POR QUE TEMOS MAIS PARLAMENTARES HOMENS QUE MULHERES NO BRASIL?
Quando se fala em desigualdades entre homens e mulheres, no campo político sempre se cita que no Brasil existe uma grande discrepância entre o número de homens, bem maior, em cargos eletivos nos legislativos do que mulheres. A isso se chama de machismo, mas não é bem assim.
É uma verdade quanto ter mais homens que mulheres na política, mas essa discussão precisa ser mais aprofundada, muito além de comentários simplistas de que o problema se resume no machismo brasileiro. Sei que a esta altura quem me ler já deve estar me chamando de machista, com interpretações equivocadas.
Ora, pelo que nos consta, mal ou bem, vivemos num regime democrático de eleições diretas onde todos, sem distinção de gêneros, sexo ou cor da pele, podem ser votados e votar, tanto para o legislativo ou para o executivo.
Se convencionou falar, principalmente a mídia que não se presta a fazer uma análise mais histórica e cultural do problema, que a raiz de tudo está no machismo, quando se deve laborar outras indagações para se encontrar a culpa ou os culpados.
Quando refletimos sobre o assunto, caímos sempre num paradoxo do porquê não temos mais mulheres exercendo cargos políticos no âmbito legislativo do que homens, se existem mais eleitoras que eleitores no Brasil?
Uma das explicações pode ser porque a nossa sociedade, desde os tempos coloniais, sempre foi patriarcalista e, por isso, as mulheres demoraram de avançar em suas conquistas. Elas só vieram ter o direito de votar a partir de 1932. Portanto, há mais de 90 anos.
De lá para cá, em outros setores sociais e trabalhistas, tanto no privado quanto no público, as mulheres progrediram e avançaram muito mais que no político. Existem empresas que existem mais mulheres que homens. Será que o xis do problema não está na falta de interesse de ingressar na política, como fazem os homens mais sérios, honestos e éticos?
Com mais candidatas, as mulheres não poderiam votar em mais mulheres, já que representam a maioria? Os homens mais preparados em nível intelectual e que não são corruptos também não se arriscam na política porque sabem que são excluídos. É o chamado silêncio dos bons.
A culpa também não pode estar no próprio sistema anacrônico eleitoral onde quem tem mais poder econômico para gastar numa eleição se elege do que aquele desprovido de recursos? Isso hoje vale para a mulher e para o homem.
Não estaria ainda na perpetuação do cargo, tanto nas câmaras de vereadores, nas assembleias, câmaras de deputados e no senado onde quem entra se utiliza da máquina e não dá chance para uma renovação? Não deveria se acabar com essa reeleição indefinida?
Um exemplo mais próximo está aqui mesmo na Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista onde de 21 parlamentares só existem duas mulheres que também se perpetuam no poder como os homens, caracterizando machismo dos dois lados. A questão não se resume simplesmente dizer que a Câmara de Conquista é machista, ou outra casa legislativa qualquer.
É correto o ex-governador Ruy Costa, hoje ministro da Casa Civil do Governo Lula indicar sua mulher para o Tribunal de Contas do Estado, sabendo que tem os deputados em suas mãos para elegê-la? Se os direitos são iguais, não deveria levar em conta a meritocracia, não importando ser homem ou mulher?
Quando todos são picados pela mosca azul do poder, termina não havendo distinção de comportamento entre ambos os sexos. Talvez pelo mau exemplo dos homens, que sempre foram maioria no poder, muitas mulheres também enveredaram no caminho dos malfeitos.
Qual critério teve o ministro Alexandre de Morais de conceder alvará de soltura para mais de 100 mulheres que invadiram os três poderes em oito de janeiro com a intenção de dar um Golpe de Estado, exatamente no Dia Internacional da Mulher? Todos não são culpados e têm as mesmas responsabilidades e consciências do que estavam fazendo?
A PATRULHA DAS FOBIAS E DOS ISMOS
Sou veementemente contra qualquer tipo de racismo, de homofobia, misoginia, machismo, xenofobia, intolerância religiosa ou discriminação por ideologia, mas, chegamos a um ponto onde existe uma vigilância radicalizada, insensata, incoerente e instintiva que ousaria chamar de patrulha das fobias e dos ismos.
