SOS FUTEBOL
SOS FUTEBOL
Carlos González – jornalista
Em 1970, opositores à ditadura militar mostraram ao país que a seleção que conquistou o tricampeonato mundial no México, ao som de “Prá frente Brasil”, era um troféu que o general-presidente Garrastazu Médici exibia para abrandar os efeitos do AI-5. Mais de 50 anos depois, “patriotários”, financiados por empresários e políticos, que nos últimos quatro anos assaltaram os cofres públicos, receiam que as vitórias do Brasil no Mundial do Catar possam contribuir para o esvaziamento do movimento de caráter golpista.
A proibição transmitida pelas lideranças não chegou aos ouvidos daqueles fanáticos que acreditam até nos deuses do futebol. Assim, como invocaram a ajuda de seres extraterrestres, exibem faixas nos acampamentos pedindo socorro à FIFA. Trata-se, sem dúvida, de mais uma insanidade de um grupo de inocentes úteis, desocupados, que não têm consciência do papel ridículo a que estão sendo submetidos.
Maliciosamente, Eduardo Bolsonaro, após passar por Nova Iorque, onde foi ouvir conselhos dos ultradireitistas Donald Trump e Steve Bannon, seguiu imediatamente para o Catar, revelando que ia conversar com a cúpula da FIFA, presidida pelo suíço-italiano Gianni Infantino, e com as diretorias das 32 seleções classificadas para a XXIIª Copa do Mundo.
Na verdade, o filho 03 de Bolsonaro viajou com a família para assistir ao Mundial, o que gerou forte descontentamento entre os bolsonaristas, incluindo o irmão Carlos. “Dormimos em barracas de lona, muitas vezes passamos fome, e o Edu gozando as delícias de uma Copa feita para os exageradamente ricos.”, comentou um acampado enquanto fazia um “gato” nas imediações do Tiro de Guerra de Conquista.
Copa da Vergonha
O Golfo Pérsico, uma área de 251 km2 no sudoeste da Ásia, concentra alguns dos países mais ricos do mundo, com destaque para os que adotam o regime monárquico, se comunicam em árabe e professam o islamismo. Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Oman, Bahrein e Arábia Saudita têm como maior fonte de renda gás e petróleo em seu subsolo. O Irã (potência islâmica, com forte opressão às mulheres) e o Iraque (terra arrasada após invasão americana) completam a lista de países da região.
Antiga aldeia de pescadores, o Catar, que ocupa uma área de 11.610 km2, menor que o Estado de Sergipe, é um país relativamente novo, haja vista que somente em 1971 obteve sua independência do Reino Unido. Sua caminhada até ser considerada hoje como a nação mais rica do planeta teve começo com a descoberta de reservas de petróleo e gás, sob as areias do deserto.
Com um PIB de US$ 179 bi, o Catar deixou de ser uma obscura colônia britânica, transformando-se num país com uma infraestrutura moderna e futurista. Na falta de mão de obra – hoje são apenas 350 mil catarianos numa população de 3 milhões de habitantes – suas fronteiras foram abertas, principalmente para indianos, paquistaneses e egípcios. Calcula-se que há cerca de 800 brasileiros radicados em Doha e outras cidades, desde uma professora de equitação dos filhos da família real até trabalhadores da construção civil.
Nos últimos cinco anos o Catar se tornou um dos principais destinos turístico do mundo, organizando eventos culturais, esportivos e comerciais, mas, nenhum deles, teve mais repercussão na imprensa ocidental do que o Mundial-2022, o primeiro numa nação árabe, enxovalhado por denúncias de corrupção. A partir daí o mundo passou a conhecer o Catar e os seus vizinhos árabes, onde a chamada monarquia absolutista soa como uma ditadura; a se estarrecer com o trabalho semi-escravo imposto aos imigrantes; com a morte de mais 3 mil operários na construção de oito arenas; no desrespeito âs mulheres; nas áreas insalubres destinadas à moradia da classe operária, onde no verão a temperatura chega aos 50 graus; e na condenação e repressão ao movimento LGBT+. Democracia e direitos humanos não foram convidados para a festa do futebol no Catar.
Os catarianos esperam que o Mundial desfaça os estereótipos que o Ocidente revela em relação aos povos árabes e muçulmanos. As autoridades do país qualificam o noticiário da imprensa mundial de “difamatório e arrogante”.
Os “estrangeiros”.
Nos últimos anos, o Brasil tem recorrido aos jogadores que atuam na Europa para compor sua seleção, mesmo porque a “prata da casa” perdeu o brilho. Foi-se o tempo do futebol brilhante das seleções de 50, 58, 62, 70 e 82, quando os clubes do Velho Mundo ainda não haviam aberto suas “janelas” para entrada dos importados. Sair do Brasil virou o sonho de todo peladeiro.
Estudos recentes mostram que 55% dos 360 mil jogadores dos clubes brasileiros inscritos na CBF recebem um salário mínimo, com a agravante de que ficam desempregados antes de chegar ao fim do ano . Mas, para uma minoria, a realidade é bem diferente: se for bolsonarista tem dívida milionária com a Receita Federal perdoada, ou paga uma conta de R$ 950 mil num restaurante em Doha, sem lembrar que há 50 milhões de brasileiros passando fome.
O que mais chama a atenção nessa XXIIª Copa do Mundo é a evolução do jogador africano, tanto no aspecto conjunto (as seleções nacionais), quanto na presença destacada de seus atletas nas equipes da Europa. Essa aglutinação Europa-África está comprovada na seleção da França, escalada com cinco ou seis naturalizados, além de Benzema (filho de argelinos) e Mbappé (filho de pai camaronês e mãe argelina).
Na história dos mundiais de futebol pela primeira vez uma seleção da África chega às quartas. Dos cinco países de continente negro presentes no Catar, o Senegal foi às oitavas, mas a melhor campanha, sem dúvida, é a de Marrocos, uma monarquia constitucional, árabe e islâmica. Os marroquinos, que, ao lado das demais nações árabes abraçaram no Catar a causa palestina, se colocaram entre os oito melhores times do planeta.
Em que lugar do mundo o comércio, às vésperas do Natal, fecha suas portas para que todos possam assistir um jogo de futebol, sem noção de onde fica o Catar. O funcionalismo público ´- a prefeitura de Conquista suspende a vacinação – espera quatro anos por esses dias, quando a pátria calça chuteiras, como diria o jornalista Nélson Rodrigues Amanhã vão todos se queixar de que as vendas natalinas foram inferiores as do ano passado. O torcedor esquece que Bolsonaro deixa um rombo de R$ 400 bi; que continua cortando as verbas da educação e da saúde; que estamos no mapa da fome; e que uma nova variante da coronavírus já faz vítimas.












