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“FLUXO E REFLUXO” V

Costa a Sotavento da Mina: O tráfico em Ajudá (Uidá)

Os primeiros navegadores, os portugueses, fundaram o castelo de São Jorge da Mina, em 1482, na Costa da Mina. Mais tarde Portugal ficou sob domínio da coroa da Espanha, de 1580 a 1640. No século XVII os holandeses se apoderaram de Pernambuco e das ilhas de São Tomé e Príncipe, bem como de Angola e do castelo, em 1637.

Com essa intervenção holandesa, conforme cita o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger em sua clássica obra “Fluxo e Refluxo”, Portugal perdeu o monopólio do comércio na costa da África. Por mais de um século, o tráfico negreiro dos negociantes baianos, principalmente, viveu períodos de desordens e intrigas, sem falar no contrabando do ouro, subornos e conflitos.

Somente no final do século XVII o comércio na Costa da Mina se desenvolveu com a Bahia. Segundo Verger, o estatuto das nações europeias era diferente na Costa do Ouro e na Costa a Sotavento (Golfo do Benin).

Na Costa do Ouro, elas estavam fortemente entrincheiradas em fortalezas construídas à beira mar, sólidas para resistir aos assaltos dos chefes indígenas ou das embarcações piratas.  Os europeus dominavam o mercado local e proibiam o acesso aos navios das nações estrangeiras, caso de Portugal.

No entanto, na Costa da Mina, as fortificações em Uidá se situavam no interior das terras, sendo incapazes de resistir por muito tempo aos ataques das autoridades indígenas (reinos que sempre viviam em guerras).

Em “Fluxo e Refluxo” o autor destaca que havia ao longo da costa uma série de pequenos reinos que guerreavam uns contra os outros, especialmente na Costa da Mina. O reino de Ardra, por exemplo, controlava os caminhos desde o interior. Podia bloquear quando bem quisesse e cortar o abastecimento de escravos em benefício do seu porto. Por sua vez, esse reino era submisso ao seu vizinho Oyó, ou Ulcumy, que era grande inimigo do rei de Daomé.

Como a situação era vexatória e o comércio desorganizado por causa das intervenções holandesas que obrigavam que baianos e portugueses negociassem com eles no castelo de São Jorge pagando um tributo de dez por cento, desde 1680 Portugal tentava construir um forte em Uidá, mas sem sucesso.

Por volta de 1698 as desordens prosseguiam na costa em virtude dos conflitos entre os reinos que impediam que o tráfico fluísse. A situação dos portugueses era delicada e desconfortável depois da tomada do castelo de São Jorge pelos holandeses.

Os descendentes dos antigos comerciantes que viviam na costa serviam de intermediários para o fornecimento de escravos às embarcações do tráfico do Brasil e das diversas nações europeias.

No entanto, muitas vezes o comércio se invertia e as trocas ocorriam com os ingleses, franceses e holandeses que tinham interesses em negociar com tabaco e ouro que no Brasil levava para a Costa da Mina de forma clandestina.

As autoridades, como os vice-reis, governadores, o Conselho Ultramarino e os comitês (Mesas de Negócios da Bahia) tentavam estabelecer regras, mas eram violadas pelos próprios negociantes e donos de navios onde cada um procurava realizar seu negócio.

Essa falta de ordem e má conduta dos portugueses terminavam arruinando o comércio e elevando os preços dos escravos que já eram escassos por causa das guerras. Para ter cativos de qualidade, capitães de navios chegavam a pagar o dobro do preço.

Existia até uma rivalidade entre Lisboa e a Bahia pelo controle do comércio na costa da África. Os negociantes da Bahia se recusavam a buscar escravos em outras regiões, como recomendava Portugal.

Na tentativa de resolver o problema, o vice-rei do Brasil, Vasco Fernandes César de Menezes autorizou, em 1721, o capitão Joseph de Torres a construir um forte em Uidá (Ajudá), só que tempos depois foi destruído nas guerras. O próprio capitão tinha fama de trapaceiro e chegou a ser preso pelo reino de Portugal. O projeto não deu os resultados esperados.

