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“FLUXO E REFLUXO” XVI

“CONDIÇÕES DE VIDA DOS ESCRAVOS NA BAHIA NO SÉCULO XIX”

O livro “Fluxo e Refluxo”, de Pierre Verger, traz uma série de anúncios classificados do Jornal da Bahia onde os proprietários de escravos notificavam as fugas de seus cativos, a maioria de negros nagôs, citando as características e traços físicos da pessoa, trajes, idades, cicatrizes no corpo (a maioria nos rostos, peitos, pés e braços como marcas das torturas), suas atividades laborais, nomes e a quantia da recompensa a ser dada a quem encontrasse o fugido da sua casa, comércio ou fazenda.

Foi a época maior dos caçadores de recompensa. No anúncio, o dono advertia processar quem do seu escravo se apropriasse ou dessa guarida.  Um fato curioso chama a atenção: O surgimento de crianças e jovens pardos de pele branca como escravos. Numa atitude hipócrita religiosa, os chefes de polícia, traficantes e até o presidente da província faziam campanhas filantrópicas para arrecadar dinheiro para alforriar o cativo por causa da cor da sua pele ser bem mais clara.

Os cativos que viviam no campo tinham melhores condições de vida e alimentação do que aqueles que trabalhavam nas indústrias e no comércio nas cidades. Mesmo assim, na zona rural tinham os patrões de menor recurso e sovinas que regravam a comida e maltratavam mais ainda seus escravos que costumavam fugir para fazendas mais ricas.

A obra “Fluxo e Refluxo”, de Pierre Verger, etnólogo e fotógrafo, destaca as diversas áreas de trabalho dos escravos, tais como os domésticos de casa (eram mais acolhidos), os de aluguel, de ganho de rua (tabuleiros de frutas e quitutes), os carregadores (gozavam de certa liberdade), os vendedores ambulantes que comercializavam mercadorias para seus senhores, os carpinteiros, músicos, barbeiros, carpinas, ferreiros, entre outras atividades.

Em Salvador, como a cidade era alta e baixa, os escravos executavam a função de cavalos e transportavam de um lugar para o outro os mais pesados produtos, usando os palanquins (redes cobertas por intermédio de uma longa vara). Depois passaram a usar as cadeiras.

Verger cita Nina Rodrigues, Gilberto Freyre e observadores viajantes que narravam as condições dos escravos na Bahia durante o século XIX. Sobre Nina Rodrigues, comenta que tinha uma tendência a mostrar o espírito de segregação e de reserva manifestado pelos escravos e alforriados: eles “ficavam segregados da população geral, no seio da qual viviam e trabalhavam, para fechar e limitar seu círculo aos pequenos grupos particulares das diversas nações africanas”. Conservavam sua língua, suas tradições e crenças.

Para os trabalhadores dos campos e das minas, segundo Verger, comprar sua liberdade era praticamente impossível. Os domésticos podiam esperar sua carta de alforria por ocasião da morte de seu senhor, em recompensa aos bons e leais serviços prestados. Os negros de ganho e vendedores ambulantes, ativos e hábeis, que tinham o direito de guardar para si uma parte de suas receitas, compravam mais fácil a liberdade. Havia uma distinção entre africanos e crioulos, negros ou mulatos.

Para Nina Rodrigues, os crioulos livres ou escravos achavam que os africanos ficavam sempre marcados por suas origens pagãs, e estes preferem a convivência dos patrícios, pois sabem que, se os temem pela reputação de feiticeiros, não os estima a população crioula. Os africanos importados pelo tráfico contra sua vontade não se integravam na vida do país e não adotavam o Brasil como pátria. Eles ficavam segregados da população em geral e se juntavam aos seus grupos.

O governo brasileiro tinha se comprometido com os ingleses a repatriar os negros de contrabando encontrados nos navios negreiros apreendidos, mas o número era tão grande que as despesas eram superiores aos recursos do Tesouro Nacional.

Muitos viajantes escreveram sobre a situação dos escravos no Brasil, como Henrry Koster, em 1809. Em sua visão, os escravos no Brasil gozavam de maiores vantagens que seus irmãos das colônias britânicas. Os muitos dias de santos da religião católica (35 dias e mais os domingos) davam aos escravos dias de repouso ou tempo para trabalharem para eles próprios.