Somos latino-americanos e, pela própria natureza da nossa formação cultural, temos heranças preconceituosas, mesmo as mais tênues, mas precisamos discernir e separar formas de pensar, para que não se jogue todos na mesma vala dos extremos. Não quer dizer que a pessoa de direita seja nazifascista, negativista ou de ideias retrógradas, como de que a terra é plana.
Infelizmente, os preconceitos vão se arrastar enquanto a humanidade existir. No entanto, o que quero dizer é que chegamos a um ponto em que as pessoas, especialmente as mais esclarecidas, vivem hoje numa bolha de autorregulação ou autocensura quando vão escrever ou falar nesses temas das fobias e dos ismos.
O termo certo para isso é patrulhamento, porque você tem que ter muito cuidado quando estiver tratando desses assuntos numa roda de amigos, num evento ou discussão, para não ser mal interpretado e acabar sendo carimbado de machista, racista, homofóbico ou intolerante religioso, sem ser nada disso.
Estamos chegando a um ponto que é melhor ficar calado, porque tudo o que você disser no tribunal pode se tornar contra você. Me reporto aqui à questão mais polêmica do possível assédio moral do qual vem sendo vítimas jornalistas da Assessoria de Comunicação e do sistema Surte da Uesb- Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.
Não vou entrar aqui no julgamento das denúncias, mesmo porque elas carecem de uma maior investigação e apuração para que tudo fique esclarecido e os culpados sejam punidos, mas o tema está rolando nas redes sociais, principalmente no Grupo do Sinjorba-Sindicato dos Jornalistas da Bahia. Quem sou eu para dar sentenças!
Não entendo, porém, o porquê de dois integrantes fazerem uma ligação desse problema, que é grave, para dizer que a Uesb é machista porque nunca teve uma reitora no cargo, como se caso fosse uma mulher não aconteceria um assédio moral ou outro tipo de discriminação lá dentro.
Por ter dito que tanto faz ser homem ou mulher, para mim não faria nenhuma diferença, fui visto como machista. Ora, todos sabem que a reitoria da instituição segue uma linha de esquerda e, por suposição e entendimento ideológico, não admite que lá dentro aconteça nenhuma discriminação, a exemplo do assédio moral. E se a direção fosse alinhada à direita? O que falariam? Por favor, não estou aqui fazendo nenhuma defesa da Uesb.
Mesmo sendo relativa, estamos numa democracia de eleições para o cargo de reitor ou reitora, o que não impede de ser uma mulher, desde que ela saia como candidata e receba os votos dos eleitores aptos ao exercício da votação, inclusive da categoria feminina. O sistema eleitoral anacrônico como um todo é que está errado.
Ainda são poucas, mas em muitas outras unidades universitárias da Bahia e do Brasil temos mulheres como reitoras. Isso não quer dizer que estejam livres desses problemas internos. Não me importa se seja homem ou mulher. Para mim, o que mais conta é meritocracia.
Qualquer pessoa que exerce um cargo público, seja prefeito ou prefeita, vereador ou vereadora, diretor ou diretora de algum órgão, deputado ou deputada está sujeito à crítica. Não se pode generalizar que quando a crítica recai em uma prefeita, o ato seja machista.
Pode até ser de alguém em particular, mas nesse país se convencionou falar que aquela pessoa está sendo vítima de machismo por ser mulher. Então, chegamos ao ponto radical de que uma mulher não pode ser criticada quando está a exercer uma função importante dentro da sociedade, mesmo cometendo falhas.
Poderia aqui me estender a outros tantos exemplos de julgamentos equivocados quando uma pessoa é mal interpretada e vista como homofóbica, racista, machista, misógina e outras formas de preconceito só por expressar seu pensamento de discordância de que tal ato não caracteriza propriamente uma discriminação.
LANÇAMENTO DE “NA ESPERA DA GRAÇA-ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS
Não são textos pandêmicos, mas, em sua maioria foram inspirados durante o período da pandemia da Covid-19 quando as pessoas estavam angustiadas, isoladas e até desesperadas na espera de uma graça.
A obra “Na Espera da Graça – Entre Engaços e Bagaços” foi lançada no último dia 3 de março, na Casa Regis Pacheco (Praça Tancredo Neves), às 19 horas, com apoio da Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel.
O público prestigiou o evento que contou com uma apresentação do cantor e compositor, Walter Lages, que musicou a letra Na Espera da Graça, de autoria do próprio jornalista e escritor Jeremias Macário. Estiveram também presentes Luis Altério, da Editora Nzamba e o coordenador da Secretaria de Cultura, Alexandre Magno.
