NOSSO SARAU TEM HISTÓRIA
Nas lentes das máquinas fotográficas e dos celulares, nos debates de diversos temas, no bate-papo fraternal e acalorado, nas contações de causos, nos casos de pessoas que aqui pernoitaram, nas pessoas que já partiram para o outro lado do além ou para a outra margem do rio, nas declamações de poemas, nas cantorias dos violeiros, nos amores encontrados e nas madrugadas comendo e bebericando, o nosso “Sarau A Estrada”, que já está completando 13 anos (ficou dois anos parado por causa da pandemia da Covid-19), tem muita história para se contar. Daria para se fazer até um documentário com seus personagens, uns polêmicos e outros até engraçados. Tudo começou em 2010 num encontro de amigos entre Jeremias Macário, Manno di Souza e José Carlos D´Almeida quando pintou a ideia de reunirmos um grupo somente para ouvir vinis e tomar vinho. Assim surgiu o “Vinho Vinil”, com o Pérgula e o Dom Bosco. Dessa turma de fundadores, outros amigos foram se incorporando e o formato foi se modificando e se ajustando para até chegar ao “Sarau A Estrada”, tendo como abertura dos trabalhos um temo escolhido democraticamente. O evento é realizado no Espaço Cultural A Estrada. Tem os frequentadores assíduos do tipo professor Itamar Aguiar até gente nova que sempre aparece em nossos encontros. A maioria é composta de artistas. Tem muito mais coisa para contar, mas o que fica de eterno são as trocas de ideias, de conhecimento e aprendizagem. Muitos já dizem que o sarau já é de fato de utilidade pública e que já poderia ter recebido homenagens, reconhecimento e moção de aplausos da Câmara de Vereadores e outras entidades pela sua persistência em continuar existindo. Ah, ia quase me esquecendo de dizer que o sarau é colaborativo onde cada um traz petiscos, comidas e bebidas. É uma muvuca organizada e sadia.
NÃO MISTURE NOSSO FORRÓ
Autoria do jornalista Jeremias Macário
Não misture
Nosso forró, não,
Nem profane
Nossas festas juninas,
Com suas músicas assassinas.
Nosso forró,
Nasceu do fifó,
Na poeira do arrasta-pé,
Ao som do triângulo,
Da zabumba e da sanfona,
No melaço da cana,
Com cultura, tradição e fé.
Nosso forró é nordestino
Dos santos Antônio, João e Pedro
Brinca idoso, jovem e menino.
Seu prefeito predador safadão,
Não misture nosso forró, não
Com sua propina de mocotó.
Não misture nosso forró, não
De penetras estrangeiros,
Com chapéu de couro,
Indumentária de cangaceiros,
Que roubam nosso ouro,
E nem sabem lá cantar,
Xote, xaxado e baião.
Salvem Jachson do Pandeiro,
Marinês, Sivuca e Gonzagão,
Sem essa plástica indecência,
De misturar sertanejo e pagodão,
Axé, arrocha e sofrência.
Não misture nosso forró, não,
Pra nóis dançar é forrozeiro,
Na letra agreste do Nordeste,
Com licor, quentão e mungunzá,
Como nos tempos do candeeiro.
AS JORNADAS DE JUNHO, O RENASCER DA EXTREMA DIREITA E O OVO DA SERPENTE
Há dez anos, em 13 de junho, surgiam as manifestações em São Paulo por um grupo de jovens que contestavam as tarifas de ônibus e lutavam para que os transportes coletivos não fossem pagos. A princípio, tudo era ordeiro, mas os movimentos foram engrossando e descambando para outras reivindicações, se espalhando por todo Brasil.
Sempre dizem que os brasileiros têm pouca memória, e a mídia em geral não faz uma reflexão sobre aqueles episódios que ocorreram no governo de Dilma Russelff. Li poucas análises políticas-científicas e sociológicas sobre aqueles acontecimentos em artigos na imprensa escrita, muitas na linha academicistas.
