O QUE SERÁ DO CINE MADRIGAL?
Lá está aquele imponente prédio na rua Ernesto Dantas há cerca de 15 anos fechado sendo desgastado pelo tempo. Ali tem história quando bons filmes atraíram milhares de moradores conquistenses. Guarda lembranças na mente de muita gente, namorados, casais, jovens, professores, intelectuais e gente do nosso povo. Eu mesmo estive lá por várias vezes assistindo boas películas.
Foi o último dos cinemas de rua de Vitória da Conquista. Como se diz no popular, o último dos moicanos. Quando encerrou suas atividades por causa da onda da internet, dos DVDs e fitas cassetes, a Igreja Universal – se não me engano – tentou compra o prédio, mas não deu certo.
Depois de muito discutir, a Prefeitura Municipal, entre os anos 2015/16, no governo de Guilherme Menezes, adquiriu o antigo Cine Madrigal por cerca de um milhão e 100 mil reais, barato pela sua estrutura e localização. Foi utilizado o dinheiro do Tesoura, isto é, do povo, e passado para a gestão da Secretaria de Educação.
São sete anos sem ser utilizado, coisas da Bahia e do nosso Brasil. A intenção do governo passado era transformar o antigo Madrigal num cineteatro, conforme garantiu o secretário de Educação da época, Valdemir Dias, hoje vereador. Até o momento nada aconteceu e lá está o elefante branco.
Quando de uma audiência do Conselho Municipal de Cultura, a prefeita Sheila Lemos explicou que o propósito era reativar o Cine Madrigal, mas antes tem que ser realizadas obras de reforma interna e externa de acessibilidade de modo a atender as exigências do Corpo de Bombeiros e do Conselho de Engenharia e Arquitetura.
Estamos sabendo que já existe um projeto de licitação para fazer os devidos reparos visando a abertura de suas instalações. No entanto, fica a pergunta, inclusive dos artistas em geral e da população sobre a sua utilização. Vai ser mesmo um cine teatro, ou apenas mais um estabelecimento de uso da Secretaria de Educação para reuniões, oficinas de capacitação e local de eventos de formatura? É isso que toda sociedade está querendo saber.
Existe a discussão de que haja uma gestão compartilhada entre a Educação e a Cultura através das duas secretarias, mas até o momento pouco se sabe e se anuncia sobre o assunto. O poder público tem a obrigação de informar e dar uma satisfação, mesmo porque é recurso do contribuinte. A Câmara de Vereadores também precisa se pronunciar e entrar nesse debate.
Com a interdição do Teatro Carlos Jheová, na Praça 10 de Novembro, os artistas em geral, músicos, as artes cênicas e outras linguagens ficaram sem local para realizar seus ensaios e eventos. Estão indo, com sacrifícios para outros locais, como o Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima que pertence ao estado.
O antigo Cine Madrigal seria o ideal para atender a demanda, mas a nossa cultura, infelizmente, está órfã de pai e mães. Anda aí pelas ruas como uma mendiga maltrapilha com a cuia na mão pedindo esmolas. Todos passam e poucos dão alguma atenção jogando umas moedinhas em seu prato.
Queremos uma posição sobre este e outros equipamentos culturais, como a Casa Glauber Rocha que também se encontra fechada a mercê do tempo que não perdoa no quesito desgaste e destruição do nosso patrimônio histórico, na verdade, um resto que ainda está de pé. Tende misericórdia de nós, oh Senhor!
O NORDESTE NÃO É CURRAL DO SUL
BASTA DO POVO NORDESTINO SER TRATADO COMO COISA INFERIOR QUE PODE SER DESCARTADO!
Os extremistas de direita nazifascistas do Sul têm o desejo de transformar o Nordeste num holocausto e sempre menosprezam nosso povo com xingamentos e até com expressões assassinas de que todo nordestino deveria ser morto.
Isto ocorre, principalmente, em épocas de eleições quando a região vota ao contrário de suas ideias burguesas, como agora com a onda de áudios malditos e raivosos nas redes sociais, tratando o Nordeste como se fosse uma escória do país que merece ser varrido do Brasil.