O professor Itamar Aguiar fez a apresentação da obra, destacando a forte pegada nordestina dos textos poéticos do autor quando descreveu sobre os costumes, hábitos e a cultura popular da região, inclusive citando personalidades importantes (escritores, pensadores, poetas e artistas) no poema Entre Engaços e Bagaços.
Segundo Itamar, Jeremias fala justamente desse povo sofrido do Nordeste de um modo direto, objetivo e seco num estilo catingueiro, sem arrodeios, não deixando de abordar também questões políticas, filosóficas, sociais, amor, dor, saudades e o cotidiano da vida.
O título foi exatamente inspirado numa letra musicada pelo companheiro músico, cantor, poeta e compositor Walter Lajes, em sua viola mágica e apresentada em diversos festivais.
Outros versos da obra também foram musicados por artistas locais e do Nordeste, como Edilsom Barros, de Fortaleza (A Dor da Finitude) e Antônio Dean, de Campina Grande (Lembro Ainda Menino e Minha Filha Cintia). Na obra, outras letras foram musicadas por Papalo Monteiro e Dorinho Chaves.
Outros poemas foram gravados em vídeos com minha esposa Vandilza Gonçalves e meu amigo José Carlos D´Almeida, que resultaram em dois curtas metragens, um dos quais premiado pelo edital da Lei Aldir Blanc, lançado pela Prefeitura Municipal através da Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel.
Para finalizar, o livro contém o capítulo “Entre Engaços e Bagaços”, um épico sobre o nosso resistente Nordeste, uma viagem que o autor faz a partir do Maranhão, descendo pelo Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe e a Bahia onde são louvados Câmara Cascudo, José de Alencar, José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, Graciliano Ramos, Tobias Barreto, Rui Barbosa, Gregório de Matos, Jorge Amado e tanto outros.
Este é o quinto livro do jornalista e escritor Jeremias Macário que já lançou “Terra Rasgada”, “A Imprensa e o Coronelismo”, “Uma Conquista Cassada” (seis em um) e “Andanças” (dois em um). “Na Espera da Graça” são textos poéticos inéditos e impactantes para o leitor refletir, criticar e divulgar entre amigos, parentes e familiares.
VÍTIMA DE XENOFOBIA
Não é de agora que a região Nordeste vem sendo vítima de chacotas e xenofobia por parte, principalmente, de sulistas nazifascistas e racistas que se consideram raça superior. Essa carga de ódio e intolerância tem acontecido com maior intensidade em épocas de eleições porque os votos dos eleitores daqui não batem com suas ideologias, muitas das quais de direita e de extrema retrógrada medieval. Em alguns estados eles se referem aos nordestinos de baianos. Em outros de paraíbas e até de cabeças chatas e paus-de-arara, como já se pronunciou o capitão-presidente Bozó psicopata que fugiu do país. No caso recente do trabalho escravo em vinícolas de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, o vereador Sandro Fantinel, do partido Patriota de Caxias do Sul, extrapolou sua ignorância e burrice quando se referiu os operários baianos de gente lá de cima suja que só sabe pegar praia e bater tambor. Todos vereadores conquistenses repudiaram sua horrível fala na última sessão de quarta-feira (dia 01/03). Não sabe o dito parlamentar que o Sul foi colonizado por imigrantes europeus com dinheiro do governo central tirado do Nordeste, que sempre foi discriminado na distribuição dos recursos federais, daí a grande desigualdade regional gerando miséria e fome. Tenho orgulho de ser nordestino, especialmente pela sua rica cultura de grandes nomes da literatura, da música, do folclore, do pensamento filosófico, da jurisprudência e tantas outras linguagens artísticas. Esses sulistas retardados e doentes mentais acham que o nordestino é uma raça inferior que deveria ser exterminada em câmaras de gás como fez Hitler e seus seguidores contra judeus, ciganos e outras etnias. Esses indivíduos não se evoluíram como seres humanos. Nem podem ser considerados de animais irracionais. São estrumes e vermes.
DOMADOR DE BURRO
Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Êta Nordeste bom de se ver!
De escritor, artista, senhora e senhor,
Rezadeira, penitente e você,
Vendedor de quebra-queixo,
Amolador e tocador de realejo,
Nessa terra de tanto casmurro:
Tem até o domador de burro,
Não mais na tora da espora,
Mas com nova terapia, sem pia.