Prefiro uma linguagem mais direta e objetiva de que foi dali que despertou ou ressuscitou a extrema direita do Brasil que estava mofando em túmulos e armários, gerando depois o ovo da serpente de nome Jair Bolsonaro, filhote do chamado baixo clero na Câmara dos Deputados onde esbravejava impropérios e destilava sua raiva contra o PT, sem falar nas suas atitudes racistas, homofóbicas, ditatoriais e misóginas.
As jornadas de junho invadiram nosso país, e das tarifas, o povo e outros infiltrados baderneiros e vândalos extremistas passaram a cobrar casa própria, mais justiça social, segurança pública, um monte de direitos individuais com cartazes na mão e gritos de rebelião. Das tarifas, o alvo maior passou a ser a corrupção generalizada no governo apurada pela Operação Lava-Jato, sem falar no “bota fora” de Dilma (golpe da direita).
Sem contar a ascensão dos evangélicos que já vinham ganhando terreno (Malafaia e outros pastores) em seus comandos de postos e cargos na política no Congresso Nacional e mostravam sua cara conservadora, o ovo da serpente nazifascista começava a sair da casca, culminando com sua eleição em 2018.
O junho de 2013 foi o despertar do extremismo fascista medieval negativista da ciência e da elite burguesa que não aceitava sentar ao lado dos mais pobres nos aviões dos aeroportos, frequentar shopping center e nem ver uma classe, antes mais baixa, comprar veículos nas concessionárias. Lula colocava lenha na fogueira dizendo: “É nós contra eles”. A ira só fez aumentar, inclusive entre famílias, de pais contar filhos e irmãos contra irmãos.
Dalí surgiram outras enxurradas de movimentos nas ruas, como os camisas amarelas ou da seleção brasileira a pedir o impeachment de Dilma, colocando como mote principal as corrupções generalizadas. Tiveram ainda o bate panelas contra o PT e seu modo de governar. O partido se fechou em seu casulo e rejeitou reconhecer seus erros, fazer um mea culpa.
O juiz Sérgio Moro, que depois foi ser ministro do capitão Bozó e considerado parcial pelo Supremo Tribunal Federal nos julgamentos de Lula e de seus companheiros, passou a ser visto como o herói da nação, de homem íntegro a serviço de bem contra o mal.
Até comentaram que ele estava a serviço da extrema-direita norte-americana para destroçar a esquerda. Foi esse mesmo grupo que depois elegeu o maluco do Trump que veio apoiar o governo do capitão-presidente. A grande mídia não ficou de fora com seus exorcismos contra os diabos malignos, mas tivemos o trabalho diferenciado da imprensa alternativa mostrando o outro lado da história.
Seus aliados, como o MST e as centrais sindicais não apresentaram força suficiente para conter a onda fascista terraplanistas e deu no que deu. A oposição foi opaca, dúbia e equivocada. Na verdade, o ódio e a intolerância tiveram origens lá atrás nas jornadas de junhos. As redes sociais exerceram destaque e papel preponderante na disseminação dos atos agressivos e das fake news desde os fatídicos fenômenos de junho de 2013.
UM SÃO JOÃO PROFANADO PELOS INTRUSOS TRAVESTIDOS DE CANGACEIROS
São uns verdadeiros caras de paus esses cantores de arrocha, sofrência, lambadas, axé, sertanejos ou “sertanôjos”, forró eletrônico dentre outros ritmos, sem letras e enredos de conteúdos, subirem aos palcos com indumentárias de chapéus de couro e de cangaceiros para impressionar o público e ainda dizer que estão defendendo a nossa tradição junina! São uns profanadores e predadores carcarás travestidos de falsos forrozeiros!
As cenas são hilárias e lamentáveis, mas o pior ainda são esses prefeitos safadões e ladrões da nossa cultura que contratam essas bandas e músicos por 200 a 500 mil reis quando toda essa grana poderia ser distribuída pelos forrozeiros autênticos da terra prata da casa e mesmo outros nacionais símbolos do nosso forró pé de serra ou arrasta-pé que estão na estrada há muitos anos.
