:: dez/2022
NA PÁTRIA DAS DANCINHAS
Não que esteja condenando as danças (do pombo) dos jogadores brasileiros na Copa do Qatar, mas parodiando o cronista Nelson Gonçalves quando intitulou o Brasil de pátria das chuteiras, vimos mais dancinhas que foco no objetivo principal que seria chegar ao final do campeonato, pelo menos isso. Terminamos na pátria das dancinhas.
Muitos pintaram as cabeças de branco a lá Neymar em formatos de cuia e esqueceram de usá-la para se concentrar melhor nos lances quando o Brasil estava dando um a zero na Croácia. Vão dizer que brasileiro é assim mesmo, mas para que tanta papagaiada?
A Croácia, com mais seriedade e apetite de decisão, terminou dando pipoca para os pombos. O favoritismo repetido tantas vezes pelos técnicos adversários subiu à cabeça da equipe e não deram conta da missão que era ganhar de um país menor que o estado de Sergipe.
Com eles levaram as famílias, mulheres, filhos, netos, sobrinhos, cachorro e papagaio como se fossem a um piquenique ou a uma viagem de férias, como fizeram na África do Sul onde até alugaram casas. Numa competição como esta, os atletas (muitos desconhecidos dos torcedores) precisam é de concentração total e não de distrações, passeios e até folgas.
Tudo começou errado lá atrás em 2018 quando a seleção foi eliminada nas quartas (o Brasil sempre cai de quatro) pela Bélgica e a Globo, na voz do Galvão Bueno (poucos lembram disso), foi a primeira a defender a permanência de Tite como treinador. Ganhou todas dos pernas de paus, até de goleada.
A CBF acatou o grito de Galvão, o polivalente que faz as narrações, os comentários, papel de juiz e ainda a função de técnico dando berros nas jogadas, como passa a bola, pra cima deles, cruza, não faça isso e aquilo. Galvão deve achar que os jogadores ouvem ele no campo. Montaram uma Central da Copa que se fala de tudo, menos de futebol. Mais parece um programa de humorismo. Talvez o Brasil fosse hexa se colocasse o Galvão como técnico e Tite como narrador.
Foi muita empolgação quando o Tite saiu arrasando os sul americanos nas eliminatórias, competindo com países fracos como Venezuela, Paraguai, Equador, Chile, Peru, Bolívia e Uruguai, com exceção da Argentina, a mais forte.
Foram para o Qatar todos cheios de certeza de que a taça já era nossa e de mais ninguém. Foi fácil passar na fase de grupos. Nas oitavas pegou uma Coreia do Sul cujos atletas só fazem correr como tontos e ainda não aprenderam a jogar futebol.
Fizeram aquela lambança ou dança do pombo, enquanto os outros técnicos e suas equipes estavam nos hotéis concentrados, estudando os movimentos do Brasil em campo para neutralizar as “estratégias” do senhor Tite. Tirando o Neymar, o melhorzinho porque pouco se cuida, o resto dos jogadores é do mesmo nível. Nas substituições, é o mesmo que trocar seis por meia dúzia. Não faz muita diferença.
Com as dancinhas e outras presepadas encheram os torcedores – a maioria entra na onda e pouco entende de futebol – de confiança ao acreditar que o Brasil estava com um time imbatível. Sobrou festa das dancinhas e faltou concentração e disciplina para enfrentar os inimigos na “guerra” da bola.
“FLUXO E REFLUXO” II
“As Três razões Determinantes das Relações da Costa a Sotavento da Mina com a Bahia de Todos os Santos”
A importância do tabaco da Bahia como produto nas negociações em troca de cativos africanos, principalmente na Costa da Mina.
Neste capítulo do livro de “Fluxo e Refluxo”, o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger trata das negociações dos traficantes negreiros da Bahia na Costa da Mina entre os holandeses, ingleses e franceses, principalmente entre os séculos XVII e XVIII, incluindo o período em que a Espanha dominava Portugal que vivia em guerra contra a Holanda.