Entre as fontes de informação figuravam os classificados e notícias dos jornais da época, nas quais Gilberto Freyre muito utilizou para elaborar suas pesquisas. Os inquéritos judiciais, como as revoltas e sublevações, continham boas informações para os pesquisadores e historiadores.

Quanto os bens móveis e gado, Verger ressalta que nos inventários das sucessões dos séculos XVII e XIX, os escravos eram uma parte prioritária do capital que figuravam nas listas antes mesmo do rebanho, dos instrumentos agrícolas e mobiliários da casa. Existiam casos de escravos que possuíam seus próprios escravos.

Os cativos das cidades (vendedores) eram obrigados a levar todos os dias uma certa quantia de seus ganhos para seus senhores. São considerados como um capital de ação que deve render lucros para seus patrões.  Depois de velhos, geralmente eram abandonados.

Sobre as condições de vida entre os do campo e da cidade, Freyre descreve que os da casa grande eram mais nutridos com feijão e toucinhos, milho ou angu, pirão de mandioca, inhame e arroz. Eram alimentos fundamentais para os escravos. Usavam também o quiabo, a taioba e outras folhas de fácil e barato cultivo, desprezados pelos senhores.

De acordo com Gilberto Freyre, os escravos das áreas mais patriarcais tiveram um tratamento, um regime alimentar e um gênero de vida superiores aos dos escravos em áreas já industriais ou comerciais, embora ainda de escravidão, distantes da relação com seu senhor, reduzidos a máquina de fazer dinheiro, principalmente no ciclo do café no Brasil.

De um modo geral, muitos escravos fugiam das casas de seus senhores na cidade para voltar para seus antigos donos no campo, seja porque não se acostumavam com a vida urbana, ou por fidelidade ao ex-senhor, bem como pela lembrança da vida “folgada” na zona rural, onde podiam dispor de pequenos terrenos para cultivar suas hortas.

 

LEMBRANÇAS DO CAMPO

Já comentei aqui sobre meu simples quintal ou minha aldeia onde pela manhã abro as portas e as janelas e me deparo com minhas flores que levam para bem longe meus pensamentos e perfumam minha alma. Elas desabrocham minhas lembranças e me fazem  voltar às minhas raízes de menino no campo onde nasci e convivi até os meus tempos de moleque. Hoje ainda estou na cidade grande por circunstâncias que não dependem de mim e, para fugir dos cotidianos problemas, fico a olhar para elas (flores) até o clímax de uma hipnose. Chegam os pássaros que entoam seus cantos como numa prece de saudação de que a vida, apesar de tudo, deve seguir o seu rito natural para fechar o seu ciclo lá na frente. O beija-flor, em sintonia com a natureza, faz seu balé dançante no bater de suas asas, enquanto alegremente se alimenta do néctar da flor e depois mergulha no ar com seu fino bico para depois repetir seu ritual poético.

LIXO ANIMAL

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Lá fora bate a garoa,

E aqui meu pensamento voa,

Nessa terra que virou lixeira,

Entulhos nos rios e no mar,

Gases tóxicos no ar,

Do lixo animal, bicho porqueira,

Que ainda não aprendeu a amar.

 

A natureza não perdoa,

Devolve tudo na cheia,

Do lixo animal,

Que se enrola em sua teia,

Nem respeita o sinal que soa,

Dos tempos do aquecimento global.

 

Vem a seca inclemente,

A fumaça da floresta a sufocar;

Derretem as calotas polares;

Sobem os níveis dos mares,

Tanto choro e ranger de dentes

Dessa estúpida gente,

A brincar de foguetes,

Pelo espaço sideral,

E o planeta a se acabar,

Com a sujeira debaixo dos tapetes,

Pelo lixo animal,

Onde o bem perde para o mal.

A QUESTÃO DO RACISMO NO BRASIL

É um assunto delicado e polêmico, porque todo cuidado é pouco para você não ser mal interpretado e até servir de peça para um processo.  Mais de 300 anos de escravidão deixaram marcas que jamais podem ser apagadas e ainda hoje se vê atitudes, comportamentos de ódio e menosprezo ao ser humano tão somente por causa da cor negra de uma pele.

