:: 21/jan/2023 . 1:14
DEMOLIÇÃO DA PREFEITURA DE PIRITIBA É CRIME CONTRA O PATRIMÔNIO PÚBLICO
De passagem por Piritiba, Piemonte da Chapada Diamantina, onde tenho fortes lembranças quando moleque no início da década de 60, confesso que fiquei triste quando vi o tapume indicando a demolição do antigo prédio sede da prefeitura, símbolo da criação da cidade por volta de 1954 ao se desmembrar de Mundo Novo.
A derrubada, segundo moradores porque o telhado estava deteriorado, vai dar lugar a uma praça em homenagem ao primeiro mandatário da nova cidade Carlos Ayres de Almeida, o que não justifica sr, prefeito Samuel Santana! Isto não passa de um crime contra o patrimônio público, coisa do nosso Brasil que tem a cultura perversa de demolir nossa história e apagar a memória.
Recordo muito bem daquela sede na conhecida “Rua do Rico”, próximo da feira e a primeira via a ser calçada, se não me engano, no segundo mandato de Joaquim Sampaio, o “Quinzinho”. Da minha amada Piritiba tenho fortes lembranças como moleque onde vendia doces de leite, lenha e água (lenhador e agueiro no lombo de jegues).
No início dos anos 60 quase todas ruas eram no chão, como a atual Praça Getúlio Vargas onde com outros amigos batia o sagrado baba nos finais de tarde perturbando moradores e donos de bares em torno da área. Lembro do primeiro cinema onde a sensação eram os filmes de faroeste com torcidas para Zorro, o cachorro Ritimtim, Búfalo Bill, Roy Rogeres e outros heróis norte-americanos.
Recordo muito bem das molequeiras e brincadeiras de chicotinho queimado, esconde-esconde, pau de bosta, bola de gude, das brigas com meninos de outras ruas e claro, dos furtos de manga e frutas nos quintais e nas roças. Matava aula no Colégio Almirante Barroso para tomar banho no rio Maxixe. À noite ia para a estação de trem carregar malas dos passageiros para ganhar umas moedas, ou tostões. Os ganhos serviam para a compra de revistas em quadrinhos.
Era uma cidade ainda bebê e eu tinha uns 13 ou 14 anos, mas bem antes disso vendia farinha na feira com meu pai, produzida nas fazendas Queimadinha e Caldeirãozinho. O tempo foi passando e vi a cidade se evoluindo com aquele casarão onde abrigava a prefeitura, um prédio antigo que deveria ser preservado e não demolido para dar lugar a uma praça sem muita serventia.
Pela Piritiba, que tem como padroeiro o Senhor do Bonfim, que me criou e ensinou as primeiras letras para seguir em outros estudos em terras diferentes, fica aqui, sr. prefeito, vereadores e a comunidade piritibana, meu veemente protesto por terem consentido derrubar um prédio que nunca deveria ter sido caído, mas reformado e utilizado para outros fins. Malditos tratores e maldito o homem que destrói sua história!
UM POUCO DA SUA HISTÓRIA
De acordo com pesquisa do Google, o Município de Piritiba, está localizado no Piemonte da Chapada Diamantina, no centro do interior baiano. Possui clima ameno, (temperatura média de 25° C), devido a sua altitude.
A região foi desbravada em 1883, e tudo começou na Fazenda Cinco Várzeas de propriedade do Cel João Damasceno Sampaio, que era totalmente coberta pela Mata Atlântica. Possui um bom número de rios e riachos, quase todos temporários, com exceção do Rio Jacuípe que corre o ano todo.
O Cel João Damasceno Sampaio, tinha um grande sonho: Ser o fundador de uma grande cidade. Em 1925, começou a realizar sua vontade. A história do município começa na sede da “Fazenda Cinco Várzeas”, chamada de “Sobradinho”, de propriedade de João Damasceno Sampaio, no ano de 1925.
Conta Francelino França da Silva, fiscal de rendas da Prefeitura Municipal, que o sr. João Damasceno, mandou chamar á sede de sua fazenda, o sr. Manoel Nazeozeno Lopes, mais conhecido como Manoel de Alcino, homem com vasto conhecimento prático de agrimensura e desenho, e pediu para o mesmo providenciar a medição e o projeto de uma cidade que faria construir dentro de sua propriedade.