O domador de hoje rodeia,
Sem na mão a taca e a peia,
Conversa com o burro,
Faz ele sentir seu cheiro;
Coloca seu chapéu por inteiro,
Num ritual de interação,
Segue o passo a passo do manual,
Até ele lhe chamar de doutor.
É tanto jeito e mania,
Que o burro dá sua montaria,
Confia que em seu lombo suba,
Sem coice, pulo e derruba,
Mais manso que essa gente bruta,
Fanática e inconsequente,
Que não tem domador nenhum,
Para o desumano anormal comum.
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AS SEMELHANÇAS ENTRE A ESCRAVIDÃO AFRICANA E A DOS TEMPOS “MODERNOS”
Meu amigo e companheiro jornalista Carlos Gonzalez me pediu para que eu fizesse um comentário sobre as semelhanças da escravidão africana que durou mais de 300 anos no Brasil e as dos tempos “modernos”, como a mais recente encontrada em Bento Gonçalves (Rio Grande do Sul), praticada por vinícolas daquele estado. Tudo é uma questão de semântica e ponto de vista de cada um.
Sua sugestão é uma ordem e vamos lá fazer algumas pontuações. Para começar, os fatos atuais não deixam de ser uma herança da escravidão negreira. Claro que as formas são análogas, mas os termos empregados nos tempos de hoje são diferentes e não se pode comparar a violência e a crueldade sofridas pelos negros tirados a ferro e fogo da sua terra natal para atravessar o Atlântico em porões fedorentos da morte durante mais de dois meses. Milhares foram jogados vivos no mar.
Longe de querer contemporizar o uso da mão escrava por empresas e fazendeiros em pleno século XXI, que é ainda mais vergonhoso quando nos consideramos “civilizados”. Existe uma força de expressão quando usamos a palavra análoga. Nada se pode comparar com o que aconteceu com a escravidão passada, que inclusive era institucionalizada e aceita pelo Estado e a Igreja Católica.
No entanto, as práticas se parecem, inclusive na fala do vereador de Caxias do Sul (RS), Sandro Fantinel, do Patriota (que ironia!), quando arrota toda sua xenofobia contra os baianos (mais de 200) dizendo serem sujos; que não gostam de trabalhar; e só sabem curtir praias, carnaval e tocar tambor. Recomendou que as empresas contratassem os argentinos que, segundo ele, são limpos, dedicados e ainda agradecem o patrão.
Os senhores da cana, dos engenhos de açúcar e da mineração também xingavam os nagôs-iorubás, da região da antiga Nigéria, por serem mais atrevidos; resistirem as opressões e castigos; e tramarem revoltas e fugas. Eles preferiam os angolanos e do Golfo do Benin por serem mais dóceis e aceitarem as submissões, sem rebeliões.
Quem iam buscar os negros na África eram os capitães de navios, negociantes individuais e empresas donas das próprias embarcações que eram chamados de traficantes negreiros, não importando se sob encomenda dos patrões ou leiloados nos mercados. Todo sistema era feito na base dos atravessadores.
Esses traficantes hoje são chamados de contratadores ou de firmas terceirizadas, todos se utilizando de práticas ilegais através de propagandas salariais enganosas e burlando as leis trabalhistas. A escravidão já começa a partir do transporte irregular e precário através de um ônibus velho ou um pau-de-arara, diferente do porão escuro e infernal.
A escravidão africana era legalizada pelo Brasil, Portugal, Inglaterra, França, Espanha e até a Dinamarca. Os governos ou reinos ditavam as leis, mas, dentro desse tráfico (o nome já diz tudo) existiam os contrabandos, a clandestinidade e os corruptos.
Mesmo após a proibição do tráfico, em 1850, pela Lei Euzébio de Queirós, os traficantes continuaram a atuar por meio de suas trapaças, desvios de rotas para não serem aprisionados pelos ingleses e conluios com as autoridades. Depois de mais de 130 anos da abolição, essa escravidão ainda persiste.
Pelo que confessaram os trabalhadores baianos, em Bento Gonçalves, eles foram alojados em acampamentos indignos ao ser humano, sem água potável, dormitórios limpos e alimentação adequada. Levaram porradas; apanharam; e foram torturados quando não cumpriam bem as tarefas.