A pesquisa de Verger, que durou 20 anos, é recheada de dados históricos, datas e relatos de viajantes, capitães dos navios e governadores das províncias e fortalezas que existiam na Costa da Mina. Por Costa da Mina ele mapeia o Golfo ou a Baia de Benin, Guiné até o rio Lagos.
Em seus estudos, assinala que a Costa da Mina (Castelo São Jorge da Mina fundada pelos portugueses em 1482) era desprovida de interesse por Portugal. Nela não se encontrava ouro, especiarias e marfim para negociar.
Essa parte da África só veio adquirir importância no final do século XVII porque era lá que os navegantes da Bahia iam buscar seu reabastecimento de escravos. Apesar do tráfico na região ter sido posteriormente proibido aos portugueses, o nome Costa da Mina ficou ligada durante os séculos XVII e XVIII à parte leste de São Jorge da Mina.
Na Bahia “negro da mina” era aquele vindo da Costa a Sotavento, atual costa do Togo e do Benin. Somente nessa parte os negociantes baianos encontravam saída para seu fumo de terceira categoria que era proibido entrar em Portugal.
A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, fundada em 1621, que reservava o monopólio do comércio para si na Europa e Costa da Mina, após a tomada do Castelo de São Jorge da Mina e o tratado de 1664, deixava livre somente o comércio do tabaco da Bahia e Pernambuco. Porém, a população banta da costa ocidental dava mais valia para as fazendas, aguardente e outras quinquilharias. Os navios levavam bugigangas da Europa para África, os negros da África às Américas, e açúcar, anil, rum e outros produtos das Américas para Europa.
Em 1644, um decreto real autorizava os navegadores portugueses, carregados de tabaco, a irem diretamente da Bahia para a Costa da Mina a fim de procurar escravos e trazê-los para o Brasil. Nessa época, Angola estava ocupada pelos holandeses e só foi libertada em 1648.
Sobre a cultura do tabaco, muito negociada por cativos, o padre André João Antonil fez um minucioso estudo da sua cultura. Ele estimava que por ano entravam em Lisboa 25 mil rolos de tabaco da Bahia e 2.500 de Alagoas e Pernambuco. Esse tabaco ruim passava por um beneficiamento e se tornava bem aceito na Costa a Sotavento da Mina.
Os portugueses de Lisboa tentavam impedir que os negociantes da Bahia traficassem na Costa da Mina, mas eles possuíam suas artimanhas com subornos e conseguiam realizar seu comércio. Eram obrigados a pagar dez por cento de tudo que vendiam.
No próximo comentário vamos falar da regulamentação do comércio do tabaco, uma mercadoria muito apreciada pelos negros, especialmente no uso do cachimbo.
SOS FUTEBOL
SOS FUTEBOL
Carlos González – jornalista
Em 1970, opositores à ditadura militar mostraram ao país que a seleção que conquistou o tricampeonato mundial no México, ao som de “Prá frente Brasil”, era um troféu que o general-presidente Garrastazu Médici exibia para abrandar os efeitos do AI-5. Mais de 50 anos depois, “patriotários”, financiados por empresários e políticos, que nos últimos quatro anos assaltaram os cofres públicos, receiam que as vitórias do Brasil no Mundial do Catar possam contribuir para o esvaziamento do movimento de caráter golpista.
A proibição transmitida pelas lideranças não chegou aos ouvidos daqueles fanáticos que acreditam até nos deuses do futebol. Assim, como invocaram a ajuda de seres extraterrestres, exibem faixas nos acampamentos pedindo socorro à FIFA. Trata-se, sem dúvida, de mais uma insanidade de um grupo de inocentes úteis, desocupados, que não têm consciência do papel ridículo a que estão sendo submetidos.
Maliciosamente, Eduardo Bolsonaro, após passar por Nova Iorque, onde foi ouvir conselhos dos ultradireitistas Donald Trump e Steve Bannon, seguiu imediatamente para o Catar, revelando que ia conversar com a cúpula da FIFA, presidida pelo suíço-italiano Gianni Infantino, e com as diretorias das 32 seleções classificadas para a XXIIª Copa do Mundo.