 

MONUMENTO AOS PRESOS POLÍTICOS

Está na Praça Tancredo Neves. Muitos passam por lá, mas não sabem o que representa aquela escultura que, inclusive, serviu de ilustração para a capa da minha obra “Uma Conquista Cassada – cerco e fuzil na cidade do frio”. Trata-se de uma homenagem aos presos políticos baianos que tombaram durante a ditadura civil-militar de 1964. Na lista, a conquistense Dinaelza Coqueiro que lutou na Guerrilha do Araguaia. Nessa época, o monumento está todo iluminado, e a imagem é justamente de uma pessoa que se rende à brutalidade do regime dos generais que durou quase 30 anos no Brasil. Vitória da Conquista também esteve no roteiro das prisões em maio de 1964 quando o prefeito Pedral Sampaio, eleito democraticamente em 1962, foi cassado do seu cargo pelas tropas do exército. Perdeu seus direitos políticos por 20 anos. Toda essa história é contada no livro “Uma Conquista Cassada”, do escritor Jeremias Macário. O monumento é uma homenagem aos que lutaram pela democracia. Infelizmente, a nossa juventude pouco sabe sobre esse período. O pior é que muitos nem acreditam que aconteceu, principalmente nestes últimos quatro anos de um governo negacionista que tentou apagar nossa memória, mas isso nunca irá acontecer.

VIOLEIRO VIAJANTE

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Pelo meu canto de tocador,

Um dia meu pai,

Me chamou de vagabundo.

Botei minha viola na sacola,

Gastando sola, girando mundo,

Com meu pranto profundo.

 

Do Oiapoque ao Chuí,

Chorei nas motosserras Amazonas;

Naveguei pelos rios das chalanas,

Entre fumaças do Pantanal,

Onde o homem destila seu mal,

Contra a fauna e a flora,

Manda embora o tuiuiú e a sucuri.

 

Como violeiro viajante,

Fiz um tour,

Pela cultura gaúcha do Sul;

Bebi das maiores fontes,

Nas terras do meu Nordeste,

Dos cancioneiros cabras da peste.

 

Como violeiro viajante,

Cortei pontes, estradas e montes,

Pelos canais dos festivais,

Desses rincões nacionais,

Espalhei minhas mensagens,

Nessas longas viagens.

 

 

 

 

TEM UM NERO INCENDIÁRIO NA CIDADE

Primeiro foi o Atacadão, depois a garagem da Novo Horizonte e agora a Loja Havan, do bolsonarista Luciano Hang, que pegaram fogo e viraram cinzas.  Minha intuição diz que tem um Nero incendiário rondando Vitória da Conquista, ou então o espírito dele que saiu lá de Roma para vagar por aqui.

Coisas misteriosas! Fui averiguar com meu antigo faro jornalístico, não tão bem apurado como nos velhos tempos. É a idade, meu amigo! Aliás, pelo que eu saiba, esses incêndios de grandes proporções em ricos estabelecimentos ainda não foram esclarecidos pelos peritos militares e o Corpo de Bombeiros que neste ano usou muita água e equipamentos para apagar as chamas.

Em primeira mão, como furo de reportagem, consegui entrevistar esse Nero incendiário (pediu para usar máscara para não ser reconhecido) e me afiançou que vem outros por aí, mas que vai deixar para o próximo ano que já está batendo na porta.

Adiantou, porém, que está ganhando uma grana boa para fazer isso, só não revelou o mandante, senão vai secar a fonte. Sua festa de final de ano vai ser boa e gorda! Certamente vai celebrar com muito fogos no réveillon da Boca do Rio, em Salvador, ou em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Esse Nero também toca sua lira quando sobem as labaredas, mas do seu esconderijo que ele não é besta de ser apanhado. O cabra fica mais delirante e eufórico quando a notícia nos blogs e redes socais correm mais rápido que rastilho de pólvora, sem contar os curiosos desocupados que se amontoam em frente dos incêndios, com o fumacê a invadir os céus de Conquista.

Pelo menos por um dia as pessoas esquecem dos acampamentos dos estúpidos irracionais “bozoristas” e até que o Lula vai tomar posse nesse domingo, coisa que eles ainda não acreditam. A esperança deles é pelo retorno de D. Sebastião, vindo das areias marroquinas, para decretar a intervenção militar.

Pelo menos Nero está conseguindo distrair os radicais extremistas e, por algumas horas, os opostos param de se odiar e xingar uns aos outros, mas ele disse que a intenção dele é outra, longe dessa política malvada. Vai e vem e ele está sempre falando em muito dinheiro rolando por aí. Será uma forma de lavagem através do fogo, ou queima de arquivos?