Na época da escravidão africana, os negros ficavam em senzalas horríveis e degradantes. Eram vítimas de chibatadas; iam para o tronco; mutilavam partes de seus corpos e até recebiam castigos de morte, sendo bem ou não comportados. Muitos surravam seus negros escravos por prazer, para serem obedientes e para servirem de exemplo para os outros.
Bem, meu amigo Gonzalez, os métodos empregados eram diferentes e mais violentos contra os cativos africanos, mas isso não quer dizer que essa forma de trabalho atual, a exemplo do descoberto nas vinícolas de Bento Gonçalves, deixe ser escravidão.
Aliás, no nosso Brasil de hoje, de mais de 11 milhões de desempregados, principalmente depois da reforma trabalhista, onde é quase nula a negociação bilateral entre o capital e o trabalho (o patrão manda e o empregado obedece), o regime é de escravidão, desde a remuneração mínima, as pressões de assédio moral, as longas jornadas até as condições inadequadas nos locais de atuação. Para disfarçar essa escravidão, os senhores capitalistas chamam seus servidores de colaboradores.
ESSA SOCIEDADE FALSA E HIPÓCRITA!
“VIVEMOS UM TEMPO DIFÍCIL, EM QUE O CERTO MUITAS VEZES TEM QUE SE CALAR, PARA QUE A ESTUPIDEZ NÃO SE OFENDA”.
Convivemos diariamente com os absurdos e paradoxos nesse país onde essa nossa sociedade já tem a cara de falsa e hipócrita, que acha que se salva de suas depressões e culpas de consciência fazendo uma doação nas ocasiões de tragédias. Ela mesma cria o monstro e depois manda matá-lo. Acha que uma doação resolve tudo?
Mirem-se no exemplo das catástrofes causadas pelas chuvas excessivas no litoral norte de São Paulo que mataram quase 70 pessoas e deixaram milhares de desabrigados no olho da rua. Nessa hora aparecem doações de todas as partes, exatamente dessa sociedade culpada por agredir a natureza e não aceitar que o pobre melhore de vida. Por tudo isso, o Brasil de hoje é o país das doações. Quanto mais misérias e desgraças, mais doações.
Sobre São Sebastião (SP) estava vendo uma reportagem onde o prefeito tentou há muito tempo relocar as habitações de trabalhadores de locais inadequados, irregulares e perigosos para uma área litorânea onde só moram os ricos e turistas em suas mansões. Lá, em frente do mar com seus barcos luxuosos estão todos seguros.
Pois bem, as associações de moradores, o setor imobiliário e lideranças burguesas reagiram prontamente para que o projeto social de moradias não se concretizasse alegando que, sem a devida estrutura de saneamento, iria impactar o meio ambiente com o despejo de lixo, entulhos e esgotos no litoral das praias. São tão cínicos que se utilizam de argumentos fajutos e esfarrapados para ficarem bem distantes da pobreza. Até parece que esse tipo de sociedade se preocupa com a natureza!
Como o poder econômico fala mais alto e sob forte pressão, o prefeito recuou. Não demorou muito tempo e essa mesma sociedade desumana tratou de usar o terreno com a implantação de um resort e mansões. Nem é preciso dizer mais nada que essa gente tem nojo dos pobres e não quer eles por perto. Acha que todos são bandidos, sujos e só trazem doenças e violências.
Se o programa tivesse sido realizado teria agora evitado dezenas de mortes dos deslizamentos dos morros onde moravam. É essa mesma sociedade burguesa cruel que agora se junta para dar doações, como se isso fosse o suficiente para apagar seu desejo de ver bem longe dos operários escravos que servem a eles ganhando migalhas salariais.
Os pobres foram empurrados para as encostas dos morros porque os ricos assim o fizeram, sendo os maiores consumidores e produtores de lixo que contribuem para o aquecimento global, tendo como consequências as bruscas mudanças climáticas. Por ironia e destino da vida, os mais fracos são os mais atingidos quando batem os desastres da natureza que não perdoa o homem predador.
Temos aqui, bem perto de nós, a exploração pretérita de pedras e areias da Serra do Periperi, em Vitória Conquista, cortada ao meio pelo anel viário. Como jornalista e repórter fui testemunha dessas depredações e até fui hostilizado. Sem espaço, em suas encostas vivem hoje os mais pobres. Quando caem as fortes chuvas é aquela bagaceira de entulhos e detritos que descem lá do alto.