Quero apenas dizer a esses imbecis retrógrados e amantes do retrocesso saídos da era medieval, ou para ser mais recente, do nazismo hitlerista, que sinto muito orgulho de ser sertanejo catingueiro nordestino, e não somos currais desses escravocratas. Se no Brasil as leis fossem severas para punir com rigor esses xenófobos, esses elementos bandidos e bandidas deveriam ir para a cadeia.
Estão circulando mensagens de ódio porque o Nordeste deu maioria ao candidato do PT. Não se trata apenas de uma questão política, mas de uma barbárie praticada por indivíduos do Sul onde mais cresce a ideologia nazista de supremacia da raça. Entendem eles que os nordestinos devem ser extintos.
Esquecem esses radicais conservadores que numa “guerra” de expressões culturais, de ideias, de escritores, poetas, cancioneiros, compositores, repentistas, músicos e pensadores, o Nordeste escorraça todos eles e ainda ganhamos nas tradições populares.
Não somos só bons no facão, na foice e na peixeira, mas também na coragem, na resistência, no trabalho, no caráter e na força da palavra. Somos fortes, e todo nordestino já nasce lutador com espirito de vencer, mesmo diante de tantas adversidades, inclusive das climáticas e da própria exploração do Sul.
Existe sim uma grande desigualdade regional secular e ela foi criada desde o período imperial, o qual se submetia ao patronato dos senhores do café e do comércio. Na República, o quadro continuou o mesmo onde os governantes tiraram recursos do Nordeste para despejar no Sul, especialmente enquanto perdurou a política do café com leite.
Quando o grande planejador economista Celso Furtado idealizou a Sudene (Superintendência de Desenvolvimento Regional) muitos sulistas foram contra. Outros até aproveitaram das facilidades dadas através da liberação de impostos para passar o calote e não implantar as empresas previstas nos contratos.
De forma direta e indireta, o Sul cresceu às custas do Nordeste quando serviu da sua mão-de-obra e utilizou do seu poder de barganha para desviar verbas da região. Como a elite rica capitalista que não quer ver o pobre melhorar de vida, o Sul sempre teve o mesmo comportamento com relação ao Nordeste.
Qual moral tem esses meliantes de ameaçar a matança de nordestino quando eles próprios destruíram o seu meio ambiente e definharam suas terras com plantios de soja e milho e depois vieram para nossos cerrados da Bahia (região Barreiras), do Piauí e Maranhão explorar nossos solos?
Eles estão aqui utilizando nossas águas, nosso chão, secando nossos rios com suas barragens e escravizando nosso trabalhador para lucrar com a exportação de grãos para China e outros países. A bancada ruralista xenófoba no Congresso Nacional é formada por qual região, ou quais?
Quem mais recebe dinheiro com juros subsidiados do governo federal, através dos bancos oficiais, para depois derrubar e queimar florestas para plantar soja e criar bois? Como jornalista acompanhei a criação do Polo Petroquímico de Camaçari, na Bahia, e os cargos de diretoria e chefias foram ocupados pelos sulistas.
Os nossos governantes do Nordeste, tanto de direita como de esquerda, têm grande parcela de culpa quando aceitam isentar impostos (ICMS) por dez ou mais anos a indústrias sulistas em troca de umas migalhas de empregos com salários mais baixos que os operários de suas matrizes.
Um exemplo disso são as fábricas de sapatos, tecidos e tênis que são instaladas em nossa região, inclusive com doações de terrenos. Esses empresários do Sul usam o tempo em que o imposto é liberado e depois fecham as portas deixando os trabalhadores na amargura. Depois levantam acampamento e vão para outro lugar utilizando dos mesmos métodos.
As lojas Avan do fascista fazem o mesmo nos municípios onde chegam, se apropriando da isenção do ISS. É o dinheiro do povo sofrido do Nordeste que alimenta esses sanguessugas que depois desprezam os nordestinos e os trata como se fossem inferiores e um bando de imprestáveis que merecem ser mortos.
É A EXTREMA INVADINDO O BRASIL
Não sou nenhum profeta, cientista político, sociólogo, historiador ou coisa assim, mas há anos, por mais de dez, venho dizendo que a extrema direita ia invadir o Brasil, principalmente quando começou a crescer a participação dos conservadores evangélicos em pleitos políticos.
Não somente isso, mas o cenário assim se apresentava quando o PT começou a se desviar de seus princípios e se aliar à grande elite burguesa. Outro fator foi o crescimento contínuo das bancadas conservadoras no Congresso Nacional, sem contar que o nosso povo traz em sua história cultural um DNA do atraso.
