setembro 2026
D S T Q Q S S
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930  


UM ENTARDECER NA BRUMADO

Com meu amigo e companheiro fotógrafo José Silva registramos o entardecer de ontem (dia 08/06/23), na Avenida Brumado, em pleno feriado de Corpus Christi com a pista pouco movimentada, diferente da agitação de veículos e pessoas em dias normais. Desse lado oeste, o entardecer vem lentamente com suas cores do sertão catingueiro e invade Vitória da Conquista no apagar das luzes, com nuvens sombrias de uma tarde nublada que esconde o vermelho colorido do pôr-do-sol.  O dia se despede para dar lugar à noite e retorna ao seu ciclo em cada amanhecer. É o tempo a girar que pouca gente não dá conta e até esquece que existe a finitude. Durante vida só se pensa em acumular bens e nem se pensa que um dia será arrebatado pelo entardecer, este que não terá mais o amanhã, nem a aurora. Cada um de nós tem seu entardecer e, se refletíssemos mais nisso, talvez o mundo seria bem melhor, sem tantas maldades, ganâncias, ódios e tolerâncias. Talvez assim teríamos mais amor e paz entre todos viventes.

CARRUAGEM DOS 60

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Lá vai atravessando a ponte,

Pelos confins do horizonte,

A carruagem dos sessenta,

Chamada de renascença,

Resistente como aço,

Na defesa da sua crença,

Que nos deu régua e compasso.

 

Carruagem dos sessenta,

De geração de geniais,

Nascida nos quarenta e cinquenta,

Nunca mais virão iguais.

 

Carruagem dos sessenta,

Das eternas canções,

Composições milenares,

De poemas revolucionários,

Ideias que ultrapassaram mares,

Nos combates libertários,

Com suas visões existenciais,

Surrealismos subversivos,

Das desigualdades sociais,

Contra os regimes opressivos.

 

Lá vai a carruagem dos sessenta,

Muitos apeando na estrada,

Outros no oitenta e noventa,

Nos ensinando o portal de entrada.

 

OS INVASORES DA NOSSA TRADIÇÃO NORDESTINA ESTÃO ROUBANDO NOSSO ESPAÇO

Todos os anos, os artistas, forrozeiros, intelectuais e aqueles que preservam e amam a nossa cultura nordestina fazem discurso inflamados e aplaudidos contra os invasores ou ervas daninhas que encontraram espaço livre para destruir nossa tradicional festa junina, regida pelo famoso “forrobodó” que surgiu por volta de 1930 e se popularizou nos anos 50, sempre com a sanfona, o triângulo e a zabumba

Temos que continuar bradando contra essa avalanche de bandas milionárias de outros ritmos (arrocha, axé, lambada, pagode e até do rock) contratadas pelos prefeitos a preço de ouro para fazer a média política com o povo que, sem a devida consciência e formação cultural, cai na folia dos rebolados que nada têm a ver com o nosso autêntico forró pé de serra ou arrasta-pé que começou em chão batido molhado parra não levantar a poeira.

No entanto, as falas e desabafos não têm surtido muitos efeitos e, a cada ano, os festejos estão mais parecidos com a cara paulista ou outra coisa esquisita de músicas, menos o forro de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Marinês e Sivuca, sem contar Zé Ramalho, Elba, Geraldo Azevedo, Alceu Valença e outros cabeludos nas décadas de 60 e 70, embora tenham introduzido outros instrumentos como a guitarra, a bateria, o sax, o baixo e o violão.

Na década de 90 por aí bandas como Mastruz com Leite, Calcinha Preta e tantas outras no mesmo estilo inventaram o forró eletrônico, quando a nossa dança tradicional nordestina começou sendo deturpada e descarecterizada.

