:: 20/jan/2023 . 0:44
INTOLERANTES DEMOCRÁTICOS
Carlos González – jornalista
Pesquisa Datafolha mostra que 93% dos brasileiros condenam os atos antidemocráticos promovidos por bolsonaristas no último dia 8, em Brasília; outra consulta popular revela que mais de 50% dos evangélicos aprovam a invasão, acompanhada de destruição, aos prédios do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Palácio do Planalto.
Essa desproporção entre as duas pesquisas afasta qualquer dúvida que ainda havia sobre os autores dos atos de intolerância religiosa, praticados contra a Igreja Católica e as religiões de raízes africanas.
Denúncias às autoridades policiais têm sido feitas em todo o país, inclusive em Vitória da Conquista, relatando destruição de imagens sacras seculares e atos de vandalismo nos terreiros de candomblé. .A interrupção de uma missa solene em Aparecida, no Dia da Padroeira, por bolsonaristas – o ex-presidente Jair Bolsonaro estava entre o fieis – embriagados, foi condenada pelos católicos.
Os evangélicos, extremamente dedicados aos seus superiores nos templos da Assembleia de Deus e Igreja Universal do Reino de Deus, alimentam há décadas a ideia de tomar o poder no Brasil. O “enviado de Deus” chegou em 2018, trazendo na bagagem a negação à ditadura militar (1964-1985) e uma expulsão do Exército por indisciplina.
Nos últimos quatro anos, Jair Bolsonaro presenteou regiamente aquelas pessoas que lhe colocaram à frente do Executivo, nomeando-os para cargos nos primeiro e segundo escalões do governo, – dois devotados ministros foram nomeados para o STF -, a maioria deles sem nenhum preparo para a função que exerciam.
A derrota de Bolsonaro nas urnas em outubro passado não estava na imaginação de bispos, pastores e apóstolos, que pretendiam desfrutar dos favores do governo por tempo indeterminado, colocando em prática as normas da doutrina fundamentalista. Maus perdedores, divulgaram pelas redes sociais a idéia de que houve fraude nas eleições presidenciais, e convocaram seus apoiadores para uma jornada antidemocrática, na certeza de que as Forças Armadas acreditariam nas suas mentiras.
Não há mais dúvida da participação dos evangélicos na montagem e manutenção dos acampamentos em frente aos quartéis do Exército, contrariando a Bíblia, que faz opção pelas armas espirituais (orações, jejum e a palavra de Deus). Os tresloucados imaginavam que as muralhas da democracia, representada nas casas dos Três Poderes, cairiam facilmente, graças ao poder divino, como caíram em 1315 aC as muralhas de Jericó.
O ambulante José (nome fictício) aproveitava a movimentação dos golpistas em frente ao QG do Exército, em Salvador, para vender picolé, quando recebeu uma oferta de R$ 400 para fazer “turismo” em Brasília. Nem pensou. Embarcou num ônibus que lhe deixou num acampamento a 8 kms da Praça dos Três Poderes.
José deixou o acampamento na tarde do dia 8 como um dos milhares de autodeclarados “patriotas” de uma marcha pacífica, na opinião do governo do Distrito Federal. Finalmente ia conhecer as casas da democracia do seu país. Mas o que ele presenciou foram atos de terrorismo, com a depredação do patrimônio público e o confronto violento entre golpistas e policiais.
No calor das batalhas, um policial e sua montaria foram confundidos com os comunistas que, segundo os golpistas, se infiltraram na marcha. Agredidos, o soldado Leles e o cavalo “Drácula” foram feridos por objetos cortantes. O PMDF agradeceu nas redes sociais aos que se preocuparam com ele, escrevendo: “O Senhor dos exércitos nos guardou. Bendito seja o Senhor, minha rocha, que ensinou minhas mãos para a peleja e os meus dedos para a guerra”.
Com exceção da intolerável música sertaneja, os neonazistas têm aversão a tudo o que diz respeito à cultura, contrariando seu doutrinador, Adolf Hitler, que se apoderava das obras de arte dos países conquistados, além de ser um admirador da música clássica, principalmente das peças do compositor alemão Richard Wagner.