No entanto, está existindo uma onda perigosa do tipo indústria do racismo onde qualquer gesto, olhar ou palavra são logo caracterizados como racismo e injúria racial. Isso pode levar a um distanciamento entre as pessoas e até de animosidade. Nem tudo pode ser logo criminalizado como racismo.

A mídia tem muito contribuído para alardear com um toque sensacionalista determinados fatos como procedimento racista, sem antes fazer seu papel elementar de apurar os acontecimentos com imparcialidade. É evidente que as imagens de xingamentos, como chamar o outro de macaco e fedorento, agressões físicas e verbais contra outra pessoa só porque ela é negra, não deixam dúvidas quanto à prática de crime.

O que pretendo chamar aqui a atenção é que está havendo exageros e nem tudo está ligado ao ato racista. Cito aqui o exemplo da professora que insistiu em não despachar a mala na área de embarque do aeroporto e ainda dentro do avião se alterou numa discussão com membros da tripulação.

Por questões de normas estabelecidas pelos órgãos de aviação, principalmente depois dos atentados do 11 de setembro nos Estados Unidos (considero rígidas demais), a professora foi proibida de prosseguir sua viagem. Aqui não cabe mencionar qual cargo ou função o passageiro exerça.

Em nenhum momento a mídia televisiva mostra esse ponto, a outra versão do caso e nem os motivos reais que levaram a empresa a agir daquela maneira. Diante do exposto, em minha opinião, não vi nenhuma consistência para cravar que houve uma intenção direta de racismo ou injúria racial por parte dos funcionários da Gol.

Não é porque a pessoa é negra ou preta que ela possa descumprir as regras de um estabelecimento ou prestador de serviços e não ser advertida e punida. Os racistas precisam ser punidos de acordo com as leis, mas que haja uma separação daquilo que é tipicamente racismos do que não é, senão vamos alimentar mais ainda um ambiente de ódio e extremismos.

A mídia, como formadora de opinião (muitas vezes tem agido de forma irresponsável e até criminosa) tem por obrigação ser correta na informação. Deve apurar e mostrar todas as versões dos fatos, e não ser tendenciosa, com intuito de angariar simpatia e audiência. Além de enganar e confundir, ela está prestando um desserviço.

 

 

É TUDO UMA DEMAGOGIA PARA NÃO CORTAR AS MORDOMIAS DOS PODERES

Grande coisa o governo federal isentar do imposto de renda quem ganha até R$2.600,00 e promete chegar até R$5.000,00. Para os tempos bicudos atuais de inflação em alta, essas cifras não passam de merrecas. É tudo uma demagogia para encobrir as mordomias  e benesses dos três poderes (os servidores do executivo vão ter aumento de 9%).

Numa economia como a nossa, que cambaleia pra lá e pra cá, dar aumento do salário mínimo acima da inflação, com mais a média do PIB (Produto Interno Bruto) pode ser uma faca de dois gumes. O capitalista empresário, que só visa o lucro, vai repassar esse índice para os preços de seus produtos e aí tudo se dilui no custo de vida. Com inflação, a economia não gira, retrocede.

Acima dessa reforma tributária, o Brasil precisa é de uma administrativa, política e eleitoral, mas eles lá de cima não querem nem saber falar nisso. São 513 deputados e 81 senadores que consomem 15 bilhões de reais por ano, sem falar nas assembleias e nas câmaras de vereadores que estão entupidas de parlamentares. No judiciário tem magistrado com bônus e outras regalias ganhando 200 e 300 mil mensais

Os maiores problemas do Brasil estão no Congresso Nacional e no sistema eleitoral arcaico coronelista. Jogam tudo isso por debaixo do tapete e enganam o nosso povo com essas reformas que mantém o nosso país na mesma situação, ou até pior. O povo sempre paga o pato e carrega toda carga nas costas.

Um exemplo claro foi a reforma trabalhista, ou melhor escravista, que deixou o trabalhador garroteado. Na época, toda classe do empresariado aplaudiu, porque amordaçou e escravizou o empregado.  Por que o Governo Lula não toca nesse assunto? Quem não é “burro” sabe muito bem o motivo.

