Tem aquele consumidor compulsivo como jogador viciado, o que entra na carneirada para não ficar de fora e até é recriminado como mão de vaca por não ter comprado o presente, o necessitado consciente que só adquire o essencial, aquele pobre que tem a mania de imitar o rico e outras espécies de animais irracionais. No final, a grande maioria termina sendo incluída no rol dos endividados.

Dia das mães, dos namorados, dos pais, São João, das crianças, agora a Black Friday e Copa do Mundo, Natal e final de ano funcionam como estouro da boiada. Ninguém resiste às viagens dos feriadões. A família sempre arranja aquele jeitinho do empréstimo e até deixa de quitar a mensalidade escolar do filho.

Basta um tiro ou o rojão de um foguete para o gado sair em disparada. Somente vaqueiros experientes conseguem controlar o rebanho para não cair no abismo. Na corrida, muitas rezes são pisoteadas ou se arrebentam numa ribanceira.

Assim são os endividados, título que poderia se tornar num filme comportamental da sociedade, sobre finanças, numa comédia grega trágica ou até de humor vendo aquelas expressões de desespero e “felicidade” das pessoas nas lojas avançando em objetos e produtos de desejo, todas atraídas pelas propagandas de liquidação, a maioria enganosas. É uma disputa acirrada onde cada consumidor se acha vencedor.

Com as novas tecnologias da internet tem aqueles que acham mais chique e cômodo ficar clicando naquela foto bonita de embalagem exuberante e finalizar a suas compras, muitas com o aviso de frete grátis. Todos acreditam nessa lorota, e aí de quem contestar.

O comprador se acha um esperto que aproveitou a “promoção” e sai contando seu feito para os amigos. Nessa embolada, muitos são vítimas do atraso, da clonagem de cartões e até do calote. Aí o bicho pega, meu camarada! São coisas do mundo moderno que para muitos corresponde a ser feliz e realizado, mesmo que seja por pouco tempo. É a ilusão do imaginário que funciona como a pílula contra a depressão e a ansiedade.

No momento existe a sensação do prazer pessoal para depois entrar na lista dos milhões de endividados. A ressaca vem depois. Aí sua vida vira um inferno de boletos, faturas e papéis na mão com as datas vencidas de pagamento.

Na fase do atraso entra a turma da cobrança ameaçando tornar seu nome sujo na praça ou apreender seu bem móvel. Vem a dor de cabeça, e o devedor parte para os remédios para combater até insônia. É a parte de terror do filme de os endividados. Em cena entra a voz dos economistas para dar aquelas dicas costumeiras para o derrotado.

Não se preocupe, anuncia o credor com a arma da anistia ou o desconto com juros mais baixos. Os lucros do comércio lá atrás com os preços extorsivos e obtidos mediante aqueles que quitaram suas contas abrem espaço para os endividados aliviar seu tormento.

O consumidor fica contente, limpa o nome e parte para outras compras, principalmente torrando seu décimo terceiro salário. É o chamado ciclo vicioso que não acaba nunca. Tudo se repete e a roleta volta a girar. Façam seus jogos que no final uns pagam pelos outros. O único que não perde é o dono da casa.