Em uma conversa descontraída, deixou transparecer que existe uma ponta de concorrência nesses atos, por isso que os setores são diversificados entre alimentos e bebidas, empresa de ônibus e o comércio de roupas, confecções e móveis. A única coisa que o Nero se incomoda é com a natureza que termina recebendo essa carga tóxica no ar, mas acrescentou que não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos.

Pelo menos o incendiário tem procurado fazer tudo com cuidado que se requer de um bom especialista, no sentido de evitar mortes humanas, mas solta uma risada quando afirma que está dando muito trabalho aos bombeiros que não conseguem conter as labaredas.

A ideia, segundo ele, é essa mesma, queimar tudo, sem deixar rastro, ou pistas. Indagado se pretende colocar a culpa em alguma religião, como católicos ou evangélicos, respondeu que eu estava especulando e querendo saber demais. No entanto, contou outras coisas que não posso citar aqui por questão de ética profissional.

UM ESTADO ASSISTENCIALISTA QUE TRAVA O DESENVOLVIMENTO SOCIAL

Ninguém de bom senso é contra a urgência de matar a fome de mais de 30 milhões de brasileiros e dar comida a todos três vezes por dia, mas esse Estado de assistencialismo indefinido está a travar o desenvolvimento de uma sociedade mais igualitária onde todos tenham seu sustento com o trabalho do seu suor.

A situação tomou tais proporções que o Brasil está se tornando um país inviável em termos de crescimento econômico sustentável e não de altos e baixos de ciclos variáveis como virou comum. Esse quadro vem se arrastando e se agravando há séculos quando se deixou de priorizar a educação.

Chegamos ao ponto crítico onde mais de 100 bilhões de reais estão sendo carreados para tirar a nação do mapa da fome, quando essa montanha de recursos poderia estar sendo investida no ensino de qualidade, na saúde e no saneamento básico.

Mesmo de barriga cheia, todo esse contingente de famintos não vai deixar de ser pobre e miserável em seus barracos como pessoa humana. Esses milhões vão permanecer analfabetos ou semianalfabetos sem instrução para ingressar no mercado de trabalho.

Seus filhos, de um modo geral, vão deixar de receber uma educação integral porque vai faltar recursos suficientes no Estado para aplicar massivamente no setor e reduzir as desigualdades tão profundas. Sem dúvida, esses bilhões de reais vão circular no comércio de supermercados e lojas, apenas engrossando a concentração da riqueza em poucas mãos.

Pode até criar mais empregos, mas não para esses pobres que já não têm capacidade para atender as exigências das empresas por uma mão-de-obra mais qualificada. A classe média mais baixa que luta para elevar seu nível será a mais afetada. É o caso do cobertor curto que cobre a cabeça e deixa os pés desprotegidos.

Tudo é uma questão sociológica que deveria ter sido resolvida com a primeira Constituição de 1823, logo após a Independência do Brasil, quando o reformador e iluminista José Bonifácio de Andrada e Silva clamou por mudanças sociais, inclusive de distribuição de terras, visando a melhoria do povo, a grande maioria analfabeta (cerca de 98%) naquela época.

No entanto, D. Pedro I e sua elite oligárquica rural não deixaram e fizeram sua própria Carta onde todo poder teria que continuar emanando do imperador, tanto que a Assembleia Constituinte foi dissolvida.

Pelo menos era ali que deveria ter acabado com a vergonhosa escravidão. Nisso, até o Bonifácio dizia que ela teria que ser gradual e lenta para o bem dos poderosos que diziam que sem os escravos o destino do Brasil seria a ruína.

Outra oportunidade perdida para fazer um Brasil socialmente justo foi em 1888 quando da atrasada proclamação da Lei Áurea. Os abolicionistas André Rebouças, Luiz Gama, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco fizeram manifestos e panfletagens por reformas estruturais. Muitos deles incluíram na lista a reforma agrária como uma das medidas para indenizar os ex-escravos.

Mais uma vez, os senhores proprietários de terras (os grandes cafeicultores) e a burguesia usaram de seus poderes e pressionaram o Império a deixar tudo como estava, na miséria total. Eles mesmos derrubaram o imperador D. Pedro II em 1889 com seus marechais e tudo continuou como estava mandando no poder.

