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“FLUXO E REFLUXO” IV

A CARTA DO DESEMBARGADOR E A

DESORDEM NO TRÁFICO NEGREIRO

Entre os séculos XVII e XVIII, o tráfico negreiro na Costa a Sotavento da Mina (Golfo do Benin) sempre transcorreu na maior desordem onde os negociantes da Bahia não se entendiam com o vice-rei e nem com as cortes de Portugal, sem contar os transtornos com os holandeses nas fortificações de Ajudá, os quais cobravam taxas de impostos.

Nessa época, por volta de 1735, o vice-rei Vasco Fernandes César de Menezes, conde de Sabugosa, era substituído por André de Melo e Castro, conde de Galveas. Um ano depois, o Senado queixava-se das taxas impostas pelo comitê de negociantes (Mesa de Negócios) criado treze anos antes.

O todo poderoso, ouvido pelo reino de Portugal era o desembargador Wenceslão Pereira da Silva, oposto às aspirações dos negociantes da Bahia. Ele escreveu um longo parecer para conter as ruínas dos três principais gêneros do comércio, o açúcar, tabaco e a sola.

Em “Fluxo e Refluxo”, Pierre Verger, autor da obra cita que o desembargador destacava dois problemas nesse comércio, um de ordem interne e outro externo. Quanto a este último dizia que procede de grande abatimento e falta de consumo dos três referidos gêneros, especialmente açúcar, que não têm saída por causa das fábricas que os estrangeiros aumentam nas suas colônias.

As lavras de ouro e diamante contribuem de certa parte para a destruição das lavouras e engenhos de cana porque fizeram subir os preços dos escravos e até dos cavalos e bois. Com relação aos cativos, os preços passaram de 40 a 50 mil reis para cerca de 200 mil cada escravo devido ao consumo e saída que tiveram para as minas.

Sobre os males internos, ele apontava a demasia de luxo, venenoso e depravado vício, “nascido de uns negros fumos exalados das oficinas do inferno, que cruelmente infecciona, destrói e consome estes moradores mal morigerados”. Cada um se veste como lhe parece no modo e no excesso do imoderado luxo. O rei D. João V esbanjava luxúria para imitar o seu colega da França, Luiz XIV, tudo às custas do Brasil.

“Não sendo menos intolerável o uso e abuso de cadeiras guarnecidas de ouro e sedas, que são as carruagens da terra, moda introduzida há nove ou dez anos e há pouco permitida a pessoas de inferior condição, no que fazem excessivas despesas”…

Com referência aos holandeses e zelandeses, dizia serem interessados na Companhia da Mina que tem ali estabelecido seu comércio com os negros que são revendidos depois aos portugueses a troco de ouro.

Para combater a desordem no tráfico negreiro, o desembargador sugeria a criação de uma nova Companhia Geral aos moldes do que existe em outros reinos, cujo tráfico e principal emprego será resgatar escravos da África e vendê-los nos portos do mar do Brasil. Como exemplo cita a Companhia Geral do Comércio no ano de 1649, que serviu de tanta utilidade à monarquia.

Acontece que a regulação do mercado era complicada e sempre foi um assunto polêmico porque existiam os mais poderosos que tendiam ao monopólio e não queriam ceder sua parte, como a reserva de apenas 24 embarcações indo da Bahia por esquadras de três em viagem à Costa da Mina, de três em três meses.

Em 1741, esse tráfico passou por um período de desorganização. Caso não encontrasse uma solução, o vice-rei temia que poderia desaparecer completamente. Para ele, a consequência seria a ruína do Brasil que não pode sobreviver sem o trabalho dos cativos. Cada negociante oferecia o maior número de rolos de tabaco por um escravo. Houve várias propostas para reorganizar as bases do tráfico na Costa a Sotavento da Mina, mas sempre eram transgredidas.

