UMA VISITA À FAZENDA CALDEIRÃOZINHO
Foi como entrar no fundo do túnel e reviver os tempos de menino criança quando plantei e capinei feijão, milho e mandioca com meu pai durante os anos mais difíceis, principalmente nas épocas de seca em que quebrava coquinho de ouricuri e fazia paçoca para matar a fome.
Da mandioca fazíamos farinha e beijus com ajuda da minha mãe e nos sábados na madrugada era pequeno tropeiro na terra de chão batido, com lamas nas chuvas, tocando jumentos com cargas dos produtos da roça até a feira de Piritiba. Era uma labuta diária e dura para termos o pão que nos alimentava.
Lembro ainda menino naquela roça na localidade conhecida até hoje como “Caldeirãozinho” que há mais de 40 anos não o visitava, o que veio acontecer somente agora nessa viagem de retorno de Juazeiro quando passei por Piritiba onde aprendi as primeiras letras no Colégio Almirante Barroso.
Foram muitas as recordações e histórias que me deixaram emocionado, como do pequeno açude “Caldeirãozinho” onde tomava banho todas as semanas. Ali aprendi a ser trabalhador honesto e enfrentar os desafios da vida com meu pai, inclusive cuidando de um arrozal contra a invasão de passarinhos.
A visita me trouxe uma carga de outras lembranças, como das prosas dos compadres nas bocas das noites com bules de café, dos adjutórios, das cantorias nas batidas de feijão, das idas aos domingos no distrito de Andaraí passando pelo povoado da Tabela e quando parti para estudar em Amargosa no seminário de padres Nossa Senhora do Bom Conselho.
Foi muito prazeroso tomar uma gelada com minha esposa Vandilza na Tabela, no bar do Betão, onde encontrei gente que conheceu meu pai naqueles velhos tempos. Revelaram que nunca viram uma pessoa trabalhar tanto, ao ponto de fazer serviços de dois homens numa roda de ralar mandioca. Ele mesmo fazia sozinho a casa de farinha.
Seu Denga disse sorrindo e brincando que ele ganhava para seu “Lunga” nas tiradas diretas quando lhe perguntavam o óbvio. Era um “casca dura” no bom sentido, mas homem de palavra e de bom coração.
Cismado e direto quando tinha de falar com alguém, mesmo que fosse seu amigo, às vezes ficava tempos sem falar com alguém até se aproximar novamente da pessoa, sem rancor e mágoas. Lembro quando me dizia com firmeza para ir estudar e não ficar como ele puxando o cabo da enxada, como um ignorante.
A estrada continua a mesma, mas muitas casas desapareceram como a de seu Antônio Barbosa que uma vez, por descuido ou barbeiragem, atropelou minha mãe num fusquinha. Ficou preocupado com a reação do meu pai que não era brincadeira.
De toda viagem de Vitória da Conquista para Juazeiro e no retorno, foi o local que há anos planejava ir para reviver minhas verdadeiras raízes e origens. Posso até afirmar que foi o “Caldeirãozinho” que me deu régua e compasso para ser o que sou hoje.
CAPELINHA DA TABELA, EM PIRITIBA


















