“Reações Provocadas na Bahia pelas dificuldades Encontradas para Traficar na Costa da Mina”.

As negociações dos traficantes negreiros baianos na Costa da Mina (Golfo do Benin) sempre foram complicadas entre os séculos XVII e XVIII por causa das interferências dos holandeses que viviam em guerra contra Portugal, cujo reino recomendava o comércio com Cabo Verde, Gabão e Angola.

Em “Fluxo e Refluxos”, obra do fotógrafo e etnólogo Pierre Verger, esses pontos estão bem figurados em suas pesquisas que demoraram 20 anos. Em um de seus capítulos ele assinala que “com o desenvolvimento do tráfico negreiro na Costa a Sotavento da Mina multiplicavam-se as dificuldades e incidentes entre os navios da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais e os dos negociantes da Bahia”.

Por causa do tabaco de qualidade inferior e depois do ouro contrabandeado no início do século XVIII, a Bahia preferia os negros da Costa da Mina, mesmo com as apreensões de cargas e fiscalizações impostas pelos holandeses, sem contar os preços exorbitantes dos cativos.

Acontece que os negros da Costa da Mina eram mais procurados para as minas e os engenhos de açúcar do que os de Angola, pela facilidade com que estes morrem e se suicidam. Os primeiros eram mais rebeldes e de difícil tratamento, mas conhecedores e hábeis no trabalho de exploração do ouro.

A rivalidade entre os negociantes de Lisboa e os da Bahia continuou sem grandes mudanças até 1720, quando da chegada de Vasco Fernandes César de Menezes, na qualidade de trigésimo nono governador e quarto vice-rei do Brasil. No início de sua regência de quinze anos, ele favoreceu as iniciativas dos negociantes da Bahia contra os de Lisboa, mas ocorreram muitos imbróglios.

Um dos problemas que o vice-rei teve que enfrentar foi com o capitão de mar e guerra Joseph de Torres, um astuto, ardiloso e contrabandista de ouro para Costa da Mina, desviando recursos do reino de Portugal. Ele foi autorizado a construir um forte em Ajudá (fortaleza cesárea) e terminou criando relações conflituosas com os holandeses (Castelo de São Jorge da Mina) e os ingleses. Os métodos usados por Torres nunca foram legais.

O Joseph de Torres chegou a ser preso e sumiu por uns tempos, mas retornou pelos anos 1730 como delator dos contrabandistas para fazer média e se aproximar das autoridades do reino de Portugal, inclusive do vice-rei. Ele foi acusado de ter cometido diversas fraudes no comércio na Costa da Mina. Na verdade, era um grande sonegador dos direitos em impostos dos portugueses.

Em 1723, com apoio do vice-rei Vasco de Menezes, foi fundada a Mesa do Bem Comum dos Homens de Negócio da Bahia, uma espécie de comitê de câmara de comércio. Seis meses depois foi criada, em Lisboa, a Companhia do Corisco.

Conservavam-se as duas tendências, a de Lisboa que queria fazer o tráfico com Cabo Verde e Gabão, e a Bahia com a Costa da Mina. Por causa dessa Companhia aconteceram diversos incidentes na Costa da Mina entre holandeses (Companhia Holandesa das Índias Ocidentais) e portugueses.

Os negros de Angola, como já foi dito antes, não servem para o trabalho das minas, mas somente como domésticos, para acompanhar as pessoas do Estado de Minas como lacaios – dizia o vice-rei em desacordo com as posições de Lisboa.

De acordo com ele, era impossível impedir o transporte de negros da Costa da Mina, apesar de serem resolutos e temerários, e recomendava precauções e disciplina com as etnias dessa região. Em seguida vamos acompanhar as intrigas entre o governador de Minas Gerais e o vice-rei Vasco de Menezes, bem como a ingratidão de Joseph de Torres.