 

 

O “CALANGO” AMBULANTE

Ele é sempre visto na Praça Barão do Rio Branco e arredores, no centro da cidade, mas corre bares, restaurantes e outros pontos de movimento, como filas de bancos. Mais conhecido como “Calango”, ele é um vendedor ambulante daqueles que não larga o pé do cliente enquanto não compra alguma de suas bugigangas “importadas”, muitas das quais novidades que não se encontram nas lojas. São muitos anos de lida, cerca de 30 ou mais na batalha da vida que lhe deu sustento à família, inclusive para   educar seus filhos. “Calango” ambulante é daquele empreendedor inventivo que está no sangue do brasileiro que se vira para sobreviver. Sua informalidade vem de anos, tanto que o desemprego não lhe atingiu. Nas datas comemorativas do comércio, como agora no Natal, “Calango” também tem seu faturamento aumentado com seus produtos inusitados que servem de presente. É cabra sabido porque pede um preço alto para depois lhe vender pela metade do pedido. Ali na praça ele é mais conhecido que farinha na feira e tem gente que corta por fora para não ser cercado e cair em sua lábia de vendedor. É uma figura que já se tornou patrimônio e folclore de Conquista.

NUNCA DIGA QUE É NADA

Mais uma recente da lavra do jornalista e escritor Jeremias Macário

Se duvido do sentido do ser,

Pior é viver sem você.

Minha alma chora,

Quando meu mal lhe devora.

Perdão lhe peço, meu amor,

Se minha flecha lhe sangrou.

 

A vida é cheia de cilada,

Mas nunca diga que é nada,

Pelo espelho do outro,

Por achar ser sensacional.

Mire em sua virtude especial,

De transmitir felicidade,

Para os seus da comunidade.

 

Todos com suas frustrações.

Não condene seu destino,

Nem entre em desatino,

Por causa das decepções.

 

Nunca diga que é nada,

Porque uns vivem no luxo,

E você arrasta sua enxada.

 

Olhe para dentro de si,

Do seu nobre sentimental,

Que já fez tanto bem social,

Com seu olhar de amar,

Coisa que nunca vi igual.

 

De espírito criativo,

De energia visceral,

Sem você não mais vivo,

Minha maior amada:

Me julgue como quiser,

Mas nunca diga que é nada.

 

Ainda estou em pé,

Na minha nesga fé,

De peregrino errante,

Com meu pecado repugnante,

E nem me pergunte,

Que nem tenho o saber,

De a mim mesmo responder.

 

Você tem luz que me ilumina,

Ouro reluzente dessa mina;

Esbanja seu sorriso alegre:

Sei disso e não negue,

E ainda diz que não é nada,

Em sua árdua jornada?

 

Nunca diga que é nada,

Porque o nada não existe,

Nesse universo sideral.

Sua própria existência,

De pensar é o sinal,

Pra não dizer ser nada.

UMA FESTA CRISTÃ QUE VIROU PAGÃ

É aquele frenesi maluco de gente nas ruas, lojas e supermercados, num consumismo desenfreado para se comemorar uma festa cristã que se transformou em pagã como nos tempos romanos do deus Júpiter! Natal é sinônimo de se banquetear e se lambuzar ao máximo em comidas e bebidas, como faziam os antigos celtas.

Irônico é que a Igreja Católica Apostólica Romana via naquilo tudo um paganismo que deveria ser extinto diante da nova era do cristianismo. Os séculos se passaram e o que vemos hoje é a tara carnal devorar o espírito, porque o tal Papai Noel dos países nórdicos cheios de neves é mais lembrado do que o Cristo do menino Jesus que nasceu em Belém.

Todos sabem que Jesus não nasceu propriamente no dia 25 de dezembro. Muitos historiadores e especialistas no assunto até apontam que o Messias tenha vindo até mesmo antes da era cristã. A data foi fixada pela Igreja para substituir os festejos pagãos realizados para celebrar as colheitas na passagem do verão para o inverno.

O sentido também era confraternizar, quando todos entravam numa espécie de transe orgístico com muita bebida e comida, não tão diferente do que vemos nos tempos atuais onde todos só pensam em gastar, cada um dentro de suas posses financeiras.

As luxúrias são de proporções desiguais, mas talvez seja o período onde o pobre mais tenta imitar o rico, com a diferença que os pratos da mesa deste último são compostos de importados, como nozes, lentilhas, castanhas, vinhos franceses e outras iguarias estrangeiras.

Sem distinção de classes, além do Feliz Natal, existe uma regra padrão que é comprar um presente, mesmo que tenha que se endividar, deixando a prioridade para depois. Todos entram naquela correria frenética irracional que já está impregnada no subconsciente da pessoa.