Todos os anos existe essa invasão de bárbaros na nossa festa junina, tipicamente nordestina, que fala da vida desse povo, de amor, de seus hábitos, costumes e da saudade da terra de origem, com o consentimento da população e dos turistas, sem falar do apoio dessa mídia que se cala ou faz elogios diante desses absurdos e anomalias.
Neste ano fiquei de fora, por problemas pessoais, desses festejos que tanto amo mais que o Natal e Ano Novo (nem falo do carnaval bagaceira elitizado), mas fiquei estarrecido com as imagens na televisão em “reportagens” jornalísticas da grande mídia jogando confetes nessas contratações de intrusos que descaracterizam o nosso São João de Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Marinês, Sivuca, Trio Nordestino e tantos outros que nos deram tantas alegrias ao som da sanfona, do triângulo e da zabumba.
Todos os anos os forrozeiros autênticos denunciam e protestam contra esses intrusos em nossa festa, mas, infelizmente, cada ano a coisa sai pior e o nosso forró vai perdendo espaço para essa turma de aproveitadores e oportunistas que nada têm com o chamado pé de serra. O mais ridículo é que eles dizem que tocam forró desde criancinhas e aparecem vestidos de cangaceiros. Os artistas e os movimentos culturais bem que podiam lançar um manifesto público de repúdio.
No entanto, sou obrigado a concordar que os maiores culpados são esses prefeitos politiqueiros que, com o nosso suado dinheiro, contratam essa gente de fora com cachês de até 500 mil reais, muitos dos quais superfaturados onde uma parte é subtraída para os bolsos deles e de seus assessores. SE os tribunais de contas fizerem investigações mais rígidas e profundas, com certeza, vão encontrar irregularidades nesses “contratos”.
Culpados ainda são o Ministério Público, os artistas nordestinos, os intelectuais, as comunidades e outros segmentos de preservação da nossa cultura que pouco fazem para evitar essa mistura indigesta que nada tem a ver com o nosso forró, nosso baião, nosso xote e xaxado que nasceram do fifó do candeeiro e da lamparina na poeira dos arrasta-pés.
Os festejos juninos de Santo Antônio, São João e São Pedro (São José poderia também ter entrado nesse grupo da Igreja Católica) sempre representaram tradição, religiosidade e fé e vieram dos salões nobres da Europa (passagem do solstício da primavera para o verão), principalmente de Portugal, para nossos recintos populares (quadrilhas e o maracatu) com um conjunto de hábitos simbólicos que também estão desaparecendo com o tempo, inclusive nas comidas e bebidas.
Somente os amantes verdadeiros das festas juninas ficam indignados com o que está ocorrendo. Não se trata de saudosismo, mas de respeito à nossa ancestralidade, e é uma questão de preservar nossa memória para que ela não seja apagada por esses invasores bárbaros que contam com a safadeza de muitos prefeitos e até da aquiescência dessa mídia que só visa o lucro e a audiência.
Vitória da Conquista é um exemplo que contratou o Thierry do arrocha e da sofrência. Vi e ouvi a mídia local dizer que foi um tremendo show. A tendência é que com o passar dos anos o nosso forró será esmagado por essa gente fantasiada de cangaceira e chapéu de couro e sandálias nordestinas.
UM ABSURDO PARA NÃO DIZER IMORAL
Podem me xingar! Podem me criticar! Só não podem ofender a minha pessoa com palavras de ódio e intolerância. Pode até estar de acordo com o que diz a Constituição no seu artigo 29 quanto ao aumento populacional. Pode ser legal, mas é um absurdo e imoral o aumento aprovado de vereadores para Vitória da Conquista, de 21 para 23 parlamentares a partir de 2025.
Da minha parte, entendo como uma tremenda falta de respeito com a nossa sofrida população, e não me venham com essa de que não vai importar em aumento de gastos. O argumento dos edis, como sempre, é que não vai impactar no orçamento. É uma conversa para boi dormir. Basta de abusar da nossa paciência e subestimar nossa inteligência. Como eles vão dividir os lotes eleitoreiros. Vai ser uma “briga de facão”
Ora, mais dois vereadores requerem mais gastos para montar dois gabinetes com seus eleitos remunerados, mais verbas a que têm direito e contratações de auxiliares-assessores. Se está sobrando dinheiro do orçamento da Câmara, então devolva para o poder executivo investir na educação e na saúde. Pode servir até para criar mais creches.