Na verdade, o filho 03 de Bolsonaro viajou com a família para assistir ao Mundial, o que gerou forte descontentamento entre os bolsonaristas, incluindo o irmão Carlos. “Dormimos em barracas de lona, muitas vezes passamos fome, e o Edu gozando as delícias de uma Copa feita para os exageradamente ricos.”, comentou um acampado enquanto fazia um “gato” nas imediações do Tiro de Guerra de Conquista.
Copa da Vergonha
O Golfo Pérsico, uma área de 251 km2 no sudoeste da Ásia, concentra alguns dos países mais ricos do mundo, com destaque para os que adotam o regime monárquico, se comunicam em árabe e professam o islamismo. Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Oman, Bahrein e Arábia Saudita têm como maior fonte de renda gás e petróleo em seu subsolo. O Irã (potência islâmica, com forte opressão às mulheres) e o Iraque (terra arrasada após invasão americana) completam a lista de países da região.
Antiga aldeia de pescadores, o Catar, que ocupa uma área de 11.610 km2, menor que o Estado de Sergipe, é um país relativamente novo, haja vista que somente em 1971 obteve sua independência do Reino Unido. Sua caminhada até ser considerada hoje como a nação mais rica do planeta teve começo com a descoberta de reservas de petróleo e gás, sob as areias do deserto.
Com um PIB de US$ 179 bi, o Catar deixou de ser uma obscura colônia britânica, transformando-se num país com uma infraestrutura moderna e futurista. Na falta de mão de obra – hoje são apenas 350 mil catarianos numa população de 3 milhões de habitantes – suas fronteiras foram abertas, principalmente para indianos, paquistaneses e egípcios. Calcula-se que há cerca de 800 brasileiros radicados em Doha e outras cidades, desde uma professora de equitação dos filhos da família real até trabalhadores da construção civil.
Nos últimos cinco anos o Catar se tornou um dos principais destinos turístico do mundo, organizando eventos culturais, esportivos e comerciais, mas, nenhum deles, teve mais repercussão na imprensa ocidental do que o Mundial-2022, o primeiro numa nação árabe, enxovalhado por denúncias de corrupção. A partir daí o mundo passou a conhecer o Catar e os seus vizinhos árabes, onde a chamada monarquia absolutista soa como uma ditadura; a se estarrecer com o trabalho semi-escravo imposto aos imigrantes; com a morte de mais 3 mil operários na construção de oito arenas; no desrespeito âs mulheres; nas áreas insalubres destinadas à moradia da classe operária, onde no verão a temperatura chega aos 50 graus; e na condenação e repressão ao movimento LGBT+. Democracia e direitos humanos não foram convidados para a festa do futebol no Catar.
Os catarianos esperam que o Mundial desfaça os estereótipos que o Ocidente revela em relação aos povos árabes e muçulmanos. As autoridades do país qualificam o noticiário da imprensa mundial de “difamatório e arrogante”.
Os “estrangeiros”.
Nos últimos anos, o Brasil tem recorrido aos jogadores que atuam na Europa para compor sua seleção, mesmo porque a “prata da casa” perdeu o brilho. Foi-se o tempo do futebol brilhante das seleções de 50, 58, 62, 70 e 82, quando os clubes do Velho Mundo ainda não haviam aberto suas “janelas” para entrada dos importados. Sair do Brasil virou o sonho de todo peladeiro.
Estudos recentes mostram que 55% dos 360 mil jogadores dos clubes brasileiros inscritos na CBF recebem um salário mínimo, com a agravante de que ficam desempregados antes de chegar ao fim do ano . Mas, para uma minoria, a realidade é bem diferente: se for bolsonarista tem dívida milionária com a Receita Federal perdoada, ou paga uma conta de R$ 950 mil num restaurante em Doha, sem lembrar que há 50 milhões de brasileiros passando fome.
O que mais chama a atenção nessa XXIIª Copa do Mundo é a evolução do jogador africano, tanto no aspecto conjunto (as seleções nacionais), quanto na presença destacada de seus atletas nas equipes da Europa. Essa aglutinação Europa-África está comprovada na seleção da França, escalada com cinco ou seis naturalizados, além de Benzema (filho de argelinos) e Mbappé (filho de pai camaronês e mãe argelina).