Sobre o resultado das eleições, o professor de história e cientista político, Chico Carlos, fez uma previsão sombria do que vai acontecer a curto prazo no Brasil. Disse ele que em todo seu tempo de ofício nunca esperava um avanço tão acelerado da barbárie.
Em seu ponto de vista, não se trata de mudar o povo, mas transformá-lo através do investimento na educação. “Mais violento são os anos de fascismo que se abaterão sobre o Brasil. As florestas e os biomas Amazonas e Pantanal serão destruídos”.
Ele prossegue afirmando que os índios serão abandonados e depois declarados extintos pelo Bolsonaro. A cultura irá se transformar em programas de auditórios pelos cruéis conservadores, e as universidades em escolas para disseminar a ideologia do fascismo.
É muito triste desenhar esse quadro, mas é a verdade. Alguém do PSOL comentou que essa situação é uma tragédia e que a direita se enraizou em todos estados. As eleições acabaram de comprovar essa catástrofe a começar pelo número de senadores e governadores eleitos. O Bozó segue forte para o segundo turno.
Em minha humilde opinião, ficou registrado que aquele ódio de 2018 contra o PT ainda persiste. O partido se mantém em seu orgulho prepotente de não pedir desculpas pelos erros do passado. Nas majoritárias não aceita ser vice numa chapa. Quase ninguém entrou nessa campanha olhando o bem do Brasil, mas apenas com sede no poder, como se os meios justificassem o fim.
O Geraldo Alkmin, vice de Lula, não transferiu votos como se imaginava. Ao contrário, milhares de seus eleitores migraram para o Bozó. Em São Paulo, o Haddad é tão pesado junto ao eleitorado que ficou atrás do candidato do capitão-presidente, enquanto o Boulos, do PSOL, que deveria ser o nome a disputar o governo, conseguiu mais de um milhão de votos para o Senado.
Os quadros do PT estão ficando enferrujados e, mesmo assim, não faz um acordo onde não seja o cabeça de chapa. Além do mais, esqueceu suas bases populares e suas origens quando foi fundado. Passou do tempo de outros partidos da esquerda se unirem com um discurso sério e ações firmes de coerência ideológica que ficaram lá atrás. Como resgatar a confiança, sem dividir?
É angustiante ver essa extrema negacionista, arcaica, medieval, fascista e nazista avançar em nosso território. Por que tudo isso está ocorrendo? É hora de refletir, analisar, reconhecer os erros e tomar outras atitudes.
Temos hoje um Brasil cada vez mais inculto e com uma população ainda mais fácil de ser manipulada. Não dá para entender como um maluco psicopata, totalmente apagado como parlamentar, com ideias fascistas e totalitárias, sai da Câmara e faz todo esse estrago.
Lamentavelmente, o nosso país já está praticamente nas mãos desses extremistas. Vamos ter mais quatro anos de inferno? Esse segundo turno é incerto e tudo depende das alianças dos eleitores de Simone e Ciro, o qual está muito ressentido.
Essa polarização serviu mais ainda para dividir a nação com dois projetos bem opostos. Muita gente acreditou numa vitória no primeiro turno. Uns chegam a falar que o povo não acorda, mas, na verdade é produto desse sistema que eles (políticos) e nós mesmo criamos.
Mesmo com tanta desgraça em vários aspectos da vida brasileira, como depredação do meio ambiente (desmantelamento dos órgãos de fiscalização e liberação para derrubar floresta e grilar), invasão de terras indígenas pelos garimpeiros, discriminação racial e de gênero, misoginia, raiva contra jornalistas, relações péssimas no exterior, apoios a uma ditadura e tantos outros absurdos, o capitão conseguiu 45% dos votos.
Ser socialista sempre foi uma tarefa difícil, principalmente quando se está numa democracia burguesa onde elege Damares, Mourão, Marcos Pontes, Sérgio Mouro e tantos outros do mesmo naipe. Está na hora de toda esquerda fazer uma revisão, ser mais coerente e conquistar a confiança perdida do povo.
UM DEBATE DANTESCO E MENTIROSO
O povo já não aguenta mais as propagandas eleitorais, da forma como elas são expostas, nas emissoras de rádio e televisão, nem dos formatos dos debates. Eles viraram motivos de chacotas e piadas. São todos enfadonhos, e a maioria das pessoas desligam essas mídias.
