APOSTAS, UM MERCADO EM ASCENSÃO
Carlos González – jornalista
O Ministério da Fazenda estuda uma maneira de taxar o mercado de “bettings” (apostas), uma nova loteria que veio concorrer com os jogos controlados pela Caixa Econômica Federal (CEF). Legalizados em 2018 pelo então presidente Michel Temer (PSDB-SP), os “bets” praticamente se instalaram no Brasil há cerca de 18 meses.
Nos últimos meses uma epidemia se alastrou pelo país. Dezenas de empresas com sedes no exterior, utilizando nomes famosos no cenário futebolístico internacional, como Ronaldo Fenômeno, Rivaldo, Marcelo, Neymar e Vinicius Jr, mexeram com o mercado publicitário. A divulgação das principais casas de apostas é feita basicamente pela televisão, atingindo mais de 15 modalidades esportivas.
As apostas, proibidas para menores de 18 anos, são feitas pela internet ou pelos aplicativos, no celular ou tablet. Esse mercado rendeu no ano passado, segundo o portal BNL Data, R$ 7 bilhões, livres de impostos, e a estimativa para este ano é de R$ 12 bilhões. A lei que está em vigor não prevê a contribuição aos cofres públicos.
A Fazenda admite que a regulamentação das apostas virá no próximo mês através de medida provisória, mas não ficou definida como será implementada a taxação e quais serão as alíquotas. Os apostadores também terão os seus ganhos taxados, como já acontece com os prêmios pagos pelas loterias da Caixa.
Ao contrário do esperado, o setor de apostas torce pela regularização do serviço, o que trará maior segurança jurídica para as partes envolvidas, a empresa e o apostador, além de gerar empregos. O Tesouro Nacional, segundo os cálculos, deverá arrecadar anualmente cerca de R$ 700 milhões.
Repentinamente, os nomes dessas empresas passaram a preencher os espaços mais visíveis nas camisas dos jogadores, tanto os da elite do futebol nacional – o presidente do Bahia, Guilherme Bellintani, chegou a dizer que “esse patrocínio é a salvação da lavoura” –, quanto os das divisões inferiores.
Os espaços reservados à publicidade nos estádios e arenas são utilizados por um tipo de campanha que pode ser chamada de audaciosa, e que se alastra pelo interior do pais. No domingo (26), placas colocadas nas laterais do gramado do “Valfredão”, em Riachão do Jacuípe, na partida de ida da final do Campeonato Baiano, induziam o público a fazer uma “fezinha”.
A maioria dos 40 clubes das séries “A” e “B” do Brasileirão já está usufruindo das cotas pagas pelo setor de apostas. Uma das exceções é o Vitória, de Salvador, que optou por um outro tipo de jogo, o jogo do amor, da sensualidade. O rubro-negro baiano firmou um contrato de patrocínio com um site que promove encontros fugazes e relacionamentos que podem se tornar permanentes.
Denúncias e suspeitas de corrupção vêm ocupando a programação esportiva e policial da imprensa. Há poucos dias, o “Correio do Povo”, de Goiânia, relatou que o Ministério Público do Estado deflagrou a operação Penalidade Máxima, com a finalidade de interromper as ações criminosas de um grupo de apostadores.
O pedido de investigação foi feito pelo Vila Nova, que se sentiu prejudicado na disputa da série “B” do Brasileirão de 2022. Investindo elevados valores em apostas, os criminosos escolhem como alvos jogadores com salários atrasados, que chegam a receber R$150 mil de “gratificação”, se “colaborarem” com a equipe adversária.
“Você só tem que jogar algumas bolas para escanteio. Dependendo do número de bolas você pode ganhar até R$ 8 mil”. Esta proposta foi feita a um zagueiro, cujo nome foi mantido em segredo, do sub 20 do Zumbi, de União dos Palmares (AL). O clube alagoano estava disputando a Copa São Paulo de Futebol Júnior. O caso foi levado pelo atleta à presidência do clube e registrado na Polícia.