O valor dessa isenção do imposto e aumento do mínimo são irrisórios diante dessa inflação em alta. É o mesmo que dar com uma mão e tirar com a outra. Por que eles lá de cima não cortam na própria carne através de uma reforma administrativa? É o poder que está em jogo, meu camarada! A direita, o centro e nem a esquerda querem saber disso. Preferem deixar tudo como está mesmo e, enquanto isso, vamos enrolando a população com migalhas e demagogias.

O que o trabalhador tem nos dias de hoje para comemorar o Dia do Trabalho? Até as conquistas da era de Getúlio Vargas e Jango, com a CLT, mesmo fascista, foram roubadas e vilipendiadas com a reforma escravista no Governo Temer, o mordomo de Drácula. Milhões se sujeitam a trabalhar sem carteira assinada, em regime temporário, em situação precária e com ganhos abaixo do mínimo.

Tudo não passa de conversa para boi dormir, e o pior de tudo é que os sindicatos e as centrais pelegos ficam calados. Na França os trabalhadores têm uma jornada menor, mais benefícios e se aposentam mais cedo. Mesmo assim, eles estão lá brigando por mais. Aqui nos contentamos com o pouco e até aceitamos cortar muitos direitos obtidos há anos.

CULTO À MEDIOCRIDADE

Um marqueteiro virtual em uma palestra disse que para você passar uma mensagem só precisa saber o mínimo de português. O que mais interessa é transmitir a mensagem, não importa se truncada, com erros ortográficos, pronominal ou de concordância.

Sua visão vesga não é nenhuma surpresa para os tempos atuais do endeusamento das novas tecnologias que pregam o culto à mediocridade. Você não precisa mais saber de história, de conhecimentos gerais, de geografia e nem da tal filosofia que afina seu raciocínio do penso, logo existo.

A tendência é que as escolas passem a abolir essas disciplinas porque, como muitos já dizem, elas na prática não lhe servem para nada. O negócio é apenas ser um técnico numa determinada profissão para ganhar dinheiro no mercado on-line da internet.

O culto à mediocridade despreza o saber desenvolver uma redação, uma dissertação, interpretar um texto, ser argumentativo e opinativo. Hoje o usual é o copiar e colar. Não precisa entender. Por que o português é o bicho papão nas provas do Enem?

Em todas as redes sociais, com linguagens codificadas que eu não consigo captar, as tais “mensagens” estão cheias de erros bárbaros. O nome disso é assassinato da nossa língua. Nas portas das lojas os nomes e as propagandas são todos em inglês. Até parece que você está na Inglaterra ou nos Estados Unidos.

Esse culto à mediocridade não está tão somente no ensino público, cada vez mais em decadência. Está visível nas pessoas e em todo país onde tudo se copia e nada se cria, como nos eventos e festas comerciais. De autêntico só temos mesmo o forró e o samba.

No Brasil colonial, o charme era imitar os franceses em tudo, e de lá vinham as etiquetas, os costumes, hábitos, os talheres, xícaras, pratos e, principalmente, a moda. No Brasil República passamos a trazer tudo dos Estados Unidos.

A mediocridade também está impregnada na política, na vida social, na falta de cordialidade para com o outro, na falsidade quando você diz ser amigo-irmão do outro somente por interesse. Basta você dar as costas ou cair em desgraça que a pessoa nunca mais lhe procura. Está até na “falta de tempo” para dar um alô e saber como o outro está passando.

No emprego ou no cargo do “quem indica”, não mais importa a meritocracia. Vale muito mais a bajulação e que você seja servo em tudo, como um vassalo ou súdito do rei. O assessor do político não mais corrige seu comportamento, apenas diz amém a tudo. Isso também é prestar culto à mediocridade.

Nem vou mais me alongar porque, como bem sabemos, quase ninguém se dedica à leitura. No mínimo passa as vistas numa manchete ou num título. E é tão rápido que a pessoa ler errado e sai por aí falando besteiras e fazendo perguntas idiotas. Não passamos de uma ilha cercada de mediocridades.

O LIVRO “NA ESPERA DA GRAÇA” FOI LANÇADO DIA 27 NA LIVRARIA NOBEL

Não são textos pandêmicos, mas, em sua maioria foram inspirados durante o período da pandemia da Covid-19 (2020/22) quando as pessoas estavam angustiadas, isoladas e até desesperadas na espera de uma graça para se livrar do vírus.