O debate de sexta-feira na Globo foi um exemplo claro de como esses programas eleitorais perderam a credibilidade. Não decidem mais votos, nem dos indecisos. O “padre” Kelmon foi o destaque com aquela figura dantesca como se estivesse ressurgindo das sombras da inquisição da Idade Média.
Sempre disse que o capitão-presidente era imbatível em termos de pensamentos retrógrados, anacrônicos e ações de retrocesso. No debate de sexta descobri que me enganei, tendo em vista que o “padre” laranja superou o seu mandante a se candidatar a presidente. Com aquela indumentária esquisita, ele chamou a atenção do Brasil.
Outro fato de destaque foi a avalanche de mentiras propaladas pelos dois pretendentes ao cargo que estão na ponta das pesquisas. Nesse embate, o Bozó ganhou com larga vantagem do seu adversário. Como disse num de meus versos, ele mente descaradamente.
O mais hilário de tudo isso foi a cena do “padre” impostor lado a lado com seu aliado capitão discutindo políticas culturais. O “sacerdote” fez uma pregação dos “bons costumes morais” dos tempos da inquisição, condenando as peças teatrais de nudez e tantas outras que não rezam em sua cartilha. Só rindo para não chorar!
Coitada da nossa cultura, tão pisoteada e maltratada! O capitão em tudo concordava com que dizia o “padre” e acrescentava mais outras asneiras. Falaram de pátria, família, Cristo, catequese com as crianças nas escolas e tradição, mas nada de cultura. Aliás, temos que admitir que é a cultura deles. Sobre o tal debate vergonhoso, nada mais a comentar.
A ESCRAVIDÃO NA PRÓPRIA ÁFRICA
“No passado, nós pensávamos que era da vontade de Deus que os negros deveriam ser escravos dos brancos. Os brancos primeiro nos disseram que era para vender escravos para eles e nós vendemos. Agora, dizem que não devemos mais vender. Se os brancos pararem de comprar, os negros vão parar de vender”.
Isto foi o que o chefe africano, obi Assai, de Aboh, reino situado no delta do rio Níger, disse a uma comissão britânica que o visitou em 1841. Ele não conseguia entender por que até poucas décadas antes os europeus faziam todos os esforços para obter cativos na região e, de repente, haviam decidido parar com as compras.
O jornalista e escritor da trilogia “Escravidão”, Laurentino Gomes, em suas pesquisas, constatou que os chefes africanos achavam comum que seus próprios povos e prisioneiros de guerra de outras etnias e reinos se tornassem cativos. Muitos venderam príncipes e rainhas que eram seus rivais para o Novo Mundo.
Mesmo com as proibições do tráfico negreiro pelos britânicos, por Portugal e o Brasil, em 1831 e 1850, o comércio continuou clandestino e aumentou a procura por escravos na própria África. A escravidão, na verdade, era a atividade mais lucrativa para os dois lados e prosperava a troca de mercadorias, como tecidos, cachaça do Brasil, tabaco e outros utensílios.
A Costas da Mina (Golfo do Benin, no trecho entre o Togo e a Nigéria) era tão importante no tráfico de escravos que os principais chefes de estado a reconhecer a Independência do Brasil eram dessa região, conforme destacou Laurentino. O gesto, de acordo com ele, aconteceu mediante uma embaixada enviada ao Rio de Janeiro, em 1824, pelo ologum Osinlokun, rei de Onim, atual cidade de Lagos, na Nigéria.
Sobre o estranhamento da proibição do tráfico, o governador de Angola, Adrião Acácio da Silveira, em 1849, fez o mesmo comentário sobre as pressões dos ingleses pelo fim do comércio. Ele disse que, enquanto houver quem compre escravos, há de haver quem os venda. o pensamento tem semelhanças com o que ocorre atualmente no Brasil com relação ao tráfico de drogas. O reino do Daomé era uma das peças centrais dessa lógica escravista. O próprio reio Guezo (Benin) recusou-se a assinar, em 1848, um tratado sob o argumento de que a proibição seria o mesmo que mudar a maneira de sentir do seu povo.