Na história dos mundiais de futebol pela primeira vez uma seleção da África chega às quartas. Dos cinco países de continente negro presentes no Catar, o Senegal foi às oitavas, mas a melhor campanha, sem dúvida, é a de Marrocos, uma monarquia constitucional, árabe e islâmica. Os marroquinos, que, ao lado das demais nações árabes abraçaram no Catar a causa palestina, se colocaram entre os oito melhores times do planeta.
Em que lugar do mundo o comércio, às vésperas do Natal, fecha suas portas para que todos possam assistir um jogo de futebol, sem noção de onde fica o Catar. O funcionalismo público ´- a prefeitura de Conquista suspende a vacinação – espera quatro anos por esses dias, quando a pátria calça chuteiras, como diria o jornalista Nélson Rodrigues Amanhã vão todos se queixar de que as vendas natalinas foram inferiores as do ano passado. O torcedor esquece que Bolsonaro deixa um rombo de R$ 400 bi; que continua cortando as verbas da educação e da saúde; que estamos no mapa da fome; e que uma nova variante da coronavírus já faz vítimas.
NATAL É LUZ
Natal nos faz lembrar de muitas coisas, como banquete com peru, mesa vazia para os pobres, vinho, árvores cheias de lâmpadas pisca-pisca, abraços, confraternizações, notas e mensagens (agora pela internet) de Feliz Natal, presépio do menino Jesus, cristianismo, mas, acima de tudo, luzes para dar o sentido de vida. Assim é que todos os anos a Praça Tancredo Neves, em Vitória da Conquista, já se tornou um ponto de tradição, quando ela fica toda iluminada e recebe milhares de moradores e visitantes que passam pela cidade na época. Para ser sincero, é uma festa que bate em mim uma certa tristeza (não gosto), como em muitas outras pessoas, e não sabemos muito como explicar, talvez esteja dentro do sentimento humano de cada um, quando se vive numa sociedade tão desigual e injusta. No entanto, as luzes animam nossos espíritos. Por alguns momentos nos fazem esquecer dos problemas e quebram aquele clima de certa angústia interna. Natal é luz.
PÁSSARO SOLITÁRIO
Mais uma da lavra do jornalista e escritor Jeremias Macário
Voa pássaro solitário!
Com sua magia existencial,
Nas asas do seu ideário,
No ventre do vento açoite,
Nas correntes do dia e da noite,
Entre divisas do bem e do mal.
Voa pássaro solitário!
Corta as águas desses mares,
Como navegador planetário,
Bailando nesse céu dos ares!
Voa pássaro!
Testemunha dos navios negreiros,
Dos gemidos da escravidão,
Que aqui criaram terreiros,
Nos atabaques fizeram religião.
Voa pássaro solitário!
No rasante da liberdade,
Nessa terra tão desigual,
Da mediocridade virtual.
Voa pássaro solitário!
Acalenta minha alma,
Que vem do além-mar,
Do índio, banto-jêje,
Do nagô-iorubá.
Voa pássaro solitário!
Nessa seca do sertão;
Recarregue minhas forças,
E me devolva inspiração.
Voa pássaro solitário!
Conte para mim,
O segredo dessa vida,
Se nela existe sentido,
Entre chegada e saída.
Voa pássaro!
Ensina a esse rebanho,
Seguir crente em frente,
Na alegria ou na agonia,
Espinhos nas flores amores,
A nunca perder seu sonho.
PALHAÇOS E COISAS DA VIDA
Levantei hoje, ou ontem, sem saber o que escrever – meu exercício diário, além da leitura, é claro – por que são tantos assuntos que nos deixa confuso. A nossa mente é fértil e imaginativa, mas nem tudo na vida pode ser dito e escrito. Até a democracia e a liberdade têm suas regras próprias, inclusive o anarquismo de Prudhon. Fazer o quê, meu camarada, se não somos uma ilha?
Essa politicagem já nos deixa com o estômago embrulhado. Foram quase três meses de papo furado nas emissoras de televisão e rádio, sem falar nas redes sociais entupidas de falsas notícias. Depois entrou essa Copa Maluca do Qatar escravista e machista, misturada com as propagandas de Natal. Confesso que não consigo respirar! Se você tem algo a contestar, bote a boca no trombone!