A partir dali a pobreza só fez aumentar e o caldo engrossou mais ainda com o êxodo rural do campo para as cidades a partir do início e meados do século XX. Com o processo de industrialização os centros urbanos incharam nos morros e favelas, sem nenhuma estrutura, com uma massa de trabalhadores desqualificada e desempregada a vagar pelas ruas como mendigos.

Desse imbróglio indigesto brotaram a pobreza e a extrema pobreza onde o Estado, por obrigação e dever se tornou assistencialista por natureza. É uma dívida de séculos a ser paga agora, com um alto custo e sacrifício para as finanças, ainda mais que serve para parir votos a fim de que tudo permaneça no mesmo. O resultado é que os outros setores essenciais (educação, saúde e saneamento básico) ficam a descoberto (cobertor curto), inviabilizando o desenvolvimento de uma nação.

Infelizmente, as nossas elites capitalistas retrógradas e os políticos reféns delas estão no cerne de toda essa história macabra, para não dizer trágica, que é um país de mais de 100 milhões que são vítimas da insegurança alimentar, comem alguma coisa hoje, mas não sabem do dia do amanhã.

Na verdade, estamos num beco sem saída em um Estado que está se tornando inviável. Não se sabe quando esse quadro será revertido. O futuro é nebuloso. Até quando vai perdurar esse esquema assistencialista? Essa PEC bilionária fora do teto de gastos, aprovada pelo Congresso, para acudir os que passam fome, tem duração de apenas um ano, mas daqui para lá dá-se um jeito.

TEM VAGA PARA TODO MUNDO

Há um mês que o Lula vem preenchendo seus ministérios (36 ou mais) e secretarias para atender aos seus apoiadores onde cada um quer levar seu quinhão no bolo que lhes pertencem. Na política pode até ser natural “presentear” quem também comeu “poeira” nas eleições, mas será válido inchar a máquina do Estado mais ainda?

Calma gente, vai ter vaga para todo mundo, não briguem! Acontece que nessa repartição já apareceram os descontentes porque as maiores e as melhores fatias vão ficar para a turma do PT. Para atender a todos os gostos, o negócio é criar novas pastas esquisitas com cargos comissionados por todos esse país de mais de 30 milhões de famintos.

No governo da Bahia, o estilo é o mesmo de distribuição de secretarias, inclusive da Juventude. Por que não do idoso? Esta categoria nem é lembrada pelas políticas públicas que se resumem no Bolsa Família. Até o momento não vi falar num projeto sequer para reduzir a miséria através da geração de emprego e renda para esse contingente populacional.

Na verdade, o Brasil é um país rico que se dá ao luxo de ter um dos Congressos mais caros do mundo. De acordo com estudos, a Justiça no Brasil tem quatro vezes mais funcionários em relação ao tamanho da população e gasta quatro vezes mais em relação à sua economia do que nos países ricos.

Essa bagunça não é de hoje, vem de séculos quando o reino de Portugal, mesmo nos anos mais cruciais e difíceis mantinha seu luxo com as riquezas das suas colônias, especialmente o Brasil que sempre foi a maior galinha dos ovos de ouro, literalmente.

Nessa hora, todos partidos esquecem de suas ideologias quando disseram lá atrás que entraram no jogo apenas para defender a democracia e que não iam participar diretamente do governo. Falam de independência crítica, mas na hora dos postos de primeiro e segundo escalões, mudam de ideia.

É uma penca de ministérios e secretarias que vão faltar sedes, salas e cadeiras para tanta gente. Haja grana para montar toda essa estrutura pesada. É o chamado elefantismo estatal que poderia ser reduzido à metade, provavelmente funcionando melhor com menor custo.

Estamos falando apenas nos ministérios, sem contar os cargos de gabinete dentro do Palácio do Planalto onde todos são chamados de ministros, com direito a todas as mordomias e benesses pagas pelos contribuintes. Haja cartões corporativos!

“FLUXO E REFLUXO” IV

A CARTA DO DESEMBARGADOR E A

DESORDEM NO TRÁFICO NEGREIRO

Entre os séculos XVII e XVIII, o tráfico negreiro na Costa a Sotavento da Mina (Golfo do Benin) sempre transcorreu na maior desordem onde os negociantes da Bahia não se entendiam com o vice-rei e nem com as cortes de Portugal, sem contar os transtornos com os holandeses nas fortificações de Ajudá, os quais cobravam taxas de impostos.