Depois entra o final de ano, mais conhecido como réveillon para os ricos, quando a grande maioria, por superstição, se veste de branco e faz promessas de mudanças de vida que pouco acontecem. Nesse baile pagão do Natal e final de ano, milhões ficam de fora para pegar as migalhas jogadas do alto dos sobrados.

Na grande maioria, os planos não vingam e são renovados na próxima data. Ocorre que o tempo é cruel, não perdoa, e o sujeito vai se envelhecendo sem concretizar seus objetivos porque ele nunca deixa de gastar o que não pode.

Nessa de Ano Novo o pobre já está esgotado em suas finanças, mas, mesmo assim, como grande teimoso, encara a parada e compra umas cartilagens de bacalhau e um espumante vagabundo para dizer que é champanhe. Se serve de consolo, no início do ano o pobre fica rico de dívidas, mas ele segue “alegre” e “feliz da vida”.

 

FORA DESSE EIXO DESCARTÁVEL

Confesso que me sinto fora desse eixo enigmático da chamada terra brasis da Vera Cruz ou qualquer outro nome que queiram dar. Às vezes penso comigo mesmo que deveria ter nascido em outra parte desse planeta. Teria sido coisa do destino ou de encarnação espiritual? Sinto-me deslocado e não passo de uma sobra qualquer descartável. Não consigo absorver tantas loucuras!

Agora mesmo o Tribunal Superior Federal julgou o tal do orçamento secreto e foi condenado com aperto de votos a favor e contra. Como conciliar secreto, democracia e transparência? É como colocar um ditador para vigiar a liberdade. São coisas desse Brasil colonial malandro, e assim vamos nos arrastando nesse lamaçal pegando caranguejos nas locas!

Esse meu Brasil anda de ponta a cabeça, fora do eixo quando pais negam vacinas para suas próprias crianças! Como se adaptar a tantas contradições e paradoxos? Alguém aí tem uma resposta para esta pergunta?

O errado se fez certo e o anormal em normal. O verbo não é mais o mesmo verbo. Está desbotado e murcho! Dizem   por aí que o brasileiro é um povo alegre, festeiro e otimista, mesmo vivendo na miséria com cerca de 60 milhões na extrema pobreza! Cada um tem sua chave para ser feliz.

Não se conta mais histórias e estórias para filho dormir, mas se decidir narrar uma comece como de costume “era uma vez uma Operação Lava-Jato”… A criança logo vai adormecer. O desfecho já é conhecido. Experimente passar dez anos fora do Brasil sem receber nenhuma notícia e depois retorne como tivesse se perdido numa floresta! Talvez você pegue logo viagem de volta!

No início dela (Lava-Jato) não se imaginaria que o ex-governador salafrário Sérgio Cabral seria solto, e olha que o cabra confessou suas falcatruas perante um juiz! Tornozeleira, prisão domiciliar, coisa de blábláblá! Não adianta mesmo ficar encafifado e estropiar a mente, nem estragar sua cútis mestiça índia, portuguesa e negra.

Todos ficam contando os próximos feriadões antes de terminar o ano – a mídia é a primeira a anunciar – para curtir, gastar e se endividar. Limpa o nome no Serasa e depois começa tudo de novo. Final de semana é aquela farra total, e o aumento da violência já é sua marca registrada, com acidentes nas estradas, facadas e tiros.

Ninguém quer levar nada a sério, e quem faz isso é um estressado ranzinza. No Brasil foi abolida a pontualidade nos encontros, eventos, reuniões, shows e outras atividades de trabalho.  O indivíduo chega atrasado porque sabe que todos estão atrasados e é assim que deve tocar a banda. O pontual é visto como um babaca fora da curva, chato e desatualizado. A pontualidade começa com mais de uma hora de atraso.

E as aberrações, meus amigos? Alguém deve indagar quais? Os absurdos são toleráveis. Uma ou um deles é o cidadão encontrar uma bolsa cheia de dinheiro e procurar o dono para devolver. Viraliza e se torna noticiário nacional na imprensa.

Uns indagam: Para que ser honesto se lá em cima a maioria rouba e mente descaradamente? Seriedade, honestidade, compromisso com a palavra e meritocracia são espécies em extinção. São como as raras ararinhas azuis nos céus do sertão.

Com as redes sociais bombando, cheias de lixo, besteiras, palhaçadas e imbecilidade, o que conta e pesa são os milhões de seguidores. Quem tem mais leva o troféu. Coitado de quem só tem dois ou três. O negócio já é de 50 milhões para cima.