Vivi muitos anos em Salvador e a memória não me falha quando acompanhei os conflitos dos riquinhos do Bairro Costa Azul contra uma comunidade que morava próxima, se não me engano chamada de Faxina. Para eles (os poderosos) todos eram marginais e tinham que ser retirados dali. Estive lá e constatei que a grande maioria era de trabalhadores autônomos.
Por que as moradias do programa “Minha Casa, Minha Vida” são sempre construídas nas periferias das periferias, sem transporte e saneamento básico adequados? Nos centros das grandes cidades existem muitos prédios e casas abandonadas, mas os governos não fazem um planejamento sério para ocupar essas unidades. Em nossa história jamais existiu governo dos pobres porque a elite não deixa.
Dos seus prédios e apartamentos mais altos, essa sociedade capitalista selvagem não aceita ter como paisagem olhar a miséria lá embaixo. Sempre negou dividir seus lucros e torce a cara para qualquer política de cunho social. Não aceita repartir para reduzir as desigualdades. Agora reclama e pede morte quando leva chumbo grosso lá debaixo.
AINDA O CARNAVAL E AS MULHERES
As “letras musicais”, se é que podem ser chamadas de letras, do carnaval deste ano, em Salvador, puxadas pelos trios dos mais “famosos”, bateram o recorde em porcarias horríveis em termos de pornografia nos pagodes, axés, arrochas e rebolas, tratando as mulheres como objeto sexual, sem falar no assassinato da nossa língua portuguesa. Isso tudo reflete anos e anos de péssima educação no ensino brasileiro.
O mais interessante, irônico e paradoxal, quando se fala em respeito às mulheres, vítimas de assédio sexual nos circuitos da folia, é que praticamente não vi nenhuma reação de repúdio dos grupos e entidades feministas, de sociólogos, psicólogos, antropólogos, de cantores e compositores da velha geração e da mídia que até deu troféu e fez propagandas de estímulos.
Ganhou “zona de perigo” – “bota no meu boneco”, do Léo Santana, que é uma apelação clara no tratamento com a mulher. Num trio, não me lembro bem qual, tem a cena de um cara explicitamente batendo na bunda de uma mulher. A plebe ignara ou a multidão alienada lá embaixo no asfalto vibrava e pulava.
Uns tempos desses foi feito uma enquete em Salvador sobre essas “letras” de duplo sentido sobre as mulheres e a maioria delas achou normal e que não se importava. Cadê os movimentos feministas? Eu só queria entender esse planeta dos macacos. Cuidado que pode cheirar a ofensa e alguém querer me processar.
O mais contraditório nisso tudo é que de um lado aparecem campanhas, inclusive da mídia, no sentido do respeito às mulheres no carnaval, dizendo ser crime passível de prisão. Do outro vem o consentimento e o silêncio com relação a essas letras horrorosas e agressivas.
Nossa sociedade e os segmentos dela, que se dizem organizados, é hipócrita, nojenta e fedorenta. Qual moral para condenar os assediadores sexuais com beijos e pegadas forçados, se lá em cima do trio desses cantores é só baixaria? Entre tantas, tem outra “letra”, não sei de Ivete Sangalo, que diz se “nós bebe, senta”, se nós senta, bebe”.
Ainda tem gente que chama esse conjunto de rebolados e de bumbuns nus de conteúdo. As escolhas das “melhores letras”, isto é, que mais bombaram no circuito e nas redes sociais, receberam mais de um milhão de votos. É muita gente despolitizada.
A mídia é a mais omissa que, por interesse particular na audiência e no dinheiro dos patrocinadores, ao invés de criticar e denunciar esse monte de porcaria que nos envergonha, faz é elogios, divulgação massiva e promove prêmios, quando deveria pelo seu papel de formadora de opinião, apoiar as boas letras e músicas. Ela está sendo é deformadora.
Confesso que não entendo essa gente, mas é para não entender mesmo (olá meu companheiro jornalista Carlos Gonzalez, diga aí). Conivente nos momentos que lhe interessa, mistura consentimento com condenação num caldo paradoxal e triste de se ver.