O forte de São Batista de Ajudá (Benin) onde Francisco Felix de Souza, o maior traficante baiano, se estabeleceu após chegar à África, foi erguido pelos portugueses em 1721 para proteger o tráfico negreiro na Costa da Mina. Em 1727, o reino Hueda, do qual Ajudá fazia parte, seria invadido e devastado pelos exércitos de Agaja, um soberano implacável e perverso. Os derrotados eram vendidos como escravos.
O ENCANTADO
Por que as pessoas de um modo geral ficam encantadas com o pôr-do-sol? Em meu entendimento porque acalma o ser humano e o faz refletir sobre a vida que nos tempos atuais é tão corrida em busca da sobrevivência e da solução dos problemas. O pôr-do-sol tranquiliza o espírito como se fosse um encantado e nos faz pensar sobre os mistérios do universo. Transmite paz, amor e esperança de que depois do pôr-do-sol virá o alvorecer, o nascer de novo. Além do mais, um pôr-do-sol é sempre diferente do outro, dependendo do local onde a pessoa esteja colocado e em que ponto ele se despede do dia para dar passagem à noite. É reflexão e meditação. Ele faz você dar um mergulho em si mesmo, sem contar que é poesia e canção.
CULTURA! CULTURA!
Alguém aí ouviu eu falar cultura?
Dizem ser essa economia criativa;
O homem arrastando enxada,
Papo da comadre e do compadre,
Cantoria no mutirão do adjutório,
A pegada da parteira,
A folha benta da rezadeira,
Os versos do Assaré Patativa,
A batida do martelo na noite calada,
O som do violino e do violoncelo,
Boiada e foice cortando roçado.
Cultura! Cultura!
Um banquinho, voz e violão,
Pena imaginativa da literatura,
A vida no campo ou na cidade,
Vênia do súdito à sua majestade,
Luta pela liberdade de expressão.
Cultura! Cultura!
Está em tudo que se faz,
Na lida atrás daquele monte,
Onde o índio faz sua dança;
É água da primeira fonte,
Mergulhar no desconhecido,
Transgredir o “proibido proibir”,
Dar sentido à sua andança.
Cultura! Cultura!
Maracatu, Congo, Ternos de Reis,
Canção, violar, forrozar e sambar;
Embolada de nó, sarau e repente;
Cordel nas feiras do varal;
Inventar uma nota de três;
Ser sal e aceitar o diferente;
Viajar pelos mistérios do Além Mar.
Cultura! Cultura!
É o Baobá do africano,
A gameleira do baiano,
O atabaque no terreiro do orixá,
A tradição do cigano,
A arte do escrever e pintar,
E zelar da terra e do mar.
Cultura! Cultura!
Luz, lente, cinema e imagem;
Está na batida da palha do feijão;
Ternura, bravura e razão.
Cultura! Cultura!
Está no canto da poesia,
Nos editais da burocracia,
Nos relatórios e falatórios,
Na fome do conhecer,
No maldito corte da censura,
No saber traçar sua travessia,
Sou eu, o outro e você.
UNS TÊM E OUTROS NÃO…
“Não sei, só sei que foi assim” – é como diz o personagem Chicó (se não me engano agora) na peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, para explicar os causos mirabolantes e estranhos contados por ele no sertão nordestino. Tudo é mistério, tudo é confusão!
Na dialética da vida, enquanto uns nascem outros morrem, e não se sabe ao certo sobre esse outro lado do além de que tanto falam. Cada religião externa sua filosofia própria sobre o sobrenatural. Poucos com tantos e outros sem nada a viver na pobreza e na miséria.
Existe uma razão lógica? Todos são diferentes. Sem essa de iguais. Isso soa a uma tremenda demagogia. Igual só se for na morte. Muita gente a guerrear nos campos de batalhas, na maioria das vezes pelo poder e domínio de territórios. Outros lutam pela paz e pelo amor.
É assim que a roda gira nesse viver passageiro do planeta terra de cerca de oito bilhões de habitantes, cada qual em suas delimitadas fronteiras de muros, postos de vigilância com guardas de fuzis e metralhadoras nas mãos ou arame farpado.
Na cultura zoroastrista e cristã, uns vão para o céu e outros para o inferno. Somente o Supremo é eterno, como nos foi ensinado desde criança na catequese. Todos já foram vítimas de algum tipo de lavagem cerebral. Existe o Deus e o diabo, o bem e o mal que muitas vezes fazem os pactos, principalmente na política, para alcançar o fim depois do início e do meio.