Ouvi uma música Palhaço, de Nelson Gonçalves, onde a letra diz que a amizade é uma fumaça, que palhaço é todo homem que não sabe envelhecer e se entrega ao desespero, nem compreende que o passado já morreu. Entro com meu contraditório de que ele (passado) nunca morre. Palhaço é todo homem e todos nós que acreditam na mentira e perdoa a traição.
Lembrei também do nosso saudoso filósofo e cronista do cotidiano, Nelson Rodrigues, que nos fala do complexo de vira lata que ainda permanece dentro de todos brasileiros. Ele escreveu sobre a vida como ela é, nua e crua, com seus absurdos. Rodrigues retratou a hipocrisia e o moralismo dessa sociedade onde muitos aparentam ser uma coisa que não é. Foi excomungado por muitos críticos como demônio escandaloso e imoral.
Cada um acorda e levanta de um jeito, na maioria das vezes com a cara amassada para cumprir a mesma rotina da sobrevivência. Uns dormem bem e outros têm pesadelos terríveis de suar o pijama ou a cueca, a camisola ou a calcinha. Tem gente que dorme nu. Uns em silêncio e outros roncam se virando de um lado para o outro. E aqueles que sonham falando? Um perigo dizer coisas comprometedoras!
E quanto ao dia? O pobre já sai de casa mal alimentado pelo salário que recebe, com medo do patrão lhe demitir. Come o pão que o diabo amassou. Nessa roda da vida, o mundo continua a girar. Tenho dúvidas se os terraplanistas pensam assim. Temos mais insatisfeito que satisfeitos com o que faz, mas não existem muitas saídas e escolhas, companheiro. Não se irrite com os falsos boatos que têm suas origens na humanidade. Aliás, é até uma redundância porque o boato já é falso.
O patrão empresário ganancioso acorda com a cabeça cheia de contas e dívidas, matutando como ganhar mais e mais dinheiro. Pior ainda se for o tipo trapaceiro. Uns levam a vida com humor e bom astral, sempre com pensamento positivo. Outros acordam de mau humor que nem falam com os filhos e a mulher, que também tem seus momentos de aperreios porque ela hoje é peça chave dessa engrenagem mercadológica capitalista e selvagem da competição.
Se analisarmos lá no fundo, todos têm um pouco de palhaços e escravos de seus problemas. É a vida como ela é, meu amigo! Encare isso e toque para frente que atrás vem gente. Nos encontros do dia a dia, muitos fazem aquela clássica pergunta: Como está? Sempre se responde “tudo bem”, quando, na verdade, nem está. Ás vezes falo que vou levando a vida e a vida me levando, como diz Zé Pagodinho em seu samba canção.
Não estou me referindo ao palhaço no sentido do profissional, alegre e triste, mas daquele lado profundo existencialista do Jean Paul Sartre que escreveu “Náuseas” e nos faz entrar na fossa (depressão) quando procuramos o sentido da vida, logo ela, a passageira que se vai com a morte. Nos ensinaram sempre a dizer que a vida é bela e vale a pena ser vivida. Será que isso se encaixa em todos viventes?
Lembra daquela frase de que o ignorante é mais feliz que o instruído, o estudioso, o iluminado e o sábio? Será uma verdade? Ela existe como padrão ou cada um tem a sua? Todos os filósofos gregos da antiguidade tinham seus tormentos, fantasmas, demônios e momentos de felicidade. Os brutos também amam e têm seus sentimentos e angústias internas. Somos todos palhaços ou coisas da vida?
Meu amigo camarada, só sei que a vida é assim como ela é, com suas diferenças de altas e baixas, de alegria e agonia, de surpresas boas e decepções de gente que menos se esperava. Quem já não foi palhaço, enganado e iludido que levante a primeira pedra, principalmente em se tratando de brasileiros que têm fama mundial de malandragem e a magia de para tudo dar aquele jeitinho para desatar o nó das coisas da vida.