Nessa época, por volta de 1735, o vice-rei Vasco Fernandes César de Menezes, conde de Sabugosa, era substituído por André de Melo e Castro, conde de Galveas. Um ano depois, o Senado queixava-se das taxas impostas pelo comitê de negociantes (Mesa de Negócios) criado treze anos antes.

O todo poderoso, ouvido pelo reino de Portugal era o desembargador Wenceslão Pereira da Silva, oposto às aspirações dos negociantes da Bahia. Ele escreveu um longo parecer para conter as ruínas dos três principais gêneros do comércio, o açúcar, tabaco e a sola.

Em “Fluxo e Refluxo”, Pierre Verger, autor da obra cita que o desembargador destacava dois problemas nesse comércio, um de ordem interne e outro externo. Quanto a este último dizia que procede de grande abatimento e falta de consumo dos três referidos gêneros, especialmente açúcar, que não têm saída por causa das fábricas que os estrangeiros aumentam nas suas colônias.

As lavras de ouro e diamante contribuem de certa parte para a destruição das lavouras e engenhos de cana porque fizeram subir os preços dos escravos e até dos cavalos e bois. Com relação aos cativos, os preços passaram de 40 a 50 mil reis para cerca de 200 mil cada escravo devido ao consumo e saída que tiveram para as minas.

Sobre os males internos, ele apontava a demasia de luxo, venenoso e depravado vício, “nascido de uns negros fumos exalados das oficinas do inferno, que cruelmente infecciona, destrói e consome estes moradores mal morigerados”. Cada um se veste como lhe parece no modo e no excesso do imoderado luxo. O rei D. João V esbanjava luxúria para imitar o seu colega da França, Luiz XIV, tudo às custas do Brasil.

“Não sendo menos intolerável o uso e abuso de cadeiras guarnecidas de ouro e sedas, que são as carruagens da terra, moda introduzida há nove ou dez anos e há pouco permitida a pessoas de inferior condição, no que fazem excessivas despesas”…

Com referência aos holandeses e zelandeses, dizia serem interessados na Companhia da Mina que tem ali estabelecido seu comércio com os negros que são revendidos depois aos portugueses a troco de ouro.

Para combater a desordem no tráfico negreiro, o desembargador sugeria a criação de uma nova Companhia Geral aos moldes do que existe em outros reinos, cujo tráfico e principal emprego será resgatar escravos da África e vendê-los nos portos do mar do Brasil. Como exemplo cita a Companhia Geral do Comércio no ano de 1649, que serviu de tanta utilidade à monarquia.

Acontece que a regulação do mercado era complicada e sempre foi um assunto polêmico porque existiam os mais poderosos que tendiam ao monopólio e não queriam ceder sua parte, como a reserva de apenas 24 embarcações indo da Bahia por esquadras de três em viagem à Costa da Mina, de três em três meses.

Em 1741, esse tráfico passou por um período de desorganização. Caso não encontrasse uma solução, o vice-rei temia que poderia desaparecer completamente. Para ele, a consequência seria a ruína do Brasil que não pode sobreviver sem o trabalho dos cativos. Cada negociante oferecia o maior número de rolos de tabaco por um escravo. Houve várias propostas para reorganizar as bases do tráfico na Costa a Sotavento da Mina, mas sempre eram transgredidas.

 

 

O “CALANGO” AMBULANTE

Ele é sempre visto na Praça Barão do Rio Branco e arredores, no centro da cidade, mas corre bares, restaurantes e outros pontos de movimento, como filas de bancos. Mais conhecido como “Calango”, ele é um vendedor ambulante daqueles que não larga o pé do cliente enquanto não compra alguma de suas bugigangas “importadas”, muitas das quais novidades que não se encontram nas lojas. São muitos anos de lida, cerca de 30 ou mais na batalha da vida que lhe deu sustento à família, inclusive para   educar seus filhos. “Calango” ambulante é daquele empreendedor inventivo que está no sangue do brasileiro que se vira para sobreviver. Sua informalidade vem de anos, tanto que o desemprego não lhe atingiu. Nas datas comemorativas do comércio, como agora no Natal, “Calango” também tem seu faturamento aumentado com seus produtos inusitados que servem de presente. É cabra sabido porque pede um preço alto para depois lhe vender pela metade do pedido. Ali na praça ele é mais conhecido que farinha na feira e tem gente que corta por fora para não ser cercado e cair em sua lábia de vendedor. É uma figura que já se tornou patrimônio e folclore de Conquista.