A princípio, o sr. Manoel de Alcino, pensou tratar-se de um sonho maluco, pois não achava o local muito adequado para se construir uma cidade, devido a escassez de água tendo em vista que o riacho que passava pelo local era temporário. Mesmo assim, providenciou a medição e o projeto do loteamento, com suas ruas e praças e o entregou a João Sampaio. Este sem perder tempo, convocou um agregado de sua fazenda de nome Manoel Apolônio e mandou limpar o local e convocou alguns parentes para iniciar a construção das primeiras casas.
João Sampaio ia vendendo os lotes para os que podiam pagar. Os que não tinham recursos, ele doava para pagamento posterior em caso de venda. Neste tempo estava em construção a Estrada de Ferro da Companhia Brasileira de Estradas de Ferro, sendo que em 1927, os primeiros trilhos chegaram à Fazenda “Cinco Várzeas”, e começou a ser construída a Estação Férrea, a casa do Chefe da Estação, as casas dos feitores e dos demais trabalhadores (cada grupo de trabalhadores era chamado de “Turma”).
Este fato trouxe enorme impulso à vila que já se formava, pela quantidade de pessoas que trabalhavam ou que eram fornecedores de matérias (dormentes), e que viviam em função da Estrada de Ferro. Assim foi chegando gente de todos os lugares no chamado povoado Cinco Várzeas.
A partir dali foi construída uma feira no local. Essa feira foi realizada em baixo de umbuzeiro e, segunda a narração de Francelino Silva, além da primeira banda do boi trazida por Horacio Marcelino, só tinha pra ser vendido, um carneiro e um porco abatidos, uns quatro sacos de farinha, um saco de feijão, e mais algumas bobagens. Isto aconteceu em abril de 1928.
O CRESCIMENTO
Em 1932, na gestão do prefeito de Mundo Novo, Raul da Costa Vitória, o povoado de Cinco Várzeas, foi elevado à categoria de Distrito de Paz, sendo nomeados as primeiras autoridades, como o juiz de Paz Jose Umbelino, Escrivão de Paz Jose Maria de Lima, subdelegado Januário Marques, Fiscal Municipal Francelino França da Silva. Nesta época também chegou o 1° médico para o distrito que foi o Dr. Julio Olimpio da Cruz, agente da estação João Jeanbastian.
Em 1933, com a chegada da Estrada de Ferro, o povoado de Cinco Várzeas, passou a denominar-se de “Povoado do Junco”. Em 05.04.1934 o Decreto Estadual 8.881, criou o Distrito de Cinco Várzeas, para ser mudado novamente em caráter definitivo para o nome de “Piritiba”, através do decreto estadual 11.089 de 30.11.38.
Ainda no mesmo ano chegava ao distrito os primeiros professores públicos, nomeados pelo estado: Osvaldo Macedo, designado para Andaraí e sua esposa D. Anna Macedo, para Cinco Várzeas. Lecionaram por longos 35 anos.
Com a inauguração da Estrada de Ferro, em 1934, o distrito de Piritiba teve um grande impulso em seu desenvolvimento comercial, pois começaram a chegar comerciantes vindos de Juazeiro, Saúde, Jacobina, Senhor do Bonfim, Salvador, e outros locais, tornando o movimento na Estação Ferroviária muito intensa.
O distrito exportava gado bovino, farinha de mandioca, mamona, dormentes, coco babaçu e ouricuri, pó de palha do ouicurizeiro, além de receber diversas mercadorias oriundas de Jacobina, Senhor do Bonfim, Juazeiro e Salvador. Em dezembro de 1939, desembarca em Piritiba, pela Estrada de Ferro, o Dr. Carlos Ayres de Almeida, a convite do farmacêutico Aloísio Cedraz. Ambos trabalhavam no Distrito do França.
Nessa época existia um grande surto de malária, principalmente às margens do rio Jacuípe que dizimou várias vidas. Após concluir o seu trabalho naquele distrito, Dr. Carlos Ayres fixou residência em Piritiba, vindo a ser posteriormente um grande batalhador pela independência política da nossa cidade, culminado por exercer o cargo de prefeito, eleito que foi em 03 de outubro de 1954.