Não me venham com esse papo, que não me convence, de que mais vereadores significa melhoria na qualidade de vida dos conquistense. Essa é mais outra lorota que o nosso povo inculto engole. Quando havia 19 e passaram para 21 argumentaram o mesmo. Gostaria que me apontassem as melhorias concretas, não subjetivas e surreais de mais indicações e moções de aplausos.
Não é preciso dizer que já temos um Congresso Nacional (513 deputados e 81 senadores) de poderosos (mais de 300 são da bancada ruralista) e um dos mais ordinários e mais caros do mundo que legisla de costas para o povo, sem contar as Assembleias e cerca de 5.700 câmaras municipais. É muita gente para pouco serviço. Aliás, é um desserviço essa quantidade enorme de parlamentares para um Brasil de tanta pobreza, desemprego e carente em tudo.
Confesso que tomei um susto e fui arrebatado por um sentimento de revolta e indignação quando li no “blogdosena” essa aprovação, no último dia 16, e somente um vereador, o Alexandre Xandó, votou contra. Por pouco não foi unanimidade para ser uma atitude burra, como dizia nosso escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues.
Quanto a essa decisão, que considero insensata e inoportuna para os momentos atuais, um silêncio perturbador da comunidade, dos segmentos da sociedade onde cada entidade (sindicatos, associações, movimentos culturais) só pensa em seus interesses próprios, do Ministério Público e outros órgãos, nos incomoda muito. Onde estão os artistas, intelectuais, professores, estudantes, operários que não se manifestam?
Pela sua história, pelas suas lutas, pelos seus personagens nas artes e em outras áreas da nossa vida social, econômica e educacional, pela sua gente humilde e trabalhadora, Conquista não merece isso. Precisamos sim, reduzir o número de parlamentares.
Essa aprovação é insensata e até provocativa do ponto de vista de que não acrescenta em nada em termos de contribuição para o nosso desenvolvimento. Acrescenta em mais despesas no entendimento até daqueles que só sabem fazer uma conta de dois mais dois.
Não me importam as críticas ao contrário pois, pela minha idade, já estou calejado de tanto apanhar. Só peço que respeitem a minha sincera opinião. Ela é sagrada e do direito do pensar em liberdade. Afinal, estamos numa democracia, mesmo frágil. Aliás, meus amigos, são coisas dessa nossa democracia que ainda não está amadurecida e consciente politicamente.
TIMES NÃO PODEM SER PENALIZADOS PELA VIOLÊNCIA DE CERTOS TORCEDORES
No Brasil sempre se procura o atalho mais simples para se resolver questão mais complicadas por falta da aplicação de medidas e leis mais rígidas das autoridades que deveriam cuidar do problema. É fácil se eximir da responsabilidade e punir um terceiro que não tem culpa no cartório. É uma maneira de querer tapar o sol ou a chuva com uma peneira.
Um caso típico disso está relacionado com a crescente violência nos estádios de futebol no Brasil, a exemplo, do que ocorreu esta semana na Vila Belmiro no jogo entre Santos e Corinthians e no São Januário entre o Vasco e o Goiás onde torcedores soltaram foguetes, bombas, rojões e objetos perigosos no campo, revoltados com as derrotas de seus times.
Imediatamente a Justiça Desportiva da CBF penaliza as equipes com as perdas de público em seus estádios como se os times tivessem algum controle sobre a estupidez e a violência de determinados torcedores em momentos de raiva e ira. Não passam de bandidos assassinos que deveriam ser encarcerados. Para o reconhecimento desses brutos existe toda uma tecnologia disponível.
Como esses indivíduos violentos passam nesses portões com todo esse arsenal de guerra? Não existe fiscalização da polícia e dos agentes que cuidam da organização das partidas? Cadê o Ministério Público estadual e federal que não toma outras providências para evitar essas ocorrências e distúrbios de agressão? Quais órgãos estão sendo negligentes na manutenção da ordem?