Depois é só dizer que nossa sociedade é por natureza culturalmente machista. Do outro lado, ela mesma contribui para a continuidade desse quadro retrógrado, atrasado e misógino. O mais preocupante é o silêncio dos bons, como dizia o pastor Martin Lutter King em seu discurso sobre a igualdade social e humana. Sem mais comentários, antes que eu arrote mais xingamentos e revoltas.
MAIS DIREITOS E MENOS DESRESPEITO AO IDOSO
Carlos González – jornalista
Depois de ler, como faço diariamente, o artigo publicado hoje (dia 23) neste mesmo espaço, por meu amigo e velho companheiro de imprensa, o jornalista Jeremias Macário, abordando o modo desrespeitoso como o idoso é tratado neste país, foi-me concedida permissão para “pongar nesse bonde”. Sou um “passageiro” observador, além de ter sido submetido a situações de constrangimento e desprezo, especialmente nas grandes cidades.
Atente para o artigo 4º do Estatuto da Pessoa Idosa: “Nenhuma pessoa idosa será objeto de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão, e todo atentado aos seus direitos, por ação ou omissão, será punido na forma da lei”.
Os primeiros a serem punidos deveriam ser nossas autoridades, que não criam políticas públicas dirigidas aos idosos, como distribuição gratuita de medicamentos, principalmente os de uso contínuo, instalação de delegacias policiais especializadas, passagem gratuita em viagens aéreas e rodoviárias interestaduais, prioridade em trâmites de Justiça. Vale salientar que a Lei 13.446/2017 criou a classe dos superidosos, concedendo aos que têm mais de 80 anos prioridade especial.
Prevê também o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003, ampliada pela Lei 14.423/2022), isenção do IR e do IPTU para quem ganha até dois salários mínimos; precedência no atendimento em órgãos públicos; vistoria e interdição dos asilos que funcionam em condições precárias; meia-entrada em eventos; direito a um, salário mínimo mensal ou a pensão dos filhos, se comprovar não ter condições de se manter por conta própria.
Um dos motivos que me levou há nove anos a trocar Salvador por Vitória da Conquista foi a busca por um lugar onde a chamada melhor idade (quanta ironia!) fosse tratada com respeito. Nos primeiros anos, quando me pediam uma opinião sobre a cidade, respondia que “o melhor de Conquista é o seu povo”.
Quando me perdia nas ruas de Conquista aparecia sempre alguém disposto a me conduzir ao local de destino; em Salvador, apontam para o lugar errado. Essa mesma gratidão eu tenho com relação àqueles que me atenderam em consultórios, lojas, bancos e estabelecimentos comerciais.
Depois de quase uma década, noto que alguns vícios enraizados nos soteropolitanos, como a ocupação das vagas de idosos, já estão sendo adquiridos em Conquista, sob a complacência das autoridades municipais.
Residindo no bairro da Barra observava que havia uma flagrante distinção social entre as pessoas com mais de 60 anos; os que tinham um maior poder aquisitivo se reuniam diariamente nos cafés do shopping, onde os mais pobres se sentiam discriminados e preferiam os bancos do Jardim da Piedade ou as mesas de dominó e dama da Praça do Relógio de São Pedro.
Notava em Salvador que os motoristas de ônibus não atendiam aos acenos dos mais velhos, e ainda era objeto de chacota dos ocupantes dos assentos preferenciais; que a presença de um idoso num show musical ao ar livre era motivo de curiosidade, assim como, prestando um vestibular ou assistindo a uma aula no ensino fundamental ou universitário.
Estudo organizado recentemente pelo cientista político José Carlos Libânio, com 2 mil idosos em sete cidades fluminenses, apontou que 80% deles reconhecem que a sociedade brasileira não está preparada para lidar com a velhice, e que deixam de usar seus direitos em lugares públicos, como as filas preferenciais, para não serem agredidos com palavras.
Há uma questão que acho importante abordar: as leis que dispõem sobre o regime jurídico dos servidores, em todas as instâncias da administração pública, prevê a aposentadoria compulsória aos 70 anos, afastando, em determinados casos, excelentes profissionais que ainda poderiam ser úteis ao Estado. Conheci um diretor de Redação que não aceitava a readmissão do jornalista aposentado.
Não vamos esquecer que o Brasil é governado por um idoso de 77 anos, que tem se mostrado disposto a arrumar a bagunça deixada por seu antecessor, dez anos mais moço e que carrega a fama de nunca ter trabalhado, além de reclamar do salário – não cita os benefícios do cargo – que recebia como presidente da República.