Na luta de classes, sempre o capital e o trabalho viveram se digladiando, cada um com suas armas, mesmo antes de Engls e Marx que atiçaram as consciências políticas e fizeram revoluções. O capitalismo levou a melhor, mas ainda há esperança do socialismo voltar.
Uns sobem e outros descem nessa multidão como carreiros de formigas, numa corrida frenética pelo dinheiro, até mesmo o mendigo da esquina. É a chamada luta pela vida, de um tentando engolir o outro. Não pense que está livre desse emaranhado.
Uns colhem espinhos e dores, outros rosas e flores. Existem os privilegiados e os considerados “amaldiçoados”. Tem aqueles em plena fartura e os que seguem a fila do osso para fazer um escaldado para matar a fome.
Uns a gozar de plena saúde, enquanto outros sofrem com doenças crônicas e exóticas sem cura, na dependência de medicamentos contínuos. Uns em luxuosos hospitais e outros em unidades precárias e sujas, muitas vezes sem médicos.
O escritor poderia dizer que tudo isso faz parte da crônica da vida. É porque é assim mesmo. O filósofo apelaria para a metafísica e os enigmas do ser para explicar o inexplicável. Alguém indaga a Deus do porquê dos casebres pendurados nos morros e favelas e as mansões luxuosas banhadas a ouro e prata cheias de grades e seguranças?
Uns passam a vida a discutir ideologia. Tem o político e o eleitor, a ditadura e a democracia, a tirania e a ternura, o pobre e o rico, o analfabeto e o doutor, o matuto e o “civilizado”. Uns pintam, esculpem e outros fazem poesia. Tem o cancioneiro, o palco e a plateia para lhe aplaudir. Uns choram e outros vivem a sorrir.
Uns governam e outros são governados. Tem os reis, os súditos e os vassalos, os vencidos e os vencedores. Uns têm pátria e outros não. O andarilho não tem pouso, mas tem o espírito livre e o desapego pelo material. Uns na solidão e outros não. Tem a tristeza e a alegria. Tem a felicidade, embora não plena, e os infelizes. Uns têm e outros não…
A INTERVENÇÃO MILITAR E A AMEAÇA À DEMOCRACIA: DOIS CABOS ELEITORAIS
O ontem não é o mesmo do hoje e nem o amanhã, mas a coerência e a ética devem ser. Estou falando das movimentações da política brasileira através dos longos anos, cujas mudanças de posições registradas pela história nos deixam confusos e estarrecidos com os conluios, acordos e apoios que antes seriam imagináveis.
Essas alianças poderiam ser até anormais em tempos remotos quando as pessoas tinham mais caráter e pudor. Hoje perderam a vergonha e, com a cara mais limpa, dizem simplesmente que tudo faz parte da política. A questão não está em você rever seus conceitos, o que é natural e aceitável, contanto que isso seja feito longe dos oportunismos e desvios de conduta.
Na verdade, fiz um certo atalho só para lembrar que na eleição de 2018 foi o ódio raivoso ao PT que elegeu um monstro psicopata para a presidência da República. Nesta de 2022 foram o medo de uma intervenção militar e a ameaça à democracia os principais cabos eleitorais que vão trazer o partido de volta ao poder.
Foram essas duas questões que mais mobilizaram o país nos últimos dias, a começar pelos manifestos suprapartidários de intelectuais, artistas, professores, líderes sindicais e dos estudantes ocorridos na Universidade de São Paulo que deram o tom da arrancada para derrubar o capitão-presidente, nem tanto seus palavrões e desprezo pelos negros, as mulheres, jornalistas e os grupos LGBT.
As incoerências partidárias não contam mais quando o eleitor vai à urna, mesmo porque a maioria não tem memória e acha tudo normal na hora da escolha. Ninguém lembra, ou não dá importância, por exemplo, que foi Dilma quem deu indulto de Natal ao maluco do Roberto Jefferson.
O Bozó deu o perdão ao deputado nazista Daniel Silveira que ameaçou ministros do Supremo Tribunal Federal, inclusive de fechar a corte, sem contar suas ofensas à democracia em campanhas pela intervenção militar, ou seja, a volta da ditadura pelas forças armadas. Gostaria de saber qual o pior dos dois entre o Jefferson e o Silveira?