Coisa de doido, meu amigo! A pessoa esquece de valorizar a si mesma, de procurar saber quem sou e para aonde vou, para seguir mascarados que estão do outro lado da tela ou da linha. O semeador de seguidores, que não é de pensamentos, finge ser o que não é e passa a ser idolatrado. Quanto mais banal, mas gente para clicar.

Às vezes bate um vazio dentro de mim! Não consigo me identificar com esse moderno falso, superficial, bestial e descartável, sem conteúdo e solidez. Me sinto fora desse eixo dos editais burocráticos, dessas reuniões onde todos falam a mesma coisa, repetem, repetem para tudo permanecer no mesmo lugar.

Só o Feliz Natal e Boa Festas para fazer esquecer tudo isso. Nos odiamos em xingamentos e intolerâncias para depois desejarmos um Feliz Natal, que seja sem fome, meu camarada, porque o restante do ano e mais os 350 dias do outro você está ferrado. Estar fora do eixo deve ter suas vantagens.

ENTRE DUAS TAÇAS NO MUNDIAL E A VERGONHA DE UM BRASIL ARCAICO

Em minha modesta visão futebolística, o craque desse mundial foi o francês Mbapé que fez mais de um gol por partida (oito) e ainda foi um guerreiro herói com três tentos na final, mas quem sempre leva os louros é o campeão, no caso o argentino Messi.

No primeiro tempo só deu a Argentina, mas no restante foi a França quem foi lá buscar o prejuízo com toda sua garra, principalmente nos pés do Mbapé. Numa análise racional, sem paixões, deveria haver duas taças onde o vice, com todos seus méritos, receberia também o seu troféu.

Muitos devem considerar isso impossível e um absurdo, mas há muito tempo, que me lembre, não vi uma final tão equilibrada onde a equipe campeã passou um sufoco danado. Outro ponto a levar em conta foram os desfalques preciosos que a França sofreu antes e durante a competição.

Ainda continuo achando que pênaltis é uma questão de sorte na hora de convertê-los. No entanto, há quem não concorde e diga que é também preparo físico e psicológico de quem vai bater. Pode até ser, mas a sorte conta muito. Os deuses do futebol são cruéis e devem ter decidido no par ou ímpar.

O maior responsável é sempre do batedor porque o goleiro não tem a obrigação de defender. Num empate tão empolgante, como foi essa Copa maluca de tantas zebras e desrespeito aos direitos humanos, joga a moeda para cima no cara e coroa!

O Mbapé é e ainda vai ser o maior fenômeno mundial do futebol por já ter sido campeão com 19 anos, em 2018, vice neste ano e artilheiro. Ele vai superar Messi, Maradona e outros craques, embora o “rei” Pelé já esteja consagrado pelos brasileiros com insuperável de todos os tempos e séculos. A mídia já cravou essa sentença.

Ainda menino, uma das Copas que me marcou foi a de 1962, no Chile, com o rei Garrinha que a imprensa nem mais fala dele porque ele se autodestruiu. Que me perdoem os admiradores de Pelé, mas para mim o Garrincha foi o melhor de todos, que jogou um futebol “moleque” e alegre com aquela suingada sem igual.

No mais, com tantas surpresas e ineditismos de uma Copa nas areias ditatoriais do Qatar do petróleo e do gás (terceiro maior do mundo), o Marrocos encantou o planeta por ter sido o primeiro país africano a conquistar o quarto lugar, superando o Brasil do Tite arcaico, que só enfrentou os pernas de paus da América do Sul.

Outro pequeno gigante foi a Croácia, com seu território menor que Sergipe. Deixou o Brasil das dancinhas e dos cabelos pintados de branco de quatro nas quartas. Acredite quem quiser, mas essa pedra já cantava há três anos quando via aquela seleção mediana em campo onde tanto valia seis como meia dúzia.

Os brasileiros, infelizmente de pouca memória, acreditaram ou se deixaram acreditar naquele futebol, o mesmo que em 2018 caiu para a Bélgica. Se afogaram na onda. Com seus gritos estridentes, o Galvão Bueno, da Rede Globo, e seus mosqueteiros intercederam para que o Tite permanecesse à frente da seleção. A CBF acatou e deu no que deu.

