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:: 16/dez/2022 . 23:30

TORCIDA DRIBLA A CRISE NA ARGENTINA

Carlos González – jornalista

Como os catedráticos em Economia podem explicar a presença de 40 mil torcedores argentinos nas arenas da XXIIª Copa do Mundo? Como os “hermanos” conseguiram driblar uma inflação anual de 100 %, a desvalorização do peso em 380% nos últimos três anos, a proibição de compras parceladas, além de outras medidas de arrocho fiscal impostas pelo governo? Essa crise cruel dos nossos vizinhos tem certa similaridade com a que o brasileiro vem experimentando nos últimos quatro anos, assistindo, sem comida na mesa, o presidente Jair Bolsonaro deixar para seu sucessor um déficit de R$ 400 bilhões nas contas do Tesouro.

Torcedores que estão no Catar relatam o sacrifício que fizeram nos últimos dois anos para poder acompanhar de perto a sua seleção: trabalhando 14 horas por dias, fazendo “bicos”, dirigindo carro de aluguel por aplicativos, cancelando os momentos de lazer e o prazer de estar com os amigos nos bares. Milhares deles estão endividados.

Uma viagem ao Catar para assistir o Mundial, segundo as agências de turismo, sem gastos supérfluos, dormindo em containeres e comendo em fast food, não sai por menos de R$ 8 mil (o valor no peso argentino, mais desvalorizado do que o real, é maior). A FIFA revela que 61.083 portenhos viajaram ao Catar, número que aumentou em função da classificação do time de Messi para a final contra a França. Sem ingressos, apelam para os dirigentes da FIFA, concentrando-se na porta do hotel onde está hospedada a cúpula da entidade.

Nesse quesito, os argentinos foram superados por torcedores dos Estados Unidos, Árábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Inglaterra e México, mas excedendo aficionados de algumas das maiores potências do futebol, como Brasil, França, Alemanha e Espanha, o que significa que o azul e o branco predominarão sobre a França tricolor nas dependências do estádio Lusail, com capacidade para 80 mi pessoas. A semifinal entre Argentina x Croácia, realizada na mesma arena, recebeu 88.966 espectadores, recorde desta Copa.

Com uma nova versão, criada pelo compositor Fernando Romero, a canção “Muchachos” embala jogadores e torcedores argentinos nos estádios do Catar. “Agora nós voltamos a acreditar”, diz um dos versos da música, cuja abertura é a seguinte: “Nasci na Argentina, terra de Diego e Lionel, dos jovens das Malvinas, que jamais esqueceremos”

Numa coletiva de imprensa, Lionel Scaloni, técnico da Argentina, pediu aos torcedores brasileiros que deixassem a rivalidade de lado e torcessem pelos “hermanos”, “o que seria muito bom para o futebol sul-americano, que está em desvantagem perante os europeus em títulos mundiais” – 9 a 12. Scaloni confessou ser “um fanático pelo Brasil”, mencionando como seus amigos Mauro Silva, Djalminha, Donato e Flávio Conceição, seus companheiros no Deportivo La Coruña, campeão espanhol na temporada 1999-2000.

Brasil e Marrocos

“Estou arrasado psicologicamente”, repetia Neymar, sentado no gramado, após a eliminação do Brasil nas quartas de final da Copa do Mundo. Suas lágrimas foram vistas  pelos torcedores brasileiros como de crocodilo, o animal que chora quando está se alimentando. Beneficiado pelo presidente Jair Bolsonaro, com o perdão de uma dívida com a Receita de R$ 80 milhões, Neymar foi o último a deixar a concentração, viajando para São Paulo onde promoveu uma festa na mansão de sua irmã Rafaella, onde os convidados deixavam o celular na entrada.

Apontado como o principal culpado pela desclassificação, o técnico Tite desembarcou no Rio onde foi preparar a mudança para a cobertura comprada em São Conrado , avaliada em R$ 12 milhões. Sem ter declarado seu voto para presidente, Tite foi alvo dos “pregadores do mal”, sendo chamado de comunista pelos bolsonaristas.

Vários méritos podem ser atribuídos à surpreendente seleção do Marrocos. Um deles é a de reunir condições de ganhar o terceiro lugar numa competição que reuniu algumas das melhores equipes do mundo. Primeiro país africano a chegar a semifinal de uma Copa, Marrocos conquistou a simpatia do mundo futebolístico, engrandecendo um país que raramente aparece no noticiário global.