A morte trágica do zagueiro da seleção colombiana Andrés Escobar, 27, em julho de 1994, repercutiu no mundo do futebol. O jogador recebeu 12 tiros do narcotraficante Humberto Muñoz Castro. As autoridades policiais concluíram que a motivação do crime foi a desclassificação da Colômbia para os Estados Unidos, graças a um gol contra de Escobar, resultado que deu um vultoso prejuízo aos apostadores do cartel de Medellin. Condenado a 45 anos de prisão, Muñoz cumpriu apenas 11 anos.
O IPTU DA ESCORCHA EM CONQUISTA E UMA DEMOCRACIA DA ESMOLA
Parece mentira, mas não é. Eu vi e testemunhei com meus próprios olhos porque fui uma das vítimas. Como não recebo mais meu boleto (há dois anos) em minha residência, fui hoje à Secretaria de Finanças pegar meu IPTU e fiquei estarrecido com tanta gente para pouco atendimento.
Para começar, esperei quase três horas, isso mesmo, para o painel sinalizar o aquele “plim” da minha senha IPO75. Ficou em minha memória de tanto olhar para a tela. Só havia dois caixas preferenciais, segundo a portaria, para entrega dos carnês. Vi idosos agoniados e atordoados, capengando de um lado para o outro, sem saber o que fazer.
Do barulho infernal de tanta gente, veio-me à cabeça aquelas cenas dantescas de Dante Alighieri, ou o livro “Inferno”, de Dan Brown. Em nosso Brasil existem as camadas terríveis de sofrimentos até o indivíduo atingir as profundezas mais quentes e dolorosas das torturas.
O mais incrível é que nosso povo passa por todas elas (camadas) sem reclamar, sem se indignar, sem protestar, diferente dos franceses, dos israelenses, dos ingleses e até dos nossos vizinhos hermanos da Argentina, Colômbia e do Chile que saem às ruas em multidões e chegam a derrubar ministros e governos. Pensei comigo que a nossa democracia é indolente e feita de esmolas.
Como se não bastasse tudo isso de estresse e falta de respeito, de quase três horas de espera, levei ainda um susto com o aumento escorchante do imposto, de mais de 100 reais em relação ao do ano passado, um índice bem acima da inflação, de pouco mais de 10%.
Verdadeiramente, não somos considerados cidadãos e sim, peças de manipulação dessa política do roubo e da corrupção do voto eleitoreiro alienado. Como não me revoltar, se as autoridades (Câmara, OAB, Ministério Público, Defensoria, magistrados e outras entidades) não nos representam? Muito pelo contrário!
O trabalhador incansável, que derrama seu suor e sangue durante toda sua vida, com seriedade e honestidade, não tem valor neste país da democracia das esmolas, da impunidade e do assistencialismo do cala boca que transforma a pessoa em apenas num número invisível.
Alguém pode estar aí achando estranho quando falo em democracia das esmolas e até dizendo que estou agindo com incoerência em relação aos meus princípios socialistas. Respondo que ser socialista não é concordar com este Estado Assistencialista que procura sempre deixar nossa gente na ignorância e no comodismo.
Existem aqui em Vitória da Conquista e em quase todas cidades brasileiras os chamados andarilhos de rua que recebem abrigos em todas cidades por onde chegam, com dormida e uma boa comida, muitos dos quais rejeitam qualquer oferta de trabalho e emprego de empresas que abrem colocações.
Quase todos ainda recebem o Bolsa Família e gastam em farras. Muitos deles deixaram suas famílias para viver assim. Não pagam luz, água, IPTU ou outro imposto e são bem acolhidos e tratados. Não podem ser aborrecidos e, qualquer coisa, falam palavrões e desaforos para funcionários que os recebem.
Não estou condenando o amparo aos mais necessitados, principalmente os que vivem na miséria e pobreza nos casebres e favelas passando fome, mas desses aproveitadores e oportunistas que recusam trabalhar e preferem viver assim porque têm prioridade total, inclusive no atendimento numa UPA, num posto de saúde ou hospital.