EMANCIPAÇÃO POLÍTICA
Um fato mudou o destino do distrito de Piritiba através de uma epidemia de febre tifoide e disenteria bacilar, motivados pelos detritos de um matadouro público, localizado no terreno onde hoje é a Delegacia de Polícia. O Dr. Carlos Ayres, preocupado com o problema da saúde pública, comunicou o fato ao prefeito de Mundo Novo, Dr. Adalberto S. Campos, pedindo providencias, e obteve como resposta a indiferença e a omissão.
Um dia, aproveitando a visita do prefeito ao distrito, uns quatro homens pediram que a prefeitura mandasse tapar os buracos e varrer as ruas, pois estes serviços há muito tempo não eram realizados. Mais uma vez a resposta do prefeito que não gostava do distrito, segundo Dr. Carlos Ayres, era detestável, pois feria a dignidade e a honra das pessoas que aqui viviam.
A revolta com o descaso como eram tratadas as reivindicações do nosso povo, por partes das autoridades municipais de Mundo Novo, despertou num jovem médico um desejo de liberdade política para o distrito de Piritiba, fazendo uma convocação aos homens do lugar, para a luta pela Emancipação.
João Sampaio, indignado com tudo o que estava acontecendo, viajou para a capital, manteve vários contatos com políticos e conhecidos e quando voltou, trouxe um mapa do futuro município de Piritiba, com os limites já delineados, num trabalho digno de louvor.
Formou-se então uma comissão encabeçada por Dr. Carlos Ayres e mais Joaquim Sampaio Neto, Carlos Brandão da Silva, Milton Almeida Sodré, entre outros, e após vários contatos, a Assembleia Legislativa, assinou a Lei 503 de 27 de setembro de 1952 pelo então governador Dr. Régis Pacheco, concedendo a Emancipação Política de Piritiba, desmembrando do município de Mundo Novo.
O Sr., Otavio Souza Santos foi nomeado gestor por 02 anos, até o advento das eleições que seriam realizadas em 03 de outubro de 1954, quando foi eleito o 1° Prefeito de Piritiba, o Dr. Carlos Ayres de Almeida, do PSD, que disputou a eleição com o Sr. Dionísio Almeida, da UDN.
Após dois meses de mandato do prefeito Carlos Ayres de Almeida, as pessoas influentes de Mundo Novo conseguiram tornar sem efeito a Lei 503 que emancipou politicamente Piritiba, voltando nossa cidade à condição de distrito de Mundo Novo.
Na mesma semana chegou à cidade uma comissão formada pelo prefeito de Mundo Novo, Sr. Osvaldo Vitória, pelo Juiz de Direito da Comarca de Mundo Novo, e o Pe. Nicanor, com a missão de tomar posse da prefeitura. Dr. Carlos Ayres, prefeito de Piritiba, resistiu e informou que só entregaria o cargo ao governador do Estado, o Dr. Antônio Balbino.
Nesse ínterim, uma multidão de piritibanos já estava em frente à prefeitura, o que intimidou a comitiva mundunovense que bateu em retirada. Uma semana após este incidente, o prefeito de Piritiba, acompanhado do Sr. Davino Soares e o Sr. Milton Sodré foi recebido em uma audiência pelo governador Antônio Balbino, que apoiou a atitude assumida pelo prefeito e declarou que enquanto fosse governador do Estado, a Prefeitura de Piritiba continuava sob a administração de Dr. Carlos Ayres, que assim pode cumprir o seu mandato, mesmo contrariando a Lei que revogou a emancipação.
Em março de 1958, faltando oito meses para a realização das eleições para prefeitos dos municípios, uma comissão encabeçada pelo prefeito Dr. Carlos Ayres, volta novamente a Assembleia Legislativa, agora com o apoio do Deputado Dr., Waldir Pires que abraçou a causa dos piritibanos e colocou em tramitação a Lei 140 que foi aprovada e restaurou a Emancipação Política de Piritiba.