A obra “Na Espera da Graça – Entre Engaços e Bagaços”, textos poéticos do jornalista e escritor Jeremias Macário, foi lançada em março, na Casa Regis Pacheco (Praça Tancredo Neves) e no último dia 27 de abril na Livraria Nobel, da Avenida Otávio Santos.

Quem não teve condições de comparecer ao evento, o livro pode ainda ser ainda adquirido na própria livraria, bem como outros trabalhos do autor, como “Uma Conquista Cassada”, “Andanças” e “A Imprensa e o Coronelismo no Sudoeste”.

O título “Na Espera da Graça” foi exatamente inspirado numa letra musicada pelo companheiro músico, cantor, poeta e compositor Walter Lajes, em sua viola mágica no ritmo do boi em diversos festivais.

Outros versos da obra também foram musicados por artistas locais e do Nordeste, como Edilsom Barros, de Fortaleza (A Dor da Finitude) e Antônio Dean, de Campina Grande (Lembro Ainda Menino e Minha Filha Cintia). Outras letras foram musicadas por Papalo Monteiro e Dorinho Chaves.

Além disso, diversos poemas foram gravados em vídeos com minha esposa Vandilza Gonçalves e meu amigo José Carlos D´Almeida, que resultaram em dois curtas metragens, um dos quais premiado pelo edital da Lei Aldir Blanc, lançado pela Prefeitura Municipal através da Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel.

Para finalizar, o livro contém o capítulo “Entre Engaços e Bagaços”, um épico sobre o nosso resistente Nordeste. Trata-se de uma viagem que o autor faz a partir do Maranhão, descendo pelo Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe e a Bahia onde são louvados Câmara Cascudo, José de Alencar, José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, Graciliano Ramos, Tobias Barreto, Rui Barbosa, Gregório de Matos, Jorge Amado e tantos outros.

 

 

“FLUXO E REFLUXO” XVII

PRINCIPAIS COMERCIANTES DA BAHIA QUE TOMARAM PARTE NO TRÁFICO CLANDESTINO DE ESCRAVOS

No início do século XIX quando, através de tratados, convenções e acordos com a Inglaterra o tráfico de cativos foi proibido, os maiores centros comercias eram a Bahia e o Rio de Janeiro.

No livro “Fluxo e Refluxo”, Pierre Verger abre um capítulo onde aponta os maiores traficantes ilegais, com destaque para Francisco Félix de Souza, o Xaxá de Uidá, como era mais conhecido. Naquela época, segundo Verger, esse comerciante era considerado o homem mais rico da terra.

Esses traficantes eram vistos como úteis e desejáveis para o bem maior da economia nacional. “Eles tinham, consequentemente, “boa consciência”. A correspondência oficial brasileira fala “de um comércio triste”, mas o único capaz de fornecer os braços indispensáveis para as minas e para as culturas do Brasil”.

O autor assinala em sua obra que os navios apresados pelos ingleses geralmente iam para a Serra Leoa onde se dava o julgamento dos traficantes. Libertados, esses negros terminavam seguindo para as Antilhas britânicas como trabalhadores livres. No entanto, de acordo com historiadores, eles não eram consultados para onde queriam ir.

Comerciantes baianos acumularam fortunas, tanto com o tráfico de escravos quanto em outras operações comerciais, como José de Cerqueira Lima, Antônio Pedroso de Albuquerque, José e Joaquim Alves da Cruz Rios e Joaquim Pereira Marinho. Este era outro rico que chegou a ser provedor da Santa Casa da Misericórdia. Até hoje tem uma estátua dele em frente do Hospital Santa Isabel.

Muitos passavam uma parte do seu tempo na Bahia e outra no Golfo do Benin, como André Pinto da Silveira e Manuel Joaquim D´Almeida. Existiam ainda aqueles que viviam completamente instalados em Benin, os casos de Francisco Félix de Souza, Domingos José Martins, Marcos Borges Ferras, Joaquim D´Almeida e José Francisco dos Santos (o Alfaiate).