O assistencialismo eleitoreiro só faz alimentar o ócio e vicia o cidadão, como dizia Luiz Gonzaga, nosso rei do baião. Enquanto isso, os outros pobres que dão um duro danado para pagar as coisas e tentar viver com certa dignidade, são humilhados nas repartições públicas, como na Secretaria de Finanças de Conquista. É por essas e outros que digo que no Brasil existe uma democracia das esmolas.
TODOS PREFEREM SER CHAMADOS DE “JORNALISTA” E NÃO DE REPÓRTER
Está no dicionário que jornalista é a pessoa que escreve em jornal e jornalismo se entende por imprensa periódica, profissão de jornalismo referente a jornal. Jornalista era somente aquele que escrevia em jornal.
Quando surgiram, o rádio, a televisão e, nos últimos anos, a internet, manteve-se por algum tempo a distinção entre jornalista, radialista, o profissional de TV e aquele que atua no mundo virtual dos sites e blogs.
Hoje, justamente quando os jornais entraram em decadência em decorrência do avanço dos meios eletrônicos, todos que lidam nos veículos de comunicação são chamados de jornalistas, mesmo sem trabalhar em jornais. Basta uma pessoa colocar um blog e logo vira jornalista.
Repórter, de reportare do latim (trazer uma resposta, levar ou trazer; refletir a luz) é aquele que procura notícias para a imprensa periódica. Informador ou noticiarista dos periódicos do rádio e da televisão. O fotógrafo está incluído como repórter que colhe material fotográfico.
Não houve aí uma deturpação do termo jornalista? Não seria melhor que todos fossem denominados de repórteres. Ninguém diz eu sou blogueiro, radialista ou repórter, mas jornalista porque é mais bonito e charmoso.
Em Vitória da Conquista, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb e em Guanambi, por exemplo, existem os cursos de jornalismo, com disciplinas mais voltadas para esta área. Não deveria ser de comunicação que abrange todos meios noticiosos?
Aos poucos os jornais estão sumindo porque nos tempos atuais só um número restrito ler, embora sempre vá existir um periódico por aí, como o livro de papel. Mesmo assim, todos fazem questão de dizer que são jornalistas no lugar de repórter ou radialista.
Por falar em repórter, não existe mais como antigamente, com raras exceções, que sabia como conduzir uma entrevista, cutucar, investigar e extrair do entrevistado as respostas do interesse do público. Perdeu-se a objetividade, a técnica do entrevistar, do ser sucinto e direto nas perguntas, sem rodeios.
Hoje, talvez por querer se exibir, por mera vaidade de “jornalista” que acha que “sabe tudo”, o repórter-entrevistador passa o tempo falando mais que o entrevistado e acaba adiantado o assunto, deixando o convidado numa posição até desconfortável.
Muitas vezes, as perguntas se tornam respostas e afirmativas do próprio entrevistado. Para não ser deselegante ele afirma que é isso mesmo, ao invés de dar uma de seu Lunga e dizer: Nada mais a declarar, se você já adiantou o tema e a informação.
As escolas não ensinam mais técnica de entrevista? Quando o assunto, por exemplo, é complicado que incrimina o personagem da entrevista, as perguntas mais difíceis devem ficar por último depois descontrair e passar confiança à pessoa em questão.
O repórter não está ali para concordar ou julgar. Quem deve fazer isso é o público. Faça a pergunta que alguém de fora gostaria de fazer. Seja atrevido e ousado, sem ser arrogante. Seja mais repórter que jornalista.
QUEM TEM A FELICIDADE?
Estava aqui pensando numa maluquice, dessas de deixar qualquer um pirado. Já imaginou, pelo menos por um ano, todos os brasileiros se tornarem, em corpo e alma, norte-americanos ianques (me deixa fora dessa) e forem viver nos Estados Unidos, com tudo quanto tem direito! Por sua vez, eles viriam para o Brasil, para sentirem a barra pesada e descobrirem o que é mesmo felicidade!
Poderia proceder o mesmo colocando os países africanos mais pobres dentro dos nórdicos, e vice-versa. Riquinhos passando fome! Os latinos seriam asiáticos, e os asiático latinos. A Europa seria o Oriente (Iraque, Turquia, Egito e outros do mundo islâmico), ou poderia o Brasil ser Europa e levar os EUA para a terra dos “infiéis” terroristas islâmicos. Cada um se colocando no lugar e na pele do outro.