Gostaria de pedir aos caros leitores, em particular os da minha geração, que tomassem conhecimento e se utilizassem dos direitos, que são em maior número dos que os mencionados neste artigo, e que lhes são oferecidos pelo Estatuto da Pessoa Idosa.
A Constituição reza que “é dever da família, da sociedade e do Estado amparar e assegurar a participação do idoso na comunidade em que vive, garantindo-lhe o direito à vida, defendendo sua dignidade e seu bem-estar”.
“FLUXO E REFLUXO” XIX
“Bahia, 1810-35: Relações econômico-filantrópicas anglo-portuguesas e sua influência no tráfico de escravos no Brasil”
Nesse capítulo da sua obra “Fluxo e Refluxo”, o etnólogo e fotógrafo Pierre Verger assinala que dois acontecimentos mudaram as condições das relações comerciais entre a Bahia e a Costa da Mina (Golfo do Benin).
Um deles ocorreu em 27 de novembro de 1807 quando o príncipe regente de Portugal D. João VI, acompanhado da sua esposa Carlota Joaquina e sua mãe, a rainha D. Maria, a louca, embarcou de Lisboa para o Rio de Janeiro, fugindo das tropas francesas de Napoleão.
Seguiram o príncipe mais de 13 mil pessoas nos navios da esquadra e outras embarcações mercantes disponíveis. Entre a aliança com a França e a Inglaterra, D. João foi obrigado a optar pelos britânicos que ameaçaram ocupar o Brasil por questão de segurança.
Conforme Verger, o príncipe regente ficou na Bahia entre 22 de janeiro a 26 de fevereiro, acolhido pelo governador João Saldanha da Gama Melo e Torres, quando decidiu abrir os portos brasileiros aos navios estrangeiros (decreto de 28 de janeiro).
Com essa medida, a Inglaterra foi a principal beneficiária e passou a exercer pressões econômicas e políticas sobre o Brasil, desorientando os comerciantes brasileiros.
Com a entrada da era industrial no final do século XVIII, substituindo a época comercial, o negócio de escravos se tornou antiquado para a Inglaterra devido aos rápidos progressos tecnológicos.
O segundo acontecimento foram as campanhas abolicionistas de Wilberforce, visto que os fins humanitários atendiam os interesses das indústrias. A extinção do asiento inglês do fornecimento de escravos às Índias de Castela, a revolta das colônias norte-americanas, a declaração de independência dos Estados Unidos, em 4 de julho de 1776 e a guerra até o Tratado de Versalhes, em 1783, deram um duro golpe no comercio de escravos dos ingleses.
As colônias espanholas se tornaram independentes, com exceção de Cuba, que manteve o tráfico até 1864. Somente Brasil e Cuba tinham ainda sua economia baseada no antigo sistema agrário-comercial.
Na primeira metade do século XIX, a Inglaterra procurou garantir, através da política de livre comércio, a saída de seus produtos manufaturados, o que terminou por afetar os interesses da Bahia e suas relações com o Golfo do Benin.
Os dinamarqueses foram os primeiros a abolir o tráfico de escravos, em 1802, seguidos dos Estados Unidos, em 1807. Dias depois, no mesmo ano, foram os ingleses que tornaram a medida efetiva em janeiro de 1808, no momento em que D. João VI viajava para o Brasil, que se tornou reino.
Para obter sua liberdade econômica, o Brasil tinha mais que lutar contra a Inglaterra do que com Portugal. As teorias abolicionistas contrariavam as necessidades de mão-de-obra servil. A partir daí vieram os conflitos diplomáticos em torno de assinaturas de tratados, bem como aprisionamento de navios traficantes brasileiros.
Nessa questão do tráfico negreiro, a Inglaterra assinou uma série de tratados e convenções com Portugal e o Brasil entre 1810 e 1826. O Brasil, de acordo com Pierre Verger, os complementou por meio de leis, em 1831 (lei para inglês ver), e 1850.
Esse conjunto de atos teve a mais profunda influência sobre a situação da Bahia e modificou o caráter de suas relações com o Golfo do Benin. Houve um corte das relações comerciais instauradas desde vários séculos entre a Bahia e Benin. Mesmo assim, o tráfico manteve-se ativo até 1851, como relata Pierre Verger em seu livro.


