Quem diria, por exemplo, que o ministro Joaquim Barbosa, o carrasco do PT no mensalão no início dos anos 2000, um dia fosse apoiar Lula? Pelo menos se houvesse certa coerência, não seria o momento dele ficar calado? Onde fica o povo que louvava e aplaudia o Barbosa nas ruas naquela época? O povo sempre foi massa de manobra, iludido pela esperança de trocar a cachorrada.
O grande erro do capitão-presidente, sem citar aqui milhares de outros, como genocida, foi se juntar aos extremistas nazifascistas para se colocar contra a democracia e a favor de uma ditadura, negando que ela tenha existido. Foi o que mais pesou na balança no julgamento da nação, que não levou também em consideração o passado de contradições nos ajuntamentos.
Muitas vezes procuramos enganar a nós mesmos para dar luz às trevas quando queremos defender a nossa “convicção” de que estamos certos na decisão, mesmo sendo contraditórios. Talvez não passe de um velho de discurso atrasado por estar esmiuçando essa besteira de ética e coerência.
Nunca conseguiremos construir uma verdadeira revolução socialista fazendo coligações com essa elite burguesa nojenta que impede o pobre de crescer na vida e sair da miséria. Não consigo imaginar, por exemplo, o Geraldo Alkmin enrolado numa bandeira vermelha da CUT, do MST ou de qualquer outra agremiação de esquerda. Na Bahia, João Leão, carlista desde criancinha, sempre teve DNA de direita. O mesmo acontece com o Otto Alencar.
O POLÍTICO SE BENEFICIA DO FUTEBOL
Carlos González – jornalista
A política, representada pela Bancada da Bola no Congresso Nacional, e o futebol, traduzido na sua entidade máxima, a CBF, celebraram um casamento, com finalidade lucrativa, onde os “nubentes” juraram mútua fidelidade. João Havelange (1916-2016), o mais longevo dos “cartolas”, foi o responsável pela abertura de um canal com os poderes Executivo e Legislativo, independente do viés ideológico dos seus interlocutores.
Sem consulta ao técnico Tite, que não deseja ser recepcionado por Jair Bolsonaro, antes ou após a Copa do Qatar, o deputado José Rocha (União Brasil-BA) e mais 10 membros do Centrão, vão acompanhar os treinamentos da Seleção, “porque nosso futebol precisa recuperar sua liderança no mundo”, argumenta o ex-presidente do Vitória, repetindo constantemente que ninguém vai ao Qatar com dinheiro público e nem sugerir a escalação do jogador “A” ou “B”.
Cumprindo o sexto mandato, Rocha aderiu à Bancada da Bola, que teve como maior preocupação abafar a corrupção na CBF,- a instalação de uma CPI ficou só no papel -, comprovada pela justiça norte-americana e pela FIFA. Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero foram banidos do futebol; Rogério Caboclo foi destituído do cargo por assédio sexual.
A impunidade dos “cartolas” era trocada por financiamentos das campanhas eleitorais, com recursos destinados a candidatos e partidos políticos. Recompensas menores se traduziam em viagens ao exterior para assistir jogos da Seleção, ingressos para camarotes nos estádios e as tradicionais camisas do time brasileiro personalizadas.
Primeira investida
A primeira investida da classe política no futebol ocorreu em 1950. Na onda do “já ganhou”, políticos de todos os matizes, inclusive os presidenciáveis Eduardo Gomes (1896-1981) e Cristiano Machado (1893-1953), acorreram a São Januário, onde a Seleção Brasileira estava concentrada. Os discursos inflamados exerceram um efeito negativo sobre os atletas. O resultado, todos já sabem. Ausente da festa antecipada, Getúlio Vargas (1882-1954) venceu as eleições em outubro daquele ano.
A mais flagrante interferência de um governo na Seleção aconteceu em 1970, em plena ditadura militar – o AI-5 já estava em plena vigência. O general-presidente de plantão Garrastazu Médice (1905-1985) interferiu na comissão técnica, substituindo o treinador João Saldanha (1917-1990), um jornalista comunista, no conceito da ditadura, pelo bicampeão Zagallo, além de convocar o atacante Dario.
