e “O Sertanejo”, últimos livros de sua vida até o seu falecimento, em 12 de dezembro de 1877, aos 48 anos, deixando um grande legado para a literatura, sobretudo “O Guarani” que se tornou ópera de autoria de Carlos Gomes, que percorreu meio mundo.
PASSAR O CHAPÉU
Não é nenhuma humilhação o artista, por decisão própria dele, seja qual for a sua linguagem, passar o chapéu em lugares públicos para angariar algum dinheiro para o seu sustento, mas é um grande desrespeito quando se trata de um secretário de Cultura mandar em público que ele faça isso para se virar, quando pouco faz para ajudar aqueles que produzem cultura para o povo. É um atestado que o poder público não tem projetos para amparar e fortalecer a nossa cultura. O próprio rei do baião passou o chapéu nas feiras de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, quando saiu do sertão para lançar suas cantorias e composições no sul. Uma coisa, senhor secretário, é o artista se exibir nos metros de Londres, nas praças de Paris e em outros países europeus. A outra é um secretário, ou ministro da Cultura mandar passar o chapéu. São atitudes diferentes. Na Europa, muitos são de outros países que estão de passagem apresentando seus shows e espetáculos e estão até trabalhando de forma clandestina. Mandar passar o chapéu nada mais é que uma humilhação nessa circunstância específica da fala do secretário. Aliás, senhor secretário, muitos artistas estão atravessando uma situação tão difícil e carente que nem têm dinheiro para comprar um chapéu. Já que a Secretaria quase nada oferece em termos de apoio à classe, e mandou que se passe o chapéu, posso ajudar fazendo uma doação para a pasta, pois possuo uma coleção de mais de 150 peças. Pelo menos a Secretaria entraria com um chapéu para cada um. Como se trata de uma ofensa, creio que os músicos, malabaristas, atores e outros que lidam com a arte não vão aceitar esse desrespeito. Por falar nisso, a OAB está entrando com uma ação judicial contra o desmonte da cultura no país praticado pelo governo federal. O mesmo poderia ser feito com relação a Vitória da Conquista, cuja Prefeitura Municipal abandonou a nossa cultura.
ANDANÇAS
Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário, que leva o mesmo nome do seu livro
Oh quantos feixes de lembranças!
Daquela terra estéril e árida,
De gente sofrida de alma cálida,
A esperar algum agito do vento,
Para farfalhar as folhas da plantação,
Quando nessa travessia do tempo,
Resolvi partir em minhas andanças.
Como viajante dessas histórias,
Fui rasgar todas as divisórias,
Deixei meus pais e o meu amor,
Com lágrimas bateu no peito a dor,
Cortei pelo cemitério dos anjos,
Bem longe vi as meninas de tranças,
E segui com a mochila das andanças.
A noite na roça é fechamento de porta,
Aí fui girar mundo nas andanças,
Passei fome nas esquinas das vidas,
Entrei em muitos becos sem saídas,
Levei rasteiras, tropeços e foras,
Roguei por todas Nossas Senhoras,
Voltei como agrônomo doutor,
Para reanimar essa natureza morta.
As estrelas e a lua voltaram ao cio,
Meu amor me beijou quando me viu,
Do chão criamos filhos e bonanças,
Mas meus pais não resistiram o verão,
E se foram durante minhas andanças.




