A mesma coisa é quando grupos de torcedores praticam o racismo, a xenofobia e a homofobia contra jogadores. Por ser mais fácil, a tal justiça cega e os órgãos preguiçosos multam financeiramente o time e até existe ameaça de tirar os pontos ganhos no certame. Confesso que não consigo compreender essa lógica.
Como é possível a diretoria de um time ser responsável por um cara ou caras malucos que numa multidão de 50 ou 70 mil pessoas soltam palavrões e xingamentos racistas contra um atleta? Existem certos episódios que nem se tem certeza que esses agressores são mesmo torcedores do time que é penalizado.
Enquanto perdurar esse modus operandi simplificado, a violência e as atitudes de racismos vão perdurar nos estádios porque o sujeito malfeitor não está nem aí se seu time vai ser punido. A raiva e o ódio dele sempre vão estar acima da razão. É uma questão de educação e formação de caráter. Tem que haver outra forma rígida de se acabar de vez com esses tipos de comportamentos inadmissíveis.
Se vão continuar com a decisão de somente penalizar os times, pode até fomentar a ideia de “torcedores”, com a camisa de outro clube, penetrarem na torcida adversária para provocar violência e racismo, justamente com intuito de prejudicar seu rival. Afinal de contas, estamos num país da malandragem onde o absurdo pode acontecer.
“FLUXO E REFLUXO” XXV
BRIGAM OS PORTUGUESES, OS INGLESES, HOLANDESES, FRANCESESS E OS BRASILEIROS PELO TRÁFICO NEGREIRO NO GOLFO DO BENIN, NA COSTA DA ÁFRICA OU SOTAVENTO, TUDO PELA COMPRA DE CARNES HUMANAS EM TORCA DO TABACO, DO AGUARDENTE, DO AÇÚCAR, DO OURO CONTRABANDEADO E ATÉ POR CONCHAS – MOEDAS CHAMADAS DE CAURI (MALDÁVIA) e do ZIMBO (ILHA DE LUANDA, NA ANGOLA.
Em Notas de pesquisadores, relatadas no livro “Fluxo e Refluxo”, de Pierre Verger, conta que o rei do Dahomey (Daomé) Adandozan, por volta de 1778, tinha visto durante muito tempo com olhos invejosos Apée, Porto Novo (pertencente a Ardra) e Badagre, em razão do grande número de vasos que iam traficar nesses portos, enquanto Whidah (Uidá) estava quase totalmente abandonado. Ele adotou a política do seu avô Agaja, e resolveu estender suas possessões e apropriar-se das mercadorias europeias acumuladas por seus vizinhos.
Como seus vizinhos estavam cercados de lagos e pântanos, difíceis de serem atingidos, o rei resolveu fazer amizades com um dos príncipes da região, no caso o rei de Ardra. No fim a conspiração foi descoberta. Apée era a vítima prevista, que foi devastada e muitos foram feitos prisioneiros pelos daomeanos. Mesmo assim, o rei com sua tropa de fieis conseguiu escapar para outro reino. Apée resistiu e colocou Ardra em fuga, com ajuda de um negro brasileiro negociante chamado Antônio Vaz Coelho que conseguiu uma boa posição política em Ardra.
AS LUTAS NAS BUSCAS POR ESCRAVOS
Durante mais de 300 anos, entre o final do século XV ao XIX, os traficantes donos de navios, capitães das embarcações (os vasos), os senhores de engenhos e das minas, diretores de feitorias, negociantes de todas as partes e até escravos emancipados arriscavam suas vidas na busca incessante por cativos que rendiam altos lucros.
Nesse comércio ambicioso, valia a lei do mais forte, as astúcias, armadilhas, as trapaças e as traições entre eles. Cabeças eram decapitadas, muitos eram encarcerados em calabouços e exilados por reis por enganar e sonegar o pagamento do fisco pela parte que cabia aos reinos e coroas. Holandeses e piratas perseguiam e saqueavam as cargas dos navios, principalmente dos portugueses e brasileiros.