Essa Lei foi assinada pelo governador Dr. Antônio Balbino, no final do seu mandato. Em retribuição, Piritiba através de suas lideranças deram uma votação histórica ao deputado Waldir Pires, de 1.033 votos num Colégio Eleitoral de 3.800 votos aproximadamente.
A nova eleição foi realizada, em outubro de 1958, desta vez saiu vitorioso o Sr. Joaquim Sampaio Neto (PSD), que derrotou novamente o Sr. Dionísio Almeida UDN).
A gestão de Joaquim Sampaio Neto foi corada de êxito, tendo então Piritiba a oportunidade de se desenvolver urbanisticamente. O prefeito Joaquim Sampaio Neto providenciou o calçamento de ruas, melhorou as estradas vicinais, construiu pontes e mata-burros, escolas, prédio da Câmara de Vereadores, recuperou o prédio da Prefeitura Municipal entre outras obras. O terceiro prefeito foi José Batista Viana Neto, entre 1962-1966.
“BR2466 OU A PÁTRIA QUE O PARIU”
Uma mistura de contonetas com croniquetas, se me permite os termos esdrúxulos meu amigo crítico literário e filósofo Nélio Silzantov a respeito do seu novo livro “Br2466 ou a pátria que os pariu”, numa capa antropofágica que nos lembra faces de pinturas humanas da idade média. Seu livro é como abrir a porta para receber um grande amigo para prosear por horas.
Quem sou eu para fazer uma análise mais profunda sobre sua linguagem curta e direta do cotidiano da vida rodriganiana, numa interação copular entre a língua falada e a escrita, sem medo de se expor aos mais conservadores. As expressões são como bofetadas de pelicas em nossas faces.
Em muitos capítulos, fáceis de serem digeridos, como “Toda insanidade é uma forma desesperada de adestrar um marido”, Nélio fala de renovação dos votos de amor para um marido culpado pelo casamento ter sido motivo de falatórios. Ela acreditava que em suas veias corriam o sangue dos bravos selvagens, mas “teu sangue é ralinho”.
Em “O amor não é tudo o que importa”, o autor desnuda as relações sexuais entre Adrielly e Otoniel que tudo faz para não transar com a mulher. “O amor não é tudo o que importa, repetia em seu íntimo, enquanto buscava reacender o tesão observando as silhuetas daquela apetitosa esposa deitada ao seu lado, que àquela altura, cansada de esperar pelo pau mole do marido, devia estar sonhando qualquer coisa num sono profundo”.
Otoniel era fixo nos estudos, mas “sua carreira de escritor não passava de um exercício intelectual, visto por parentes e amigos como um hobby utópico e narcisista que lhe rendia mais despesas, desdenho dos pares e frustração pessoal do que lucro e conformidade aos valores nacionais resguardas pelo Estado”.
Em seus contos ou croniquetas, como já dizia meu saudoso amigo Sérgio Fonseca que falava várias línguas e transbordava conhecimento sem ser reconhecido, nosso Nélio dá as suas porradas nessa sociedade hipócrita, corrupta e sem ética política e social.
“O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta, minha querida. Estamos felizes agora?, é claro que estamos. Mas e quando a miséria que se alastra por todo canto bater à nossa porta? As ruas já não abrigam mais os infortunados de outrora” diz o seu personagem. “Sonhar acordado, como dizem, não paga imposto”.
Se em seu romance “Desumanizados”, Nélio escancara a realidade do ser humano, da forma como ele é, em seus contos-croniquetas de “Br2466 ou a pátria que os pariu”, de linguagem accessível, Nélio observa o cotidiano da vida e o transpõe em textos concisos e reais que somente ele consegue fazer.
De fácil e prazerosa leitura, Nélio joga com a política, o social e o comportamento das pessoas, com críticas ácidas que fazem o leitor parar para refletir sobre seu eu existencial. Bem verdade quando afirma que o “Estado é uma máquina de triturar homens”.
“Br2466 é a diversão com uma mistura de temas inusitados, como a ideia de um regionalismo puro sangue, a dedicação de Deus para criar um Rei do Brega e o comportamentalismo que envolve cabras e poluções noturnas” – como bem assinalou o prefaciador Leonardo Araújo Oliveira, professor do Departamento de Ciências Humanas, Educação e Linguagem da Uesb.
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