O VÍRUS DA MEDIOCRIDADE NUM MUNDO FÚTIL E IDIOTA VIRTUAL DA INTERNET
O filósofo e pensador italiano Humberto Eco prognosticou que o advento da internet e a disseminação das redes sociais tornaria o mundo mais imbecil e idiota. Estamos sim, presenciando essa dura realidade onde a mediocridade hoje tem mais valor que a meritocracia e o conteúdo.
Vemos nas redes sociais um monte de baboseiras, besteiras e palhaçadas que viralizam e transformam a futilidade de seus mentores em famosos que ganham as imagens das televisões. Até há poucos dias ouvi falar num tal “Luva de Pedreiro”, um baiano, se não me engano, que saia do seu ofício com o material para pegar no gol de um baba de várzea e fazia suas papagaiadas.
De uma hora para outra o cara se tornou “celebridade” televisa da Globo. No entanto, ele não está só nesse mundo tão fútil e imbecil virtual. Não adianta você fazer um vídeo sério com conteúdo sobre nossos reais problemas que atravessamos porque quase ninguém curte, apenas poucos amigos que lhe conhece.
Para as idiotices, milhões de seguidores. Faça um comendo bosta, titica de galinha, terra, capim ou uma dança maluca com caretices que logo viraliza (de vírus) nas redes! Em pouco tempo o indivíduo terá milhões de curtições e “joinhas”, o que estimula a ele fazer mais e mais mediocridades. Ninguém quer ler mais um texto ou uma poesia, nem que seja um só parágrafo ou uma estrofe.
Agora apareceu um tal de “influenciador digital”! Seria o mesmo que o formador de opinião que é designado para jornalistas sérios que prezam pela responsabilidade da notícia? Não sei, só sei que não vai demorar muito para implantarem o curso de “influenciador digital”, com direito a faculdade e tudo, inclusive com diploma.
Nesse Brasil e nesse planeta, uns poucos milhões devem se sentir como um peixe fora d´água que não se encaixam mais nesse mundo da imbecilidade. A pergunta que vem é o que estou mais fazendo aqui? Estou fora desse espaço. Sou como um ferro velho perdido numa sucata. Muitos perdem o gosto de produzir e até se isolam. Aliás, já são chamados de retrógrados atrasados que não se encaixam mais nesse esquema.
Essa mediocridade da qual eu falo não está somente nas redes sociais das fofocas, dos xingamentos, injúrias, ódios e mentiras. Está em todo lugar do nosso cotidiano. Ela se escancara nas repartições públicos, nos plantonistas da burocracia, nas escolas, nos políticos, entre os jovens atuais que detestam ler, na quase ausência de conhecimentos gerais, na falta de interesse pela nossa história, pela nossa cultura, no desprezo pela memória e na inversão de valores entre o que é o certo ou errado, normal e anormal.
A ideia do levar vantagem em tudo; passar a rasteira nos outros; e achar que ser corrupto também estão na lista das mediocridades que têm suas origens na formação familiar. Quando os pais não dão exemplo, a tendência é que os filhos também se tornem mau caráter e optem pelo desvio de conduta.
A ética, a inteligência, a capacidade e a honestidade estão em desuso e fora de moda. Foram todas engolidas pela mediocridade. O QI (Quem Indica) está acima da meritocracia. O medíocre hoje de fala mansa e todo engomadinho tem muito mais visibilidade e admiração que o desarrumado de conhecimento, mesmo porque ele não é mais entendido.
CINISMO DE UMA CORJA SINISTRA NUM BRASIL SEM ÉTICA E IDEOLOGIA
Até há poucos dias o presidente da Câmara dos Deputados, o Arthur Lira, era visto pela esquerda como um mero puxa saco mequetrefe do capitão-presidente psicopata que enterrou mais de cem pedidos de impeachment contra o chefe da nação. Seu nome é sujo como pau de galinheiro. Foi só terminar as eleições e o PT sair vitorioso para tudo mudar, como se troca de camisa, sem ética e ideologia, coisas raras nesse nosso país.