Nessa época, a costa africana era um coito de intrigas e um enxame de maribondos na disputa para ver quem mais lotava de escravos os navios negreiros nos porões da morte, sujos e fedorentos. Os oceanos se transformaram em cemitérios de negros que eram jogados vivos e doentes nos mares para a festa dos tubarões.
Os reis do Daomé (Golfo do Benin) sempre foram os poderosos e guerreiros que brigavam pelo domínio de outros reinos (de Ardra, Porto Novo, Badagre, Lagos) na conquista por mais e mais prisioneiros que eram vendidos como escravos. Reis, rainhas e príncipes, considerados como inimigos, eram embarcados em navios como cativos.
Toda essa tragédia humana, vergonhosa e criminosa, institucionalizada pelos governantes onde até o escravo desejava ter um escravo como um bem que dava status e servia como uma hipoteca, inspirou escritores, intelectuais, pesquisadores e, especialmente, poetas, como o baiano Castro Alves em “Espumas Flutuantes” no célebre poema “O Navio Negreiro” onde clama num trecho: Senhor Deus dos desgraçados!/ Dizei-me vós, Senhor Deus!/ Se é loucura… se é verdade/ Tanto horror perante os céus…/ Ô mar! Por que não apagas/ Com a esponja de tuas vagas/ De teu manto este borrão?…/ Astros! Noite! Tempestades!/ Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão… / Quem são estes desgraçados…
Foram estes negros trazidos de vários reinos da África, dominados pelas potências de colonizadores que aqui deixaram no Brasil suas culturas na música, nas comidas, na capoeira, em seus gingados, nas palavras e no sincretismo religioso.
Aqui foram colocados nos troncos e sofreram horríveis torturas de seus senhores, e até a Igreja Católica foi escravista e conivente. No entanto, até hoje são vítimas de racismo e de todo tipo de discriminação, como a social. A maioria vive na pobreza em favelas e nas periferias das cidades.
Muitos desses relatos estão na obra do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger, “ Fluxo e “Refluxo”, que da Bahia se fez filho e se tornou adepto da religião de matriz africana. Pelos meados do século XIX, a partir de 1835, com a revolta dos malês, esses negros, por vontade própria e outros por expulsão das autoridades brasileiras, fizeram a viagem de volta para suas terras de origens e formaram colônias, sobretudo em Ajudá (Uidá), Porto Novo, Badagre e em Lagos.
Eram várias etnias e nações, como os nagôs-iorubás, os jêjes-mahis, os tapas, haussás que atravessaram o Atlântico com suas bagagens e pertences, mas, mesmo assim, a grande maioria não teve o destino certo porque os brancos roubaram seus bens e não lhes deixaram nos portos desejados e contratados.
Tiveram que amargar o sofrimento de se aventurar pelo interior africano para alcançar sua terra natal ou aportar em outros reinos diferentes. Em vários locais formaram “colônias brasileiras”, hostilizadas pelos nativos e indígenas. Muitos eram até chamados de “brancos” por serem considerados boçais que falavam o português e praticavam o catolicismo e o islamismo.
NA VILA DO SÃO JOÃO
O São João, uma festa tipicamente nordestina, apesar de ter sido descarecterizada nos últimos anos com a mistura maléfica de outros ritmos, como do arrocha e da sofrência, caso do cantor Thierry, que foi contratado pela Prefeitura de Vitória da Conquista onde se apresentou no Espaço Glauber Rocha, ainda é o melhor evento festivo popular, superando o bagunçado e elitizado carnaval. Melhor para quem foi à Vila Junina, armada na Praça Nove de Novembro, no centro da cidade, onde se apresentou somente bandas forrozeiras que mantiveram a nossa tradição cultural, sem falar nas comidas e bebidas típicas. Todo ano se fala e se bota a boca no trombone contra deturpação do nosso forró, mas prefeitos, politicamente incorretos e eleitoreiros, continuam contratando bandas sertanejas, de axé music e pagodeiras por altos preços que variam de 300 a 500 mil reais (muitas superfaturadas), ao invés dos autênticos pés-de-serras ou arrasta-pés como eram chamados desde o surgimento do ritmo por volta de 1930 e 1940/50 com Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Sivuca e Marinês de saudosas lembranças com o triângulo, a sanfona e o zabumba.