As prefeituras passaram a contratar esses cantores, sob o argumento de serem do gosto popular por atraírem mais público. O pior ainda é que essas contratações são feitas com valores superfaturados usando recursos dos nossos impostos. Por sua vez, o Ministério Público e os tribunais de contas não exercem uma fiscalização mais rígida para punir os responsáveis.  A coisa não ficou por aí e logo entraram o axé, o arrocha e o “pagadão” para acabarem com a nossa festa.

Deveria ter um decreto federal, uma lei do Congresso Nacional e das próprias câmaras de vereadores proibindo que as prefeituras contratem essas bandas que não têm nenhuma identificação com o nosso ritmo junino do forró, além dos outros gêneros, como o baião, o xote ou o xaxado, tão divulgados e cantados por Gonzagão, Humberto Teixeira, Zé Dantas e Dominguinhos.

Com certeza, essa   lei iria criar uma tremenda polêmica e os invasores do forró iriam logo dizer que se trata de censura. Por outro lado, como tudo nesse país, a norma logo seria desobedecida.

Mas a descaracterização não acontece somente no ritmo musical, como também nos costumes, nos hábitos, nas comidas e bebidas típicas. Em muitas festas rolam mais o hambúrguer e o cachorro-quente no lugar do milho cozido, da canjica e da pamonha. O licor e o quentão perderam espaço para o conhaque e outras misturas de bebidas.

ESTÁ DIFÍCIL O CIDADÃO DE BEM VIVER NO BRASIL DOS GOLPISTAS

A corrupção, os subornos, as propinas, as rasteiras nos outros, o levar vantagem em tudo e os golpes saíram do topo da pirâmide e se alastraram pela base da população. Está tudo dominado, está tudo sujo. Perdeu-se o amor pelo outro. Não é somente o desemprego, a miséria, a fome e a pobreza que levam a essa situação de alta criminalidade. A questão não é somente social.

Não dá mais para se confiar em ninguém, embora temos que ariscar com os olhos bem abertos. Está difícil, meus amigos, o cidadão de bem viver hoje no Brasil porque ele é até ultrapassado numa fila de banco, e isso dói muito. Quando você reclama pode ser até esmurrado por um brutamonte.

As ações de maldades e crueldades aumentaram mais ainda com o avanço das novas tecnologias do mundo virtual, do cartão de crédito, do pix, das contas on-line e outras modalidades que não existiam nos tempos da boca do caixa e do dinheiro em espécie, se bem que ocorriam os assaltos a mão armada com o 38 ou um berro em sua cabeça.

Agora os criminosos estão bem mais inteligentes e agem através de quadrilhas sofisticas de clonagem de cartões, falsificação de pix, transferências bancárias e outras malandragens que enganam os aposentados e as pessoas mais simples que ainda confiam em estranhos nos caixas dos bancos.

Para esses tipos de delitos, sem violência física e mortes, as penas, se não estou equivocado, são mais leves, e o sujeitos logo está solto para praticar os crimes. Assalto hoje com arma ficou mais para ladrão pé de chinelo.

Os caras atualmente atuam dentro das penitenciárias através do celular com seus comparsas lá fora e cada um tem uma tarefa específica dentro da cadeia dos golpes. Quanto mais a tecnologia se evolui, mas eles têm que estudar as formas de aplicar os crimes e driblar a polícia. Uma nova invenção e lá estão eles debruçados nos planos de furtar o cidadão.

Claro que ainda existem os roubos e os arrombamentos de lojas, residências e casas comerciais, mas eles são mais fáceis de serem identificados pela polícia. A bandidagem da tecnologia não fica tão exposta e demora mais de ser presa. Cada vez mais se exige um policiamento mais inteligente para acompanhar escutas no celular, nos computadores e seguir os passos dos elementos por até meses para apanhar toda quadrilha.

Hoje, não se sabe muito bem qual o maior dano psicológico para a vítima que é enganada ou aquele que num assalto entrega tudo para o indivíduo. Quando é por meio da violência bruta, a vítima sofre um choque de imediato, mas depois reconhece que nada podia fazer. Se reagisse poderia até ser assassinado.