Basta o barco começar a afundar e a ratazana pula fora para outro mais seguro, caso do histórico centrão mamão. A direita vira esquerda e a esquerda direitona para se agarrar ao poder. É sempre assim que a banda toca. Não existe o mínimo de decência, e as palavras voam aos ventos quando o próprio eleito disse que não iria interferir na eleição do Congresso Nacional. Vivemos e nos alimentamos de mentiras todos os dias.
O Lira agora é o nome dos partidos das bandeiras vermelhas como candidato para permanecer na presidência da Casa. É o cinismo de uma corja sinistra num Brasil sem ideal político onde o eleitor não passa de um metal vil enferrujado que só presta para clicar os números nas urnas.
Eles têm até três aposentadorias, ou mais, como a concedida agora pelo Lira para o capitão, na faixa de 30 mil reais, e ninguém cede um milímetro de suas benesses, verbas de indenização, gabinete, comissões e outros penduricalhos. Todos na fartura unidos para dar um cala boca de osso e pelancas para os mais de 60 milhões, sem projetos para acabar com essa miséria vergonhosa que mancha o Brasil.
Eles fazem seus conluios espúrios para liberar bilhões para o Bolsa Família de seiscentos reais e mais cento e cinquenta para cada filho de até seis anos, mais um estímulo para a procriação de mais bebês que não deveriam vir ao mundo. Os pobres têm uma penca de filhos sem perspectivas de um futuro melhor. Deveria haver um programa de controle familiar.
Quero deixar bem claro aqui que não sou contra socorrer os famintos porque a fome é a pior dor do ser humano. Só quem já passou conhece bem a cara dela. É feia e cavernosa com suas armaduras da morte. No entanto, esse esquema cheira a comodismo e treita de quem tem o interesse de deixar tudo no mesmo para dele tirar proveito no voto lá atrás.
Além do mais, significa decretar a falência fiscal do Brasil, sem falar na inflação que vai correr o mesmo auxílio. Até quando vamos continuar mantendo essas esmolas que só envergonham o cidadão, como já dizia nosso cancioneiro Luiz Gonzaga?
Todos são bonzinhos desde que os desgraçados excluídos não invadam suas mansões e latifúndios. Não existe ideologia de direita e de esquerda, mas ajuntamentos para que as castas permaneçam abastecidas, cada um com seus poderes e mordomias. A ideia é que todos saiam bem na foto com cara de piedosos.
Tudo isso é feito fora do teto de gastos do orçamento. Ninguém até agora apresentou programas alternativos em paralelo de geração de emprego e renda para reduzir essas astronômicas despesas, dando trabalho e autoestima às pessoas. É uma Bolsa Família ad infinitum.
O que o país precisa mesmo é de uma revolução social de base para quebrar de vez esse ciclo assistencialista. Isso só será possível através de educação maciça de qualidade que levará o país ao desenvolvimento e à redução das profundas desigualdades de ganhos. É um sistema perverso que só faz engrossar a ignorância para aplaudir essa corja que há séculos mama nas tetas da população.
“FLUXO E REFLUXO”
“Do Tráfico de Escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos, do Século XVII ao XIX”.
Ele nasceu em 1902, em Paris. Foi fotógrafo, etnólogo e antropólogo. Em 1946 começou sua pesquisa sobre as influências entre o Golfo do Benin ou Costa da Mina, e a Bahia de Todos os Santos. O resultado desse trabalho lhe deu o título de doutor de terceiro ciclo na Sorbonne. Passou grande parte da sua vida em Salvador onde desenvolveu estudos sobre o culto aos orixás para o Instituto Francês da África. Converteu-se ao candomblé assumindo o nome de Pierre Fatumbi Verger. Morreu em 1996, em Salvador.
O livro “Fluxo e Refluxo” foi resultado de uma pesquisa de vinte anos, apresentado pela primeira vez na Sorbonne, em 1966. No entanto, só foi lançado no Brasil, em 1987. A obra se converteu num marco historiográfico sobre o tráfico negreiro para o Brasil, com destaque para a Bahia, província que no início do século XVII ao XIX mais recebeu cativos vindos da Costa da Mina (Castelo de São Jorge da Mina) que abrange especialmente o Benin, antigo reino de Daomé, da cidade de Uidá ou Ajudá. Judá, Fidá entre outros nomes.
Na introdução do livro de quase mil páginas, Verger destaca que a presença dos costumes de habitantes do Golfo de Benin é tanto mais notável na Bahia quanto as influências bantas do Congo e Angola são mais aparentes no resto do Brasil. Ele classifica o tráfico de escravos em direção à Bahia em quatro períodos, como o Ciclo da Guiné no século XVI, de Angola e do Congo no século XVII, o da Costa da Mina nos primeiros quartos do século XVIII e o do Golfo do Benin, os daomeanos ou jejes, entre 1770 e 1850.
Os nagôs-iorubás, da região da Nigéria aqui chegaram na Bahia no último ciclo, ou seja, entre os séculos XVIII e XIX e eram de classe mais elevada, prisioneiros de guerra, sacerdotes e mais conscientes do valor de suas instituições, ligados aos preceitos de uma religião, o islamismo. Nesse sentido, essa etnia era mais rebelde e unida, surgindo daí a rebelião dos malês, em 1835.
Verger cita os estudos de Luiz Vianna Filho onde ressalta que “os bantos foram os primeiros negros exportados em grande escala para a Bahia, e aqui deixaram de modo indelével os marcos de sua cultura” na língua, na religião e no folclore. Eles falavam melhor o português que os negros da Costa da Mina. A mercadoria mais importante na troca de escravos era o tabaco da Bahia que não tinha muita importância na Guiné, Angola e Congo, mas boa aceitação na Costa da Mina.
Na introdução da obra, o autor faz referências à queima de documentos sobre os escravos vindos da África por ordem de Rui Barbosa, ministro das Finanças entre 1890/91. Sobre a destruição desses registros existe uma grande polêmica entre os historiadores.
Uma versão diz que Rui Barbosa e o governo da época, com apoio do legislativo, tiveram a intenção de apagar para sempre a lembrança e os traços da escravidão no país. Outros que o propósito foi o de impedir que os proprietários dos cativos não pudessem entrar com petições de indenizações, como fizeram os ingleses e francês quando da abolição da escravatura. Muita coisa foi perdida dificultando o trabalho mais aprofundado por parte dos pesquisadores.
PRAÇA GUADALAJARA OU NORMAL
Em toda parte do mundo sempre existe um ponto (praça, avenida, monumento ou centro histórico) onde as pessoas se reúnem para expressar suas manifestações e protestos a favor e até contra a democracia e a liberdade. Dalí nascem os grandes ativistas com seus discursos e pronunciamentos que mudam os destinos de uma nação e de um povo. Em Salvador temos a Praça Castro Alves, a Sé; São Paulo, a Avenida Paulista; Rio de Janeiro, a Cinelândia e assim por diante como nas grandes capitais estrangeiras, só para citar Pequim, Paris, Londres, Madrid, Lisboa, Nova York e tantas outras. Em Vitória da Conquista nós temos a Praça Guadalajara ou simplesmente Escola Normal (foto), um patrimônio que, infelizmente, o Estado está demolindo. Aqui vai o meu repúdio. Essas praças se tornaram e fizeram história na luta pelos direitos humanos (contra ditaduras), reivindicações dos trabalhadores, passeatas LGBT, movimentos sociais e até encontros religiosos e “gritos de guerra” de blocos de carnavais, micaretas e festas em geral. Da Guadalajara partiram organizações contra e a favor de presidentes da República formando-se um colorido de bandeiras e camisas amarelas e vermelhas. As ideias e as discussões se afloram. Para o bem e para o mal, de lá saíram até alaridos que ferem a nossa pátria como os pedidos de intervenção militar no país. Cartazes criativos os mais diversos se juntam na Guadalajara e estampam frases lamentosas sobre o desemprego, a má qualidade na educação e na saúde e até para dizer que estou com fome, quero comer. São locais que devemos reverenciar porque representam nossas ágoras gregas que nunca podem ser esquecidas e servem de recordações memoráveis para o resto de nossas vidas como participantes ativos dessa sociedade, na maioria das vezes desumanas.

