MIL DESCULPAS
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Desculpa, desculpa, desculpa,
Peço mil desculpas,
Nem todas são sinceras,
Meras palavras de boca oca,
Por vezes tão maquinal;
Desculpas pelo meu verso,
Se atravessou o seu,
Entre a linha do bem e do mal.
Desculpa, desculpa, desculpa,
Por não ter lhe telefonado,
Não retornado seu recado,
É que ando muito ocupado;
Desculpa ter acabado nosso amor,
Pela mensagem do celular,
Sem sentir de perto seu olhar,
Sua expressão de raiva e dor.
Desculpa, desculpa, desculpa,
Por ter matado o tempo,
Negado sua existência;
Seguir contrário ao vento;
Confundir anormal com normal,
Religião, fé e ciência,
Ser repetitivo superficial,
Como um agressivo ativo,
Com desculpas de passivo.
A BAHIA DE HOJE E A DE 200 ANOS NAS LUTAS PELA INDEPENDÊNCIA
Quando chega o “Dois de Julho”, data da independência da Bahia livre do jugo dos portugueses, historiadores e pesquisadores escrevem muito sobre a história daquela época, os fatos, os personagens, os símbolos e as lutas travadas que contaram com a participação popular de brancos, negros, mulatos, senhores de engenhos e índios.
No entanto, pouco se fala sobre a Bahia de hoje no campo socioeconômico e a de 200 anos na época das lutas pela independência. Os sociólogos, antropólogos e estudiosos precisam mais se aprofundar nesta questão e mostrar que, depois de 200 anos, continuamos um estado pobre, subjugado pelos poderosos e ainda com os mais baixos índices nos níveis da educação, da saúda, do desemprego e do saneamento básico em relação aos outros estados da federação.
É claro que evoluímos nos setores da economia, no progresso industrial e tecnológico, nos programas de políticas públicas e outros itens humanos, mas ainda é uma Bahia de muita pobreza, de baixa qualificação educacional, carente na saúde e ainda discriminatória e preconceituosa. Em termos de desenvolvimento humano e justiça social, a Bahia está atrasada depois de 200 anos.
Hoje Salvador é uma capital de cerca de quatro milhões de habitantes, onde mais da metade vive em habitações irregulares em terrenos insalubres e nos morros, sem a devida infraestrutura (um grande contingente proveniente do êxodo rural vindo do interior a partir dos anos 70 do século passado), cheia de problemas e com uma grande dívida social. As desigualdades sociais são gritantes.
Era uma Bahia de cerca de 100 ou 200 mil moradores da época da escravidão, do tráfico ilegal praticado pelos senhores de engenho, capitães de navios e traficantes de carne humana da costa africana, principalmente do Golfo do Benin, mesmo após as leis e acordos feitos, em 1831, com a Inglaterra para acabar com este comércio.
Foram estes mesmos negros cativos e emancipados que tiveram uma grande parcela de contribuição nas lutas pela independência do Dois de Julho de 1823. Ainda hoje, depois de 200 anos, de uma forma mais sofisticada, ao estilo selvagem capitalista, permanece a escravidão no trabalho com a exploração da mão de obra e com o poder na mão dos brancos, como os portugueses de outrora.
UM POUCO DE HISTÓRIA E O INTERIOR
Sobre um pouco de história desse bicentenário, um comentário de Alan Rodrigues, num jornal impresso da capital, diz que a conquista da independência do Brasil na Bahia é resultado de uma série de movimentos e mobilizações espalhados por todo estado. O sonho era se libertar da coroa portuguesa. O sonho continua em outras frentes libertárias, especialmente dos direitos humanos.