Seria a maior experiência laboratorial nunca realizada na história da humanidade. Quem sabe assim, depois de um ano, o mundo não seria melhor e mais feliz? Coisa de doido, mas que deve ser analisada com muita seriedade. Impossível, mas vale a pena tentar! Poderia ser uma solução e uma aprendizagem e tanta de vida!
Não sou muito de acreditar em estatísticas e tem aquelas óbvias ululantes, como as que dizem que o Brasil é um dos países mais desigual do mundo e que nossa educação é uma das piores. Tem também certas pesquisas, sem muita utilidade prática, que são feitas por cientistas desocupados. Não que seja negativista do tipo da terra plana!
Nos tempos atuais, valorizam mais os animais silvestres e domésticos que os seres humanos, que também são animais, os quais são chamados de racionais. Nem tanto assim, meu amigo camarada! São tantas as barbaridades, violências, ganâncias, incoerências e paradoxos! Como são racionais? É questionável!
O que tudo isso tem a ver com a felicidade? Que cara chato sou eu que não entra logo no âmago do assunto proposto! É que vi uma pesquisa, não olhei bem quem fez e qual o órgão, dizendo que os países gelados são os que têm mais felicidade. Pensei logo, por que não despejar toneladas de gelos em nossas cabeças? O Brasil se tornaria numa grande geleira, como no Alasca, no Polo Norte!
Pela apuração dos desocupados, a Finlândia é o país mais feliz do mundo pela sexta vez. Os outros são os gelados nórdicos da Noruega, Dinamarca, Suécia, Islândia e, nesse caso, por que não a Rússia, especialmente a região siberiana onde para lá são levados os opositores do governo, desde os tempos de Stalin. Os presos políticos chegam lá e ficam logo felizes.
O que mais transmite felicidade? É o gelo, o grau de instrução, a soberania, a segurança, a proteção e a qualidade de vida? Ah sim, ia me esquecendo que no ranking da pesquisa o Brasil ocupa a quadragésima nona posição no item felicidade. Aleluia! Aleluia!
Para dizer a verdade, sob a análise do nosso caldeirão de problemas, desde o racismo, a xenofobia, a homofobia, a pobreza e a miséria, o ódio e a intolerância, até que estamos numa boa colocação. Merecemos até umas medalhinhas, mesmo que sejam de latão. É por isso que não sou muito ligado nessas estatísticas.
Outra pesquisa feita por uma professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro aponta que o dinheiro, sim o dindim, todas daquelas notas de 100 numa carreta (as de 200 são fake news), fabrica felicidade. Nesse sistema capitalista burguês consumista sou obrigado a concordar, com algumas controvérsias, como dizia o aluno da “Escolinha do Professor Raimundo”. “Há controvérsias mestre”!
É, sem dinheiro a pessoa fica macambúzia e banza, como africano escravo aprisionado num porão de navio negreiro e levado para longe da sua terra natal, para receber chibatadas do seu dono, essas de cortarem o lombo. Dizem que comprar presentes em shopping aflora a felicidade, mesmo que seja por um certo período.
Viver em mansões, ter carrões de luxo e viajar, mesmo que sejam frutos da corrupção, também oferecem felicidade. Que se dane a consciência e a ética! Ela também tem seu preço e se rende quando se possui sacos e sacos de grana. A pesquisadora esqueceu de citar que o poder também traz felicidade. Aliás, poder e dinheiro andam de mãos dadas. São donos da felicidade.
Entretanto, como o homem não é tão racional assim, o money dos imbecis traz desgraças e até mortes em famílias (as malditas heranças) e incita o indivíduo a passar a rasteira no outro, sem dó e compaixão. A corrida do ouro, tão comentada pela história, deve ter ligação direta com a corrida pela felicidade, não importando o preço a pagar. Que viva a felicidade, mesmo que seja uma mera ilusão pas
“FLUXO E REFLUXO” XI
AS REBELIÕES, OS MOTINS E O
RETORNO DOS NEGROS Á ÁFRICA
A partir do início do século XIX, por volta de 1807, ocorreram na Bahia várias rebeliões dos negros nagôs, haussás e da etnia tapas, culminando com a grande revolta dos malês, em 1835, que deixaram os brancos assustados com um possível massacre como aconteceu no Haiti no final do século XVIII.