Não sou psicólogo, mas fica um sentimento maior quando se é ludibriado na conversa ou na lábia de um safado que não tem a mínima compaixão pelo mais pobre quando passou anos economizando seu dinheiro, e numa questão de minutos ver tudo se evaporar. A pessoa se sente fragilizada e aquilo fica martelando na mente pelo resto da vida. Não dá para esquecer quando se passa por “otário”, e é assim que o meliante o chama.

UM PAÍS INGOVERNÁVEL

Lembro de uma vez como repórter de economia, em Salvador, se não me engano no governo de José Sarney, o ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega declarava numa palestra na Federação das Indústria da Bahia que o Brasil é um país ingovernável por causa dos interesses políticos escusos que acabam engessando o presidente da República em suas decisões. Ele quis dizer que o presidente não manda.

Isso foi há cerca de 40 anos, mas tudo permanece no mesmo lugar porque essa questão é secular e vem desde os tempos coloniais e do império. Tanto D. Pedro I como o II tinham a aristocracia e os políticos para pegarem em seu pé, principalmente o segundo que, para não perder o trono, satisfazia a elite cafeeira e até adiou a abolição da escravatura. Foi essa mesma aristocracia que ajudou a destronar o imperador. A República seguiu no mesmo galope.

O Congresso Nacional está cheio de lobos, hienas e urubus que ditam as normas do governo federal e se este não saciar a fome desses animais será por certo cassado por um motivo qualquer, como já ocorreu várias vezes, sem nenhum escrúpulo. É tudo uma mentira quando dizem que estão lá para defender o que é bom para o Brasil e para o povo. Na verdade, tudo é feito de costas para o povo.

Não viram o Lira, o presidente da Câmara dos Deputados, declarar que estava faltando o Lula fazer o “corpo a corpo” com as “lideranças” e os parlamentares! Para quem não é idiota e ingênuo, esse “corpo a corpo” significa soltar a “bufunfa” das emendas para eles votarem os projetos ou colocarem as medidas em pautas nas sessões.

Para conseguir a tal governabilidade, o próprio PT, que se diz partido do trabalhador e do povo e defendia a honradez e a honestidade, tem que entrar nas negociações do balcão de compras e vendas na base do “é dando que se recebe” ou “toma lá, dá cá”.

Para se manter no poder foi obrigado a começar o governo com 37 ministérios para agradar o “centrão”, a direita e até a extrema direita do ex-capitão-presidente que abriu os cofres do Tesouro. Mesmo assim, eles querem mais emendas e cargos. São insaciáveis.

É o país dos 513 deputados e 81 senadores mais caros do mundo e que legislam em benefício deles mesmos. Não existe nenhuma diferença entre essa gente, com poucas exceções, e a máfia do El Caponne. Aliás, a diferença está nos métodos, mas trabalham em quadrilhas sofisticadas.

O interessante é que para explicar esse universo sujo contra a população, usando o dinheiro nosso, os cientistas políticos, os sociólogos (espécies em extinção), os dirigentes de partidos de esquerda e os jornalistas que cobrem as tramoias do Congresso Nacional usam termos sofisticados e um tanto intrincados, com suas variantes históricas, sem irem direto na linguagem popular.

Os textos são quase todos rebuscados e cheios de rodeios filosóficos-científicos, de modo que a gente simples brasileira (a grande maioria) não entende patavina nenhuma (fica boiando). Ao invés de falar a língua do povo, eles preferem o aramaico ou o hebraico. A maioria não entende bulhufas.

A coisa, meus amigos camaradas e companheiros, é muito simples: Para não sofrer o impeachment (cassação do mandato) tem que soltar a grana para eles; fazer o troca-troca, senão o pau come. O Brasil não é somente um país ingovernável, como também inviável enquanto perdurar essa ganância do Congresso e o presidente vender a alma para o diabo, tudo em nome do poder.