Segundo Alan, a origem da tropa patriota que enfrentaria os portugueses começou a se formar muito antes do Dois de Julho. Em fevereiro de 1822, antes de D. Pedro I decretar a independência no Grito do Ipiranga (Independência ou Morte), tiveram início os conflitos em solo baiano e tropas recuaram do Forte de São Pedro para o Recôncavo Norte, na Casa da Torre.
Conta o pesquisador que Antônio Joaquim Pires de Carvalho, senhor da Casa da Torre, arregimentou um embrião do exército libertador composto de brancos, negros, mestiços e índios. A Casa da Torre, que servia de ponto de vigilância contra os inimigos estrangeiros no mar, tornou-se uma das principais bases de comando da guerra.
Joaquim Pires de Carvalho, senhor de engenho se tornou capitão-mor agregado à vila de Santo Amaro da Purificação e primeiro comandante da tropa patriota, como ressalta Alan Rodrigues. A Feira de Capuame (Dias D´Ávila) forneceu mantimentos para os soldados e armazenou armas e munições, de acordo com o historiador Diego Copque em seu livro “A Presença do Recôncavo Norte da Bahia na Consolidação da independência”.
Historiadores descrevem que o acesso ao local era feito pela Estrada das Boiadas, com início na freguesia de Santo Antônio Além do Carmo e passava por Pirajá, Água Comprida (Simões Filho), Moritiba do Rio Joanes, chegando a Camassary, Capuame até chegar ao Açu da Torre. Por esse caminho o gado era levado para o matadouro de Barbalho. As tropas bloquearam essa estrada e os portugueses ficaram sem suprimentos.
Alan assinala que foi no primeiro centenário (1923) que foi inaugurada a primeira estrada Salvador-Feira (não essa BR-324). Às margens dessa estrada, em 27 de julho de 1822, foi instalado, no Engenho Novo Cotegipe, um quartel-general, a quatro léguas de São Bartolomeu de Pirajá.
Outros municípios também contribuíram para arregimentar apoiadores. A Câmara da Vila de Nossa Senhora da Purificação de Santo Amaro foi a primeira Casa Legislativa a se pronunciar pelo reconhecimento de D. Pedro I como regente constitucional do Brasil, como informa a diretora geral do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), Luciana Mandelli.
Outro município que teve importante papel na independência foi Saubara, pois sua localização representava entreposto para o Rio Paraguaçu e proteção de outras localidades. Vlademir Pinheiro, diretor da Fundação Pedro Calmon, enfatiza a participação feminina ao citar o movimento “As Caretas do Mingau”.
Eram mulheres de religião de matriz africana se fantasiavam para assustar os portugueses católicos e, assim, levar mingau para as tropas que se escondiam na mata. Dentro da história da independência, muita coisa foi resgatada através da oralidade do povo, como foi o caso de Felipa, de Itaparica, considerada uma das heroínas nas batalhas.
A Ilha de Itaparica teve também papel decisivo nos confrontos, interrompendo o abastecimento de tropas de Portugal – segundo Alan Rodrigues. Outra cidade de destaque nas lutas foi Caetité, aqui em nossa região sudoeste, que aderiu, em 15 de agosto de 1822, a proposição do Brasil ter um único poder central executivo.
Caetité mobilizou o sertão baiano, com apoio financeiro, homens, armamentos e mantimentos para Cachoeira, sede do governo provisório. Os combatentes desta cidade ainda expulsaram os portugueses remanescentes após a vitória através de lutas travadas pelo grupo chamado “mata-marotos.
Embora o Dois de Julho seja tombado como bem imaterial da Bahia, em tese ficou resumido ao cortejo de Salvador. A diretora do IPAC, Luciana, vai entregar um projeto de revalidação do cortejo através de um edital para recebimento de propostas de inventário (Lei Paulo Gustavo), para levantamento de acontecimentos e personagens que fizeram parte das lutas.
De acordo com informações, cada município vai ganhar um busto que simbolize a passagem do Dois de Julho. Luciana cita a luta dos abolicionistas, a participação de Caetité e Vera Cruz. O projeto visa incluir todos baianos na luta de resistência e organização cívica, política e popular.

















