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:: 8/dez/2022 . 23:27

SOS FUTEBOL

SOS FUTEBOL

Carlos González – jornalista

Em 1970, opositores à ditadura militar mostraram ao país que a seleção que conquistou o tricampeonato mundial no México, ao som de “Prá frente Brasil”, era um troféu que o general-presidente Garrastazu Médici exibia para abrandar os efeitos do AI-5. Mais de 50 anos depois,  “patriotários”, financiados por empresários e políticos, que nos últimos quatro anos assaltaram os cofres públicos, receiam que as vitórias do Brasil no Mundial do Catar possam contribuir para o esvaziamento do movimento de caráter golpista.

A proibição transmitida pelas lideranças não chegou aos ouvidos daqueles fanáticos que acreditam até nos deuses do futebol. Assim, como invocaram a ajuda de seres extraterrestres, exibem faixas nos acampamentos pedindo socorro à FIFA. Trata-se, sem dúvida, de mais uma insanidade de um grupo de inocentes úteis, desocupados, que não têm consciência do papel ridículo a que estão sendo submetidos.

Maliciosamente, Eduardo Bolsonaro, após passar por Nova Iorque, onde foi ouvir conselhos dos ultradireitistas Donald Trump e Steve Bannon,  seguiu imediatamente para o Catar, revelando que ia conversar com a cúpula da FIFA, presidida pelo suíço-italiano Gianni Infantino, e com as diretorias das 32 seleções classificadas para a XXIIª Copa do Mundo.

Na verdade, o filho 03 de Bolsonaro viajou com a família para assistir ao Mundial, o que gerou forte descontentamento entre os bolsonaristas, incluindo o irmão Carlos. “Dormimos em barracas de lona, muitas vezes passamos fome, e o Edu gozando as delícias de uma Copa feita para os exageradamente ricos.”, comentou um acampado enquanto fazia um “gato” nas imediações do Tiro de Guerra de Conquista.

Copa da Vergonha

 

O Golfo Pérsico, uma área de 251 km2 no sudoeste da Ásia, concentra alguns dos países mais ricos do mundo, com destaque para os que adotam o regime monárquico, se comunicam em árabe e professam o islamismo. Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Oman, Bahrein e Arábia Saudita têm como maior fonte de renda gás e petróleo em seu subsolo. O Irã (potência islâmica, com forte opressão às mulheres) e o Iraque (terra arrasada após invasão americana) completam a lista de países da região.

Antiga aldeia de pescadores, o Catar, que ocupa uma área de 11.610 km2, menor que o Estado de Sergipe, é um país relativamente novo, haja vista que somente em 1971 obteve sua independência do Reino Unido. Sua caminhada até ser considerada hoje como a nação mais rica do planeta teve começo com a descoberta de reservas de petróleo e gás, sob as areias do deserto.

Com um PIB de US$ 179 bi, o Catar deixou de ser uma obscura colônia britânica, transformando-se num país com uma infraestrutura moderna e futurista. Na falta de mão de obra – hoje são apenas 350 mil catarianos numa população de 3 milhões de habitantes – suas fronteiras foram abertas, principalmente para indianos, paquistaneses e egípcios. Calcula-se que há cerca de 800 brasileiros radicados em Doha e outras cidades, desde uma professora de equitação dos filhos da família real até trabalhadores da construção civil.

Nos últimos cinco anos o Catar se tornou um dos principais destinos turístico do mundo, organizando eventos culturais, esportivos e comerciais, mas, nenhum deles, teve mais repercussão na imprensa ocidental do que o Mundial-2022, o primeiro numa nação árabe, enxovalhado por denúncias de corrupção. A partir daí o mundo passou a conhecer o Catar e os seus vizinhos árabes, onde a chamada monarquia absolutista soa como uma ditadura; a se estarrecer com o trabalho semi-escravo imposto aos imigrantes; com a morte de mais 3 mil operários na construção de oito arenas; no desrespeito âs mulheres; nas áreas insalubres destinadas à moradia da classe operária, onde no verão a temperatura chega aos 50 graus; e na condenação e repressão ao movimento LGBT+. Democracia e direitos humanos não foram convidados para a festa do futebol no Catar.

Os catarianos esperam que o Mundial desfaça os estereótipos que o Ocidente revela em relação aos povos árabes e muçulmanos. As autoridades do país qualificam o noticiário da imprensa mundial de “difamatório e arrogante”.

Os “estrangeiros”.