A elite burguesa também faz parte desse “esquemão” ou desse lobbie perverso e cruel, principalmente através das reformas, como a trabalhista-escravista, da desoneração de impostos (não pagar tributos) e outras modalidades.

As corrupções continuam rolando de mesa em mesa, de gabinete em gabinete no chamado tráfico de influência. Aliás, esse bando pode ser considerado como traficante de emendas e cargos, e alguns até de drogas perigosas. Essa corrupção desce até o povo e contamina gerações. A bandidagem cria mil golpes na era da tecnologia do mundo virtual. Está difícil viver nesse país.

 

“FLUXO E REFLUXO” XXII

“NO DAOMÉ, DECADÊNCIA PROGRESSIVA DOS DESCENDENTES DOS GRANDES COMERCIANTES BRASILEIROS; LENTA FORMAÇÃO DE UMA SOCIEDADE DE PEQUENOS COMERCIANTES E DE ARTESÃOS QUE RETORNARAM DO BRASIL”.

Como vimos em comentários anteriores, a partir de 1835, com a Revolta dos Malês, muitos africanos escravos e libertos fizeram a viagem de retorno para o Golfo do Benin e lá se estabeleceram como comerciantes e artesãos (pedreiros, carpinteiros, marceneiros e outras profissões). Na África, para os nativos e indígenas eles eram chamados de “brasileiros brancos”.

Em “Fluxo e Refluxo”, de Pierre Verger, nas cidades de Uidá, Agoué, Porto Novo e Lagos, os “brasileiros” emancipados que tinham voltado encontravam-se até 1850 diante de um grupo numeroso de brasileiros e portugueses. Viajantes calculavam em duzentos, todos mais ou menos envolvidos no tráfico de escravos e integrados na vida da região.

Alguns eram até mesmo dignitários do reino de Abomé (Daomé), com direito a guarda-sol e uma escolta de músicos, carregadores de redes e servidores armados, como os chefes daomeanos. Eram submissos às leis do país e, quando morriam, todos seus bens passavam para o rei, que transmitia apenas uma parte aos herdeiros.

Pierre Verger relata que quando o Xaxá Francisco Félix de Souza, o todo poderoso, morreu, em 1849, os cargos por ele desempenhados foram divididos entre os três filhos Isidoro, que se tornou Xaxá, Inácio, o cabeça e Antônio que recebeu o título de amigo do rei.

Sobre o Isidoro, o cônsul inglês Beecroft escrevia que este homem está agora vendido ao rei do Daomé, por toda vida e não ousará sair do país. “É um personagem aborrecido, e eu não gostaria de me encontrar em seu caminho”.

Tanto o comandante Forbes como o cônsul ressaltam a forte autoridade que o rei de Daomé exercia sobre os brasileiros e de quanto eles lhes eram submissos. Numa relação entre os ingleses e o rei, afirmavam que o Xaxá parecia contrariado e não sabia exatamente qual era a sua posição.

A partir de 1863, com o fim do tráfico de escravos em Cuba e com a morte de Domingos José Martins (grande traficante), a situação dos “brasileiros” sofreu um eclipse durante uns trinta anos. O comércio de azeite de dendê era praticamente monopolizado pelos comerciantes franceses Regis. Somente os Xaxás (Isidoro tinha morrido em 1858) possuíam algum prestígio.

Quanto ao comércio, o Journal Officiel dava uma dimensão da importância ocupada pelos “brasileiros”. Citava, por exemplo, que em 1882, sete dos 25 negociantes instalados em todo país eram “brasileiros”, e que 78 dos 154 comerciantes também o eram. Quase um terço dos negociantes e metade dos comerciantes.

Em Lagos, segundo o cônsul Benjamin Campbell, existiam 130 famílias emancipadas por seus próprios esforços no Brasil que faziam parte da população desta cidade, isto em 1853. Esses africanos, outrora escravos, trabalharam nas plantações e minas do Brasil. “Eles souberam com sua capacidade e conduta resgatar a própria liberdade e a de suas mulheres e filhos”. Eram todos originários da região iorubá, da província dos egbás.