Muitos capitães de navios negreiros se tornaram proprietários de vasos comerciantes, como Inocêncio Marques de Santa Anna, antigo intérprete da embaixada do rei do Daomé, em 1805. Verger cita também João Cardosos dos Santos que, de 1825 a 1827, chegou a ser capitão do Henriqueta pertencente a José de Cerqueira Lima.

Mais tarde, este capitão passou a ser dono da goleta Umbelina. Em 1829 ele tirou um passaporte que lhe permitia trazer de Cabinda 358 escravos, só que ia para outro local proibido acima da linha do Equador. Em Lagos, por exemplo, ele embarcou 377 cativos. Sua embarcação foi capturada em 1830 e levada para Serra Leoa. Nessa travessia morreram 214 negros.

O grande nome do comerciante daquela época de 1824, conforme relata o governador Francisco Marques de Góes Calmon era José Cerqueira Lima, com um enorme tráfico de importação de escravos da costa ocidental da África, proprietário do pequeno palácio no Corredor da Vitória, que conhecemos durante muitos anos como palácio presidencial dos presidentes da província e, em seguida, dos governadores, no momento da República.

Aquele imóvel comunicava com a praia por um longo subterrâneo que servia de passagem aos comboios de escravos. Ele mandou abrir um subterrâneo, a fim de poder fazer vir com segurança sua mercadoria para terra desde o mar, tendo em vista que o tráfico não era mais permitido. Esses e outros eram riquíssimos que possuíam mansões luxuosas, móveis da Europa e pratarias em ouro.

 

O LÁPIS E O CONSELHO

Quem nasceu primeiro, o lápis ou a pena do tinteiro? Talvez nem um e nem o outro. Na civilização mesopotâmica e egípcia, do vegetal se extraia a tinta e se utilizava algum instrumento rústico, que não eram chamados de lápis e pena para fazer anotações e escrever as histórias em tábuas de barro e papiros. Da evolução antiga para os tempos mais modernos, o lápis e a pena de tinta guardam lembranças na memória de muitas gerações que aprenderam a ler e a escrever com essas invenções. Hoje, embora se faça quase tudo através do teclado do computador (antes era a máquina datilográfica), é a caneta que ainda é empregada para assinar documentos, tratados, contratos, convenções e emitir sentenças de juízes, empresários e até por pessoas simples no ato de compra e venda de algum bem.

Mas, onde entra mesmo essa história de Conselho? É um grupo de gentes notáveis que usas de vários objetos para, deliberar, criticar, aprovar, fiscalizar, julgar e sentenciar um réu ou ente público e privado, sem que antes não tenha passado por uma peça documental assinada pela caneta, que veio do lápis feito da madeira com a introdução de um material da espécie do carvão. Essas duas figuras, tão importantes na história da humanidade (o Conselho pode ser também um Tribunal),  estão em forma de esculturas no Museu de Kard, do grande artista conquistense Alan Kardec. Essas e outras artes estão lá neste museu a céu aberto que muito orgulha a nossa cidade, embora não tenha sido citado no folheto turístico de Vitória da Conquista, lançado recentemente pela Prefeitura Municipal através da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Uma pena que o museu não tenha sido incluído no roteiro do visitante, que o órgão pretende promover para atrair o turista da região e de outros estados.

SOMBRA ARTIFICIAL

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Sonhei que era uma sombra,

De um primitivo passado,

De antigos ancestrais,

De atraso e evolução;

Um ente invisível global,

Fora do corpo, com razão,

Sem o emotivo sentimental.

 

Era mesmo uma sombra,

De inteligência artificial,

Uma cópia do carbono,

Dentro de um longo sono,

Na forma de outro animal.

 

Sonhei ser a deusa Atenas,

Das penas dos sábios imortais,

Sombra parida do cristão-judaico,

Dos imperadores romanos generais,

Das trevas do pensador arcaico,

Cruzado do inquisidor carrasco,

Filha dos ideais dos iluminismos,

Saída do frasco das eras dos ismos,

Sombra anarquista-comunista,

Mistura entre direita-esquerdista.

 

Sonhei ser apenas uma sombra,

Que se foi no vulto da luz,

No escurecer do lenho da cruz,

Em noites de sonhos me assombra,

Essa máquina maluca artificial.

 





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