Sempre digo que a maioria do torcedor, inclusive com relação ao seu time, se torna cego quando se está ganhando, e ai de quem contestar! Todo erro começou em 2018 quando não se trocou de técnico. Aquelas conversas do Tite nas entrevistas coletivas nunca me convenceram. Para ele, todos eram craques insubstituíveis.

O Brasil monótono só voltará de ser campeão quando acabar essa máfia no futebol, se é que isso será possível. Jogador para ser indicado tem que ir para Europa para valorizar o seu passe e cada um levar suas comissões. Foi ridículo e covarde aquelas dancinhas diante da Coréia do Sul que ainda só aprendeu que a bola é redonda.

Quantos meninos jovens ficaram aqui? Faltou ousadia de empreender, coisa que o Tite nunca teve. Não vou aqui me atear a falar de cada jogador convocado porque não vale a pena. Com pouca exceção do Neymar que já está podre de tanto cair nos gramados, todo o outro elenco é mediano.

 

TORCIDA DRIBLA A CRISE NA ARGENTINA

Carlos González – jornalista

Como os catedráticos em Economia podem explicar a presença de 40 mil torcedores argentinos nas arenas da XXIIª Copa do Mundo? Como os “hermanos” conseguiram driblar uma inflação anual de 100 %, a desvalorização do peso em 380% nos últimos três anos, a proibição de compras parceladas, além de outras medidas de arrocho fiscal impostas pelo governo? Essa crise cruel dos nossos vizinhos tem certa similaridade com a que o brasileiro vem experimentando nos últimos quatro anos, assistindo, sem comida na mesa, o presidente Jair Bolsonaro deixar para seu sucessor um déficit de R$ 400 bilhões nas contas do Tesouro.

Torcedores que estão no Catar relatam o sacrifício que fizeram nos últimos dois anos para poder acompanhar de perto a sua seleção: trabalhando 14 horas por dias, fazendo “bicos”, dirigindo carro de aluguel por aplicativos, cancelando os momentos de lazer e o prazer de estar com os amigos nos bares. Milhares deles estão endividados.

Uma viagem ao Catar para assistir o Mundial, segundo as agências de turismo, sem gastos supérfluos, dormindo em containeres e comendo em fast food, não sai por menos de R$ 8 mil (o valor no peso argentino, mais desvalorizado do que o real, é maior). A FIFA revela que 61.083 portenhos viajaram ao Catar, número que aumentou em função da classificação do time de Messi para a final contra a França. Sem ingressos, apelam para os dirigentes da FIFA, concentrando-se na porta do hotel onde está hospedada a cúpula da entidade.

Nesse quesito, os argentinos foram superados por torcedores dos Estados Unidos, Árábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Inglaterra e México, mas excedendo aficionados de algumas das maiores potências do futebol, como Brasil, França, Alemanha e Espanha, o que significa que o azul e o branco predominarão sobre a França tricolor nas dependências do estádio Lusail, com capacidade para 80 mi pessoas. A semifinal entre Argentina x Croácia, realizada na mesma arena, recebeu 88.966 espectadores, recorde desta Copa.

Com uma nova versão, criada pelo compositor Fernando Romero, a canção “Muchachos” embala jogadores e torcedores argentinos nos estádios do Catar. “Agora nós voltamos a acreditar”, diz um dos versos da música, cuja abertura é a seguinte: “Nasci na Argentina, terra de Diego e Lionel, dos jovens das Malvinas, que jamais esqueceremos”

Numa coletiva de imprensa, Lionel Scaloni, técnico da Argentina, pediu aos torcedores brasileiros que deixassem a rivalidade de lado e torcessem pelos “hermanos”, “o que seria muito bom para o futebol sul-americano, que está em desvantagem perante os europeus em títulos mundiais” – 9 a 12. Scaloni confessou ser “um fanático pelo Brasil”, mencionando como seus amigos Mauro Silva, Djalminha, Donato e Flávio Conceição, seus companheiros no Deportivo La Coruña, campeão espanhol na temporada 1999-2000.

Brasil e Marrocos

“Estou arrasado psicologicamente”, repetia Neymar, sentado no gramado, após a eliminação do Brasil nas quartas de final da Copa do Mundo. Suas lágrimas foram vistas  pelos torcedores brasileiros como de crocodilo, o animal que chora quando está se alimentando. Beneficiado pelo presidente Jair Bolsonaro, com o perdão de uma dívida com a Receita de R$ 80 milhões, Neymar foi o último a deixar a concentração, viajando para São Paulo onde promoveu uma festa na mansão de sua irmã Rafaella, onde os convidados deixavam o celular na entrada.