Os brasileiros foram testemunhas da destruição do nosso patrimônio cultural na invasão ao Planalto. Eu mesmo fui vítima desse retrocesso cultural: uma réplica do quadro “A Guernica”, adquirido no Museu do Prado, em Madri, foi destruído por uma fanática, sob a justificativa de que eram demônios as figuras criadas pelo famoso pintor espanhol Pablo Picasso.
Os milhares de bolsonaristas presos em Brasília não significam que estamos num clima de paz. Os inimigos do Estado Democrático de Direito não vão desistir facilmente de tomar o poder, mesmo com a condenação das maiores lideranças mundiais e da maioria do povo brasileiro. Não vamos esquecer que a partir de fevereiro o Congresso Nacional receberá algumas das figuras mais reprováveis do condenável bolsonarismo.
UMA VISITA À FAZENDA CALDEIRÃOZINHO
Foi como entrar no fundo do túnel e reviver os tempos de menino criança quando plantei e capinei feijão, milho e mandioca com meu pai durante os anos mais difíceis, principalmente nas épocas de seca em que quebrava coquinho de ouricuri e fazia paçoca para matar a fome.
Da mandioca fazíamos farinha e beijus com ajuda da minha mãe e nos sábados na madrugada era pequeno tropeiro na terra de chão batido, com lamas nas chuvas, tocando jumentos com cargas dos produtos da roça até a feira de Piritiba. Era uma labuta diária e dura para termos o pão que nos alimentava.
Lembro ainda menino naquela roça na localidade conhecida até hoje como “Caldeirãozinho” que há mais de 40 anos não o visitava, o que veio acontecer somente agora nessa viagem de retorno de Juazeiro quando passei por Piritiba onde aprendi as primeiras letras no Colégio Almirante Barroso.
Foram muitas as recordações e histórias que me deixaram emocionado, como do pequeno açude “Caldeirãozinho” onde tomava banho todas as semanas. Ali aprendi a ser trabalhador honesto e enfrentar os desafios da vida com meu pai, inclusive cuidando de um arrozal contra a invasão de passarinhos.
A visita me trouxe uma carga de outras lembranças, como das prosas dos compadres nas bocas das noites com bules de café, dos adjutórios, das cantorias nas batidas de feijão, das idas aos domingos no distrito de Andaraí passando pelo povoado da Tabela e quando parti para estudar em Amargosa no seminário de padres Nossa Senhora do Bom Conselho.
Foi muito prazeroso tomar uma gelada com minha esposa Vandilza na Tabela, no bar do Betão, onde encontrei gente que conheceu meu pai naqueles velhos tempos. Revelaram que nunca viram uma pessoa trabalhar tanto, ao ponto de fazer serviços de dois homens numa roda de ralar mandioca. Ele mesmo fazia sozinho a casa de farinha.
Seu Denga disse sorrindo e brincando que ele ganhava para seu “Lunga” nas tiradas diretas quando lhe perguntavam o óbvio. Era um “casca dura” no bom sentido, mas homem de palavra e de bom coração.
Cismado e direto quando tinha de falar com alguém, mesmo que fosse seu amigo, às vezes ficava tempos sem falar com alguém até se aproximar novamente da pessoa, sem rancor e mágoas. Lembro quando me dizia com firmeza para ir estudar e não ficar como ele puxando o cabo da enxada, como um ignorante.
A estrada continua a mesma, mas muitas casas desapareceram como a de seu Antônio Barbosa que uma vez, por descuido ou barbeiragem, atropelou minha mãe num fusquinha. Ficou preocupado com a reação do meu pai que não era brincadeira.
De toda viagem de Vitória da Conquista para Juazeiro e no retorno, foi o local que há anos planejava ir para reviver minhas verdadeiras raízes e origens. Posso até afirmar que foi o “Caldeirãozinho” que me deu régua e compasso para ser o que sou hoje.
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