UMA TARDE NO MUSEU

Está programado para este sábado à tarde (dia 03/06), por volta das 14 horas, a realização de uma tarde de arte e cultura no interior do Museu de Kard, e todos artistas, estudantes, professores, intelectuais e interessados estão sendo convidados a participar das atividades.

Quem está organizando o evento é a artista e professora Liu que está completando um ano de trabalho como guia do museu. De acordo com ela, será uma tarde agradável de lançamentos de livros, declamação de poesias, danças nordestinas, incluindo o nosso autêntico forró, músicas variadas e apresentação das canecas com a marca do museu.

Tudo isso será realizado no espaço das esculturas do xadrez nordestino, ao ar livre, unindo natureza, arte e cultura. Para quem aprecia, haverá também um piquenique, tudo isso em meio as belas esculturas do nosso artista Allan Kardeck. É um momento de energizar sua alma e relaxar sua mente carregada do corre-corre da semana.

É como se fosse um sarau dentro do museu, um dos maiores a céu aberto do Brasil, construído com todo esmero e dedicação pelo artista. O jornalista e escritor Jeremias Macário já marcou sua presença quando fará uma mostra dos seus livros e falará um pouco sobre seu trabalho, especialmente do último “Na Espera da Graça”, de textos poéticos.

EMBLEMÁTICA

Alguns dizem ser um tribunal de julgamento e outros um simples encontro ou reunião, onde uma pessoa está no centro como réu ou presidindo o evento. A arte por si só já é emblemática e não poderia deixar de ser no Museu de Kard, cujas esculturas são do nosso grande artista Allan Kardeck. No meu olhar é um tribunal e cada uma das estátuas usa uma arma do seu jeito para julgar, como a flor que simboliza a paz, ou uma espada que pode remeter a uma sentença de morte. O Museu de Kard, localizado em Vitória da Conquista, na saída para a cidade de Anagé, hoje um dos maiores do Brasil a céu aberto, possui outras centenas de obras também emblemáticas que somente o autor tem maior precisão para explicar, mas a arte pode ser interpretada de acordo com a visão e a imaginação de cada um. Por isso que a arte é rica e é vida. Recomendo que não deixem de visitar o museu, para exprimir seus pensamentos e viajar na imaginação.

ONDE ESTÁ O AMOR?

Autoria de Jeremias Macário

Um dia me perguntaram,

Onde está o amor?

E eu respondi assim:

Está na arte do artista,

No bruto que também ama,

Cada um com sua chama.

Está em Nietzsche,

Do desejo, desejado,

No Cristo,

De amar o próximo

Como a ti mesmo,

No amor à primeira vista,

Narcisista interessado,

E desinteressado.

Tem o platônico aristotélico,

O amor ágape transformador,

O saudoso distante bélico,

O do Vinicius,

Eterno enquanto dura,

O do Jobim,

Do filme “Amor sem Fim”

O do “Jardim de Allah”

O das juras do altar,

Na alegria e na dor,

Que só a morte nos separa,

Até no ventre do Saara.

 

Está na mãe que lhe gera,

No tempo de espera.

No velho solitário da esquina,

No doce olhar menina.

 

Está nas aves que cortam o céu,

Na abelha que faz o mel,

Na natureza do universo,

No verso do poeta,

Ou na pena do escritor,

Que sempre falam de amor.

 

O EMPRÉSTIMO E O SÃO JOÃO

PEGARAM A NOSSA CULTURA E JOGARAM PARA DEBAIXO DO TAPETE COMO SE FOSSE LIXO

A Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista realizou ontem (dia 31/05) uma sessão mista sobre o empréstimo de 160 milhões de reais solicitado pela Prefeitura Municipal e na sequência uma solenidade em homenagem às festas juninas, que foi esvaziada pela grande maioria dos parlamentares e da plenária logo após a aprovação do projeto do executivo.