NUNCA DIGA QUE É NADA

Mais uma recente da lavra do jornalista e escritor Jeremias Macário

Se duvido do sentido do ser,

Pior é viver sem você.

Minha alma chora,

Quando meu mal lhe devora.

Perdão lhe peço, meu amor,

Se minha flecha lhe sangrou.

 

A vida é cheia de cilada,

Mas nunca diga que é nada,

Pelo espelho do outro,

Por achar ser sensacional.

Mire em sua virtude especial,

De transmitir felicidade,

Para os seus da comunidade.

 

Todos com suas frustrações.

Não condene seu destino,

Nem entre em desatino,

Por causa das decepções.

 

Nunca diga que é nada,

Porque uns vivem no luxo,

E você arrasta sua enxada.

 

Olhe para dentro de si,

Do seu nobre sentimental,

Que já fez tanto bem social,

Com seu olhar de amar,

Coisa que nunca vi igual.

 

De espírito criativo,

De energia visceral,

Sem você não mais vivo,

Minha maior amada:

Me julgue como quiser,

Mas nunca diga que é nada.

 

Ainda estou em pé,

Na minha nesga fé,

De peregrino errante,

Com meu pecado repugnante,

E nem me pergunte,

Que nem tenho o saber,

De a mim mesmo responder.

 

Você tem luz que me ilumina,

Ouro reluzente dessa mina;

Esbanja seu sorriso alegre:

Sei disso e não negue,

E ainda diz que não é nada,

Em sua árdua jornada?

 

Nunca diga que é nada,

Porque o nada não existe,

Nesse universo sideral.

Sua própria existência,

De pensar é o sinal,

Pra não dizer ser nada.

UMA FESTA CRISTÃ QUE VIROU PAGÃ

É aquele frenesi maluco de gente nas ruas, lojas e supermercados, num consumismo desenfreado para se comemorar uma festa cristã que se transformou em pagã como nos tempos romanos do deus Júpiter! Natal é sinônimo de se banquetear e se lambuzar ao máximo em comidas e bebidas, como faziam os antigos celtas.

Irônico é que a Igreja Católica Apostólica Romana via naquilo tudo um paganismo que deveria ser extinto diante da nova era do cristianismo. Os séculos se passaram e o que vemos hoje é a tara carnal devorar o espírito, porque o tal Papai Noel dos países nórdicos cheios de neves é mais lembrado do que o Cristo do menino Jesus que nasceu em Belém.

Todos sabem que Jesus não nasceu propriamente no dia 25 de dezembro. Muitos historiadores e especialistas no assunto até apontam que o Messias tenha vindo até mesmo antes da era cristã. A data foi fixada pela Igreja para substituir os festejos pagãos realizados para celebrar as colheitas na passagem do verão para o inverno.

O sentido também era confraternizar, quando todos entravam numa espécie de transe orgístico com muita bebida e comida, não tão diferente do que vemos nos tempos atuais onde todos só pensam em gastar, cada um dentro de suas posses financeiras.

As luxúrias são de proporções desiguais, mas talvez seja o período onde o pobre mais tenta imitar o rico, com a diferença que os pratos da mesa deste último são compostos de importados, como nozes, lentilhas, castanhas, vinhos franceses e outras iguarias estrangeiras.

Sem distinção de classes, além do Feliz Natal, existe uma regra padrão que é comprar um presente, mesmo que tenha que se endividar, deixando a prioridade para depois. Todos entram naquela correria frenética irracional que já está impregnada no subconsciente da pessoa.

Depois entra o final de ano, mais conhecido como réveillon para os ricos, quando a grande maioria, por superstição, se veste de branco e faz promessas de mudanças de vida que pouco acontecem. Nesse baile pagão do Natal e final de ano, milhões ficam de fora para pegar as migalhas jogadas do alto dos sobrados.

Na grande maioria, os planos não vingam e são renovados na próxima data. Ocorre que o tempo é cruel, não perdoa, e o sujeito vai se envelhecendo sem concretizar seus objetivos porque ele nunca deixa de gastar o que não pode.

Nessa de Ano Novo o pobre já está esgotado em suas finanças, mas, mesmo assim, como grande teimoso, encara a parada e compra umas cartilagens de bacalhau e um espumante vagabundo para dizer que é champanhe. Se serve de consolo, no início do ano o pobre fica rico de dívidas, mas ele segue “alegre” e “feliz da vida”.

 





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