Esses fatos narrados em “Fluxo e Refluxo”, obra do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger, deram sequência a um retorno dos africanos para suas terras de origem. Muitos ainda eram escravos recém-chegados como levas do tráfico ilegal e foram deportados como punição por participarem dos levantes.
A partir de 1835, o cerco da polícia começou a se fechar contra os negros nascidos no Brasil, mesmo os emancipados, com punições severas e todos passaram a ser vistos como ameaças à segurança da província. Não podiam sair à noite e, por qualquer motivo, eram presos e submetidos a chibatadas em praça pública.
Diante da situação, houve um movimento de retorno dos africanos livres para suas nações de origens, com o consentimento do próprio governo da província e apoio dos brancos que temiam por mais rebeliões. Com os acontecimentos, as outras províncias recusavam comprar os negros escravos que fossem da Bahia. Com isso, os preços despencaram e os donos tiveram grandes prejuízos.
Conta Pierre Verger que a primeira rebelião na Bahia estava prevista para 28 de maio de 1807. Os escravos haussás haviam preparado arcos e flechas, facões, pistolas e até fuzis. Tanto os negros da cidade quanto os dos engenhos deviam se juntar fora de Salvador na noite do dia 28. A proposta era fazer guerra aos brancos, matar seus senhores e envenenar as fontes públicas.
Eles tinham também em mente retornar à África apoderando-se de navios ancorados no porto. No entanto, dias antes o governador foi prevenido por uma habitante, colocado a par da conspiração por um de seus escravos. O movimento foi abafado e seu líder de nome Antônio, haussás, e seu amigo Balthazar foram condenados à morte.
Ocorreram outras tentativas de rebeliões entre os anos de 1809 e 1810. Em fevereiro de 1814, todos escravos das peixarias Manuel Ignácio da Cunha, João Vaz de Carvalho e de agricultores vizinhos, entre mais de seiscentos, atacaram as instalações dos senhores aos quais pertenciam, ateando-lhes fogo. Ao todo, treze brancos foram mostos e oito gravemente feridos. Os negros resistiram às tropas de infantaria e 56 negros perderam a vida, a maioria de haussás.
Apesar das medidas de repressão, as revoltas continuaram, como em 1816, 1826/27/28, com invasões em engenhos, peixarias e instalações de empresas. Em 1830, mais de uma dezena de negros invadiram uma loja de Francisco José Tupinambá, na rua Fonte dos Padres, na Cidade Baixa.
A polícia e a tropa fizeram quarenta prisioneiros e mataram cinquenta negros. Muitos outros fugiram na mata e foram perseguidos pelos policiais. A revolta de 1835 teve maior repercussão em toda colônia.
As autoridades da província da Bahia e os senhores patrões suspeitavam que os ingleses, que formavam a maior colônia de estrangeiros em Salvador, moradores do corredor da Vitória e vizinhanças, estivessem envolvidos nessas conspirações por causa das proibições ao tráfico que não eram cumpridas.
“TULIPAS RARAS”
Em conversas informais sobre como anda a cultura em nosso pobre rico país, com destaque para a literatura, ouvi de um dos presentes na Livraria Nobel, antes da apresentação da obra “Tulipas Raras”, da escritora e diretora da Casa da Cultura, Poliana Policarpo, que lançar livro no Brasil é somente para os “loucos”. Que seja no sentido figurado ou uma metáfora irônica, me considero um deles, mas um “louco” que faz parte dessa resistência e que deixa, pelo menos, seu traço e sua marca nessa vida tão passageira onde poucos dão sentido a ela. Quem nada faz para contribuir, seja no que for, simplesmente passa sem ser visto e nega sua própria existência. Dizem por aí que para você ser realizado é preciso ter um filho, plantar uma árvore e lançar um livro, mas é muito mais que isso. Tem que ter perseverança, persistência, consciência e, acima de tudo, cultivar aquilo que fez e faz.