Nos últimos anos, o Brasil tem recorrido aos jogadores que atuam na Europa para compor sua seleção, mesmo porque a “prata da casa” perdeu o brilho. Foi-se o tempo do futebol brilhante das seleções de 50, 58, 62, 70 e 82, quando os clubes do Velho Mundo ainda não haviam aberto suas “janelas” para entrada dos importados. Sair do Brasil virou o sonho de todo peladeiro.

Estudos recentes mostram que 55% dos 360 mil jogadores dos clubes brasileiros inscritos na CBF recebem um salário mínimo, com a agravante de que ficam desempregados antes de chegar ao fim do ano .  Mas, para uma minoria, a realidade é bem diferente: se for bolsonarista tem dívida milionária com a Receita Federal perdoada, ou paga uma conta de R$ 950 mil num restaurante em Doha, sem lembrar que há 50 milhões de brasileiros passando fome.

O que mais chama a atenção nessa XXIIª Copa do Mundo é a evolução do jogador africano, tanto no aspecto conjunto (as seleções nacionais), quanto na presença destacada de seus atletas nas equipes da Europa.  Essa aglutinação Europa-África está comprovada na seleção da França, escalada com cinco ou seis naturalizados, além de Benzema (filho de argelinos) e Mbappé (filho de pai camaronês e mãe argelina).

Na história dos mundiais de futebol pela primeira vez uma seleção da África chega às quartas. Dos cinco países de continente negro presentes no Catar, o Senegal foi às oitavas, mas a melhor campanha, sem dúvida, é a de Marrocos, uma monarquia constitucional, árabe e   islâmica. Os marroquinos, que, ao lado das demais nações árabes abraçaram no Catar a causa palestina, se colocaram entre os oito melhores times do planeta.

Em que lugar do mundo o comércio, às vésperas do Natal, fecha suas portas para que todos possam assistir um jogo de futebol, sem noção de onde fica o Catar. O funcionalismo público ´- a prefeitura de Conquista suspende a vacinação – espera quatro anos por esses dias, quando a pátria calça chuteiras, como diria o jornalista Nélson Rodrigues Amanhã vão todos se queixar de que as vendas natalinas foram inferiores as do ano passado. O torcedor esquece que Bolsonaro deixa um rombo de R$ 400 bi; que continua cortando as verbas da educação e da saúde; que estamos no mapa da fome; e que uma nova variante da coronavírus já faz vítimas.

 

 

 

NATAL É LUZ

Natal nos faz lembrar de muitas coisas, como banquete com peru, mesa vazia para os pobres, vinho, árvores cheias de lâmpadas pisca-pisca, abraços, confraternizações, notas e mensagens (agora pela internet) de Feliz Natal, presépio do menino Jesus, cristianismo, mas, acima de tudo, luzes para dar o sentido de vida. Assim é que todos os anos a Praça Tancredo Neves, em Vitória da Conquista, já se tornou um ponto de tradição, quando ela fica toda iluminada e recebe milhares de moradores e visitantes que passam pela cidade na época. Para ser sincero, é uma festa que bate em mim uma certa tristeza (não gosto), como em muitas outras pessoas, e não sabemos muito como explicar, talvez esteja dentro do sentimento humano de cada um, quando se vive numa sociedade tão desigual e injusta. No entanto, as luzes animam nossos espíritos. Por alguns momentos nos fazem esquecer dos problemas e quebram aquele clima de certa angústia interna. Natal é luz.

PÁSSARO SOLITÁRIO

Mais uma da lavra do jornalista e escritor Jeremias Macário

Voa pássaro solitário!

Com sua magia existencial,

Nas asas do seu ideário,

No ventre do vento açoite,

Nas correntes do dia e da noite,

Entre divisas do bem e do mal.

 

Voa pássaro solitário!

Corta as águas desses mares,

Como navegador planetário,

Bailando nesse céu dos ares!

 

Voa pássaro!

Testemunha dos navios negreiros,

Dos gemidos da escravidão,

Que aqui criaram terreiros,

Nos atabaques fizeram religião.

 

Voa pássaro solitário!

No rasante da liberdade,

Nessa terra tão desigual,

Da mediocridade virtual.

 

Voa pássaro solitário!

Acalenta minha alma,

Que vem do além-mar,

Do índio, banto-jêje,

Do nagô-iorubá.

 

Voa pássaro solitário!

Nessa seca do sertão;

Recarregue minhas forças,

E me devolva inspiração.

 

Voa pássaro solitário!

Conte para mim,

O segredo dessa vida,

Se nela existe sentido,

Entre chegada e saída.

 

Voa pássaro!

Ensina a esse rebanho,

Seguir crente em frente,

Na alegria ou na agonia,

Espinhos nas flores amores,

A nunca perder seu sonho.

 





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