Protetorado francês em 1942, o Marrocos foi apresentado ao mundo através do cinema. Sucesso de bilheteria por várias décadas – hoje encontrado nas plataformas de streaming, como a Netflix e o Youtube – o filme “Casablanca”, dirigido por Michael Curtiz e estrelado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, deu projeção àquela que nunca deixou de ser a mais badalada cidade marroquina.

 

 

“FLUXO E REFLUXO” III

“Reações Provocadas na Bahia pelas dificuldades Encontradas para Traficar na Costa da Mina”.

As negociações dos traficantes negreiros baianos na Costa da Mina (Golfo do Benin) sempre foram complicadas entre os séculos XVII e XVIII por causa das interferências dos holandeses que viviam em guerra contra Portugal, cujo reino recomendava o comércio com Cabo Verde, Gabão e Angola.

Em “Fluxo e Refluxos”, obra do fotógrafo e etnólogo Pierre Verger, esses pontos estão bem figurados em suas pesquisas que demoraram 20 anos. Em um de seus capítulos ele assinala que “com o desenvolvimento do tráfico negreiro na Costa a Sotavento da Mina multiplicavam-se as dificuldades e incidentes entre os navios da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais e os dos negociantes da Bahia”.

Por causa do tabaco de qualidade inferior e depois do ouro contrabandeado no início do século XVIII, a Bahia preferia os negros da Costa da Mina, mesmo com as apreensões de cargas e fiscalizações impostas pelos holandeses, sem contar os preços exorbitantes dos cativos.

Acontece que os negros da Costa da Mina eram mais procurados para as minas e os engenhos de açúcar do que os de Angola, pela facilidade com que estes morrem e se suicidam. Os primeiros eram mais rebeldes e de difícil tratamento, mas conhecedores e hábeis no trabalho de exploração do ouro.

A rivalidade entre os negociantes de Lisboa e os da Bahia continuou sem grandes mudanças até 1720, quando da chegada de Vasco Fernandes César de Menezes, na qualidade de trigésimo nono governador e quarto vice-rei do Brasil. No início de sua regência de quinze anos, ele favoreceu as iniciativas dos negociantes da Bahia contra os de Lisboa, mas ocorreram muitos imbróglios.

Um dos problemas que o vice-rei teve que enfrentar foi com o capitão de mar e guerra Joseph de Torres, um astuto, ardiloso e contrabandista de ouro para Costa da Mina, desviando recursos do reino de Portugal. Ele foi autorizado a construir um forte em Ajudá (fortaleza cesárea) e terminou criando relações conflituosas com os holandeses (Castelo de São Jorge da Mina) e os ingleses. Os métodos usados por Torres nunca foram legais.

O Joseph de Torres chegou a ser preso e sumiu por uns tempos, mas retornou pelos anos 1730 como delator dos contrabandistas para fazer média e se aproximar das autoridades do reino de Portugal, inclusive do vice-rei. Ele foi acusado de ter cometido diversas fraudes no comércio na Costa da Mina. Na verdade, era um grande sonegador dos direitos em impostos dos portugueses.

Em 1723, com apoio do vice-rei Vasco de Menezes, foi fundada a Mesa do Bem Comum dos Homens de Negócio da Bahia, uma espécie de comitê de câmara de comércio. Seis meses depois foi criada, em Lisboa, a Companhia do Corisco.

Conservavam-se as duas tendências, a de Lisboa que queria fazer o tráfico com Cabo Verde e Gabão, e a Bahia com a Costa da Mina. Por causa dessa Companhia aconteceram diversos incidentes na Costa da Mina entre holandeses (Companhia Holandesa das Índias Ocidentais) e portugueses.

Os negros de Angola, como já foi dito antes, não servem para o trabalho das minas, mas somente como domésticos, para acompanhar as pessoas do Estado de Minas como lacaios – dizia o vice-rei em desacordo com as posições de Lisboa.

De acordo com ele, era impossível impedir o transporte de negros da Costa da Mina, apesar de serem resolutos e temerários, e recomendava precauções e disciplina com as etnias dessa região. Em seguida vamos acompanhar as intrigas entre o governador de Minas Gerais e o vice-rei Vasco de Menezes, bem como a ingratidão de Joseph de Torres.





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