Aqui não estou falando apenas de ter a coragem de escrever e lançar um livro, como fez Poliana na noite de ontem, dia 23 de março. “Tulipa Raras”, como diz a própria autora são histórias extraordinárias sobre coragem, força, fé, esperança e transformação. “A Capacidade feminina de converter a dor em superações”. Enfrentar essa rejeição pela cultura; viajar por esse mundo da literatura, que já foi tão enaltecida e nobre; imaginar, sonhar, contar suas vidas para uma só pessoa ou poucos, é coisa somente para “loucos”, Poliana, loucos por essa arte que nos faz crescer e nos amadurecer espiritualmente como ser humano. É um comentário que mostra como ainda estamos longe da civilização, embora digamos que somos civilizados porque sabemos manusear bem um celular, muitas vezes para odiar, xingar e soltar notícias falsas. Achamos que dominamos a tecnologia. Às vezes, somos espertos em ganhar dinheiro, mas incapazes de ler, apreciar e prestigiar uma obra literária.
NA DOR DA SOLIDÃO
Autoria de Jeremias Macário
Arranco na primeira;
Jogo na segunda;
Entro na terceira;
Acelero o pé
Entre a quarta e a quinta,
Na dor da solidão,
Borrado de tinta.
O ponteiro marca agora
Cento e cinquenta por hora,
Ouço uma balada canção,
Que me leva ao passado,
De parar o tempo,
Na dor da solidão.
Abro as janelas;
Desligo o ar,
Para sentir o vento assobiar,
E reduzo nas curvas,
Sem pisar no freio,
Para não capotar.
Avanço nas retas,
Dos cento e setenta,
Na linha do horizonte,
Que nunca some,
E desligo o presente
Que a mente consome.
Nada de avivar o futuro,
Trava de escuro muro,
Como aquelas nuvens
Da tempestade que vem,
Com chuva varrendo o além.
Volto à marcha lenta,
E no peito me atormenta,
Essa dor da solidão,
Da saudade do amor
Que um dia me deixou,
Falo só com o universo
No meu íntimo do verso,
Da vida finita,
De massa bruta,
De confusão e luta.
Ninguém me escuta,
Nem a dita filosofia,
Que não me cura
Dessa dor tão dura:
Coisa do sentimento,
Que não se fecha,
Nem com cimento.
É uma dor varada,
De lança sangrada,
Como fio da espada,
Essa dor da solidão,
Que não tem oração.
AS COTAS, DÍVIDA SOCIAL E A ÁGUA
Sabemos que o Brasil tem uma grande dívida social para com os negros com a vergonhosa escravidão de mais de 300 anos de sofrimentos, torturas e mortes, mas não são essas cotas que vão pagar e apagar essa história do cativeiro.
Por anos eles foram classificados como raça inferior pelos senhores seus donos e também por autoridades, pela própria Igreja Católica, intelectuais e até estudiosos da ciência naquelas épocas, mas os próprios africanos provaram e ficou comprovado que tudo era falso.
As capacidades são iguais. As oportunidades dadas que são diferentes, tanto para os negros como para os brancos pobres que sempre foram excluídos e escravizados pelo capital. Minha concepção de cotas é de reserva de mercado que inferioriza ao invés de valorizar a autoestima das pessoas.
Pode ser o caminho político demagógico mais fácil para mitigar esse fosso da desigualdade social que o sistema burguês, cruel e bruto ao longo desses mais de 500 anos criou no Brasil, mas não é a solução porque o próprio nome cota menospreza e desvaloriza o mérito da pessoa.
Entendo que tudo está na raiz da educação pública de qualidade para todos, com mais escolas estruturadas, mais vagas nas universidades mantidas pelo Estado, professores preparados e não oferecer uma bolsa numa faculdade particular para encher mais ainda o bolso do capitalista mercenário que vende diplomas.