Apontado como o principal culpado pela desclassificação, o técnico Tite desembarcou no Rio onde foi preparar a mudança para a cobertura comprada em São Conrado , avaliada em R$ 12 milhões. Sem ter declarado seu voto para presidente, Tite foi alvo dos “pregadores do mal”, sendo chamado de comunista pelos bolsonaristas.

Vários méritos podem ser atribuídos à surpreendente seleção do Marrocos. Um deles é a de reunir condições de ganhar o terceiro lugar numa competição que reuniu algumas das melhores equipes do mundo. Primeiro país africano a chegar a semifinal de uma Copa, Marrocos conquistou a simpatia do mundo futebolístico, engrandecendo um país que raramente aparece no noticiário global.

Protetorado francês em 1942, o Marrocos foi apresentado ao mundo através do cinema. Sucesso de bilheteria por várias décadas – hoje encontrado nas plataformas de streaming, como a Netflix e o Youtube – o filme “Casablanca”, dirigido por Michael Curtiz e estrelado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, deu projeção àquela que nunca deixou de ser a mais badalada cidade marroquina.

 

 

“FLUXO E REFLUXO” III

“Reações Provocadas na Bahia pelas dificuldades Encontradas para Traficar na Costa da Mina”.

As negociações dos traficantes negreiros baianos na Costa da Mina (Golfo do Benin) sempre foram complicadas entre os séculos XVII e XVIII por causa das interferências dos holandeses que viviam em guerra contra Portugal, cujo reino recomendava o comércio com Cabo Verde, Gabão e Angola.

Em “Fluxo e Refluxos”, obra do fotógrafo e etnólogo Pierre Verger, esses pontos estão bem figurados em suas pesquisas que demoraram 20 anos. Em um de seus capítulos ele assinala que “com o desenvolvimento do tráfico negreiro na Costa a Sotavento da Mina multiplicavam-se as dificuldades e incidentes entre os navios da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais e os dos negociantes da Bahia”.

Por causa do tabaco de qualidade inferior e depois do ouro contrabandeado no início do século XVIII, a Bahia preferia os negros da Costa da Mina, mesmo com as apreensões de cargas e fiscalizações impostas pelos holandeses, sem contar os preços exorbitantes dos cativos.

Acontece que os negros da Costa da Mina eram mais procurados para as minas e os engenhos de açúcar do que os de Angola, pela facilidade com que estes morrem e se suicidam. Os primeiros eram mais rebeldes e de difícil tratamento, mas conhecedores e hábeis no trabalho de exploração do ouro.

A rivalidade entre os negociantes de Lisboa e os da Bahia continuou sem grandes mudanças até 1720, quando da chegada de Vasco Fernandes César de Menezes, na qualidade de trigésimo nono governador e quarto vice-rei do Brasil. No início de sua regência de quinze anos, ele favoreceu as iniciativas dos negociantes da Bahia contra os de Lisboa, mas ocorreram muitos imbróglios.

Um dos problemas que o vice-rei teve que enfrentar foi com o capitão de mar e guerra Joseph de Torres, um astuto, ardiloso e contrabandista de ouro para Costa da Mina, desviando recursos do reino de Portugal. Ele foi autorizado a construir um forte em Ajudá (fortaleza cesárea) e terminou criando relações conflituosas com os holandeses (Castelo de São Jorge da Mina) e os ingleses. Os métodos usados por Torres nunca foram legais.

O Joseph de Torres chegou a ser preso e sumiu por uns tempos, mas retornou pelos anos 1730 como delator dos contrabandistas para fazer média e se aproximar das autoridades do reino de Portugal, inclusive do vice-rei. Ele foi acusado de ter cometido diversas fraudes no comércio na Costa da Mina. Na verdade, era um grande sonegador dos direitos em impostos dos portugueses.

Em 1723, com apoio do vice-rei Vasco de Menezes, foi fundada a Mesa do Bem Comum dos Homens de Negócio da Bahia, uma espécie de comitê de câmara de comércio. Seis meses depois foi criada, em Lisboa, a Companhia do Corisco.