Estimulada pela marchinha “Pra frente, Brasil”, as “Feras do Saldanha” conquistaram o tri mundial. Anos mais tarde, Carlos Alberto e Tostão, craques daquele notável time, admitiram que ignoravam os atos de repressão nos porões da ditadura. Em São Paulo, o governador Paulo Maluf, um ardiloso político, hoje cumprindo pena em prisão domiciliar, comprou 24 Fuscas, com dinheiro público, para presentear os jogadores.
Com exceção do título de 70, os quatro outros conquistados pelo Brasil não foram flagrantemente explorados politicamente pelos chefes do Executivo. Os bicampeões de 58 e 62 foram recebidos em palácio, respectivamente, pelos presidentes Juscelino Kubitschek (1902-1976) e João Goulart (1919-1976). A mesma estatura moral tiveram Itamar Franco (1930-2011) e Fernando Henrique Cardoso, na recepção aos campeões de 94 e 02.
Lula e Bolsonaro
A chegada de um novo século revelou que os ocupantes do Alvorada viam o futebol – Dilma Rousseff e Michel Temer, nem tanto – com outra perspectiva. Ao tomar posse em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva imaginou que no degrau mais alto do pódio o Brasil alcançaria um lugar relevante no concerto das nações. O empenho do seu governo, somado ao suborno pelo COB a dirigentes africanos, resultaram na vinda da Copa de 2014 e nas Olimpíadas de 2016, para alegria das empreiteiras, que construíram 12 arenas – a FIFA limita em 10 -, a maioria superfaturada.
Torcedor do Corinthians, Lula solicitou de Emílio Odebrecht a construção de um estádio para seu clube, para receber a partida inaugural do Mundial de 14, em substituição ao Morumbi, que fora, estranhamente, vetado pela FIFA. O Itaquerão, construído em tempo recorde – um poleiro foi instalado na véspera da inauguração para atender a capacidade de 45 mil pessoas. – custou R$ 1,1 bi. Aquela Copa será lembrada pelo torcedor brasileiro pelos 7 a 1 da Alemanha.
Depois de três décadas de repouso no Congresso, como membro do baixo clero, Jair Bolsonaro chegou à Presidência da República ressaltando seu amor ao Palmeiras. Ao notar que seu índice de rejeição estava aumentando, o ex-capitão usou as cores do futebol como elemento político. Nos constantes passeios de jet ski, motos e aeronaves da FAB, enquanto milhares de brasileiros morriam de covid, por falta de vacinas, Bolsonaro posou com as camisas dos mais populares clubes brasileiros, inclusive a do Corinthians, arqui-inimigo do Palmeiras. Fotografado no Lago Paranoá com a camisa do Bahia, provocou protestos da direção e das torcidas organizadas do clube baiano.
Na Bahia
O ex-presidente do Vitória, Alex Portela, se queixou certa vez que o Bahia tinha livre trânsito nos gabinetes dos políticos do Estado. Esqueceu o dirigente que seu clube praticamente não gastou nem um cruzado (moeda da época) na construção do Barradão. O terreno em Canabrava e os serviços de terraplenagem foram presenteados pelos prefeitos de Salvador, Clériston Andrade (1925-1982) e Renan Baleeiro (1930-2014). O governador João Durval Carneiro – o Vitória era presidido por José Rocha – autorizou a construção, a pedido de seu sogro Manoel Barradas (1906-1994), que dá nome ao estádio.
Na Bahia, o futebol foi o trampolim para “cartolas” e jogadores ascenderem à carreira política, com o apoio dos torcedores. Vereador e deputado, Osório Villas Boas (1914-1999) foi o todo poderoso do Bahia nas décadas de 50 e 60; seu afilhado Paulo Maracajá trilhou o mesmo caminho, assim como Marcelo Guimarães (pai e filho); líder do movimento que acabou com a ditadura do Bahia em 2013, Fernando Schmidt (1944-2020) foi ministro, secretário de estado e vereador.
Ídolo das torcidas do Bahia e Vitória, o zagueiro e advogado Roberto Rebouças (1939-1994) ocupou uma cadeira na Câmara de Vereadores de Salvador; Bobô, campeão brasileiro de 88 pelo Bahia, busca um novo mandato como deputado, nas eleições do dia 2.
