É uma ilusão dizer que as cotas vão acabar com o racismo. E como ficam os pobres brancos que também lutam bravamente para conseguir seu lugar ao sol? Agora mesmo o Lula está estabelecendo uma cota de 30% para os negros em cargos comissionados de confiança no governo federal.
Será apenas uma escolha pela cor da pele? Deixou de detalhar os critérios para as nomeações. Claro que será por imposição política. Será por mérito ou simples compadrio? Continuamos atrasados e fazendo arremedos quando em pleno século XXI ainda estamos discutindo a cor de pele, se negra, branca ou amarela. Será que a pessoa se sente bem em dizer que seu cargo é uma cota?
O que existe é um racismo estrutural difícil de ser eliminado no Brasil. As indicações deveriam ser feitas tendo como base única a meritocracia de quem quer que seja. Sabemos que não é assim. A cota obriga, separa e até pode aumentar a animosidade. Não devolve a autoestima e até cria aquele sentimento de insegurança na função em que o indivíduo está exercendo.
DIA DA ÁGUA
Não deveria estar aqui hoje (dia 22 de março) falando desse assunto tão polêmico, com o risco de ser mal interpretado, se bem que não mais me incomoda, mas sobre o Dia Internacional da Água, do qual nada temos a celebrar porque o homem já se encarregou de lentamente destruir nosso planeta com sua ação poluidora e predadora.
Como sempre, fazem conferências e recomendações para preservação da terra que já está dando suas respostas com o aquecimento global. Não sou nenhum profeta do tempo, mas por várias vezes já comentei que chegamos a um estágio sem reversão porque a própria humanidade não para de aumentar o consumo; derrubar as florestas; matar os mananciais de água; desperdiçar o precioso líquido; aterrar as nascentes; e jogar sua lixeira e esgotos nos rios.
Foi dito por um organismo da ONU que dois bilhões de habitantes (temos cerca de oito bilhões) consomem água não potável e até passam sede. Claro que as nações pobres da África, da Ásia e da América Latina são as mais atingidas. Os ricos depredam, e a desgraça sobra para os pobres. Seria um ordenamento natural das coisas?
SEM MÉDICOS NOS BAIRROS E ZONA RURAL PARA ATENDER NOS POSTOS DE SAÚDE
Quando o governo federal lança o programa “Mais Médicos” para atender a população carente nas cidades e nas zonas rurais, em Vitória da Conquista parece que foi implantado o plano do “sem médicos”. Marquei uma consulta para um otorrino, no posto do Bairro Felícia ou Jardim Guanabara, que já completou agora um ano de aniversário sem ser chamado. Caso fosse uma doença grave já estaria morto. Tente fazer uma mamografia ou uma tomografia!
A situação aqui é tão crítica e caótica que estabeleceram o absurdo de que se duas pessoas estiverem doentes na mesma família, só um poderá ser atendido. Entre uma criança, um jovem ou adulto, vai a criança como prioridade. Se for dois adultos, escolhe-se o mais idoso. Pode-se também fazer um sorteio, ou par ou ímpar, se as idades forem iguais. Um pode ser o defunto.
A educação, a saúde e a cultura estão a pedir socorro em Conquista, sem contar a falta de pavimentação nos bairros mais periféricos. É bom reformar o Estádio “Murilão”, revitalizar a Lagoa das Bateias e a área do Cristo, mas a educação e a saúde devem estar em primeiros lugares. Sabemos que esse quadro de penúria não acontece apenas em Conquista, mas estou me referindo ao nosso em particular.
Somente num país atrasado e culturalmente ainda colonial como o Brasil não se prioriza a educação e a saúde. Um povo ignorante e sem saúde não sabe nem o significado de nação quanto mais o que é uma democracia. Não existe cidadania num país doente, sem educação e cultura. Não passa de um simples mapa com demarcação territorial que abriga milhões de desassistidos.
O que adianta o desenvolvimento econômico de Conquista, com construções brotando em todos seus pontos cardeais, se temos um povo excluído da saúde? Tem gente que a há anos espera por uma simples marcação de um procedimento simples de uma ressonância para tratar sua doença.