Conservavam-se as duas tendências, a de Lisboa que queria fazer o tráfico com Cabo Verde e Gabão, e a Bahia com a Costa da Mina. Por causa dessa Companhia aconteceram diversos incidentes na Costa da Mina entre holandeses (Companhia Holandesa das Índias Ocidentais) e portugueses.

Os negros de Angola, como já foi dito antes, não servem para o trabalho das minas, mas somente como domésticos, para acompanhar as pessoas do Estado de Minas como lacaios – dizia o vice-rei em desacordo com as posições de Lisboa.

De acordo com ele, era impossível impedir o transporte de negros da Costa da Mina, apesar de serem resolutos e temerários, e recomendava precauções e disciplina com as etnias dessa região. Em seguida vamos acompanhar as intrigas entre o governador de Minas Gerais e o vice-rei Vasco de Menezes, bem como a ingratidão de Joseph de Torres.

ACAMPAMENTOS DOS BOZÓS

Não dá mesmo para entender que há mais de um mês das eleições os acampamentos dos “bozonaristas” continuem lá em frente do Tiro de Guerra de Vitória da Conquista em protesto contra o resultado do pleito para presidente no segundo turno! Além de ser uma aberração, os barracões de lonas passam uma péssima imagem para a praça onde estão as estátuas do artista Cajaíba. O mais incrível é que a Prefeitura Municipal, as autoridades (Justiça) e a polícia militar não tomam nenhuma providência para desocupar a área. Caso fossem moradores de rua, há muito tempo já teriam sido expulsos dali na base da força, a ponta pés e no cassetete. Os acampamentos têm até estrutura de um carro de som, mesas, materiais de propaganda e sanitários públicos. Quem financia toda essa presepada? Até quando esses “sebastionistas” palhaços vão permanecer exibindo aquele espetáculo dantesco? Certamente estão esperando que o sargento do Tiro de Guerra saia com seus soldados reservistas e marchem com eles até Brasília para fechar o Congresso Nacional, o Tribunal Superior Federal, derrubar o presidente eleito e decretar o golpe militar, conforme pregam. Não passam de um bando de malucos e imbecis que continuam atentando contra a democracia. Isso não é crime? A coisa ficou tão bestial que ninguém dá mais importância e nem fazem comentários. Para não dizer trágica, aquela cena dos acampamentos é cômica e hilária, com um aspecto de feiura para Conquista. É uma coisa inacreditável! Só vendo para crer! A que ponto chegam o extremismo e o radicalismo! Mais parece movimento do MST ou dos sem teto. Só está faltando uma bandeira vermelha, mas essa cor é comunista. A mídia nem divulga mais nada. Imagine a doutrinação à lá talibã! Serão mesmo patriotas? Sem mais comentários.

ALMA SECA

Um dos trechos do Livro II da obra “Airyl”, de Luis Altério, pseudônimo de Luis Filipe da Silva, Edições Uesb – prêmio professora Zélia Saldanha – Poesia:

Nada amarga mais que doce utilidade do carme.

Avanço a pleitear contenção…

Os glúteos amam o assento áspero,

Trespassa de feixes luzentes a laje fria,

Derrete o vínculo dial na escrivaninha e

Tomando desses elos a liberdade

Espargindo cada uma das partes do todo.

Todo o desaire mofo com pompa

(sacudido no estendal farpado)

Ostenta lapela de trato fino.

< fino quilate na arruinada peneira.

A picareta mole contentado,

Preconiza bebedeiras e mulheres

Nas ruas de luxilo,

Grão diamantífero em punhado escanifrado,

Sua dama de regresso à cubata

Equilibrava pequena cápsula

(dez kwanzas de óleo alimentar),

Os filhos debaixo da frondosa mangueira

Sortidos nas mínguas da terra batida

(que pela arraiada requestaram no capim ratos

Colhidos pelos seus engenhosos ardis) e juntos

Pingo dilatado e à vez de iguaria grossa e indelicada

Cevam sopa de rato e funge de mandioca.

A picareta mole ruma ao dundo

Deixando as margens do rio migigi,

Dançando na lâmina vil do mercado negro>

Agora desfeita a quimera,

No cárcere sonha com o cascalho

Coado com a arruinada peneira

Luis Altério nasceu na França e foi para Portugal com a família quando tinha seis anos. Hoje reside em Vitória da Conquista.





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