O ato de esvaziamento foi uma falta de educação por parte dos vereadores e dos presentes à sessão, bem como uma prova incontestável de como é tratada a nossa cultura, como uma coisa sem importância, inútil e sem interesse, quando, na atualidade os equipamentos culturais (Teatro Carlos Jheová, o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha) do município se encontram fechados há anos por falta de uma reforma nas respectivas unidades.

É como se a cultura não fizesse parte das nossas vidas e das nossas almas, e somente obras de infraestrutura (calçamentos, drenagens e pavimentações de ruas) nos bairros resolvessem tudo. Infelizmente vivemos num país inculto onde a arte não tem valor algum. Como cultura não dá voto, joga-se ela debaixo do tapete como se fosse um lixo. Vá dizer que sem arte não existe vida e você será por certo tripudiado!

O empréstimo de 160 milhões de reais a ser contraído através da Caixa Econômica Federal foi aprovado pela maioria dos 21 vereadores, inclusive pelo grupo do PC do B, menos os quatro edis da bancada do PT (Valdemir Dias, Viviane, Jacaré e Alexandre Xandó) que argumentaram endividamento do município e o mesmo que dar um cheque em branco para a prefeita Scheila Lemos.

Houve até vaias e xingamentos para os que votaram contra, sob alegação de que eles se posicionaram contra o povo, só que não se tem certeza quando esses recursos serão liberados depois dos processos burocráticos e se serão mesmo investidos nos projetos de pavimentação, principalmente nos bairros de Panorama, Porto Seguro, Jardim Guanabara dentre outros. Alguns até sonham que as obras sejam semelhantes aos serviços feitos na Avenida Olívia Flores.

Não sou de forma alguma contra as pavimentações e esgotamento sanitário de ruas em bairros, cujos moradores convivem há anos com vias de chão batido, na lama quando chove e na poeira nos períodos de estiagem. Há anos que essas obras estão sendo prometidas e nada tem sido concretizado.

Quem vive nessa situação precária tem pressa, como quem passa fome. No entanto, é bom que se frise que não vivemos somente disso. A cultura também tem pressa e é ela que forma a consciência política do cidadão para não ser ludibriado e enganado pelos políticos, especialmente em época eleitoral.

O que mais me decepcionou foi a debandada geral, quando no final da sessão, por volta das 11 horas, a promotora do evento do São João, vereadora Lucia Rocha, abriu os trabalhos. Só ficaram os artistas sanfoneiros, alguns personagens da área da cultura, os convidados que fizeram composição da mesa e os parlamentares Ricardo Babão, Bibia e o tenente Muniz.

Nas falas, todos defenderam a contratação de músicos forrozeiros durante os festejos juninos (Santo Antônio, São João e São Pedro) no lugar de bandas de outros ritmos (arrocha, axé, rock, lambadas, sertanejos) pagas com altos cachês por determinados prefeitos nordestinos.

Os pronunciamentos, incluindo o do secretário de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer- Sectel, Xangai, foram no sentido de que seja mantida a tradição do forro, da dança, dos costumes e dos hábitos, como das comidas e bebidas típicas da época.

O presidente do Conselho Municipal de Cultura, Jeremias Macário, pediu mais atenção para a cultura em Conquista e fez um breve relato sobre a história, as origens e o surgimento do forró (Luiz Gonzaga, Sivuca, Dominguinhos, Marinês e Jackson do Pandeiro) a partir da década de 1930, com sua popularização nos anos 50 e a introdução de outros instrumentos no ritmo nos anos 70, 80 e 90 (Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Elba, Falamnsa, Mastruz com Leite, Calcinha Preta e tantos outros) .

Do forró, com sua dança arrasta-pé, termo africano forrobodó, nasceram o baião, criado por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, o xote vindo dos salões da Europa (Alemanha) e o xaxado com o cangaço nordestino. Suas letras tratam de temas do Nordeste, da vida do povo dessa região, de amor e saudades da terra natal.





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia