“FLUXO E REFLUXO” II
“As Três razões Determinantes das Relações da Costa a Sotavento da Mina com a Bahia de Todos os Santos”
A importância do tabaco da Bahia como produto nas negociações em troca de cativos africanos, principalmente na Costa da Mina.
Neste capítulo do livro de “Fluxo e Refluxo”, o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger trata das negociações dos traficantes negreiros da Bahia na Costa da Mina entre os holandeses, ingleses e franceses, principalmente entre os séculos XVII e XVIII, incluindo o período em que a Espanha dominava Portugal que vivia em guerra contra a Holanda.
A pesquisa de Verger, que durou 20 anos, é recheada de dados históricos, datas e relatos de viajantes, capitães dos navios e governadores das províncias e fortalezas que existiam na Costa da Mina. Por Costa da Mina ele mapeia o Golfo ou a Baia de Benin, Guiné até o rio Lagos.
Em seus estudos, assinala que a Costa da Mina (Castelo São Jorge da Mina fundada pelos portugueses em 1482) era desprovida de interesse por Portugal. Nela não se encontrava ouro, especiarias e marfim para negociar.
Essa parte da África só veio adquirir importância no final do século XVII porque era lá que os navegantes da Bahia iam buscar seu reabastecimento de escravos. Apesar do tráfico na região ter sido posteriormente proibido aos portugueses, o nome Costa da Mina ficou ligada durante os séculos XVII e XVIII à parte leste de São Jorge da Mina.
Na Bahia “negro da mina” era aquele vindo da Costa a Sotavento, atual costa do Togo e do Benin. Somente nessa parte os negociantes baianos encontravam saída para seu fumo de terceira categoria que era proibido entrar em Portugal.
A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, fundada em 1621, que reservava o monopólio do comércio para si na Europa e Costa da Mina, após a tomada do Castelo de São Jorge da Mina e o tratado de 1664, deixava livre somente o comércio do tabaco da Bahia e Pernambuco. Porém, a população banta da costa ocidental dava mais valia para as fazendas, aguardente e outras quinquilharias. Os navios levavam bugigangas da Europa para África, os negros da África às Américas, e açúcar, anil, rum e outros produtos das Américas para Europa.
Em 1644, um decreto real autorizava os navegadores portugueses, carregados de tabaco, a irem diretamente da Bahia para a Costa da Mina a fim de procurar escravos e trazê-los para o Brasil. Nessa época, Angola estava ocupada pelos holandeses e só foi libertada em 1648.
Sobre a cultura do tabaco, muito negociada por cativos, o padre André João Antonil fez um minucioso estudo da sua cultura. Ele estimava que por ano entravam em Lisboa 25 mil rolos de tabaco da Bahia e 2.500 de Alagoas e Pernambuco. Esse tabaco ruim passava por um beneficiamento e se tornava bem aceito na Costa a Sotavento da Mina.
Os portugueses de Lisboa tentavam impedir que os negociantes da Bahia traficassem na Costa da Mina, mas eles possuíam suas artimanhas com subornos e conseguiam realizar seu comércio. Eram obrigados a pagar dez por cento de tudo que vendiam.
No próximo comentário vamos falar da regulamentação do comércio do tabaco, uma mercadoria muito apreciada pelos negros, especialmente no uso do cachimbo.