Isso de negar a saúde poderia ser motivo de afastamento de um prefeito ou prefeita, se o Brasil fosse um país sério e respeitasse os direitos humanos. Trata-se de vidas humanas e quem foi eleito tem a obrigação humana de aliviar a dor do outro acima de qualquer tipo de obra.
A lei poderia ser bem mais rígida e criminalizar o executivo ou executiva que deixasse um enfermo sem atendimento médico. O pior é que, mesmo com isso tudo, gasta-se o dinheiro do contribuinte em propaganda. O povo está vendo tudo.
Sei que tem muita gente que não gosta do que falo, mas, paciência, não consigo ver as coisas erradas nessa política para ficar calado. Quando atuava no jornal “A Tarde”, não era bem visto em minhas críticas e observações. Tinha até gente que dizia que eu passava uma imagem negativa de Conquista em minhas reportagens jornalísticas.
Estou completando agora entre março e abril deste ano 50 anos de jornalismo profissional e de diplomação pela UFBA e sempre procurei, mesmo com meus erros e tropeços (somos humanos), fazer meu trabalho com seriedade e ética, seguindo a minha formação familiar. Não minha visão, não se trata de ser de direita, centro ou esquerda. Na minha carreira já tive até inimigos, mas não guardo rancor.
UM PROGRAMA SEM ALTERNATIVAS
Tudo que é dado como benefício para tirar a pessoa da miséria tem que ter o seu limite de terminar para que não se torne em esmola e dependência para sempre. Quem me ler já sabe que estou falando do Bolsa Família de 600 reais e mais 150 para ajudar os filhos menores.
Não estou sendo contra alimentar a quem tem fome porque essa tem pressa e dói muito no indivíduo, principalmente na criança, tanto espiritual no psicológico como fisicamente. O que me incomoda é que o governo federal não apresenta um projeto alternativo do tipo popular de ensinar essa gente excluída a pescar.
Pelo que sei, essa Bolsa Família, que teve seus primeiros passos lá no Governo de Fernando Henrique Cardoso (vale gás) e foi oficializada com Lula, incluindo aí o Auxílio Brasil com o presidente-capitão Bozó durante a pandemia, já tem mais de 30 anos.
De lá para cá, pelo que eu saiba, a pobreza só fez aumentar engrossando o número de dependentes, como na Bahia, o estado com mais inscritos no Brasil. Daqui a mais 30 anos estaremos na mesma situação ou até pior. Não são as três refeições diárias que vão fazer com que as famílias passem à condição de pobreza para classe média baixa. Vão continuar na miséria.
Sem uma alternativa de emprego, obras de saneamento, de treinamento e de educação de qualidade para todos nas escolas públicas, elas vão permanecer pobres morando nas favelas e nas periferias das periferias. Esse benefício vai continuar para sempre, com um alto custo de bilhões, sem uma perspectiva de reduzir o número de beneficiários?
Por outro lado, sabemos que todo programa desse tipo está sujeito a fraudes por mais que seja aperfeiçoado. Sempre vão ter milhares recebendo esse dinheiro quando não deveriam ser contemplados, o que constitui injustiça social. Por que não investir em saneamento básico, casas populares e empregar, de preferência, esse próprio pessoal?
Outro aspecto é que é fato e notório que muitos pegam esse dinheiro para adquirir outros bens, muitas vezes deixando a casa sem o básico alimentar. Sei de muita gente, como moradores de rua que são acolhidos em abrigos municipais que sacam esses 600 e vão comprar drogas ou para uma boate gastar em bebidas e com mulheres. Como controlar quem faz isso e cortar o benefício? É impossível fazer essa fiscalização e apurar os desvios.
O Bolsa Família, que visa dar comida a quem tem fome, sem um projeto de trabalho e renda, é uma dívida social que nunca fecha, além de ser geradora de votos, mantendo o mesmo sistema de poder político que não tem o interesse de melhorar o nível de instrução do povo brasileiro. Melhor assim porque é mais fácil manipular a ignorância.















